{"id":1059,"date":"2010-09-30T08:00:35","date_gmt":"2010-09-30T11:00:35","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1059"},"modified":"2010-09-30T08:00:35","modified_gmt":"2010-09-30T11:00:35","slug":"a-deslegitimacao-da-razao-na-cultura-pos-moderna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1059","title":{"rendered":"A deslegitima\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o na cultura\u00a0p\u00f3s-moderna"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Alan Lopes de Oliveira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na chamada p\u00f3s-modernidade percebemos que n\u00e3o h\u00e1 nenhum conhecimento legitimado, a nosso ver, de modo definitivo. A quest\u00e3o do saber absoluto perdeu sua credibilidade, pois notamos n\u00e3o mais um \u00fanico saber como fonte de todo conhecimento, e sim uma gigantesca gama de saberes relativos. Na chamada p\u00f3s-modernidade, vemos anunciar-se uma impossibilidade de qualquer pretens\u00e3o no que se refere ao saber, de absolutiza\u00e7\u00e3o. Neste aspecto vemos presente no mesmo per\u00edodo uma crise de saberes absolutos e a afirma\u00e7\u00e3o da precariedade dos mesmos, o que por sua vez possibilita uma pluralidade de saberes sem que nenhum dos mesmos se autoproclame como verdade absoluta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um grande fator que ajudou no decl\u00ednio do saber foi o desenvolvimento das t\u00e9cnicas e das tecnologias a partir dos meados do s\u00e9culo XX. Mas, podemos levar em considera\u00e7\u00e3o que a quest\u00e3o da raz\u00e3o j\u00e1 come\u00e7a a sofrer seu decl\u00ednio a partir da revolu\u00e7\u00e3o industrial, pois, a partir da mesma se nota um conjunto de mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas, com grande impacto no processo produtivo, no n\u00edvel econ\u00f4mico e cultural. A revolu\u00e7\u00e3o industrial teve seu in\u00edcio na Inglaterra em meados do s\u00e9culo XVIII, e se expandiu pelo mundo a partir do s\u00e9culo XIX. Nesse per\u00edodo a m\u00e1quina foi implantada, e com isso suplantando o trabalho humano, surgiu o fen\u00f4meno de \u201ccultura de massa\u201d e o capitalismo tornou-se o sistema econ\u00f4mico vigente. Ap\u00f3s o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e tamb\u00e9m a prosperidade capitalista, o per\u00edodo da p\u00f3s-modernidade n\u00e3o consegue mais solidificar um saber como fundamento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Levemos em considera\u00e7\u00e3o que aconteceu a deslegitima\u00e7\u00e3o do saber especulativo hegeliano, pois este cont\u00e9m de modo inerente um ceticismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia verdadeira, por n\u00e3o ter descoberto uma legitimidade n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia verdadeira. Para o saber especulativo, a legitimidade do discurso cientifico deve se dar no pr\u00f3prio jogo da linguagem especulativa:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Surge assim a id\u00e9ia de perspectiva que n\u00e3o \u00e9 distante, pelo menos neste ponto, da dos jogos de linguagem. Tem-se a\u00ed um processo de deslegitima\u00e7ao cujo motor \u00e9 a exig\u00eancia de legitima\u00e7\u00e3o. A \u201ccrise\u201d do saber cient\u00edfico, cujos sinais se multiplicam desde o fim do s\u00e9culo XIX, n\u00e3o prov\u00e9m de uma prolifera\u00e7\u00e3o fortuita das ci\u00eancias, que seria ela mesma o efeito do progresso das t\u00e9cnicas e da expans\u00e3o do capitalismo. Ela procede da eros\u00e3o interna do principio de legitima\u00e7\u00e3o do saber. Esta eros\u00e3o opera no jogo especulativo, e \u00e9 ela que, ao afrouxar a trama enciclop\u00e9dica na qual cada ci\u00eancia devia encontrar seu lugar, deixa-as se emanciparem<\/em>. (LYOTARD, 1998, p.71)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desse jeito, no per\u00edodo p\u00f3s-moderno acontecem v\u00e1rias modifica\u00e7\u00f5es nas delimita\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas dos campos cient\u00edficos: disciplinas desaparecem, os limites das ci\u00eancias se cruzam aparecendo assim novos conhecimentos, a hierarquia especulativa dos conhecimentos \u00e9 substitu\u00edda por uma horizontalidade, faculdades se tornam institutos e por sua vez as universidades perdem sua fun\u00e7\u00e3o de legitima\u00e7\u00e3o especulativa, gerando mais professores que cientistas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em outro processo, na deslegitima\u00e7\u00e3o do dispositivo de emancipa\u00e7\u00e3o \u2013 Aufkl\u00e4rung \u2013 tamb\u00e9m est\u00e1 um poder interno de eros\u00e3o. Ora, se o discurso cient\u00edfico n\u00e3o pode ser considerado como verdadeiro, pois tudo s\u00e3o jogos de linguagem, tamb\u00e9m o discurso de emancipa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser justo, na medida em que \u00e9 guiado pelo saber cient\u00edfico. A caracter\u00edstica de fundamentar a legitimidade da ci\u00eancia, desvelando a verdade para proporcionar a autonomia social, pol\u00edtica e \u00e9tica aos interlocutores. Lyotard afirma:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Ora, esta legitima\u00e7\u00e3o, [&#8230;], constitui de imediato um problema: entre um enunciado denotativo de valor cognitivo e um enunciado prescritivo de valor pr\u00e1tico, a diferen\u00e7a \u00e9 a pertin\u00eancia, portanto de compet\u00eancia. Nada prova que, se um enunciado que descreve uma realidade \u00e9 verdadeiro, o enunciado prescritivo, que ter\u00e1 necessariamente por efeito modific\u00e1-la, seja justo<\/em>. (LYOTARD, 1998, p.72)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Essa divis\u00e3o da raz\u00e3o cognitiva e pr\u00e1tica, entra em choque com a tentativa da legitimidade do discurso cientifico, mostrando assim, que ela tamb\u00e9m \u00e9 um jogo de linguagem, com caracter\u00edsticas (regras) pr\u00f3prias, mas sem o dom de regulamentar o jogo pr\u00e1tico, sendo, ent\u00e3o, mais um jogo de linguagem entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Podemos ent\u00e3o apontar as principais implica\u00e7\u00f5es da deslegitima\u00e7\u00e3o dos metarrelatos apontados por Lyotard, s\u00e3o elas: a ci\u00eancia n\u00e3o pode legitimar mais a si pr\u00f3pria e nem a outros jogos de linguagem; a dispers\u00e3o dos jogos de linguagem anula o sujeito e torna a linguagem o v\u00ednculo social; o fracasso do dispositivo filos\u00f3fico especulativo moderno como discurso de legitima\u00e7\u00e3o e sustenta\u00e7\u00e3o do projeto emancipat\u00f3rio; a mudan\u00e7a dos s\u00e1bios em cientistas com um conhecimento fragment\u00e1rio; a filosofia especulativa humanista adquire o estudo da l\u00f3gica ou da hist\u00f3ria das id\u00e9ias; o aparecimento de um pessimismo generalizado, pois nenhuma pessoa domina todos os jogos de linguagem e n\u00e3o h\u00e1 uma meta-l\u00edngua universal; a supera\u00e7\u00e3o do pessimismo positivista por Wittgenstein, averiguando os jogos de linguagem em uma nova perspectiva de legitima\u00e7\u00e3o distinto do desempenho, caracter\u00edstica do mundo p\u00f3s-moderno onde n\u00e3o h\u00e1 mais nostalgia com o fim dos metarrelatos e nem a confian\u00e7a no amanh\u00e3 como barb\u00e1rie.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Percebemos que na p\u00f3s-modernidade h\u00e1 v\u00e1rias formas de conhecimento e com isso v\u00e1rias linguagens, mas sabemos tamb\u00e9m, que n\u00e3o conseguimos abarcar todas essas linguagens de conhecimento, n\u00e3o possu\u00edmos uma metal\u00edngua-universal, conforme sugere Lyotard. Com isso alguns se voltam para \u00e1reas particulares do conhecimento fazendo assim que o crescimento do conhecimento se amplie, mas de forma particular e em vastas \u00e1reas, dessa maneira se d\u00e1 a deslegitima\u00e7\u00e3o do saber. N\u00e3o sabemos se \u00e9 poss\u00edvel legitimar agora ou posteriormente um novo tipo de conhecimento como saber absoluto, pois o que percebemos \u00e9 que as t\u00e9cnicas as ci\u00eancias est\u00e3o em processo de amplia\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de retroa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">LYOTARD, Jean Fran\u00e7ois. <em>A condi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna. <\/em>5\u00aaed. Trad. Ricardo Correia. Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 1998.<\/p>\n<div id=\"-chrome-auto-translate-plugin-dialog\" style=\"display:none;opacity:1!important;background:transparent!important;position:absolute!important;top:0;left:0;overflow:visible!important;z-index:999999!important;text-align:left!important;border-color:none!important;margin:0!important;padding:0!important;\">\n<div style=\"max-width:300px!important;color:#121212!important;opacity:1!important;border:1px solid #363636!important;-webkit-border-radius:10px!important;background-color:#ffffff!important;font-size:16px!important;overflow:visible!important;background-image:0 color-stop(50%,#EEE), color-stop(100%,#FFF));z-index:999999!important;text-align:left!important;padding:8px!important;\"><\/div>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"position:absolute!important;z-index:-1!important;right:1px!important;top:-20px!important;cursor:pointer!important;-webkit-border-radius:20px;background-color:rgba(200,200,200,0.3)!important;margin:0!important;padding:3px 5px 0!important;\" src=\"http:\/\/www.google.com\/uds\/css\/small-logo.png\" alt=\"\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alan Lopes de Oliveira Na chamada p\u00f3s-modernidade percebemos que n\u00e3o h\u00e1 nenhum conhecimento legitimado, a nosso ver, de modo definitivo. 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