{"id":1030,"date":"2010-09-10T21:48:38","date_gmt":"2010-09-11T00:48:38","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1030"},"modified":"2010-09-10T21:48:38","modified_gmt":"2010-09-11T00:48:38","slug":"o-saber-nas-sociedades-informatizadas-segundo-lyotard","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1030","title":{"rendered":"O saber nas sociedades informatizadas segundo\u00a0Lyotard"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Marcelo Geraldo de Oliveira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Em sua obra <em>A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna<\/em>, Jean-Fran\u00e7ois Lyotard<a href=\"#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> aponta que o objeto de seu estudo \u00e9 a modifica\u00e7\u00e3o na natureza mesma da ci\u00eancia (e da universidade) provocada pelo impacto das transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas sobre o saber, nas sociedades p\u00f3s industrial mais desenvolvidas, denominadas cultura \u201cp\u00f3s-moderna\u201d a partir do final do s\u00e9culo XX. A palavra \u201cp\u00f3s-moderna\u201d foi utilizada no continente americano, por soci\u00f3logos e cr\u00edticos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A cr\u00edtica p\u00f3s-moderna rumo \u00e0 modernidade trouxe consigo discuss\u00f5es em torno de alguns pressupostos b\u00e1sicos da tradi\u00e7\u00e3o iluminista. Dentre eles, encontram-se as no\u00e7\u00f5es de filosofia da hist\u00f3ria, de sujeito e de valores. Estamos vivendo um momento hist\u00f3rico conturbado em que n\u00e3o s\u00f3 a filosofia da hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m a raz\u00e3o e a subjetividade, os fundamentos e os valores, as identidades e as certezas se tornam amb\u00edguos. O saber \u00e9 legitimado por um \u201cmetarrelato\u201d que implica em uma filosofia da hist\u00f3ria com conceitos de justi\u00e7a e verdade pr\u00e9-determinadas. O livro de Lyotard se prop\u00f5e, precisamente, a desvendar os caminhos do saber nas sociedades informatizadas e da deslegitima\u00e7\u00e3o das grandes narrativas modernas como passaremos a demonstrar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A hip\u00f3tese de trabalho de Jean-Fran\u00e7ois Lyotard \u00e9 a mudan\u00e7a do estatuto do saber nas sociedades p\u00f3s-industriais e a cultura p\u00f3s-moderna ou sociedade informativa. Esta passagem teve in\u00edcio no final dos anos 50, deixando marcado para a Europa o fim de sua reconstru\u00e7\u00e3o. Foi uma modifica\u00e7\u00e3o r\u00e1pida conforme os pa\u00edses e, nos pa\u00edses, conforme os setores de atividade: donde uma discronia geral, que n\u00e3o torna f\u00e1cil o quadro de conjunto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O saber cient\u00edfico est\u00e1 intimamente ligado ao discurso. Percebe-se que h\u00e1 mais de quarenta anos que as ci\u00eancias e as t\u00e9cnicas versam sobre a linguagem. Nas palavras de Lyotard:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>A fonologia e as ling\u00fc\u00edsticas, os problemas da comunica\u00e7\u00e3o e a cibern\u00e9tica, as matem\u00e1ticas modernas e a inform\u00e1tica, os computadores e suas linguagens, os problemas de tradu\u00e7\u00e3o das linguagens e busca de compatibilidades entre linguagens-m\u00e1quinas, os problemas de memoriza\u00e7\u00e3o e os bancos de dados, a telem\u00e1tica e a instala\u00e7\u00e3o de terminais \u2018inteligentes\u2019, a paradoxologia eis a\u00ed algumas provas evidentes, e a lista n\u00e3o \u00e9 exaustiva<\/em>.<a href=\"#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Existem informa\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas sobre o saber que devem ser levadas em considera\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 ou deve ser afetado em suas duas principais fun\u00e7\u00f5es: a pesquisa e a transmiss\u00e3o de conhecimentos. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pesquisa, um exemplo \u00e9 a gen\u00e9tica, que deve seu paradigma te\u00f3rico \u00e0 cibern\u00e9tica. Quanto \u00e0 transmiss\u00e3o de conhecimentos, hoje em dia j\u00e1 se sabe como normalizando, miniaturizando e comercializando os aparelhos, mudam-se as opera\u00e7\u00f5es de aquisi\u00e7\u00e3o, classifica\u00e7\u00e3o, acesso e explora\u00e7\u00e3o dos conhecimentos. Essa multiplica\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas informais afeta e afetar\u00e1 a circula\u00e7\u00e3o dos conhecimentos, o desenvolvimento dos meios de transportes, dos sons e das imagens.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante dessas transforma\u00e7\u00f5es, a natureza do saber n\u00e3o permanece intacta. Ele n\u00e3o pode se submeter aos novos canais e tornar-se operacional, a n\u00e3o ser que o conhecimento possa ser traduzido em quantidades de informa\u00e7\u00e3o. Prev\u00ea-se ent\u00e3o que tudo o que no saber constitu\u00eddo n\u00e3o \u00e9 traduz\u00edvel ser\u00e1 deixado de lado, e que com as novas pesquisas se subordinar\u00e1 \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de tradutibilidade dos resultados eventuais em linguagem de m\u00e1quina. Percebe-se ent\u00e3o que os produtores e os utilizadores do saber devem e dever\u00e3o ter os meios de traduzir nestas linguagens o que alguns inventam e outros aprendem. Com a hegemonia da inform\u00e1tica, imp\u00f5e-se uma certa l\u00f3gica e, consequentemente, um conjunto de prescri\u00e7\u00f5es que versam sobre o saber.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Espera-se uma explosiva exterioriza\u00e7\u00e3o do saber em rela\u00e7\u00e3o ao sujeito que sabe, em qualquer ponto que este se encontre no processo de conhecimento. O antigo princ\u00edpio segundo o qual a aquisi\u00e7\u00e3o do saber \u00e9 indissoci\u00e1vel da forma\u00e7\u00e3o (<em>Bildung<\/em>) do esp\u00edrito, e mesmo da pessoa, cai e cair\u00e1 no desuso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outra modifica\u00e7\u00e3o desse novo universo do saber \u00e9 a sua transforma\u00e7\u00e3o radical em valor como mera mercadoria. O saber ter\u00e1 como objetivo da sua produ\u00e7\u00e3o, o mercado e a troca, tornando secund\u00e1rio o seu valor de uso. Nos \u00faltimos dec\u00eanios, o saber se transformou na principal for\u00e7a de produ\u00e7\u00e3o e elemento econ\u00f4mico decisivo das popula\u00e7\u00f5es produtivas nos pa\u00edses em desenvolvimento<a href=\"#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Dessa forma Lyotard afirma que:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Na idade p\u00f3s-industrial e p\u00f3s-moderna, a ci\u00eancia conservar\u00e1 e sem d\u00favida refor\u00e7ara ainda mais sua import\u00e2ncia na disputa das capacidades produtivas dos Estados-na\u00e7\u00f5es. Esta situa\u00e7\u00e3o constitui mesmo uma das razoes que faz pensar que o afastamento em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses em vias de desenvolvimento n\u00e3o cessar\u00e1 de alargar-se no futuro. [&#8230;] Sob a forma de mercadoria informacional indispens\u00e1vel ao poderio produtivo, o saber j\u00e1 \u00e9 e ser\u00e1 um desafio maior, talvez o mais importante, na competi\u00e7\u00e3o mundial pelo poder. Do mesmo modo que os Estados-na\u00e7\u00f5es se bateram para dominar territ\u00f3rios, e com isto dominar o acesso e a explora\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias-primas e da m\u00e3o-de-obra barata, \u00e9 conceb\u00edvel que eles se batam no futuro para dominar as informa\u00e7\u00f5es. Assim encontra-se aberto um novo campo para as estrat\u00e9gias industriais e comerciais e para as estrat\u00e9gias militares e pol\u00edticas<\/em>. <a href=\"#_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Contudo, a \u201cmercantiliza\u00e7\u00e3o do saber n\u00e3o poder\u00e1 deixar intacto o privil\u00e9gio que os Estados-na\u00e7\u00f5es modernos detinham e det\u00eam ainda no que concerne \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e \u00e0 difus\u00e3o dos conhecimentos\u201d.<a href=\"#_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Em outras palavras, para Lyotard houve uma mercantiliza\u00e7\u00e3o generalizada do saber.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A transforma\u00e7\u00e3o da natureza do saber exerce um efeito de retorno tal que os obrigue a reconsiderar suas rela\u00e7\u00f5es de direito e de fato com as grandes empresas e mais especificamente na sociedade civil. A reabertura do mercado mundial, a retomada de uma competi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ativa, o desaparecimento da hegemonia do capitalismo americano, o decl\u00ednio socialista, a abertura do mercado chin\u00eas \u00e0s trocas, e muitos outros fatores, v\u00eam preparar os Estados, no final dos anos 70, para um revis\u00e3o s\u00e9ria do papel que se habituaram a desempenhar desde os anos 30, que era de prote\u00e7\u00e3o e guia, at\u00e9 a planifica\u00e7\u00e3o dos investimentos. Entretanto, as novas tecnologias, pelo fato de tornarem os dados \u00fateis \u00e0s decis\u00f5es (portanto, os meios de controle) inst\u00e1veis e sujeitas \u00e0 pirataria, n\u00e3o podem sen\u00e3o exigir urg\u00eancia deste reexame.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, percebe-se que a informatiza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica do saber, ocorrida a partir da revolu\u00e7\u00e3o industrial, e a telematiza\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o de imagens e sons, determinam a acelera\u00e7\u00e3o intensa dos conhecimentos que modificam nossa vida cotidiana, conforme as id\u00e9ias retratadas por Jean-Fran\u00e7ois Lyotard. Fica-nos uma pergunta: diante disso, \u00e9 poss\u00edvel acompanhar este movimento constante de tantas informa\u00e7\u00f5es na sociedade hoje?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">HUISMAN, Denis. <em>Dicion\u00e1rio dos fil\u00f3sofos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">LYOTARD, Jean Fran\u00e7ois. <em>A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o: Ricardo Correia. 5 ed. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MARINHO, Cristiane M. <em>Pensamento p\u00f3s-moderno e educa\u00e7\u00e3o na crise estrutural do capital<\/em>. Tese de Doutorado. UFCZ. Fortaleza- CE, 2008.<\/p>\n<hr size=\"1\" \/>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> HUISMAN, Denis. <em>Dicion\u00e1rio dos fil\u00f3sofos<\/em>. p. 636. Fil\u00f3sofo franc\u00eas, nascido em 1924, em Paris. Professor de filosofia a partir de 1950, obt\u00e9m doutorado de Estado em 1971. Ap\u00f3s dez anos de ensino de filosofia em escolas secund\u00e1rias (tamb\u00e9m em Constantina, Arg\u00e9lia, de 1950 a 1952), mais de vinte anos de ensino e pesquisa em estabelecimentos superiores (Sorbone, Nanterre, CNRS, Vincennes) e doze anos de trabalho te\u00f3rico e pr\u00e1tico dedicado ao grupo \u201cSocialisme ou barb\u00e1rie\u201d, depois a <em>Pouvoir Ouvrier<\/em>, tamb\u00e9m foi professor de filosofia na Universidade de Paris VIII (Vincennes, Saint-Denis) e <em>distinguished<\/em> professor na Universidade da Calif\u00f3rnia, Irvine. Faleceu em 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> LYOTARD, Jean-Fran\u00e7ois. <em>A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna<\/em>. p. 3.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> MARINHO, Cristiane M. <em>Pensamento p\u00f3s-moderno e educa\u00e7\u00e3o na crise estrutural do capital<\/em>. p. 4.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> LYOTARD, Jean Fran\u00e7ois. <em>A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna.<\/em> p. 5.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> LYOTARD, Jean-Fran\u00e7ois. <em>A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna.<\/em> p. 5.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcelo Geraldo de Oliveira Em sua obra A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna, Jean-Fran\u00e7ois Lyotard[1] aponta que o objeto de seu estudo \u00e9 a modifica\u00e7\u00e3o na natureza mesma da ci\u00eancia (e da universidade) provocada pelo impacto das transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas sobre o saber, nas sociedades p\u00f3s industrial mais desenvolvidas, denominadas cultura \u201cp\u00f3s-moderna\u201d a partir do final do s\u00e9culo XX. &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[103,157],"tags":[322,418,467],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-1030","6":"format-standard","7":"category-marcelo-geraldo-de-oliveira","8":"category-vattimo","9":"post_tag-fim-da-historia","10":"post_tag-pos-modernidade","11":"post_tag-saber"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1030","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1030"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1030\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1030"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1030"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1030"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}