{"id":100,"date":"2009-04-01T10:05:15","date_gmt":"2009-04-01T13:05:15","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=100"},"modified":"2009-04-01T10:05:15","modified_gmt":"2009-04-01T13:05:15","slug":"a-visao-de-montaigne-sobre-o-homem-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=100","title":{"rendered":"A vis\u00e3o de Montaigne sobre o homem no mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Wanderson Alves de Melo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tendo-se uma vis\u00e3o mais aprofundada da filosofia de Montaigne (1533 \u2013 1592), percebe-se que seu interesse \u00e9 voltado para o estudo do eu, n\u00e3o como subst\u00e2ncia espiritual, mas como car\u00e1ter, centro unit\u00e1rio das mais variadas experi\u00eancias humanas. Tudo parece estar incerto, como: os sentidos enganam, a raz\u00e3o se perde como um labirinto sem fim, a moral muda com o tempo e o lugar. \u00c9 neste momento que aparece a f\u00e9, mas uma f\u00e9 onde Deus serve ao homem. O que emerge em Montaigne no contexto da Renascen\u00e7a \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o da liberdade e da participa\u00e7\u00e3o do homem na sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os escritos de Montaigne, os <em>Ensaios<\/em>, est\u00e3o destinados para o homem e n\u00e3o para Deus, por isso neles defende os fil\u00f3sofos antigos ao afirmar que o conhecimento do homem tem o objetivo de alcan\u00e7ar a felicidade. A inscri\u00e7\u00e3o \u201cconhece-te a ti mesmo\u201d contida no templo de Delfos, assumida por S\u00f3crates e por muitos pensadores antigos, torna-se para Montaigne o verdadeiro filosofar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Compreender essa no\u00e7\u00e3o de \u201cconhece-te a ti mesmo\u201d est\u00e1 para al\u00e9m do ser pessoal e da sua ess\u00eancia. O homem conhece a si pr\u00f3prio atrav\u00e9s do outro, convivendo e refletindo as experi\u00eancias. Por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel definir preceitos para todos os homens devido a sua diversidade, \u00e9 preciso que cada um construa uma sabedoria \u00e0 sua pr\u00f3pria medida. Cada um s\u00f3 pode ser s\u00e1bio de sua pr\u00f3pria sabedoria.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os s\u00e1bios devem procurar rejeitar todo argumento contra a vida, aceitando tudo aquilo de que a vida \u00e9 feita: dor, doen\u00e7as, morte. Saber morrer tamb\u00e9m faz parte do viver. O homem s\u00e1bio \u00e9 aquele que sabe ser l\u00f3gico consigo mesmo e que outra coisa n\u00e3o faz sen\u00e3o o desejo de ter uma vida \u201cselvagem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Analisando-se um de seus <em>Ensaios<\/em>, mais precisamente o cap\u00edtulo trinta e um do primeiro livro, intitulado \u201cDos canibais\u201d, \u00e9 percept\u00edvel a vis\u00e3o de Montaigne a respeito do homem em sociedade: a partir dos fragmentos dos primeiros fil\u00f3sofos, faz uma compara\u00e7\u00e3o da sua exist\u00eancia no mundo antigo e sua mudan\u00e7a no decorrer da hist\u00f3ria atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Montaigne comenta sobre o alcance da descoberta do Novo Mundo, que havia recebido o nome de Fran\u00e7a Ant\u00e1rtica. O ajudante de Montaigne o informava sobre os acontecimentos e levava at\u00e9 ele pessoas que o ajudariam na compara\u00e7\u00e3o dos mundos (velho e novo) e dos povos (civilizado e selvagem). Trata-se dos habitantes de uma tribo brasileira, conhecida como Tupinamb\u00e1s, os quais n\u00e3o conheciam nada, como: estudo, com\u00e9rcio, literatura, matem\u00e1tica, hierarquia pol\u00edtica, domesticidade, nem ricos, nem pobres. Exclusivamente n\u00e3o se ouvia mentira, avareza, inveja, trai\u00e7\u00e3o, cal\u00fania, perd\u00e3o.\u00a0 E mesmo assim para os navegadores, aquele tipo de civiliza\u00e7\u00e3o estava longe da perfeita Rep\u00fablica descrita pelos antigos. Mas Montaigne reconhece que de selvagem aquela tribo n\u00e3o tinha nada. Pois selvagem \u00e9 aquilo que est\u00e1 da mesma forma que a natureza fez, n\u00e3o houve altera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Era dif\u00edcil ver entre aqueles povos um enfermo ou epil\u00e9ptico curvado pela idade. A comida, a bebida e moradia eram de perfeita qualidade. As atividades eram bem dividas entre os homens e mulheres. Quando se chegava \u00e0 velhice, os idosos tinham como tarefa pregar aos ocupantes dos barrac\u00f5es a valentia diante dos inimigos e a amizade a suas mulheres. Eles acreditavam na imortalidade da alma a ponto de afirmarem que as almas que s\u00e3o aprovadas por Deus ficam no c\u00e9u no lado do nascente, enquanto as amaldi\u00e7oadas do lado do poente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Montaigne aponta ainda que para eles a mentira tinha sua puni\u00e7\u00e3o. Infeliz daquele que mentir. Pois adivinhar \u00e9 dom de Deus e mentir \u00e9 uma postura merecedora de castigo. Esses eram punidos de forma assustadora, eram amarrados no carro de boi e queimados. Os guerreiros das montanhas ignoram a fuga do medo. Os trof\u00e9us s\u00e3o as cabe\u00e7as de seus advers\u00e1rios, que eram amarradas na entrada de suas casas. Era de tamanha crueldade a atitude, mas era a forma que as autoridades tinham de cobrar daqueles guerreiros tal forma de vida. A seu modo de ver, Montaigne afirma que o valor de um homem est\u00e1 no seu car\u00e1ter e for\u00e7a de vontade. A valentia n\u00e3o depende do f\u00edsico, mas da coragem. Com isso, percebe-se que os mais valentes s\u00e3o os mais infelizes, pois eles fazem com que haja mais derrotas gloriosas do que vit\u00f3rias. A verdadeira vit\u00f3ria reside na maneira de combater e n\u00e3o no resultado final.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Observa que existe entre n\u00f3s gente bem alimentada, aproveitando as comodidades da vida, enquanto muitos homens desfavorecidos mendigam \u00e0 porta dos outros! O pior de tudo \u00e9 que essa concep\u00e7\u00e3o de mundo est\u00e1 nas m\u00e3os das autoridades que acham extraordin\u00e1rio que os desfavorecidos suportem tanta injusti\u00e7a sem se revoltarem a ponto de agirem agressivamente contra a sociedade. Diante de toda essa hist\u00f3ria de velho e novo mundo, Montaigne chega \u00e0 conclus\u00e3o de que os costumes foram corrompidos gerando a desigualdade social.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">DROIT, Roger-Pol. <em>A conpanhia dos fil\u00f3sofos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MONDIN, Battista. <em>Curso de filosofia<\/em>. 5.ed. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1981.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MONTAIGNE, Michel de. Dos canibais. In: <em>Ensaios<\/em>, I. S\u00e3o Paulo: Victor Civita, 1972. p. 104-110. (Os Pensadores)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">PADOVANI, Umberto; GASTAGNOLA, Lu\u00eds. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>. 15. ed. S\u00e3o Paulo: Melhoramentos, 1993.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Geovanni; ANTISERI, D\u00e1rio. <em>Hist\u00f3ria da filosofia<\/em>. 6. ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wanderson Alves de Melo &nbsp; Tendo-se uma vis\u00e3o mais aprofundada da filosofia de Montaigne (1533 \u2013 1592), percebe-se que seu interesse \u00e9 voltado para o estudo do eu, n\u00e3o como subst\u00e2ncia espiritual, mas como car\u00e1ter, centro unit\u00e1rio das mais variadas experi\u00eancias humanas. 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