{"id":1037,"date":"2010-09-24T21:55:54","date_gmt":"2010-09-25T00:55:54","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1037"},"modified":"2010-09-24T21:55:54","modified_gmt":"2010-09-25T00:55:54","slug":"reflexoes-sobre-o-fim-do-homem-em-auschwitz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1037","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre o fim do homem em Auschwitz"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Adriano Miguel Silva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Bruno Viana Campos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz<a href=\"#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> foi mais que um fato hist\u00f3rico, pois n\u00e3o foram somente executados seres humanos neste local, mas a humanidade do homem (MATE, 2005, p. 07). Por\u00e9m, corre-se o risco de Auschwitz ser colocado na hist\u00f3ria como mais um genoc\u00eddio ocorrido, cujo impacto social e pol\u00edtico diminui com o passar dos anos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Essa vis\u00e3o de esquecimento do que representou Auschwitz para a humanidade foi veiculada na Europa durante v\u00e1rias d\u00e9cadas ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. No entanto, as feridas deixadas no sentimento de humanidade \u2013 juntamente com a mobiliza\u00e7\u00e3o de sobreviventes dos campos de concentra\u00e7\u00e3o e pensadores que refletiram sobre os mesmos \u2013 eram pertinentes demais para serem esquecidas (<em>ib.<\/em>, p. 08).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Houve ent\u00e3o a necessidade de den\u00fancia e justi\u00e7a para que o homem n\u00e3o esquecesse de Auschwitz. Al\u00e9m de lembrar o ocorrido, o sobrevivente e os pensadores buscavam, pelos relatos colhidos durante todo processo de ascens\u00e3o dos campos de concentra\u00e7\u00e3o, as responsabilidades e conseq\u00fc\u00eancias que endossaram a pr\u00e1tica da barb\u00e1rie (<em>ib.<\/em>, p. 197).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante disso, o presente artigo tem o intuito de refletir principalmente sobre o que ficou e o que foi destru\u00eddo da humanidade do homem com a efetiva\u00e7\u00e3o, sobretudo, do projeto de desumaniza\u00e7\u00e3o deflagrado nos campos de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>A tr\u00edade da barb\u00e1rie: a v\u00edtima, o carrasco e o espectador<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para pensar sobre o que ocorreu com a humanidade do homem em Auschwitz, \u00e9 necess\u00e1rio, primeiramente, perguntar para onde foi o homem diante de toda persegui\u00e7\u00e3o que culminou nos campos de concentra\u00e7\u00e3o. Com a inten\u00e7\u00e3o de encontrar respostas para tal questionamento, deve-se convergir a reflex\u00e3o n\u00e3o diretamente para o homem concreto, f\u00edsico, mas para a dignidade do homem, pois perguntar por este \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, interrogar sobre a sua dignidade, ou seja, acerca da id\u00e9ia que se faz da humanidade do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desse modo, observa-se que em Auschwitz n\u00e3o morreu somente o homem f\u00edsico, mas a id\u00e9ia que se fazia dele at\u00e9 ent\u00e3o (<em>ib.<\/em>, p. 207). Tal morte s\u00f3 foi poss\u00edvel porque houve todo um processo que instigou, gradativamente, \u201co exerc\u00edcio continuado da barb\u00e1rie, empobrecendo o sentido de humanidade de todos os homens\u201d (<em>ib.<\/em>, p. 207).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sendo assim, a id\u00e9ia de homem se encontrava, no campo de concentra\u00e7\u00e3o, em decl\u00ednio, terminando na sua morte, na morte do conceito de dignidade humana. Por\u00e9m, ainda permanecia o homem<a href=\"#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, n\u00e3o aquele pensado sobre o paradigma de humanidade at\u00e9 ent\u00e3o em voga (que, em linhas gerais, legitimava a dignidade), mas sim o homem apenas homem, destitu\u00eddo de qualquer atributo que remetesse \u00e0 dignidade morta no campo de concentra\u00e7\u00e3o (<em>ib.<\/em>, p. 224).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com efeito, para entendermos como ocorreu a referida morte do conceito de homem, \u00e9 preciso analisar a tr\u00edade que, direta ou indiretamente, esteve envolvida em tal morte: a v\u00edtima, o carrasco e o espectador.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>A v\u00edtima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nos campos de concentra\u00e7\u00e3o, aqueles que podiam trabalhar n\u00e3o eram imediatamente mortos quando chegavam nestes lugares, embora a morte fosse o fim \u00faltimo para eles. Era necess\u00e1rio explorar a for\u00e7a de trabalho dos prisioneiros e, acima de tudo, tirar-lhes a dignidade (<em>ib.<\/em>, p. 208), o seu sentimento de serem homens. Enfim, o objetivo de todo o aparato no campo era de tirar a humanidade da v\u00edtima, for\u00e7ando-a a se sentir apenas um animal inferior ao seu carrasco.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desse objetivo, por sua vez, surge um paradoxo: o carrasco luta para tirar a humanidade de sua v\u00edtima. Esta tenta, com o resto de suas for\u00e7as, manter latente os resqu\u00edcios de sua humanidade. O m\u00e1ximo que o carrasco poderia fazer, todavia, era denegrir o sentimento de humanidade da v\u00edtima ou mat\u00e1-la, mas nunca destru\u00ed-lo completamente, pois este se enraizava nela como um sentimento indel\u00e9vel, radical (<em>ib.<\/em>, p. 209).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante desse paradoxo, questiona-se: ser\u00e1 que o conceito de dignidade defendido pelo carrasco<a href=\"#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> e difundido por ele violentamente na v\u00edtima retratava verdadeiramente o seu real sentido, ou seja, o sentido de humanidade do homem? Se a v\u00edtima, sob o jugo do carrasco, se reconhecia sem dignidade, mas ela, ao mesmo tempo, ainda tinha dentro de si um sentimento de humanidade, ent\u00e3o o termo dignidade deveria ser reformulado, pois ele deixava margem para um discurso de conveni\u00eancia que apoiava a desumaniza\u00e7\u00e3o desencadeada pelo carrasco em detrimento da humanidade da v\u00edtima<a href=\"#_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, que n\u00e3o era reconhecida por seu algoz.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um novo conceito de humanidade<a href=\"#_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> era preciso ser pensado. A partir do homem degradado (ou seja, destitu\u00eddo do conceito de dignidade postulado at\u00e9 Auschwitz), mas que n\u00e3o renunciou \u00e0 sua humanidade, surgia a tarefa de elaborar um novo conceito de dignidade (<em>ib.<\/em>, p. 212) menos t\u00eanue e abstrato e mais realista<a href=\"#_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. Para isso, o ponto de partida seria o homem de Auschwitz, sobrevivente da morte do conceito de humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em suma, em Auschwitz, morreu a id\u00e9ia de homem baseada na dignidade (do carrasco) que acabou gerando a barb\u00e1rie e, junto com ela, a cultura que a fundamentava. O homem degradado converge o pensamento para a reflex\u00e3o sobre o conceito de humanidade morto em Auschwitz, pois o refugo dos campos de concentra\u00e7\u00e3o acabou se tornando o \u201cponto de refer\u00eancia da humanidade do futuro\u201d (<em>ib.<\/em>, p. 213).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>O carrasco<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O principal intuito do carrasco era, sobretudo, extirpar a condi\u00e7\u00e3o humana da v\u00edtima. Para isso, era preciso que ele, primeiramente, renunciasse \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o humana tendo em vista uma nova humanidade. Assim, antes de destruir a humanidade da v\u00edtima, ele subjugava a sua. A humanidade do homem velho (<em>ib.<\/em>, p. 213) dava lugar para a do homem novo, que n\u00e3o tinha compaix\u00e3o por aquilo que n\u00e3o era considerado humano (com dignidade), incluindo a v\u00edtima.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com efeito, \u00e9 importante notar que o processo de desumaniza\u00e7\u00e3o atingiu de formas diferentes a v\u00edtima e o carrasco (<em>ib.<\/em>, p. 214). Aquela era tratada como algo descart\u00e1vel, al\u00e9m dela n\u00e3o sentir receios de se declarar na condi\u00e7\u00e3o de ser indigno. Por outro lado, o carrasco foi programado para n\u00e3o reconhecer o seu ato desumano, ou melhor, a sua pr\u00f3pria desumanidade. Essa situa\u00e7\u00e3o foi propiciada pela cultura na qual estavam inseridos tanto a v\u00edtima quanto o carrasco. A cultura possibilitou a barb\u00e1rie que culminou, neste caso, na desumaniza\u00e7\u00e3o do carrasco:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>A facilidade com a qual o soldado se converteu em assassino, a f\u00e1brica em forno cremat\u00f3rio, o nacionalismo em genoc\u00eddio e o antissemitismo em Auschwitz, s\u00f3 pode explicar-se porque os tempos estavam maduros para a barb\u00e1rie. O destino do carrasco \u00e9 talvez quem desvele o grau de prostra\u00e7\u00e3o no qual caiu a cultura. Eu j\u00e1 dizia que o carrasco, ao contr\u00e1rio da v\u00edtima, n\u00e3o estava disposto a reconhecer a sua inumanidade. Mas essa n\u00e3o-consci\u00eancia de sua inumanidade \u00e9 sinal cainita de seu destino um ir\u00e1s (at\u00e9 a inumanidade que destr\u00f3is), por\u00e9m n\u00e3o voltar\u00e1s, uma viagem sem retorno porque sua boa consci\u00eancia lhe vela a possibilidade de reconhecer-se humanamente nu<\/em>. (<em>ib.<\/em>, p. 217)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Embora o carrasco tenha cumprido o seu papel de subjugar a sua v\u00edtima, ele, de certa forma, fracassou em desumaniz\u00e1-la. Por mais que ela sofresse, nunca abandonaria a esp\u00e9cie humana, mesmo n\u00e3o sendo reconhecida como tal pelos seus carrascos (<em>ib.<\/em>, p. 216). Assim, pode-se destruir profundamente a humanidade do homem, mas o carrasco n\u00e3o conseguia fazer com que a v\u00edtima se desfizesse de sua esp\u00e9cie, ou seja, o homem (no caso, a v\u00edtima) pode ser facilmente retirado de sua condi\u00e7\u00e3o humana definida pela cultura (regras de conviv\u00eancia, de etiquetas, conceito de dignidade), mas ele n\u00e3o deixar\u00e1 de ser, em \u00faltima inst\u00e2ncia, homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>O espectador<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Antes de analisarmos o papel do espectador na efetiva\u00e7\u00e3o de Auschwitz e a na morte da humanidade do homem, \u00e9 necess\u00e1rio pensar a situa\u00e7\u00e3o que propiciou a subjuga\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, sobretudo do judeu.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os nazistas, antes de colocarem em pr\u00e1tica a m\u00e1quina dos campos de concentra\u00e7\u00e3o, buscaram nas institui\u00e7\u00f5es internacionais motivos para que elas requeressem os judeus, caso sofressem algum tipo de viol\u00eancia (persegui\u00e7\u00e3o, morte, restri\u00e7\u00e3o dos direitos civis, etc). N\u00e3o os encontrando, o pr\u00f3ximo passo seria elaborar raz\u00f5es para dominar os judeus. Entretanto, isso deveria acontecer n\u00e3o de forma abrupta, mas, de prefer\u00eancia, sem causar esc\u00e2ndalos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o alem\u00e3 e \u00e0 comunidade internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Antes da Segunda Guerra Mundial, os direitos humanos, teoricamente, j\u00e1 eram respeitados pelo fato do homem ser homem (<em>ib.<\/em>, p. 218). Na pr\u00e1tica, eles s\u00f3 eram acatados caso os homens se identificassem com algum estado. Se n\u00e3o houvesse um estado que reconhecesse os direitos de um povo, estes eram irrelevantes. Com efeito, o povo judeu n\u00e3o pertencia, de certa forma, a nenhum pa\u00eds propriamente dito (<em>ib.<\/em>, p. 218).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desse modo, percebe-se que n\u00e3o havia um estado que reivindicaria insistentemente os direitos do povo judeu, embora j\u00e1 houvesse um esbo\u00e7o do estado de Israel. Esse \u00e9 um dos principais motivos que legitimou a persegui\u00e7\u00e3o aos judeus, pois n\u00e3o havia um estado que os reclamasse, caso sofressem algum tipo de viol\u00eancia. Com isso, al\u00e9m de fomentar o j\u00e1 existente antissemitismo na Alemanha, tal motivo abriu as portas para uma das grandes repress\u00f5es aos judeus: a restri\u00e7\u00e3o imposta a estes do status legal de cidad\u00e3o (<em>ib.<\/em>, p. 219).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por conseguinte, o judeu era visto como fora do estado; a perda dos direitos legais equivalia \u00e0 perda dos direitos humanos (<em>ib.<\/em>, p. 220). Assim, os judeus, agora transformados em v\u00edtimas juntamente com aqueles que militavam contra o regime nazista, eram considerados como coisas, destitu\u00eddos de qualquer vest\u00edgio de dignidade humana.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante disso, questiona-se: qual o papel do espectador diante da desumaniza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima? Ele, na condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3o, na maioria das vezes, permanecia indiferente diante dos considerados n\u00e3o cidad\u00e3os, colaborando com a persegui\u00e7\u00e3o, com o processo de desumaniza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima. Quando o espectador negou atrav\u00e9s da indiferen\u00e7a a humanidade da v\u00edtima, ele pr\u00f3prio negou a sua humanidade (<em>ib.<\/em>, p. 221), pois quando a mesma \u00e9 suprimida da v\u00edtima, o espectador tamb\u00e9m anula a sua pela indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, \u00e9 percept\u00edvel que o espectador tem a sua contribui\u00e7\u00e3o no ato de desumaniza\u00e7\u00e3o. Ele se tornou c\u00famplice da barb\u00e1rie ao permanecer impass\u00edvel diante das persegui\u00e7\u00f5es \u00e0s vitimas. Tal impassividade moral levou \u00e0 \u201cinsignific\u00e2ncia te\u00f3rica do sofrimento da v\u00edtima. [&#8230;]. N\u00e3o existe lugar neutro, por isso, o espectador possui um ju\u00edzo objetivamente inapel\u00e1vel. O ju\u00edzo, o necess\u00e1rio ju\u00edzo, capaz de discriminar entre morte e crime, somente pode vir de dentro\u201d (<em>ib.<\/em>, p. 224).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>O \u201c<em>era aqui\u201d<\/em> da testemunha<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, o que de fato est\u00e1 em quest\u00e3o \u00e9: \u201conde estava o homem?\u201d (<em>ib.<\/em>, p. 224) Homem entendido como ser humano e tamb\u00e9m enquanto institui\u00e7\u00f5es que trazem o nome como defensora dos direitos humanos, ou seja, refere-se aqui \u201caos intelectuais, aos homens virtuosos, as igrejas crist\u00e3s, quer dizer, aos representantes da humanidade\u201d (<em>ib.<\/em>, p. 225), que diante de tal situa\u00e7\u00e3o de massacre, de crime ficaram em sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que se pretende com tudo isso \u00e9 saber onde estava o homem, e como ele se encontra depois desse ataque \u00e0 humanidade que \u00e9 conceituada no texto como a \u201chumanidade do homem\u201d. Isso porque, diante dessa brutal experi\u00eancia de horror, n\u00e3o foi destru\u00eddo somente um grupo de pessoas ou \u201cesp\u00e9cie\u201d, mas sim toda a \u201chumanidade do homem\u201d. \u00c9 por isso que se pergunta onde estava o homem que vendo sua humanidade ser destru\u00edda preferiu permanecer em sil\u00eancio, sendo que, por exemplo, dentre \u201cdez europeus nove calaram\u201d (<em>ib.,<\/em> p. 225). Eles n\u00e3o calaram diante de um crime qualquer, mas de um crime contra a humanidade e sua humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">H\u00e1 uma outra posi\u00e7\u00e3o que contrap\u00f5e essa vis\u00e3o de que humanidade enquanto universalidade sofre as conseq\u00fc\u00eancias do crime causado a um determinado grupo, o contraponto \u00e9 que o crime vai prejudicar somente a humanidade do criminoso, isso n\u00e3o vai repercutir na a\u00e7\u00e3o boa e verdadeira da esp\u00e9cie humana num todo mas somente na do que executou o crime.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas o que est\u00e1 em foque \u00e9 o acontecido em Auschwitz, que por tecido um campo de exterm\u00ednio de dignidade, de vida justa acabou por afetar toda a humanidade que permaneceu em sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E em resposta a onde estava o homem, \u00e9 preciso \u201cconhecer o estado de prostra\u00e7\u00e3o da humanidade do homem a partir da experi\u00eancia de que n\u00e3o estamos diante de um crime qualquer, mas diante de um \u2018crime contra a humanidade\u2019\u201d (<em>ib.,<\/em> p.225). Que por sua vez, envolve todos os homens, n\u00e3o um grupo reduzido como, por exemplo, os judeus, mas a dignidade de todos os seres humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Sentido jur\u00eddico<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante da atrocidade que os alem\u00e3es fizeram com os judeus durante o nazismo, fez &#8211; se com que fosse criada uma nova figura jur\u00eddica que respondesse, de alguma maneira, \u00e0 novidade do fato, que \u00e9 o Estatuto do Tribunal Internacional de Nurenberg (<em>ib.,<\/em> p. 226). Estatuto esse que mostra que tudo isso \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o dos direitos do indiv\u00edduo. Mas o que \u00e9 \u201cespecifico \u00e9 seu car\u00e1ter inumano posto que causa sofrimentos que atentam contra a integridade f\u00edsica e mental da v\u00edtima\u201d (<em>ib.,<\/em> p. 226).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Uma segunda caracter\u00edstica do tratado \u00e9 que o \u201ccrime\u201d deve ser realizado pelo estado, o qual, ao inv\u00e9s de defender os direitos dos cidad\u00e3os, decide quem \u00e9 cidad\u00e3o e quem n\u00e3o o \u00e9. Sendo assim o poder da exist\u00eancia humana estaria nas m\u00e3os do estado. J\u00e1 o \u201ccrime contra a humanidade\u201d n\u00e3o est\u00e1 contido nesse conceito do Estatuto, isso porque \u201co poder nega com fatos e ditos a perten\u00e7a de um ser humano \u00e0 esp\u00e9cie humana, atenta-se contra a comunidade humana porque se priva de uma parte de sua riqueza ou da diversidade\u201d (<em>ib.,<\/em> p. 227).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os direitos dos seres humanos s\u00e3o direitos enquanto conjuntos, e n\u00e3o algo isolado. Caso um direito seja violado, a humanidade no seu conjunto fica abalada. \u201cPor isso s\u00e3o crimes n\u00e3o contra uma etnia ou um povo, mas contra a humanidade\u201d (<em>ib.,<\/em> p. 227). Esse crime contra a humanidade tinha como cunho fundamental do desejo nazista n\u00e3o \u201cexpulsar os judeus de seu territ\u00f3rio, mas faz\u00ea-los desaparecer da face da terra\u201d (<em>ib.,<\/em> p. 227).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">At\u00e9 aqui percebe-se que a luta na busca dos seus direitos \u00e0 vida, n\u00e3o pode partir somente daquele grupo que est\u00e1 sendo agredido, lesado mas essa briga deve ser de todos, uma vez, que isso afeta um todo universal.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>A dimens\u00e3o Moral<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A dimens\u00e3o moral intensifica o que j\u00e1 foi aborda acima, ou seja, em se tratando do crime contra a humanidade que n\u00e3o atinge somente o grupo que est\u00e1 sendo lesado nos seus direitos, mas sim toda a humanidade. Isso porque uma atrocidade como o crime \u201ccontra a humanidade\u201d tendo como alvo o acontecimento da persegui\u00e7\u00e3o nazista aos judeus, n\u00e3o apenas mata, mas acima de tudo desumaniza. Aqui se percebe mais claramente o quanto afeta o todo e n\u00e3o somente a um determinado grupo. Adorno retrata essa situa\u00e7\u00e3o com bastante \u00eanfase: \u201cde que o fato de que nos campos de concentra\u00e7\u00e3o morreram n\u00e3o apenas indiv\u00edduos isolados, mas uma esp\u00e9cie do g\u00eanero humano\u201d (<em>ib.,<\/em> p. 228), ou seja, essa atrocidade acabou por atingir toda a humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Imre Kertesz faz men\u00e7\u00e3o a essa situa\u00e7\u00e3o afirmando que: \u201cA testemunha, no entanto, tem o poder de converter essa nega\u00e7\u00e3o epocal na reserva de sentido ao declarar diante de n\u00f3s que a\u00ed jazem sepultadas as perguntas que permitir\u00e3o ao homem seguir erguido\u201d (<em>ib.,<\/em> p. 230).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O lastim\u00e1vel acontecimento acontecido no campo de concentra\u00e7\u00e3o, mas \u201cque nos convertamos em ju\u00edzes, que fa\u00e7amos justi\u00e7a atualizando as injusti\u00e7as passadas e reconhecendo sua vig\u00eancia\u201d (<em>ib.<\/em>, p. 230). Mas que a testemunha possa inaugurar uma nova humanidade, que revele \u201cMusulmann\u201d, ou seja, esse conceito de homem sem apar\u00eancia humana se converta em testemunha, que luta por justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 a v\u00edtima do campo, tem como fun\u00e7\u00e3o atinjir o alvo que \u00e9 a justi\u00e7a, afim de \u201cque nos fa\u00e7am justos na medida em que nos convertermos em mem\u00f3rias vivas das injusti\u00e7as que a eles fizeram e que seguem pendentes\u201d (<em>ib.,<\/em> p.231).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Contudo, percebe-se que Auschwitz foi o palco da destrui\u00e7\u00e3o de toda a humanidade; uma vez os judeus sendo alvo dessa atrocidade, toda a humanidade tamb\u00e9m foi lesada. A dignidade humana foi lan\u00e7ada \u00e0 extermina\u00e7\u00e3o e a humanidade inteira ficou calada escondida diante a esse fato. Mas resta uma nova oportunidade para que essa humanidade marcada pelo passado, fazer com que as marcas e lembran\u00e7as os\u00a0 torne mais humanos e justos, afim de que n\u00e3o se calem diante das injusti\u00e7as e crimes contra a humanidade do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MATE, Reyes. <em>Mem\u00f3rias de Auschwitz<\/em>: atualidade e pol\u00edtica. S\u00e3o Leopoldo: Nova Harmonia, 2005.<\/p>\n<hr size=\"1\" \/>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Auschwitz representa n\u00e3o somente um campo de concentra\u00e7\u00e3o espec\u00edfico, mas tamb\u00e9m todos os outros campos e todo o movimento que culminou nos mesmos. Ali\u00e1s, ele \u00e9 pensado, acima de tudo, como o acontecimento que representou a morte da humanidade humana.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> A morte do conceito de dignidade humana \u2013 conceito esse que vigorou at\u00e9 Auschwitz \u2013 ser\u00e1 melhor desenvolvido adiante, quando refletiremos a quest\u00e3o acerca da v\u00edtima.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> A dignidade, na perspectiva do carrasco, era pautada pelo crit\u00e9rio digno\/indigno baseado na cultura que propiciou o surgimento de Auschwitz.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> O prisioneiro era levado a acreditar que perdera a sua dignidade. Ela n\u00e3o era reconhecida pelo carrasco, levando-o a se convencer de que realmente n\u00e3o a possu\u00eda (Reyes, p. 210). Por\u00e9m, ainda restava na v\u00edtima o sentimento de ser homem. Logo, a dignidade n\u00e3o estava completamente morta, mas era necess\u00e1rio repens\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> De fato, quando se prop\u00f5e pensar um novo conceito de humanidade ap\u00f3s Auschwitz, est\u00e1 impl\u00edcito necessariamente uma reflex\u00e3o acerca da insufici\u00eancia do conceito, ou seja, a incapacidade da conceitua\u00e7\u00e3o dizer definitivamente e seguramente a realidade que se pretendo elucidar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> Um dos erros da filosofia, segundo Reyes Mate, foi ter colocado a ess\u00eancia do homem como inating\u00edvel pela barb\u00e1rie. Com isso, os atos concretos contra a humanidade passaram por despercebidos. (Reyes, p. 224)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adriano Miguel Silva Bruno Viana Campos Introdu\u00e7\u00e3o O campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz[1] foi mais que um fato hist\u00f3rico, pois n\u00e3o foram somente executados seres humanos neste local, mas a humanidade do homem (MATE, 2005, p. 07). 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