{"id":1246,"date":"2010-11-26T09:05:25","date_gmt":"2010-11-26T12:05:25","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1246"},"modified":"2010-11-26T09:05:25","modified_gmt":"2010-11-26T12:05:25","slug":"outrem-uma-relacao-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1246","title":{"rendered":"Outrem: uma rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Jo\u00e3o Paulo Rodrigues Pereira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>&#8220;A \u00e9tica n\u00e3o trata do mundo. A \u00e9tica deve ser uma condi\u00e7\u00e3o do mundo&#8230;&#8221; <\/em>(Wittgenstein)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pensar o ser humano em sua plenitude foi por muito tempo uma aud\u00e1cia filos\u00f3fica, n\u00e3o levaram em conta que ele, o ser humano, \u00e9 um ser que n\u00e3o se revela por inteiro, mas grande parte do que se \u00e9 se oculta atr\u00e1s do fen\u00f4meno. Contudo, pode se dizer, dentre as coisas que se sabe, que o ser humano \u00e9 um ser de rela\u00e7\u00f5es. A todo instante est\u00e1 se relacionando, seja com coisas ou pessoas. Mas, sobretudo, uma rela\u00e7\u00e3o o marca profundamente, a rela\u00e7\u00e3o com outrem, uma vez que este sempre o interpela.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Neste sentido, este artigo quer analisar a tem\u00e1tica do \u201coutro\u201d sobre o vi\u00e9s do fil\u00f3sofo Emanuel L\u00e9vinas (Litu\u00e2nia 1906\u20131995 Fran\u00e7a), tendo em vista que o \u201coutro\u201d \u00e9 o tema central de sua filosofia. Entretanto, o presente trabalho n\u00e3o tem a pretens\u00e3o de esgotar todo o conte\u00fado da filosofia de L\u00e9vinas, mas simplesmente tratar alguns aspectos que ressaltem a alteridade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Primeiramente, faz-se mister saber que, para L\u00e9vinas, a rela\u00e7\u00e3o com o outro \u00e9 desejo. O eu vai em dire\u00e7\u00e3o ao outro por causa do desejo metaf\u00edsico, o desejo de lan\u00e7ar-se para fora, visto que o Eu est\u00e1 farto da saciedade do mundo. Este desejo metaf\u00edsico n\u00e3o \u00e9 satisfa\u00e7\u00e3o de alguma necessidade, mas vai al\u00e9m da satisfa\u00e7\u00e3o, pois o \u201cdesejo \u00e9 desejo do absolutamente Outro\u201d (COSTA, 2000, p. 112.).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, este desejo \u00e9 insaci\u00e1vel, pois n\u00e3o \u00e9 \u201ccomo um Desejo que a posse do Desej\u00e1vel apazigua, mas como o desejo do infinito que o Desej\u00e1vel suscita, em vez de satisfazer\u201d (TI, p.38).\u00a0 Isto porque o outro \u00e9 sempre outro, \u00e9 inapreens\u00edvel, \u00e9 infinito \u2013 \u00e9 neste sentido que o outro interpela o Eu. Toda vez que ele se mostra, ele \u00e9 outro. \u201cO rosto de outrem destr\u00f3i em cada instante e ultrapassa a imagem pl\u00e1stica que ele me deixa\u201d (TI, p.38). Assim, se imp\u00f5e ao Eu com sua alteridade, isto \u00e9, nunca \u00e9 o mesmo. \u201cA outra pessoa \u00e9 \u2018absolutamente outra\u2019 com rela\u00e7\u00e3o ao eu e com rela\u00e7\u00e3o ao que o eu presume que ele \u00e9\u201d (HUTCHENS, 2007, p.37).\u00a0 Por isto, todas as vezes que se mostra, desfaz a id\u00e9ia que o eu tem dele:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>O Outro, que \u00e9 termo do movimento que nasce da partida do \u201cmesmo\u201d para&#8230;, \u00e9 outro num sentido especial. De modo algum pode ser absorvido, reduzido, totalizado, interiorizado, apropriado, representado, etc., pelo \u201co mesmo\u201d; \u00e9 uma exterioridade sempre exterior e \u00e9 uma alteridade sempre outra. \u201cO termo deste movimento \u2013 um outro lugar ou um outro \u2013 \u00e9 chamado outro num sentido eminente\u201d<\/em> (COSTA, 2000, p.112)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para L\u00e9vinas, o outro se expressa e se revela por meio do rosto, que \u00e9 sua epifania. Por\u00e9m, ela \u201cdeve ser entendida de modo inteiramente diverso da manifesta\u00e7\u00e3o&#8221; (SUSIN, 1984, p.207), pois na manifesta\u00e7\u00e3o est\u00e3o impl\u00edcitas todas as nuan\u00e7as de aparecimento e exibi\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o pr\u00f3prias do fen\u00f4meno. Mas a epifania deve ser entendida como revela\u00e7\u00e3o, pois o rosto n\u00e3o se faz fen\u00f4meno, uma vez que o rosto n\u00e3o \u00e9 um conte\u00fado que pode ser apreendido pelo intelecto, como uma verdade. \u201cO rosto est\u00e1 presente na sua recusa de ser conte\u00fado\u201d (TI, p.173).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O rosto n\u00e3o \u00e9 um dado que pode ser alcan\u00e7ado, algo que pode ser agarrado como um objeto que se coloca a m\u00e3o, algo captur\u00e1vel pelos sentidos. \u201cNeste sentido n\u00e3o poder\u00e1 ser compreendido, isto \u00e9, englobado. Nem visto, nem tocado \u2013 porque na sensa\u00e7\u00e3o visual ou t\u00e1ctil, a identidade do eu implica a alteridade do objecto que precisamente se torna conte\u00fado\u201d (TI, p.173). Isto \u00e9, enquanto as coisas se oferecem a mim como coisas dadas aos sentidos, o rosto n\u00e3o se oferece, ele recusa a ser conte\u00fado, ele recusa ser possu\u00eddo. Pois quando \u201cse v\u00ea um nariz, os olhos, uma testa, um queixo e se podem descrever, \u00e9 que nos voltemos para outrem como para um objeto. A melhor maneira de encontrar outrem \u00e9 nem sequer atentar na cor dos olhos!\u201d (EI, p.77)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Deste modo, o rosto \u00e9 express\u00e3o ou a manifesta\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia. \u201cEle \u00e9 express\u00e3o viva que fala por sua presen\u00e7a\u201d (COSTA, 2000, p.129). O rosto n\u00e3o precisa de outra coisa para ter sentido. Isto \u00e9, o rosto tem sentido por si mesmo. \u201cA face do outro tem significa\u00e7\u00e3o por si mesma, imp\u00f5e-se para al\u00e9m do contexto f\u00edsico social\u201d (REALE, 2008, p.425). Por ter significa\u00e7\u00e3o por si mesmo o \u201crosto fala\u201d (EI, p.79), e a primeira coisa que ele fala \u00e9 um imperativo categ\u00f3rico \u201ctu n\u00e3o matar\u00e1s\u201d \u2013 ou seja, far\u00e1s tudo para que o outro viva \u2013 isto porque \u201ca rela\u00e7\u00e3o com o rosto \u00e9, num primeiro momento, \u00e9tica\u201d (EI, p.79). Assim, o rosto \u00e9 express\u00e3o que na sua nudez proclama \u201cn\u00e3o cometer\u00e1s assass\u00ednio\u201d (TI, p.178), por isso, por excel\u00eancia, a epifania do rosto \u00e9 \u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, a alteridade faz com que outrem seja infinito \u2013 no sentido de que o eu n\u00e3o pode captur\u00e1-lo, absorv\u00ea-lo, visto que o outro \u00e9 sempre outro e, mesmo se revelando por meio de seu rosto, nunca poder\u00e1 ser englobado, pois sempre se revelar\u00e1 como absolutamente outro. Tendo em vista que o Eu quer se lan\u00e7ar para fora, para o absoluto, para o infinito, por causa do desejo metaf\u00edsico, se depara com outrem que por sua alteridade se faz infinito. Por isto, esta rela\u00e7\u00e3o com outrem \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o diferente, uma rela\u00e7\u00e3o que sempre interpela o Eu.\u00a0 \u00c9 tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica, uma vez que o rosto, significando por si mesmo, expressa em sua nudez, em seu primeiro dito, o imperativo \u201ctu n\u00e3o matar\u00e1s\u201d, convocando-o \u00e0 responsabilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">COSTA, M. L. <strong>L\u00e9vinas: <\/strong>Uma Introdu\u00e7\u00e3o. Petr\u00f3polis: Vozes, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">HUTCHENS, B, C. <strong>Compreender L\u00e9vinas. <\/strong>Petr\u00f3polis: Vozes, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">LEVINAS, Emmanuel. <strong>Totalidade e Infinito.<\/strong> Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_____. <strong>\u00c9tica e infinito. <\/strong>Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, G. ANTISERI, D.<strong> Hist\u00f3ria da Filosofia: <\/strong>De Nietzsche \u00e1 Escola de Frankfurt. 2\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SUSIN, L. C. <strong>O Homem Messi\u00e2nico: <\/strong>Uma introdu\u00e7\u00e3o ao pensamento de Emmanuel Levinas. Petr\u00f3polis: Vozes, 1984.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Paulo Rodrigues Pereira &nbsp; &#8220;A \u00e9tica n\u00e3o trata do mundo. 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