{"id":1252,"date":"2010-11-26T09:00:11","date_gmt":"2010-11-26T12:00:11","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1252"},"modified":"2010-11-26T09:00:11","modified_gmt":"2010-11-26T12:00:11","slug":"homem-e-linguagem-segundo-gadamer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1252","title":{"rendered":"Homem e linguagem segundo Gadamer"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Edivaldo de Oliveira Ribeiro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O presente artigo ter\u00e1 por objetivo falar sobre o tema da linguagem, conforme compreendida no pensamento de Gadamer, como o ponto central do ser humano. Ent\u00e3o, ao propor este tema \u00e9 necess\u00e1rio que se fale, tamb\u00e9m, sobre o homem, uma vez que a linguagem s\u00f3 pode existir por causa do homem e para o homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Neste sentido, Arist\u00f3teles classifica o homem como o ser vivo que possui \u201clogos\u201d (<em>zo\u00f3n logik\u00f3n<\/em>) sendo essa defini\u00e7\u00e3o canonizada na tradi\u00e7\u00e3o ocidental com a forma de que o homem \u00e9 o animal racional, o ser vivo racional, o ser que se distingue de todos os outros animais pela capacidade de pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por\u00e9m, a palavra \u201clogos\u201d, em sua origem, se expressa no sentido de raz\u00e3o, pensar, mas significa tamb\u00e9m linguagem. Ao definir o homem como <em>zo\u00f3n logik\u00f3n<\/em>, Arist\u00f3teles estabelece uma diferen\u00e7a entre o homem e o animal. Os animais possuem a capacidade de se entenderem mutuamente agindo de acordo com seus instintos sendo a eles permitido pela sua natureza chegarem somente a esse ponto. Ao contr\u00e1rio, ao homem foi dada a capacidade do \u201clogos\u201d, isto \u00e9, o homem \u00e9 o \u00fanico ser que possui a capacidade de raciocinar, pensar e falar. Por meio desta capacidade ele consegue dominar os seus instintos. \u201cPela fala o homem tem a capacidade de comunicar tudo o que pensa\u201d<a href=\"#_ftn1\"><sup><\/sup><sup>[1]<\/sup><\/a>. Falar aparece aqui no sentido de tornar vis\u00edvel ao outro, pela sua fala, algo que esteja ausente de modo que o outro tamb\u00e9m possa v\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, a linguagem n\u00e3o constitui o ponto central do pensamento filos\u00f3fico do ocidente. Embora o Antigo Testamento chame a aten\u00e7\u00e3o para o fato de Deus ter entregado ao homem o dom\u00ednio do mundo dando-lhe poder para nomear os seres como melhor lhe conviesse, fora \u201cjustamente a tradi\u00e7\u00e3o religiosa do Ocidente crist\u00e3o a principal e \u00fanica respons\u00e1vel pela paralisa\u00e7\u00e3o do pensamento acerca da linguagem.\u201d<a href=\"#_ftn2\"><sup><\/sup><sup>[2]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na \u00e9poca do Iluminismo a pergunta pela origem da linguagem segue um novo sentido. A partir da\u00ed, a linguagem passa a ser respondida n\u00e3o mais pelo relato da perspectiva hist\u00f3rica da cria\u00e7\u00e3o, mas a partir da pr\u00f3pria natureza do homem. O que definiu este novo horizonte da linguagem foi admitir no homem uma faculdade esclarecedora do regimento estrutural, a qual n\u00f3s chamamos de gram\u00e1tica, sintaxe, vocabul\u00e1rio da linguagem. Com esse modo de pensar, o fen\u00f4meno da linguagem adquire o significado de um campo de express\u00e3o eminente, no qual \u00e9 poss\u00edvel estudar a ess\u00eancia do homem e sua evolu\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria. No entanto, por esta via, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel penetrar nos postulados centrais do pensamento filos\u00f3fico porque a defini\u00e7\u00e3o cartesiana de consci\u00eancia como autoconsci\u00eancia encontra-se no pano de fundo de todo pensamento moderno.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E na filosofia contempor\u00e2nea a filosofia da linguagem chega a seu \u00e1pice. Segundo Gadamer, \u201ca palavra \u201clogos\u201d significa n\u00e3o apenas pensamento e linguagem, mas tamb\u00e9m conceito e lei\u201d<a href=\"#_ftn3\"><sup><\/sup><sup>[3]<\/sup><\/a>, ou seja, o conceito da linguagem pressup\u00f5e uma consci\u00eancia da liguagem que quer dizer um movimento reflex\u00edvel no qual o sujeito pensante reflete a partir da realiza\u00e7\u00e3o inconsciente da linguagem. O verdadeiro enigma da linguagem, por\u00e9m, \u00e9 que isso jamais se deixa alcan\u00e7ar plenamente. \u201cTodo pensar sobre a linguagem, pelo contr\u00e1rio, j\u00e1 foi sempre alcan\u00e7ado pela linguagem\u201d<a href=\"#_ftn4\"><sup><\/sup><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nos nossos pensamentos e conhecimentos somos sempre precedidos pela interpreta\u00e7\u00e3o do mundo feita por meio da linguagem. Nesse sentido, a linguagem expressa nossa real e verdadeira finitude. Todo indiv\u00edduo, por\u00e9m, quando se expressa ou fala n\u00e3o possui uma verdadeira consci\u00eancia daquilo que est\u00e1 expressando, falando. Quando temos em mente algo para dizer e nos vem \u00e0 mem\u00f3ria uma palavra que soa estranha, nos perguntamos: \u201cpode-se dizer isso?\u201d. \u00c9 nesse momento que a linguagem que falamos torna-se consciente por n\u00e3o fazer o que \u00e9 \u201cseu pr\u00f3prio\u201d. Para entedermos o que seria esse \u201cseu pr\u00f3prio\u201d \u00e9 necess\u00e1rio, pois, divid\u00ed-lo em tr\u00eas apectos:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O primeiro \u00e9 o esquecimento de si mesmo de que adv\u00e9m a linguagem. A linguagem viva n\u00e3o tem consci\u00eancia de sua pr\u00f3pria estrutura, gram\u00e1tica, sintaxe, etc., isto \u00e9, de tudo aquilo que a linguagen tematiza. Mas \u201co verdadeiro sentido da linguagem \u00e9 aquilo que adentramos quando a ouvimos: o dito\u201d<a href=\"#_ftn5\"><sup><\/sup><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O segundo \u00e9 a aus\u00eancia de um eu. Nesse sentido, o falar n\u00e3o pertence ao eu, mas a n\u00f3s, pois quem fala uma l\u00edngua que ningu\u00e9m compreende, simplesmente n\u00e3o fala nada. Falar significa falar a algu\u00e9m. A palavra quer ser palavra que vai ao encontro de algu\u00e9m. A realidade do falar consiste no di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E o terceiro aspecto pode-se chamar de universalidade da linguagem. A linguagem n\u00e3o constitui um \u00e2mbito fechado do que pode ser dito, pois ela \u00e9 oniabrangente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, segundo Gadamer, pode-se dizer que:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>a linguagem \u00e9, pois, o centro do ser humano, quando considerado no \u00e2mbito que s\u00f3 ela consegue preencher: o \u00e2mbito da conviv\u00eancia humana, o \u00e2mbito do entendimento, do consenso crescente t\u00e3o indispens\u00e1vel \u00e0 vida humana como o ar que respiramos. Realmente o homem \u00e9 o ser que possui linguagem segundo a afirma\u00e7\u00e3o de Arist\u00f3teles. Tudo que \u00e9 humano deve poder ser dito entre n\u00f3s<\/em><a href=\"#_ftn6\"><sup><\/sup><sup>[6]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A partir de tais fatos, conclui-se que a linguagem \u00e9 o ponto central do ser humano. \u00c9 a partir dela que o homem se faz presen\u00e7a e possui a capacidade de agir no mundo e interagir com o mesmo. O homem \u00e9, de fato, um ser vivo dotado de linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">GADAMER, Hans-Georg.<em> Verdade e M\u00e9todo II: Complementos e \u00edndice. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de \u00canio Paulo Giachini. Petr\u00f3polis: Vozes, 2002.<\/p>\n<div>\n<hr size=\"1\" \/>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> GADAMER, 2002. p. 173.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> GADAMER, 2002. p. 174.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> GADAMER, 2002. p. 176<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Idem<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> GADAMER, 2002. p. 179<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> GADAMER, 2002. p. 182.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edivaldo de Oliveira Ribeiro &nbsp; O presente artigo ter\u00e1 por objetivo falar sobre o tema da linguagem, conforme compreendida no pensamento de Gadamer, como o ponto central do ser humano. 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