{"id":2270,"date":"2012-08-09T22:23:58","date_gmt":"2012-08-10T01:23:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2270"},"modified":"2012-08-09T22:23:58","modified_gmt":"2012-08-10T01:23:58","slug":"os-juizos-sinteticos-a-priori-como-fundamento-do-conhecimento","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2270","title":{"rendered":"Os ju\u00edzos sint\u00e9ticos a priori como fundamento do conhecimento"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Daniel Junio Gon\u00e7alves da Silva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Immanuel Kant (1724-1804) pode ser considerado um divisor de \u00e1guas na hist\u00f3ria da filosofia. H\u00e1 quem afirme que se pode fazer uma filosofia contra Kant ou a favor de Kant; mas nunca sem Kant. De fato Kant \u00e9 dos maiores fil\u00f3sofos da modernidade. Seu pensamento prop\u00f4s uma revolu\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande e significativa que ele pr\u00f3prio o comparou a revolu\u00e7\u00e3o criada por Cop\u00e9rnico no campo da astronomia; destarte surgiu a express\u00e3o \u201cRevolu\u00e7\u00e3o copernicana de Kant\u201d; referindo-se \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o que Kant prop\u00f4s com rela\u00e7\u00e3o ao tema do conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O presente artigo tem como base a obra \u201cCr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura\u201d. \u00c9 nesta obra que Kant vai tratar do problema do conhecimento, do valor dos conhecimentos e \u00e9 aqui que poderemos constatar a revolu\u00e7\u00e3o copernicana realizada por Kant. Nosso objetivo aqui \u00e9 mostrar como os ju\u00edzos s\u00e3o necess\u00e1rios no processo do conhecimento. Por\u00e9m antes de nos atermos aos ju\u00edzos analisaremos alguns aspectos do processo de conhecimento em Kant que nos ajudar\u00e3o a distinguir os ju\u00edzos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>1 O que \u00e9 conhecer?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Kant inicia a obra \u201cCr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura\u201d realizando uma distin\u00e7\u00e3o entre conhecimento puro e conhecimento emp\u00edrico, e coloca a experi\u00eancia como fonte ou princ\u00edpio de todo o conhecimento humano. Analisando ent\u00e3o essa afirma\u00e7\u00e3o podemos pensar que Kant por colocar a experi\u00eancia como princ\u00edpio do conhecimento \u00e9 um fil\u00f3sofo empirista. No entanto, aprofundando um pouco mais na \u201cCr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura\u201d veremos que n\u00e3o se trata de empirismo, mas sim de um criticismo. \u201cSegundo o tempo, portanto, nenhum conhecimento em n\u00f3s precede a experi\u00eancia, e todo o conhecimento come\u00e7a com ela\u201d. (KANT, 1980 p. 23).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por\u00e9m n\u00e3o significa que todo conhecimento se origine justa e unicamente da experi\u00eancia. Vemos desenvolver na obra um confronto. De um lado est\u00e3o os conhecimentos puros e de outro os conhecimentos emp\u00edricos. \u201cTais conhecimentos denominam-se <em>a<\/em> <em>priori<\/em> e distinguem-se dos <em>emp\u00edricos, <\/em>que possuem suas fontes a posteriori, ou seja, na experi\u00eancia\u201d. (KANT, 1980 p.23). Para compreendermos o tema dos ju\u00edzos \u00e9 necess\u00e1rio que compreendamos a base da \u201cCr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura\u201d. Quando Kant distingue dois tipos de conhecimento, que a princ\u00edpio se denominam puro e emp\u00edrico, ele est\u00e1 dizendo que no processo do conhecimento temos um conhecimento que \u00e9 independente da experi\u00eancia e que est\u00e1 ligado \u00e0 abstra\u00e7\u00e3o; esse conhecimento denominamos puro, destarte este possui suas fontes a priori. Em contrapartida, trata de um outro conhecimento que possui suas fontes a posteriori, ou seja, na experi\u00eancia; este denominamos emp\u00edrico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Feita esta distin\u00e7\u00e3o, podemos chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que os conhecimentos a priori s\u00e3o aqueles que independem totalmente da experi\u00eancia e os a posteriori s\u00e3o aqueles que se d\u00e3o por meio da experi\u00eancia. No entanto, encontramos nos conhecimentos a priori uma problem\u00e1tica: as proposi\u00e7\u00f5es s\u00f3 podem ser consideradas puras quando nelas n\u00e3o \u00e9 constatado nada de base na experi\u00eancia. Para esclarecer esta situa\u00e7\u00e3o, vejamos o que Kant exemplificou: \u201cAssim, por exemplo, a proposi\u00e7\u00e3o: cada mudan\u00e7a tem sua causa, \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o a posteriori, s\u00f3 que n\u00e3o pura, pois mudan\u00e7a \u00e9 um conceito que s\u00f3 pode ser tirado da experi\u00eancia\u201d. (KANT, 1980 p. 24). Sobre a experi\u00eancia ele esclarece:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A experi\u00eancia jamais d\u00e1 aos seus ju\u00edzos <em>universalidade<\/em> verdadeira ou rigorosa, mas somente suposta e comparativa (por indu\u00e7\u00e3o), de maneira que temos propriamente que dizer: tanto quanto percebemos at\u00e9 agora, n\u00e3o se encontra nenhuma exce\u00e7\u00e3o como poss\u00edvel, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 derivado da experi\u00eancia, mas vale absolutamente a priori. (KANT, 1980 p. 24).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Antes de tratar mais especificamente sobre o tema dos ju\u00edzos, Kant j\u00e1 prenuncia que no conhecimento humano existem ju\u00edzos que ele disse serem necess\u00e1rios e universais, logo s\u00e3o puros a priori. Um exemplo claro disso s\u00e3o as proposi\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas. Quando digo que (2+2=4) n\u00e3o preciso passar pelo dado da experi\u00eancia para poder chegar a tal conclus\u00e3o. Os conhecimentos a priori, puros, s\u00e3o indispens\u00e1veis, eles se fazem presentes em nossa faculdade de conhecer. \u201cquando suprimirdes do vosso conceito emp\u00edrico de um objeto corp\u00f3reo ou incorp\u00f3reo todas as propriedades ensinadas pela experi\u00eancia, n\u00e3o podereis tirar-lhe aquela pela qual o pensais como <em>substancia<\/em> ou como <em>aderente<\/em> a uma subst\u00e2ncia\u201d (KANT, 1980 p. 25).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>2 Os ju\u00edzos anal\u00edticos e sint\u00e9ticos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na \u201cCr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura\u201d, Kant vai analisar o valor dos conhecimentos puramente racionais, atrav\u00e9s de sua revolu\u00e7\u00e3o copernicana vai colocar em quest\u00e3o n\u00e3o mais o objeto do conhecimento, mas sim como se d\u00e1 o processo humano de conhecimento. Nesta obra Kant prop\u00f5e uma filosofia transcendental. Com a revolu\u00e7\u00e3o de Kant n\u00e3o mais o objeto \u00e9 o centro do conhecimento, mas sim o sujeito cognoscente. Destarte, para trilhar tal caminho parte da distin\u00e7\u00e3o entre: ju\u00edzos anal\u00edticos e sint\u00e9ticos. \u201cJu\u00edzos anal\u00edticos (os afirmativos) s\u00e3o, portanto, aqueles em que a conex\u00e3o do predicado com o sujeito for pensada por identidade; aqueles, por\u00e9m, em que essa conex\u00e3o for pensada sem identidade, devem denominar-se ju\u00edzos sint\u00e9ticos\u201d (KANT, 1980 p. 27).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Kant \u00e9 um pensador met\u00f3dico, de forma que podemos afirmar: os ju\u00edzos anal\u00edticos independem da experi\u00eancia; se independem da experi\u00eancia podemos afirmar que s\u00e3o ent\u00e3o a priori; se s\u00e3o a priori n\u00e3o podem ser conhecidos, ou n\u00e3o geram conhecimento. Foi por isso que Kant tamb\u00e9m os denominou como \u201cju\u00edzos de elucida\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, esclarecem ou tornam claro tal conhecimento, mas n\u00e3o geram. Por esta raz\u00e3o \u00e9 que neste ju\u00edzo o predicado j\u00e1 est\u00e1 contido no sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em contr\u00e1rio, os ju\u00edzos sint\u00e9ticos dependem da experi\u00eancia; se dependem da experi\u00eancia, logo s\u00e3o a posteriori. Ao contr\u00e1rio dos ju\u00edzos anal\u00edticos, estes ampliam nosso conhecimento, produzem conhecimento, por isso \u00e9 que Kant tamb\u00e9m os denominou como \u201cju\u00edzos de amplia\u00e7\u00e3o\u201d, por\u00e9m estes n\u00e3o s\u00e3o universais, pois derivam da experi\u00eancia. Depois desta primeira distin\u00e7\u00e3o nos deparamos com um problema: de um lado est\u00e3o os ju\u00edzos anal\u00edticos que n\u00e3o podem ser conhecidos; de outro lado est\u00e3o os ju\u00edzos sint\u00e9ticos que podem ser conhecidos mas n\u00e3o s\u00e3o universais. Sobre qual ju\u00edzo se fundamenta a ci\u00eancia do conhecimento? Qual sa\u00edda para essa dif\u00edcil quest\u00e3o?<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sobre tais princ\u00edpios sint\u00e9ticos, isto \u00e9, princ\u00edpios de amplia\u00e7\u00e3o, repousa todo o objeto ultimo do nosso conhecimento especulativo a priori; os princ\u00edpios anal\u00edticos s\u00e3o, na verdade, altamente importantes e necess\u00e1rios, mas s\u00f3 para chegar \u00e0quela clareza dos conceitos exigida para uma s\u00edntese segura e vasta ao inv\u00e9s de uma aquisi\u00e7\u00e3o realmente nova. (KANT, 1980, p. 28).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A sa\u00edda apresentada por Kant \u00e9 not\u00e1vel. Segundo ele, o objeto do nosso conhecimento especulativo repousa sobre os princ\u00edpios sint\u00e9ticos. Por\u00e9m, ressalta ele que estes princ\u00edpios sint\u00e9ticos devem ser a priori. \u201cA ci\u00eancia se baseia em um terceiro tipo de ju\u00edzo, ou seja, no tipo de ju\u00edzo que, a um s\u00f3 tempo, une a <em>aprioridade, <\/em>ou seja, a <em>universalidade<\/em> e a <em>necessidade, <\/em>com a <em>fecundidade<\/em>, e portanto a \u2018sinteticidade\u2019\u201d (REALE, 2005, p. 357). Destarte, vemos ent\u00e3o a necessidade de se formular um ju\u00edzo que fundamente a ci\u00eancia e o conhecimento, por\u00e9m que seja poss\u00edvel de ser conhecido e universalizado. Ora esse ju\u00edzo ser\u00e1 ent\u00e3o o ju\u00edzo sint\u00e9tico a priori. Sobre este \u00e9 que deve se fundamentar o conhecimento humano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>3 Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante do dilema criado pelos ju\u00edzos anal\u00edticos e sint\u00e9ticos, Kant apresenta um importante caminho para fundamentar o conhecimento humano: os ju\u00edzos sint\u00e9ticos a priori. Aos poucos durante o desenrolar da \u201cCr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura\u201d Kant vai ent\u00e3o realizando uma grande mudan\u00e7a no campo da teoria do conhecimento. A distin\u00e7\u00e3o dos ju\u00edzos anal\u00edticos e sint\u00e9ticos e o apontamento dos ju\u00edzos sint\u00e9ticos a priori como fundamento do conhecimento apresentados no in\u00edcio da obra abrem caminho para a grande revolu\u00e7\u00e3o copernicana de Kant e para uma an\u00e1lise dos conhecimentos, ou melhor, do modo como o homem conhece.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">KANT, Immanuel. <em>Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura.<\/em> Trad. Val\u00e9rio Rohden e Baldur Moosburger. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1980. (Os Pensadores).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia: <\/em>de Spinoza a Kant, v. 4. Trad. Ivo Storniolo. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Junio Gon\u00e7alves da Silva Immanuel Kant (1724-1804) pode ser considerado um divisor de \u00e1guas na hist\u00f3ria da filosofia. H\u00e1 quem afirme que se pode fazer uma filosofia contra Kant ou a favor de Kant; mas nunca sem Kant. De fato Kant \u00e9 dos maiores fil\u00f3sofos da modernidade. 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