{"id":124,"date":"2009-04-07T15:45:23","date_gmt":"2009-04-07T18:45:23","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=124"},"modified":"2009-04-07T15:45:23","modified_gmt":"2009-04-07T18:45:23","slug":"a-duvida-cartesiana-como-possibilidade-para-o-filosofar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=124","title":{"rendered":"A d\u00favida cartesiana como possibilidade para o filosofar"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Juliano Aparecido Pinto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>\u00c9 poss\u00edvel filosofar sem a desconstru\u00e7\u00e3o do \u00f3bvio?<\/em><\/p>\n<div><em> <\/em><\/div>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ren\u00e9 Descartes (1596-1650) \u00e9 o fil\u00f3sofo que inaugura o pensamento moderno. Inicialmente seu objetivo \u00e9 encontrar um fundamento para o saber e para a realidade, pois percebe que as antigas concep\u00e7\u00f5es est\u00e3o se desmoronando por causa dos avan\u00e7os no campo da ci\u00eancia e do surgimento de novas inst\u00e2ncias filos\u00f3ficas. Neste per\u00edodo h\u00e1 tamb\u00e9m grande confian\u00e7a no homem e no seu poder racional, diferentemente das concep\u00e7\u00f5es antigas e medievais que se fundamentavam em Deus ou no ser. Em Descartes o sujeito se torna o elemento mais importante no processo do conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Descartes percebe a necessidade de um novo m\u00e9todo para se chegar a um fundamento, ou seja, a uma id\u00e9ia que seja clara e distinta para que ele possa fundamentar todo saber a partir dela. Esse, por sua vez, n\u00e3o partir\u00e1 de um fundamento dado, mas sim em busca do mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Descartes se prop\u00f5e, primeiramente, a duvidar de toda tradi\u00e7\u00e3o que recebera como verdadeira, pois a considera inicialmente incerta visto que a mesma d\u00e1 possibilidade de d\u00favida:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>H\u00e1 j\u00e1 algum tempo eu me apercebi de que, desde meus primeiros anos, recebera muitas falsas opini\u00f5es como verdadeiras, e de que aquilo que depois eu fundei em princ\u00edpios t\u00e3o mal assegurados n\u00e3o podia ser sen\u00e3o mui duvidoso e incerto; de modo que me era necess\u00e1rio tentar seriamente, uma vez em minha vida, desfazer-me de todas as opini\u00f5es a que at\u00e9 ent\u00e3o dera cr\u00e9dito<\/em> [&#8230;]. (DESCARTES, <em>Medita\u00e7\u00f5es, <\/em>p. 85)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como se percebe, ele quer desconstruir toda tradi\u00e7\u00e3o, que at\u00e9 ent\u00e3o considerava como verdadeira. Descartes quer recome\u00e7ar a partir do zero, desde os fundamentos, a reconstruir seu pensamento, mas primeiro ele precisa desconstruir o que pressup\u00f5e como verdadeiro e isto se dar\u00e1 a partir da d\u00favida utilizada como m\u00e9todo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No primeiro livro das <em>Medita\u00e7\u00f5es<\/em>, Descartes afirma que dar\u00e1 cr\u00e9dito apenas \u00e0s coisas que n\u00e3o oferecerem a menor possibilidade de d\u00favida. Nesse sentido ele tamb\u00e9m ressalta que ir\u00e1 analisar os princ\u00edpios sobre os quais est\u00e3o fundamentadas todas as suas opini\u00f5es, pois se aqueles oferecerem possibilidade de d\u00favida tanto mais o ser\u00e1 duvidoso o que se fundamenta neles.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Inicia afirmando que todos os conhecimentos que recebera por meio dos sentidos eram duvidosos, visto que ele j\u00e1 fora enganado algumas vezes por estes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Tudo o que recebi, at\u00e9 presentemente, como o mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos sentidos ou pelos sentidos: ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos, e \u00e9 de prud\u00eancia nunca se fiar inteiramente em quem j\u00e1 nos enganou alguma vez.<\/em> (<em>Medita\u00e7\u00f5es,<\/em> p.85-86).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dito isto pode-se dizer que Descartes coloca em d\u00favida tudo que o diz respeito aos sentidos. Isto \u00e9 justificado quando ele sup\u00f5e que est\u00e1 dormindo e que o seu corpo e o mundo externo n\u00e3o passam de ilus\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Suponhamos, pois, agora, que estamos adormecidos e que todas essas particularidades, a saber, que abrimos os olhos, que mexemos a cabe\u00e7a, que estendemos as m\u00e3os, e coisas semelhantes, n\u00e3o passam de falsas ilus\u00f5es; e pensemos que talvez nossas m\u00e3os, assim como todo nosso corpo, n\u00e3o s\u00e3o tais como os vemos.<\/em> (<em>ibidem,<\/em> p.86)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Descartes tamb\u00e9m n\u00e3o pode aceitar inicialmente o conhecimento que vem da experi\u00eancia como verdadeiro, pois ela d\u00e1 possibilidade de d\u00favida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por fim, resta Deus. A respeito deste, Descartes ir\u00e1 supor que h\u00e1 n\u00e3o um Deus verdadeiro, mas um g\u00eanio maligno, que por sua vez pode engan\u00e1-lo a respeito do seu corpo, do mundo, da geometria e da aritm\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Descartes, por meio de suas reflex\u00f5es, chegar\u00e1 \u00e0 conclus\u00e3o de que embora duvide de tudo, de uma coisa n\u00e3o poderia duvidar: de que estaria pensando. Assim, chega ao <em>cogito ergo sum,<\/em> \u201cpenso logo existo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como se percebe, a d\u00favida cartesiana possibilita a reflex\u00e3o. Mas \u00e9 necess\u00e1rio ressaltar que em Descartes n\u00e3o h\u00e1 uma d\u00favida no sentido radical como queriam os c\u00e9ticos pirr\u00f4nicos, e sim uma d\u00favida met\u00f3dica, pois ela \u00e9 tomada como m\u00e9todo para alcan\u00e7ar algo de verdadeiro, que seja indubit\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Salienta-se a import\u00e2ncia de Descartes ter desenvolvido a d\u00favida como m\u00e9todo, pois at\u00e9 ent\u00e3o, devido \u00e1 concep\u00e7\u00e3o de algumas correntes cl\u00e1ssicas e medievais de verdade, em que havia a primazia da coisa, o sujeito ficava incapaz de duvidar, pois a verdade estava dada na coisa e o sujeito tinha apenas que interpret\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Qual a import\u00e2ncia da d\u00favida cartesiana hoje? A d\u00favida tomada nesse sentido possibilita ao fil\u00f3sofo exercer seu pensamento cr\u00edtico, sem se limitar ao dogmatismo, ao ceticismo ou ao conhecimento superficial. O fil\u00f3sofo deve ser aquele que n\u00e3o aceita as coisas como verdadeiras porque foram impostas ou porque fazem parte dos costumes, mas porque encontrou fundamentos racionais para aceit\u00e1-las.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pode-se dizer que Descartes revolucionou o pensamento filos\u00f3fico no sentido de perceber que a verdade \u00e9 uma busca constate feita pelo sujeito de pensamento livre e disposto a entrar na din\u00e2mica filos\u00f3fica. De fato, a d\u00favida cartesiana \u00e9 um princ\u00edpio para filosofar, pois ela faz com que o sujeito questione o que parece \u00f3bvio na realidade, e desse modo o faz construir seu pr\u00f3prio pensamento, o qual sempre ter\u00e1 em vista a clareza e a distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">DESCARTES, Ren\u00e9<em>. Medita\u00e7\u00f5es<\/em>. 3.ed.S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, G.; ANTISERI, D<em>. Historia da Filosofia<\/em>, vol. II.S\u00e3o Paulo: Paulus, 2004.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juliano Aparecido Pinto \u00c9 poss\u00edvel filosofar sem a desconstru\u00e7\u00e3o do \u00f3bvio? Ren\u00e9 Descartes (1596-1650) \u00e9 o fil\u00f3sofo que inaugura o pensamento moderno. 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