{"id":1237,"date":"2010-11-18T17:59:52","date_gmt":"2010-11-18T20:59:52","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1237"},"modified":"2010-11-18T17:59:52","modified_gmt":"2010-11-18T20:59:52","slug":"a-evolucao-historica-do-conceito-de-belo-na-estetica-de-hegel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1237","title":{"rendered":"A evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do conceito de belo na Est\u00e9tica de Hegel"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Gleison A. Martins Gomes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A est\u00e9tica surge do sistema filos\u00f3fico de Hegel (1770\u20131831) como parte importante da filosofia do esp\u00edrito. Na est\u00e9tica hegeliana se encontra impressionantes discursos ou confer\u00eancias ministradas por Hegel na Universidade de Berlim que foram registradas por amigos, disc\u00edpulos e ouvintes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na introdu\u00e7\u00e3o da <em>Est\u00e9tica<\/em>, Hegel apresenta com precis\u00e3o seu objetivo, que consiste em mostrar que a filosofia da arte &#8220;forma um anel necess\u00e1rio ao conjunto da filosofia&#8221;. Aqui n\u00e3o se pretende criar uma metaf\u00edsica qualquer da arte, mas pretende-se dar in\u00edcio a este tratado tendo como ponto de partida o &#8220;reino do belo&#8221;, do &#8220;dom\u00ednio da arte&#8221;. \u00c9 conveniente que a filosofia do belo seja inserida\u00a0 no conjunto do sistema filos\u00f3fico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A est\u00e9tica hegeliana n\u00e3o trata de quest\u00f5es das belezas diversas inerentes \u00e0s variadas manifesta\u00e7\u00f5es artisticas, pois tamanha diversidade impossibilitaria edificar uma ci\u00eancia com validade universal. O ponto de partida se d\u00e1 na ideia de Belo, de onde prov\u00e9m o conceito. O belo que interessa Hegel \u00e9 o belo artistico, que se origina da produ\u00e7\u00e3o do homem, excluindo assim o belo natural. Na concep\u00e7\u00e3o de Hegel o Belo artistico \u00e9 sempre superior ao belo natural, sendo ele uma produ\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, e o esp\u00edrito &#8220;sendo superior \u00e0 natureza, sua superioridade se comunica igualmente aos seus produtos, e por conseq\u00fc\u00eancia, \u00e0 arte&#8221; (HEGEL, p.2).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O conceito hegeliano de belo ideal \u00e9 a harmonia perfeita entre forma e conte\u00fado. Para Hegel, o conte\u00fado da arte \u00e9 sempre o absoluto. A arte evoluiu gradativamente, substituindo o principio est\u00e1tico ou pl\u00e1stico de beleza ideal, pelo principio ativo e reflexivo da subjetividade autoconsciente, de forma temporal e geogr\u00e1fica. O esp\u00edrito absoluto \u00e9 concebido, ele se manifesta hierarquicamente atrav\u00e9s da arte, religi\u00e3o e filosofia, como realiza\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito humano na hist\u00f3ria do mundo. A hist\u00f3ria e a arte evoluem na dire\u00e7\u00e3o que vai de leste para oeste. Do oriente, com sua rela\u00e7\u00e3o primitiva com a natureza, para o ocidente com suas formas espirituais ou racionais de produ\u00e7\u00e3o cultural. \u00c9 algo que resulta n\u00e3o se revelando imediatamente. Para Hegel, a superioridade ou liberdade do esp\u00edrito, pode ser identificada na arte. \u00c9 um processo de idealiza\u00e7\u00e3o ou espiritualiza\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria sens\u00edvel. Para ele, a natureza n\u00e3o possui uma forma ideal, ela n\u00e3o realiza efetivamente a beleza. O ideal \u00e9 um produto da atividade humana, fen\u00f4meno puramente art\u00edstico. O esp\u00edrito se encontra na natureza na forma latente de um \u201cser-em-si\u201d n\u00e3o podendo ser apreendido sensivelmente, mas apenas pelo pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Neste artigo, investigaremos o desenvolvimento do que est\u00e1 contido no conceito de ideal pela arte. Hegel incorpora a arte ao movimento do conceito, sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 tornar a ideia acess\u00edvel a nossa contempla\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da forma sens\u00edvel. Para que isto aconte\u00e7a \u00e9 necess\u00e1ria a fus\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o da ideia, do conte\u00fado e da forma. Assim, atinge o conceito da ess\u00eancia absoluta do belo art\u00edstico. O conte\u00fado passa por uma evolu\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s das representa\u00e7\u00f5es concretas da arte. As formas art\u00edsticas, na medida em que forem decifradas, d\u00e3o ao esp\u00edrito a consci\u00eancia de si pr\u00f3prio. Estas rela\u00e7\u00f5es se apresentam de tr\u00eas formas: na arte simb\u00f3lica, na arte cl\u00e1ssica e na arte rom\u00e2ntica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na arte simb\u00f3lica, a ideia acede \u00e0 consci\u00eancia de maneira indeterminada, absoluta e defeituosa. A forma \u00e9 direta e natural, exterior e indiferente incapaz de se harmonizar e encontrar sua verdadeira express\u00e3o art\u00edstica. O homem ainda n\u00e3o consegue dominar as grandes for\u00e7as da natureza, ele as concebe como infinito e absoluto. Para Hegel, esta etapa corresponde \u00e0 religi\u00e3o da natureza. A adequa\u00e7\u00e3o da ideia a forma, se d\u00e1 na arte cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A forma que a ideia utiliza conforma-se em si e para si, com o conceito descobre a forma da figura humana, pra represent\u00e1-la, exterioriz\u00e1-la e manifest\u00e1-la. O espiritual se manifesta em sua exist\u00eancia no tempo, atreves da forma humana. H\u00e1 a descoberta de que o absoluto est\u00e1 no homem e que o divino tem forma humana. As rela\u00e7\u00f5es entre o homem e a natureza passam a ser de car\u00e1ter social, \u00e9 o que Hegel chama de religi\u00e3o da individualidade espiritual. Mas, a arte cl\u00e1ssica acaba se sucumbindo por n\u00e3o conseguir ultrapassar a express\u00e3o da espiritualidade atrav\u00e9s da forma humana, sem se deixar absolver inteiramente pelo sens\u00edvel e corporal. N\u00e3o encontra na corporalidade humana os elementos adequados a sua exist\u00eancia. O absoluto s\u00f3 pode encontrar sua express\u00e3o na espiritualidade pura, que \u00e9 a beleza que realmente importa. O esp\u00edrito absoluto livre em si e para si, s\u00f3 existe como esp\u00edrito. Com classicismo, a arte adequou a ideia \u00e0 forma. Por ser apenas arte, n\u00e3o conseguiu libertar a ideia do sens\u00edvel. Houve a ruptura do conte\u00fado e da forma, provocando um regresso da arte \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o que existia na arte simb\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A est\u00e9tica e a arte t\u00eam a tarefa de fornecer formas concretas e cada vez mais efetivas da liberdade, alcan\u00e7ando uma harmonia livre e acabada. A forma da arte rom\u00e2ntica cumpre essa tarefa, pois, possui um conte\u00fado mais elevado do que da arte cl\u00e1ssica. Alcan\u00e7ou a ideia de que o esp\u00edrito \u00e9 s\u00edntese entre finito e infinito, humano e divino e \u00e9 neste momento que podemos dizer que nasce a arte rom\u00e2ntica ou crist\u00e3. Ela procura erguer-se a um n\u00edvel superior, atrav\u00e9s da cis\u00e3o entre a verdade e a representa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel. O conceito e a unidade subsistem, mas concebidos segundo o esp\u00edrito, independente do sens\u00edvel. A verdade s\u00f3 existe no esp\u00edrito, pelo esp\u00edrito e para o esp\u00edrito, e que s\u00f3 atrav\u00e9s dele se pode manifestar. O esp\u00edrito toma consci\u00eancia do fato de que \u00e9 unidade entre o finito e o infinito. A arte rom\u00e2ntica adquire um conte\u00fado que evoca representa\u00e7\u00f5es conhecidas. Do deus grego da arte cl\u00e1ssica, passa para o deus crist\u00e3o, que \u00e9 o absoluto, logo interioridade para si. A arte rom\u00e2ntica esfor\u00e7a-se para ultrapassar a si pr\u00f3pria, sem transpor os limites da arte. Na arte rom\u00e2ntica o ser- em- si, o espiritual o subjetivo serve para exprimir tudo o que se refere ao saber, ao sentimento a alma.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A unidade absoluta entre o mundo exterior e o conte\u00fado deixam de existir, o sens\u00edvel, a mat\u00e9ria em geral s\u00f3 na alma encontra a significa\u00e7\u00e3o. A ideia \u00e9 livre e independente, o esp\u00edrito alcan\u00e7ou um estado em que pode ser para si, est\u00e1 liberto da representa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel da forma, que aparece como simb\u00f3lica. A livre e concreta espiritualidade constitui o objeto da arte. O romantismo apresenta \u00e0s nossas profundidades espirituais procurando satisfazer a nossa interioridade subjetiva, a alma o sentimento que enquanto participante do esp\u00edrito, aspira \u00e0 liberdade para si. No romantismo, a ideia em comunh\u00e3o com a alma e o esp\u00edrito, subtrai-se a uni\u00e3o com o sens\u00edvel e o exterior, procura em si pr\u00f3pria a sua realidade. N\u00e3o \u00e9 preciso a meios sens\u00edveis para se manifestar, alcan\u00e7a o mais alto grau de perfei\u00e7\u00e3o, Hegel chama este momento de religi\u00e3o absoluta ou revela\u00e7\u00e3o, o cristianismo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Depois desse retorno espiritual a si mesmo, a obra de arte tem uma import\u00e2ncia cada vez menos decisiva, \u00e9 superada pela religi\u00e3o. Hegel diagnostica o \u201cfim da arte\u201d como supera\u00e7\u00e3o da imediatez da experi\u00eancia est\u00e9tica. Assim \u00e9 apresentada a progress\u00e3o do esp\u00edrito nas tr\u00eas etapas: a arte, a religi\u00e3o e a filosofia, que \u00e9 considerado como caminhos para a liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A liberdade \u00e9 o eixo fundamental de toda filosofia hegeliana, pra Hegel \u201ca liberdade consiste em superar a exterioridade das coisas: o sujeito reconhece no objeto sua pr\u00f3pria obra, sua cria\u00e7\u00e3o\u201d (GARAUDY, p.168).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Estas etapas s\u00e3o momentos de fus\u00e3o do objeto e do sujeito, do aprofundamento do conhecimento do absoluto, concebido como substancia e como sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A segunda etapa deste processo \u00e9 a religi\u00e3o. A consci\u00eancia da religi\u00e3o toma a forma da representa\u00e7\u00e3o, o absoluto desloca-se da objetividade da arte para interioridade do sujeito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em seguida temos a filosofia, que \u00e9 a supera\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o. Nesta o pensamento racional e livre realiza a unidade perfeita do sujeito e do objeto na transpar\u00eancia racional absoluta do puro saber.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo Hegel, \u201ca arte, a religi\u00e3o e a filosofia diferem somente pela forma, seu objeto \u00e9 o mesmo. Seu objeto comum \u00e9 a eleva\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito finito \u00e0 liberdade que \u00e9 a verdade absoluta, a consci\u00eancia da unidade do finito e do infinito\u201d (GARAUDY, p.168-9).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A filosofia da arte incorpora a historia da arte, para pensar o sistema da arte, como um sistema filos\u00f3fico, uma perspectiva nova de entender a est\u00e9tica. D\u00e1 a ela uma dimens\u00e3o hist\u00f3rica, coisas que eram pensadas como caracter\u00edsticas art\u00edsticas, passam a ser reflex\u00f5es filos\u00f3ficas. O pensar constitui a ess\u00eancia intima do esp\u00edrito, e valoriza a interpreta\u00e7\u00e3o da arte, pois esta nasce do esp\u00edrito e s\u00e3o guiadas por ele. A tarefa da arte s\u00f3 pode realizar-se historicamente. Introduzindo a historicidade no interior da verdade, Hegel estabelece a primazia do divino e do intelig\u00edvel. Incube ao filosofo, e n\u00e3o mais ao artista, a tarefa de reconciliar o esp\u00edrito e o mundo. A filosofia \u00e9 o momento definitivo em que o esp\u00edrito se possui em si mesmo. A arte, em seu desenvolvimento hist\u00f3rico est\u00e1 destinada a morrer, para que sejam formas mais elevadas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">BR\u00c1S, G\u00e9raid<strong>.<\/strong> <strong>Hegel e a Arte<\/strong><em>.<\/em> Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">GON\u00c7ALVES, M\u00e1rcia Cristina Ferreira<strong>.<\/strong> <strong>O belo e o destino<\/strong>: u<strong>ma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia de Hegel<\/strong><em>.<\/em> S\u00e3o Paulo: Loyola, 2001.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">GARAUDY, Roger<strong>. Para conhecer o pensamento de Hegel<\/strong><em>.<\/em> Trad. Suely Bastos. Porto Alegre: L&amp;P Editores, 1983.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">HEGEL, G. W Friedrich<strong>.<\/strong> <strong>Est\u00e9tica<\/strong><em>.<\/em> Trad. \u00c1lvaro Ribeiro, Orlando Vitorino. Lisboa: Guimar\u00e3es Editora, 1993.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gleison A. Martins Gomes &nbsp; A est\u00e9tica surge do sistema filos\u00f3fico de Hegel (1770\u20131831) como parte importante da filosofia do esp\u00edrito. Na est\u00e9tica hegeliana se encontra impressionantes discursos ou confer\u00eancias ministradas por Hegel na Universidade de Berlim que foram registradas por amigos, disc\u00edpulos e ouvintes. 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