{"id":1231,"date":"2010-11-05T10:29:29","date_gmt":"2010-11-05T13:29:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1231"},"modified":"2010-11-05T10:29:29","modified_gmt":"2010-11-05T13:29:29","slug":"compreendendo-o-conceito-sartreano-de-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1231","title":{"rendered":"Compreendendo o conceito sartreano de liberdade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Rodrigo Artur Medeiros da Silva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tendo em vista que Jean-Paul Sartre (1905-1980) \u00e9 um autor conhecido e respeitado por seu pensamento de crivo existencialista no meio filos\u00f3fico, o presente artigo tentar\u00e1 explanar um pouco mais da compreens\u00e3o sartreana acerca do conceito de liberdade, conceito este que para ser fundamentado e, consequentemente, defendido, deve primeiro ser pensado como inerente ao ser humano bem como atrelado a outros conceitos tais como consci\u00eancia, ang\u00fastia e responsabilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em resumo, os tr\u00eas \u00faltimos conceitos supracitados s\u00e3o respectivamente entendidos no v\u00e9rtice filos\u00f3fico sartreano como o cimo que distingue o ser humano dos demais seres (MONDIN, 1983), a consequ\u00eancia de o ser humano n\u00e3o ser o tutor apenas de seu pr\u00f3prio destino, ou seja, do dever de suas escolhas serem ben\u00e9ficas tanto para si quanto para outrem (SARTRE, 1978) e, por fim, atrelada a esta tutela, como a consci\u00eancia de o homem ser o autor e o respons\u00e1vel pelos acontecimentos humanos de modo geral (SARTRE, 1997).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas vale ressaltar que embora, como fora dito, a consci\u00eancia eleve o ser humano com rela\u00e7\u00e3o aos demais seres, esse alce n\u00e3o pode ser entendido como no pensamento da modernidade, no qual \u00e9 de fato a consci\u00eancia \u2013 por\u00e9m entendida como raz\u00e3o \u2013 que distingue o ser humano em rela\u00e7\u00e3o aos demais seres como, por exemplo, com Descartes e Kant.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Descartes, ao inaugurar o per\u00edodo filos\u00f3fico moderno, transfere o conhecimento do transcendente para a consci\u00eancia do sujeito, uma vez que somente este a possui: o pensamento cartesiano concerne em o homem s\u00f3 afirmar algo extr\u00ednseco ap\u00f3s afirmar a sua exist\u00eancia. Enquanto Kant \u2013 p\u00f3s Descartes \u2013 idealiza o homem, devido \u00e0 sua consci\u00eancia, como objeto e horizonte de toda a filosofia, em virtude das faculdades de conhecer, fazer e esperar, as quais lhe s\u00e3o peculiares pela consci\u00eancia. Assim sendo, de certa forma pode-se entender a consci\u00eancia como ess\u00eancia do ser humano no per\u00edodo filos\u00f3fico moderno.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 a conceitua\u00e7\u00e3o de Sartre sobre consci\u00eancia discorre em conjeturar esta como <em>modo-de-ser<\/em><a href=\"#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> do ser humano e, portanto, como constitutivo essencial de cada <em>ser-para-si<\/em><a href=\"#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, o qual tem por tarefa, a partir da consci\u00eancia, projetar-se a ponto de almejar uma plenifica\u00e7\u00e3o de ser<a href=\"#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> \u2013 na linguagem sartreana, tornar-se um <em>ser-Em-si<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O conceito de liberdade no pensamento de Sartre \u00e9 entendido como consequ\u00eancia desse projetar humano por meio da consci\u00eancia, posto que o fato desta ser um <em>nada<a href=\"#_ftn4\"><sup><strong><sup>[4]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a>-de-ser<\/em> do <em>para-si<\/em> \u00e9 que o condiciona a uma situa\u00e7\u00e3o de liberdade na qual a \u00fanica escolha vigente \u00e9 a de ser um <em>Em-si<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Isso confirma a impossibilidade de um n\u00e3o atrelamento do conceito de liberdade ao conceito de consci\u00eancia, visto que, de acordo com o existencialismo sartreano, a liberdade decorre da consci\u00eancia, a ponto do <em>para-si <\/em>ser impresso pelo <em>nada-de-ser<\/em> num car\u00e1ter de condena\u00e7\u00e3o: \u201cTodo homem est\u00e1 condenado a ser livre\u201d (SARTRE, 1997).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Certamente esta condena\u00e7\u00e3o a que Sartre se refere acarreta no <em>para-si<\/em> um sentimento arraigado de ang\u00fastia pelo projetar de sua consci\u00eancia a um fim imposs\u00edvel: o homem, na vis\u00e3o de Sartre, jamais conseguir\u00e1 ser um ser plenamente acabado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Considerando, pois, esta condena\u00e7\u00e3o, o homem sartreano passa a ser o tutor de si mesmo como tamb\u00e9m da realidade <em>para-si<\/em> que o circunda. Essa tutela, por conseguinte, faz com que o sentido n\u00e3o apenas de si como tamb\u00e9m de outrem seja uma constitui\u00e7\u00e3o particular de cada ser humano; da\u00ed a fundamenta\u00e7\u00e3o argumentativa sartreana de que o homem est\u00e1 condenado, por si mesmo, a inventar o homem (SARTRE, 1978).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O encargo do <em>para-si<\/em> de dar sentido a si mesmo e ao outro faz com que o existencialismo sartreano margeie a contemporaneidade a afirmar o sujeito, tendo em vista que o homem, ao se perceber como um ser de responsabilidade, consequentemente deve perceber-se tamb\u00e9m como um ser de decis\u00f5es: as consequ\u00eancias do sentido que o <em>eu<\/em> d\u00e1 a si mesmo e ao outro dependem da forma como o <em>eu<\/em> conduzir\u00e1 o processo tutelar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Este, por sua vez, confirma o sentimento de ang\u00fastia presente no <em>para-si<\/em>, visto que at\u00e9 mesmo o fato de cada indiv\u00edduo n\u00e3o escolher tutelar a si mesmo e aos outros, j\u00e1 se trata de uma escolha, ou seja, n\u00e3o h\u00e1 como o <em>eu<\/em> n\u00e3o fazer escolhas, pois estas j\u00e1 lhe s\u00e3o indel\u00e9veis.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, considerando que, para Sartre, o conceito de liberdade restringe-se ao homem e \u00e0 sua forma de dar sentido a si mesmo e \u00e0 realidade que lhe \u00e9 exterior, e ainda, que este sentido s\u00f3 lhe \u00e9 poss\u00edvel devido \u00e0 sua consci\u00eancia, n\u00e3o seria equ\u00edvoco entender o existencialismo sartreano como pessimista. Ora, <em>para-si<\/em> \u2013 ao responsabilizar-se pelo significado de toda a realidade \u2013 angustia-se devido ao fato de todas as suas escolhas serem v\u00e3s no sentido de que nem ele pr\u00f3prio, nem seus convivas conseguir\u00e3o alcan\u00e7ar o futuro que vislumbram.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Isto corrobora a tese que atrela ao conceito de liberdade os conceitos de consci\u00eancia, ang\u00fastia e responsabilidade. A consci\u00eancia imprime em cada ser humano o car\u00e1ter do projetar-se, o qual, por sua vez, o condiciona a ser livre para buscar um fim \u00faltimo. Por fim, pela impossibilidade deste fim ser alcan\u00e7ado, o para-si se enxerga numa situa\u00e7\u00e3o que o angustia. (SILVA, 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MONDIN, Batista. <em>Curso de filosofia<\/em>: os fil\u00f3sofos do ocidente. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SARTRE, Jean Paul. <em>O existencialismo \u00e9 um humanismo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_____. <em>O ser e o nada<\/em>: ensaio de ontologia fenomenol\u00f3gica. Petr\u00f3polis: Vozes, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SILVA, Franklin Leopoldo. Liberdade em Sartre: somos livres para nos tornarmos livres. <em>Mente, c\u00e9rebro &amp; filosofia<\/em>. S\u00e3o Paulo, p. 55 &#8211; 61, jul. 2007<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<div>\n<hr size=\"1\" \/>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Modo-de-ser significa que o homem \u00e9 um ser inacabado. Mais adiante aparecer\u00e1 o conceito nada-de-ser que tem basicamente a mesma significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Ser-para-si em Sartre significa homem que se projeta.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> O homem busca fugir da sua condi\u00e7\u00e3o de ser em constru\u00e7\u00e3o e, por conseguinte, tornar-se um ser acabado.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Sartre conceitua a palavra \u201cnada\u201d no sentido de que o homem \u00e9 um ser em plena constru\u00e7\u00e3o. Logo, um nada-de-ser significa que o homem n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rodrigo Artur Medeiros da Silva &nbsp; Tendo em vista que Jean-Paul Sartre (1905-1980) \u00e9 um autor conhecido e respeitado por seu pensamento de crivo existencialista no meio filos\u00f3fico, o presente artigo tentar\u00e1 explanar um pouco mais da compreens\u00e3o sartreana acerca do conceito de liberdade, conceito este que para ser fundamentado e, consequentemente, defendido, deve primeiro &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[131,139],"tags":[186,224,368,457],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-1231","6":"format-standard","7":"category-rodrigo-artur-medeiros-da-silva-autores","8":"category-sartre","9":"post_tag-angustia","10":"post_tag-consciencia","11":"post_tag-liberdade","12":"post_tag-responsabilidade"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1231","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1231"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1231\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}