{"id":1304,"date":"2011-02-06T10:01:51","date_gmt":"2011-02-06T13:01:51","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1304"},"modified":"2011-02-06T10:01:51","modified_gmt":"2011-02-06T13:01:51","slug":"o-esclarecimento-na-era-mitica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1304","title":{"rendered":"O Esclarecimento na era m\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Daniel Filipe da Silva<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Este artigo tem por finalidade apresentar o conceito de <em>Esclarecimento<\/em> em Theodor W. Adorno e Max Horkheimer<a href=\"#_ftn1\"><sup><\/sup><sup>[1]<\/sup><\/a>, segundo o Excurso Primeiro \u2013 \u201cUlisses ou mito e Esclarecimento\u201d &#8211; da obra <em>A dial\u00e9tica do esclarecimento <\/em>publicada em 1947.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que a express\u00e3o <em>Esclarecimento<\/em> significa se encontra expl\u00edcito na primeira parte da obra mencionada acima e \u00e9 intitulada <em>Conceito de Esclarecimento<\/em>, segundo a qual, \u201cesclarecimento \u00e9 desencantamento do mundo\u201d (DUARTE, 2004,<strong> <\/strong>p.27), pois \u00e9 uma tentativa de o homem dominar a natureza, vencer as amea\u00e7adoras for\u00e7as naturais atrav\u00e9s do conhecimento, i. \u00e9, da ci\u00eancia, da racionalidade, que vem caracterizando o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, h\u00e1 s\u00e9culos (idem).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por\u00e9m, segundo Adorno, antes mesmo de a ci\u00eancia ser usada como uma arma pelo homem, para que ele pudesse intervir nos processos naturais, o ser humano, por meio do feiti\u00e7o ou por outras a\u00e7\u00f5es, acreditava interferir neles.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Inicialmente, afirma-se, de passagem, que, para Adorno, o elemento b\u00e1sico do mito \u00e9 a proje\u00e7\u00e3o do subjetivo na natureza, pois:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>O sobrenatural, o esp\u00edrito e os dem\u00f4nios seriam imagens especulares dos homens que se deixam amedrontar pelo natural [&#8230;] Todas as figuras m\u00edticas podem se reduzir, segundo o Esclarecimento, ao mesmo denominador, a saber, ao sujeito<\/em> (DUARTE, 2004,<strong> <\/strong>p.52).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Adorno, nos primeiros versos do Excurso Primeiro, chama a aten\u00e7\u00e3o para a proximidade que h\u00e1 entre a epop\u00e9ia, que, por sua vez, \u00e9 um poema longo sobre assuntos grandiosos e her\u00f3icos, e o mito, uma vez que, em Homero, ambos \u2013 epop\u00e9ia e mito, forma e conte\u00fado- confrontam-se e se esclarecem mutuamente e, al\u00e9m disso, \u201ct\u00eam de fato em comum: domina\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o\u201d (ADORNO; HORKHEIMER, 1947, p. 55).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outra semelhan\u00e7a entre epop\u00e9ia e mito \u00e9 que neles, de certo modo, o s\u00e1bio \u00e9 aquele que, ao mesmo tempo, exp\u00f5e-se mais audaciosamente \u00e0 amea\u00e7a da morte, na qual se torna duro e forte para a vida (idem, p. 56).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ulisses, conforme apresentado por Homero na <em>Odiss\u00e9ia<\/em>, e o viajante civilizado \u2013 portugueses e espanh\u00f3is \u2013 no per\u00edodo colonial s\u00e3o exemplos perfeitos de s\u00e1bio, posto que, para sa\u00edrem vencedores nas aventuras, usaram, como recurso, o perder-se para se conservar. Essa <em>ast\u00facia<\/em> \u00e9 explicitada no momento em que Ulisses \u201clogra as divindades da natureza como tamb\u00e9m depois no instante em que o viajante civilizado lograr\u00e1 os selvagens oferecendo-lhes contas de vidro coloridas em troca de marfim\u201d (DUARTE, 2004,<strong> <\/strong>p.55).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Deve-se reconhecer, de antem\u00e3o, que s\u00e3o poucas as vezes em que Ulisses aparece fazendo trocas, a saber: quando se d\u00e3o e se recebem os presentes de hospitalidade, estes est\u00e3o a meio caminho entre a troca e o sacrif\u00edcio, uma vez que se \u201cdeve pagar pelo sangue n\u00e3o incorrido seja do estrangeiro, seja do residente vencido pelos piratas para selar a paz\u201d (ADORNO; HORKHEIMER, 1947, p. 57).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Adorno, \u00e9 poss\u00edvel derivar dos sacrif\u00edcios a racionaliza\u00e7\u00e3o, pois \u201co pr\u00f3prio sacrif\u00edcio j\u00e1 aparece como o esquema m\u00e1gico da troca racional, uma cerim\u00f4nia organizada pelos homens com o fim de dominar os deuses\u201d (DUARTE, 2004,<strong> <\/strong>p.56).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Cr\u00ea tamb\u00e9m que a parte desempenhada pelo logro no sacrif\u00edcio \u00e9 o prot\u00f3tipo das ast\u00facias de Ulisses e \u00e9 exatamente assim que muitos estratagemas s\u00e3o armados \u00e0 maneira de um sacrif\u00edcio oferecido \u00e0s divindades da natureza, p. ex.: Quando os et\u00edopes ofereciam sacrif\u00edcios a Poss\u00eaidon, para que ele n\u00e3o lan\u00e7asse a sua c\u00f3lera contra Ulisses (ADORNO; HORKHEIMER, 1947, p. 58).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nesses sacrif\u00edcios, que Poss\u00eaidon aceitou prazerosamente, j\u00e1 estava envolvido um logro, dado que, para ele se saciar dos bois et\u00edopes, deveria, em troca, dar vaz\u00e3o \u00e0 sua c\u00f3lera contra Ulisses (idem, p. 58).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O logro presente no sacrif\u00edcio, al\u00e9m disso, adquire um elemento do car\u00e1ter, uma mutila\u00e7\u00e3o do her\u00f3i astuto, arrojado pelo mar, cuja fisionomia est\u00e1 marcada pelos golpes que deferiu contra si mesmo a fim de se auto-conservar (idem, p. 61).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O sacrif\u00edcio tem uma teoria, que o relaciona \u00e0 representa\u00e7\u00e3o do corpo coletivo, da tribo, \u00e0 qual deve refluir, como for\u00e7a, o sangue derramado do membro da tribo. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso dizer que, no sacrif\u00edcio, a racionalidade e a irracionalidade se complementam e, por esta, o princ\u00edpio do sacrif\u00edcio se mostra ef\u00eamero, por\u00e9m, ao mesmo tempo, ele perdura por aquela (idem, p. 60).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quanto ao canibalismo, o qual \u00e9 dif\u00edcil distinguir dos sacrif\u00edcios, Adorno diz que o car\u00e1ter ilus\u00f3rio dessa racionalidade b\u00e1rbara pode ter sido revelado antes da forma\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es populares.\u00a0 A express\u00e3o <em>canibalismo<\/em> designa o fato de que o coletivo s\u00f3 consegue sobreviver provando a carne humana.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E, no caso dos sacrif\u00edcios feitos por Ulisses, afirma que, ao mesmo tempo, ele \u00e9 v\u00edtima e sacerdote, que se sacrifica para abolir os sacrif\u00edcios, pois:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>Sua ren\u00fancia senhoril \u00e9, enquanto luta com o mito, representativo de uma sociedade que n\u00e3o precisa mais da ren\u00fancia e da domina\u00e7\u00e3o: que se tornou senhora de si mesma, n\u00e3o para fazer viol\u00eancia a si mesma e aos outros, mas para a reconcilia\u00e7\u00e3o<\/em> (ADORNO; HORKHEIMER, 1947, p. 60).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1, no que concerne aos presentes hom\u00e9ricos, conv\u00e9m ainda dizer que anunciam o princ\u00edpio do equivalente e toda navega\u00e7\u00e3o na Gr\u00e9cia Antiga mostra isso, pois nela os her\u00f3is negociavam com Poss\u00eaidon, logrando-o:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:90px;\"><em>O hospedeiro recebe real ou simbolicamente o equivalente de sua presta\u00e7\u00e3o [&#8230;] e mesmo que o hospedeiro n\u00e3o receba nenhuma compensa\u00e7\u00e3o imediata, ele pode ter a certeza de que ele pr\u00f3prio ou seus parentes ser\u00e3o recebidos da mesma maneira<\/em> (ADORNO; HORKHEIMER, 1947, p. 57).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E quanto \u00e0s aventuras de Ulisses, nas quais sai vitorioso narradas na <em>Odiss\u00e9ia <\/em>de Homero, Adorno reconhece que s\u00e3o todas elas perigosas sedu\u00e7\u00f5es que desviam o <em>eu<\/em> da trajet\u00f3ria de sua l\u00f3gica. Ele sempre se cede a cada nova sedu\u00e7\u00e3o, experimenta-a como um aprendiz incorrig\u00edvel e \u00e9, at\u00e9 mesmo, impelido por uma tola curiosidade. Aqui, a express\u00e3o <em>eu<\/em> designa o ser humano ao qual n\u00e3o se credita mais a for\u00e7a m\u00e1gica da substitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ele percebe que o mito revela ou descreve o trajeto de fuga de um personagem diante das pot\u00eancias m\u00edticas, p. ex.: as obras <em>Il\u00edada<a href=\"#_ftn2\"><sup><strong><sup>[2]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a> <\/em>e <em>Odiss\u00e9ia<\/em><a href=\"#_ftn3\"><sup><\/sup><sup>[3]<\/sup><\/a>, e a oposi\u00e7\u00e3o entre o eu sobrevivente e as m\u00faltiplas aventuras do destino, expressando assim a oposi\u00e7\u00e3o do esclarecimento ao mito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Essas oposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o nitidamente reveladas, sobretudo, no epis\u00f3dio da viagem errante de Tr\u00f3ia a \u00cdtaca na obra <em>Odiss\u00e9ia<\/em>, em que se desvela um caminho percorrido atrav\u00e9s dos mitos por um homem fisicamente muito fraco em face \u00e0s for\u00e7as da natureza (idem, p. 56), mas que faz dos sacrif\u00edcios um meio para venc\u00ea-las, domin\u00e1-las, por sua pr\u00f3pria decis\u00e3o racional.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As viagens descritas na <em>Odiss\u00e9ia<\/em> foram de grande relev\u00e2ncia, possibilitaram a\u00a0 desmitifica\u00e7\u00e3o da natureza, pois \u201cpermitiram ver o lugar com o seu nome e ter uma vis\u00e3o de conjunto e racional do espa\u00e7o\u201d (ibidem, p.56).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao ver de Adorno e de Horkheimer, no mito, todos os personagens t\u00eam o seu papel a ser cumprido, dado que cada um \u201c\u00e9 obrigado a fazer sempre a mesma coisa. Todas elas consistem na repeti\u00e7\u00e3o\u201d (idem, p. 63).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por\u00e9m, \u00e9 exatamente contra isso que Ulisses vai lutar, procurando romper com todas as rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas que o encerravam, amea\u00e7avam-no e que, de certo modo, est\u00e3o inscritas em cada figura m\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, para fazer essa ruptura, ele usar\u00e1 de sua ast\u00facia, como se v\u00ea no epis\u00f3dio das sereias, no qual Ulisses, preso ao mastro, ouvia a linda can\u00e7\u00e3o das sereias, mas n\u00e3o se ajuntava a elas, apesar da viol\u00eancia de seus desejos, posto que, al\u00e9m de ele estar amarado, os seus companheiros, que estavam a remar, tinham seus ouvidos tapados de cera e, portanto, n\u00e3o ouviam nem a can\u00e7\u00e3o das semideusas e nem os gritos desesperados de seu comandante (idem, p. 64).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E, por meio de tal ast\u00facia, Ulisses se apercebe do dualismo, quanto \u00e0 id\u00e9ia de que a palavra deveria ter um poderio imediato sobre as coisas e, posteriormente, nota tamb\u00e9m que uma mesma palavra pode significar coisas diferentes, p. ex.: Ulisses se autonomina ningu\u00e9m ao Ciclope, dado que, por meio de um trabalho racional, descobriu que \u201co nome Oudesis pode ser atribu\u00eddo tanto ao her\u00f3i, quanto a ningu\u00e9m\u201d (idem, p. 65), o que lhe possibilitou lograr o Ciclope &#8211; a quem Homero tacha de \u201cmonstro que pensa sem lei\u201d, dado que seu pensamento \u00e9, assistem\u00e1tico, raps\u00f3dico, pois n\u00e3o foi capaz de se d\u00e1 conta do sof\u00edstico duplo sentido do nome falso dito por Ulisses (idem, p. 69).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, \u00e9 preciso deixar n\u00edtido que o sucesso dessa artimanha s\u00f3 foi poss\u00edvel, porque Ulisses j\u00e1 havia feito o c\u00e1lculo de que o Polifemo responderia ningu\u00e9m, quando fosse indagado por sua tribo, quanto ao nome do culpado, e isso ajudaria a ocultar o acontecido, possibilitando-lhe a fuga da persegui\u00e7\u00e3o, \u2018estabelecendo assim o dom\u00ednio sobre a natureza\u2019, o que d\u00e1 a impress\u00e3o de que seja uma racionaliza\u00e7\u00e3o (idem, p. 71).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quanto \u00e0 poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o entre as palavras Ulisses<em> <\/em>[<em>Odisseus<\/em>] e nada<em> <\/em>[<em>Oudeis<\/em>], Adorno afirma que elas possuem grafias diferentes, por\u00e9m a pron\u00fancia \u00e9 muito semelhante [hom\u00f3fono] e \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel imaginar que, em algum dos dial\u00e9tos, em que se transmitisse a hist\u00f3ria do retorno a \u00cdtaca, o nome do rei desta ilha fosse de fato um hom\u00f3fono do nome ningu\u00e9m (idem, p. 71).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outro epis\u00f3dio no qual Ulisses, mais uma vez, por meio de sua ast\u00facia, consegue lograr a mais uma das pot\u00eancias m\u00edticas, que \u00e9 representada por Circe, que \u00e9 uma feiticeira que encantava os homens e os transformava em animais, por\u00e9m Ulisses escapa de sua magia, pois, antes de dormir com ela, ele a faz proferir o juramento dos bem-aventurados, que o protege da mutila\u00e7\u00e3o, da vingan\u00e7a, do seu encanto e submetendo-a a seu dom\u00ednio (idem, p. 74).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, ap\u00f3s ter realizado o objetivo desse artigo, que \u00e9 o de apresentar o conceito de Esclarecimento em Adorno e Horkheimer, segundo o Excurso Primeiro \u2013 \u201cUlisses ou mito e Esclarecimento\u201d, \u00e9 preciso dizer que Adorno muito contribui com o seu pensamento para a filosofia, uma vez que procura olhar, com profundidade, para sociedade, o que o torna um pensador \u00edmpar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O reflexo disso se v\u00ea na sua obra <em>A dial\u00e9tica do esclarecimento<\/em>, a qual \u00e9 considerada de grande relev\u00e2ncia, dado que nela s\u00e3o tratados temas atuais, p. ex.: a devasta\u00e7\u00e3o da natureza pelo homem, a opress\u00e3o das mulheres, o racismo e a estultifica\u00e7\u00e3o das pessoas pelos meios de comunica\u00e7\u00f5es sociais, tornando assim a obra, verdadeiramente, \u00edmpar n\u00e3o s\u00f3 no cen\u00e1rio filos\u00f3fico contempor\u00e2neo, mas tamb\u00e9m em todo o pensamento ocidental (DUARTE, 2004,<strong> <\/strong>p.8)<em>.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No seu pensamento, v\u00ea-se expresso o empenho em se tentar mostrar o quanto, desde o per\u00edodo m\u00edtico, o homem vem se esfor\u00e7ando para estabelecer e estender o seu dom\u00ednio sobre a natureza, i. \u00e9, para obter o esclarecimento &#8211; o desencantamento do mundo \u2013 e que, para a realiza\u00e7\u00e3o desse fim, num primeiro momento, ele usar\u00e1 dos sacrif\u00edcios &#8211; que \u00e9 uma forma de lograr as grandes for\u00e7as naturais (idem,<strong> <\/strong>p.56) &#8211; e de outros artif\u00edcios contando com a sua ast\u00facia, como fez Ulisses, um dos maiores representantes da era m\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outro fato importante \u00e9 que, ao se estudar a Hist\u00f3ria da Filosofia, recebe-se a afirma\u00e7\u00e3o, quase que unanime entre alguns pensadores e comentadores, de que a filosofia \u2013 o trabalho racional &#8211; surge na passagem do mito ao Logos. Aquele sendo considerado o per\u00edodo infantil do conhecimento, em que o homem n\u00e3o conseguindo explica por via racional os fen\u00f4menos humanos e naturais, recorria \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o para explic\u00e1-los, atribuindo-lhes como causa os deuses. Por outro lado, o logos \u00e9 exatamente o per\u00edodo em que se busca uma explica\u00e7\u00e3o racional para os fatos humanos e naturais, por\u00e9m, em alguns momentos, recorrendo-se ao mito, p. ex.: Plat\u00e3o com o <em>Mito do Carro Alado<\/em><a href=\"#_ftn4\"><sup><\/sup><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ou seja, \u00e9 como se o per\u00edodo m\u00edtico fosse um tempo em reinava a irracionalidade e na Era do logos fosse o momento racional. Mas, ao ver de Adorno e Horkheimer, n\u00e3o \u00e9 bem assim, pois cr\u00eaem que no mito, j\u00e1 exista um trabalho racional que tem como fim o <em>Esclarecimento <\/em>\u2013 o desencantamento do mundo \u2013 uma tentativa de o homem dominar a natureza, vencer as for\u00e7as naturais amea\u00e7adoras atrav\u00e9s do conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. <em>Dial\u00e9tica do esclarecimento<\/em>: fragmentos filos\u00f3ficos. Trad. Guido Ant\u00f4nio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. [1947]<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">DUARTE, Rodrigo Antonio de Paiva. <em>Adorno \/ Horkheimer e a dial\u00e9tica do esclarecimento<\/em>. 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MONDIN, Battista. <em>Curso de filosofia<\/em>: os fil\u00f3sofos do Ocidente. vol.3. Trad. Ben\u00f4ni Lemos. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1983.<\/p>\n<div>\n<hr size=\"1\" \/>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Theodor Adorno e Max Horkheimer pertencem \u00e0 Escola de Frankfurt e s\u00e3o dois amigos que n\u00e3o se limitaram a se encontrar freq\u00fcentemente, a participar das mesmas alegrias e das mesmas dores, trocando id\u00e9ias, discutindo programas e formulando teorias.\u00a0 Al\u00e9m disso, pensaram e escreveram juntos, de modo que, em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel estabelecer, com exatid\u00e3o, qual deles \u00e9 autor de um escrito ou de uma tese (MONDIN, 1983, p. 259). Nas obras escritas com a colabora\u00e7\u00e3o de Horkheimer, Adorno estuda problemas fundamentais, como relativos \u00e0 natureza do progresso, ao valor da ci\u00eancia e \u00e0 estrutura da sociedade, o que torna percept\u00edvel que o seu interesse especulativo se estende \u00e0 sociologia, \u00e0 est\u00e9tica, \u00e0 gnosiologia e \u00e0 ci\u00eancia. Quanto a esta, faz uma cr\u00edtica de que \u201cao inv\u00e9s de extirpar, de vez, a cren\u00e7a e supersti\u00e7\u00e3o, acaba engendrando uma mitologia\u201d (DUARTE, 2004,<strong> <\/strong>p.9).<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Ocupa-se da narra\u00e7\u00e3o da Guerra de Tr\u00f3ia.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Narra o retorno de Ulisses de Tr\u00f3ia a \u00cdtaca.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Por ele, Plat\u00e3o procura explicar a origem da alma e o motivo por que est\u00e1 aprisionada no corpo \u2013 compreendido por este fil\u00f3sofo como c\u00e1rcere da mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Filipe da Silva &nbsp; Este artigo tem por finalidade apresentar o conceito de Esclarecimento em Theodor W. Adorno e Max Horkheimer[1], segundo o Excurso Primeiro \u2013 \u201cUlisses ou mito e Esclarecimento\u201d &#8211; da obra A dial\u00e9tica do esclarecimento publicada em 1947. O que a express\u00e3o Esclarecimento significa se encontra expl\u00edcito na primeira parte da &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[3,15,60],"tags":[256,276,277,393,395,491],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-1304","6":"format-standard","7":"category-adorno","8":"category-daniel-filipe-da-silva","9":"category-horkheimer","10":"post_tag-dialetica-do-esclarecimento","11":"post_tag-esclarecimento","12":"post_tag-escola-de-frankfurt","13":"post_tag-mito","14":"post_tag-mitologia","15":"post_tag-teoria-critica"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1304","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1304"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1304\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1304"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1304"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1304"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}