por Felipe Hector de Oliveira*

Lúcio Aneu Sêneca foi um dos advogados e intelectuais que mais se destacou no Império Romano. Quando era criança, aos três anos de idade, estudou oratória e filosofia em Roma. Devido ao seu estado de saúde, foi para o Egito e retornou assumindo a função de orador e advogado no ano 31 da era cristã. No ano 41 foi exilado. Nesta época, dedicou-se aos estudos e escreveu suas principais obras. Retorna a Roma em 49 e no ano 50 é elevado a pretor por Agripina e também preceptor de seu filho Nero. Aos 16 anos, Nero é elevado a imperador e Sêneca passa a ser o seu conselheiro, ajudando-o a fazer uma política humana e justa. Agripina foi executado em 59 por sua própria culpa. Nero deixa de seguir os conselhos de Sêneca, que achou justa a execução de seu pai Agripina. Retirou-se da vida pública no ano de 62. Em 65 foi acusado de participar do assassinato de Nero. Com isso, suicidou cortando os pulsos na presença dos seus amigos, com a mesma tranquilidade que defendia a filosofia. Na sua vida, a Filosofia era viva. Ele preocupava-se com a forma correta de se viver, com a forma prática. Apesar de ser rico, vivia na simplicidade.

A princípio, Sêneca, na obra “Da Vida Feliz”, apresenta uma dificuldade enfrentada por muitas pessoas de sua época: a vontade de ser feliz, mas não saber como fazê-lo. Muitos se perdem nas aparências e não são capazes de usar a razão para fazer com que a vida seja realmente feliz. Ele nos indica que se deve pôr diante de si o que deseja para a vida e depois escolher o caminho mais rápido para que se realize, mas nesta escolha, corre-se o risco de ser influenciado pelo senso comum e não fazer uma boa escolha do que se quer, fazendo o que todos julgam ser o melhor. Para a pessoa não ser confundida, a alma (razão) deve ser o meio para a melhor escolha e o uso da sabedoria ajuda para que não se desvie do caminho rumo à felicidade.

Quem escolhe o prazer, como o principal, tem uma vida dolorosa, pois fica dependente dele, torna-se um escravo sem o saber que é, passa a viver uma vida desonesta, uma vida servil. Quando se começa a ter o prazer já se inclina para o seu fim. Julga estar com a virtude, no entanto não está, o que se manifesta são os pecados. Quando está na abundância, o prazer sufoca e, na sua falta, causa uma grande aflição. A primeira coisa que recusa é a própria liberdade, vive da própria sorte. A pessoa que escolhe a virtude é feliz, pois usa da razão em tudo que acontece em sua vida e está sempre na verdade. A virtude é elevada, não permite que se viva desonestamente, sempre está satisfeito com o que possui. A pessoa que mostra ter caráter nobre, nada lhe preocupa, nenhum perigo a atormenta. O prazer em si não é prejudicial, o virtuoso usa dele livremente, deve-se controlá-lo e não deixar que ele o controle, usar dele como se fosse uma brincadeira ou distração, tomando cuidado para que não seja em excesso.

Outro problema que se trata é o da riqueza, a fortuna. Toda pessoa necessita de dinheiro para sobreviver, não seria diferente do sábio. A diferença está no seguinte ponto: o sábio não o coloca como principal, de modo que se vier a faltar não trará nenhum prejuízo, porque a sua sabedoria permanece intacta, enquanto para os outros trará grandes malefícios, pois são controlados por elas, tendo riqueza como via para a sua felicidade. Pode-se ter o quanto quiser desde que seja adquirido honestamente. Sêneca é questionado por não viver como diz que se deve viver. Ele acusa os seus próprios defeitos e vícios, mas, que apesar disso, não deve ter seus pensamentos colocados como inúteis, pois eles ajudam a buscar uma vida melhor, principalmente para si mesmo. Se não for possível elogiar os virtuosos é melhor ficar em silêncio do que dizer contra, porque será colocado ao ridículo por eles. O restante do texto de Sêneca foi perdido.

A obra é dirigida a todos aqueles que criticam negativamente a maneira dos filósofos agirem e de possuírem bens materiais e para aqueles que desejam ter uma vida feliz. O texto está numa linguagem de fácil entendimento, em forma comparativa dos que agem de boa forma com os que agem de má forma. Os argumentos apresentados por Sêneca são bem consistentes, levam os leitores a darem crédito em boa parte de suas colocações.

Esta obra, também, é de grande ajuda para aqueles que estão se sentindo tristes e infelizes, ajudando-os a tomar um novo rumo na vida. Um dos argumentos apresentados é de usar a razão, não deixar que o instinto leve a pessoa a buscar o que tem pouco valor por primeiro. A pessoa necessita ter controle sobre si mesma, pois, caso contrário, nem ela mesma conseguirá se suportar, o corpo estará sempre pedindo mais, porém a mente encontra-se totalmente exausta. Se os vícios a controlar, a vida será arruinada.

Sêneca, sabiamente, critica aqueles que pensam estar com a sabedoria, só que, na realidade, apenas estão enganando a si mesmos. A sabedoria não é uma coisa qualquer que se consegue de uma hora para a outra, ela é algo que deve ser trabalhada dia a dia, lutando para que a razão não seja colocada em segundo plano. A preocupação maior não deve ser com o prazer, o que realmente traz valor é que deve ser a preocupação primeira. A sabedoria encontra-se naquele que é capaz de controlar os seus impulsos.

Em um ponto da obra, Sêneca perde um pouco de crédito ao confirmar que não vive como fala. Para quem vê, é importante que a pessoa que pronuncia alguma coisa viva conforme está dizendo, mas por outro lado ele diz que está nesta busca de uma vida cada vez melhor, voltada para a sabedoria. Apesar de não ser perfeito como aconselha que os outros sejam, ele não se encontrava parado, satisfeito com a vida que tinha. Ele também é criticado por ter bens, mas esta é uma necessidade de todo ser humano. As pessoas precisam de dinheiro para poder ter as coisas básicas em casa. O importante é que tudo seja adquirido honestamente e não por formas ilícitas e, também, que não se coloque como sendo o fundamental, pois nos momentos de crise se sofre com sua falta. Colocar qualquer coisa acima da razão é colocar-se como escravo, sujeitar-se ao poder daquilo que tem menor valor.

A crítica para Sêneca é importante desde que tenha fundamento. Criticar por criticar, apenas para ser diferente, não tem valor algum. Quase no final da obra esta questão é colocada. Quem não tem nada de bom para falar em relação aos sábios é melhor ficar calado, porque, caso contrário, será colocado ao ridículo devido a vida de quem critica ser pior. São capazes de ver as falhas dos outros, mas as suas próprias não conseguem ver. É uma pena não ter a obra completa, certamente havia informações preciosas que a completariam. Mas o que se tem, muito contribuiu para que se tenha uma vida mais coerente e feliz, ou seja, deve-se viver segundo a reta razão.

 

*Graduando em Filosofia pela FAM

Referência: SÊNECA, Lúcio Aneu. Da Vida Feliz. Tradução João Carlos Cabral Mendonça. São Paulo: Martins fontes, 2001. p. 80

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>