{"id":1334,"date":"2011-04-02T12:59:58","date_gmt":"2011-04-02T15:59:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1334"},"modified":"2011-04-02T12:59:58","modified_gmt":"2011-04-02T15:59:58","slug":"aprendendo-a-ouvir-com-plutarco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1334","title":{"rendered":"Aprendendo a ouvir com Plutarco"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>F\u00e1bio Avelar Salmen<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A atitude de ouvir adquire especial import\u00e2ncia nos dias atuais, marcados pelo imediatismo e pela superficialidade das pessoas, impregnados pela mentalidade materialista e consumista que nos \u00e9 transmitida cotidianamente pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o social. H\u00e1bitos tradicionais de nossa cultura, como o das conversas no ambiente familiar ou o do escutar prega\u00e7\u00f5es nos ambientes religiosos, hoje competem com a sensa\u00e7\u00e3o de perda de tempo e com a autossufici\u00eancia desenvolvida nos meios estudantil e profissional, carregados de um tecnicismo que supervaloriza apenas o conhecimento pr\u00e1tico e de aplica\u00e7\u00e3o utilit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A arte do bem ouvir, tratada pelo autor nos prim\u00f3rdios da era crist\u00e3, destaca o sentido da audi\u00e7\u00e3o como de maior valor entre os demais, por relacionar-se mais com a raz\u00e3o do que com as paix\u00f5es. Segue-se que os bons ouvintes estar\u00e3o mais pr\u00f3ximos da condi\u00e7\u00e3o de liberdade, dado que esta seja um merecimento daqueles que se guiam pela raz\u00e3o. Ouvir e aprender com os outros s\u00e3o elementos de import\u00e2ncia especial desde a educa\u00e7\u00e3o infantil \u00e0 idade adulta, com \u00eanfase especial \u00e0 juventude, cujos ouvidos s\u00e3o o \u00fanico meio de conquistar sua alma para a virtude, segundo Plutarco<a href=\"#_ftn1\"><strong><sup><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/sup><\/strong><\/a>, para quem o bom educador \u00e9 aquele que ensina a ouvir (PLUTARCO, 2003, p. 3-7).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>Como Ouvir<\/em> traz a marca de ferramenta educacional, voltada principalmente para a juventude daquele tempo, considerada por Plutarco como suscept\u00edvel a deixar-se levar mais por aspectos da arte da ret\u00f3rica e da apar\u00eancia externa dos declamadores e oradores, frequentes no cen\u00e1rio grego do primeiro s\u00e9culo. Capra (2002) observa que as palavras tornaram-se a forma principal da comunica\u00e7\u00e3o humana ao longo do processo evolutivo da humanidade; Plutarco (2003, p. 9) enfatiza a import\u00e2ncia desse ve\u00edculo, colocando a palavra como base para a produ\u00e7\u00e3o de frutos virtuosos e para evitar o desvio para o v\u00edcio. A imaturidade juvenil, que predisp\u00f5e os jovens \u00e0 influ\u00eancia de palavras v\u00e3s, aumenta, consequentemente, a possibilidade de tal desvio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A problem\u00e1tica apontada pelo autor, n\u00e3o obstante voltada para o tempo em que vivia, \u00e9 adequada aos dias atuais, em que a juventude acha-se exposta \u00e0 car\u00eancia educacional para a viv\u00eancia de valores relacionais e comportamentais. A atualidade do tema n\u00e3o se limita aos mais jovens, estendendo-se a grande parcela da popula\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o preparada para o bom ouvir e ainda exposta ao conte\u00fado polarizado de mensagens que nos s\u00e3o transmitidas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o social. Segundo Chau\u00ed (2000), empresas de divulga\u00e7\u00e3o social realizam a sele\u00e7\u00e3o do que pode e deve ser ouvido pelos grupos sociais existentes. Assim, tornamo-nos presas f\u00e1ceis para influ\u00eancias v\u00e1rias, n\u00e3o raro restritivas e alienadoras, que nos chegam de forma <em>massificante<\/em> e, muitas vezes, de dif\u00edcil percep\u00e7\u00e3o, obscurecendo, dessa maneira, o papel libertador da raz\u00e3o nos seres humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os ensinamentos transmitidos por Plutarco adquirem, assim, import\u00e2ncia ainda maior no cen\u00e1rio hodierno. De que forma ser\u00e1 poss\u00edvel auxiliar as pessoas a se desenvolverem como tais, sen\u00e3o pelo aprendizado com seus semelhantes? Como n\u00e3o agir para evitar o crescimento da insensibilidade das pessoas, em muito decorrente do n\u00e3o entendimento de aspectos importantes do seu cotidiano? Arduini (2002) postula que a perda da sensibilidade torna o ser humano insens\u00edvel, estupidificado, levando a insensibilidade a converter-se em crueldade, entorpecimento, brutalidade. Segundo ele, pessoas insens\u00edveis s\u00e3o imperme\u00e1veis e nada consegue atingi-las. Cen\u00e1rio p\u00e9treo \u00e0 primeira vista, paradoxalmente enrijece-nos a convic\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia da predisposi\u00e7\u00e3o para ouvir, combatendo a autossufici\u00eancia e o orgulho e colocando as pessoas em posi\u00e7\u00e3o receptiva para aprender com os outros. Plutarco (2003, p. 14-16) nos chama a aten\u00e7\u00e3o para esse aspecto, e adverte para o pequeno proveito que os arrogantes e invejosos conseguem obter das palavras ouvidas, postura que podemos, com alguma aten\u00e7\u00e3o, identificar em situa\u00e7\u00f5es de conviv\u00eancia em nosso cotidiano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O resgate do aprendizado auditivo torna-se relevante e urgente se queremos contribuir para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade melhor; o esfor\u00e7o come\u00e7a em cada um de n\u00f3s, j\u00e1 que tamb\u00e9m somos frutos do referido processo educacional deficiente, enquanto relativo a posturas comportamentais sobre como ouvir bem. Plutarco (2003, 13) louva a import\u00e2ncia da paci\u00eancia e do esfor\u00e7o para n\u00e3o interromper quem fala, lembrando que at\u00e9 nossas express\u00f5es corporais podem necessitar de corre\u00e7\u00e3o caso caracterizem falta de respeito para com nossos interlocutores. Lages e O\u2019Connor (2004) refor\u00e7am a import\u00e2ncia da postura do ouvinte, colocando fatores que prejudicam o ouvir de forma produtiva, como o pr\u00f3prio di\u00e1logo interno, talvez sobre outro assunto que n\u00e3o o colocado pelo interlocutor, e a tens\u00e3o muscular, que torna dif\u00edcil prestar aten\u00e7\u00e3o ao outro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A postura de aprendizado recomendada pela sabedoria do s\u00e9c. I ensina ainda que a cr\u00edtica gratuita endere\u00e7ada a quem fala, comum aos muitos que prezam o falar em detrimento do ouvir, \u00e9 vazia e pouco relevante, uma vez que sendo f\u00e1cil criticar, os que o fazem esquecem-se de seus pr\u00f3prios erros e do trabalho e compet\u00eancia requeridos para produzir discurso alternativo digno de valor. Aos que, como Plat\u00e3o (1972, p. 153), acreditamos ser o ensino a arte mais apropriada para combater a ignor\u00e2ncia, \u00e9 requerido combater aquele arrogante \u201ccoaxar no p\u00e2ntano das opini\u00f5es\u201d por meio de contribui\u00e7\u00f5es fundamentadas e relevantes, que, por sua vez, constituam-se em elemento educacional efetivo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O aprendizado do bem ouvir, n\u00e3o obstante requeira empenho de ambos os part\u00edcipes do processo, educadores e aprendizes, apresenta-se como urg\u00eancia hodierna tanto pelo aspecto da promo\u00e7\u00e3o de melhorias relacionais como pelo potencial em despertar as pessoas para a virtude; assim, atua como elemento de igni\u00e7\u00e3o para fazer acender a chama motivadora existente dentro de cada um para a pr\u00e1tica do bem, esperan\u00e7a que todos os educadores alimentamos no caminho da constru\u00e7\u00e3o de um mundo melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ARDUINI, Juvenal. <em>Antropologia: <\/em>ousar para reinventar a humanidade. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">CAPRA, Fritjof. <em>As conex\u00f5es ocultas: ci\u00eancia para uma vida <\/em>sustent\u00e1vel. Tradu\u00e7\u00e3o de Marcelo Brand\u00e3o Cipolla. S\u00e3o Paulo: Pensamento-Cultrix, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">CHAU\u00cd, Marilena. <em>Convite \u00e0 filosofia<\/em>. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica. 2000.<em> <\/em>Dispon\u00edvel em &lt;http:\/\/www.cfh.ufsc.br\/~wfil\/convite.pdf&gt; . Acesso em 23 mar. 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">LAGES, Andrea, O\u2019CONNOR, Joseph. <em>Coaching com PNL: <\/em>o guia pr\u00e1tico para alcan\u00e7ar o melhor em voc\u00ea e em outros. Tradu\u00e7\u00e3o de Celso Roberto Paschoa. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">PLAT\u00c3O. Di\u00e1logos. O banquete. F\u00e9don, Sofista, Pol\u00edtico.\u00a0 In: ______. <em>F\u00e9don, Sofista, Pol\u00edtico<\/em>. Tradu\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Cavalcante de Souza (O banquete) e Jorge Paleikat e Jo\u00e3o Cruz Costa (F\u00e9don, Sofista, Pol\u00edtico). S\u00e3o Paulo: Abril, 1972. p. 137-203.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">PLUTARCO. <em>Como ouvir. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Carlos Cabral Mendon\u00e7a. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">WIKIPEDIA. <em>Plutarco. <\/em>Dispon\u00edvel em &lt;http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Plutarco&gt;. Acesso em 09 jun. 2010.<\/p>\n<div>\n<hr size=\"1\" \/>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Plutarco (46 a 126 d.C.), conhecido como Plutarco de Queroneia, Gr\u00e9cia, foi fil\u00f3sofo e prosador do per\u00edodo greco-romano. Estudou na Academia de Atenas (fundada por Plat\u00e3o), sendo atribu\u00edda a ele a autoria de mais de 200 livros. Al\u00e9m de biografias de gregos e romanos, deixou muitos tratados e escritos sobre filosofia, moral, cr\u00edtica liter\u00e1ria e pedagogia, conhecidos genericamente por <em>Moralia.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F\u00e1bio Avelar Salmen &nbsp; A atitude de ouvir adquire especial import\u00e2ncia nos dias atuais, marcados pelo imediatismo e pela superficialidade das pessoas, impregnados pela mentalidade materialista e consumista que nos \u00e9 transmitida cotidianamente pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o social. 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