{"id":1338,"date":"2011-04-02T12:33:30","date_gmt":"2011-04-02T15:33:30","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1338"},"modified":"2011-04-02T12:33:30","modified_gmt":"2011-04-02T15:33:30","slug":"renascimento-do-teocentrismo-ao-antropocentrismo-uma-nova-visao-acerca-do-homem-e-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1338","title":{"rendered":"Renascimento: do teocentrismo ao antropocentrismo, uma nova vis\u00e3o acerca do homem e do mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Leandro Marcos Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>\u201c\u00d3, suprema liberdade de Deus Pai! \u00d3, suprema e admir\u00e1vel felicidade do homem! Homem ao qual foi concedido obter aquilo que deseja e ser aquilo que quer. [&#8230;]\u201d <\/em>Pico de Mir\u00e2ndola.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">O renascimento constitui um per\u00edodo de muitas transforma\u00e7\u00f5es e de import\u00e2ncia impar para a hist\u00f3ria da humanidade e do pensamento filos\u00f3fico, al\u00e9m de ter contribu\u00eddo significativamente para o avan\u00e7o cient\u00edfico. \u00c9 de suma import\u00e2ncia se ter conhecimento deste per\u00edodo da hist\u00f3ria para se compreender o desenrolar do homem moderno ap\u00f3s a Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Houve no per\u00edodo renascentista uma reformula\u00e7\u00e3o na forma com que o homem se comportava e vislumbrava o mundo. Essa mudan\u00e7a de comportamento e paradigmas se deu devido a diversos fatores que ser\u00e3o abordados logo mais neste artigo e que vale apena ler para compreender o que de fato motivou t\u00e3o grandiosa transforma\u00e7\u00e3o para a hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Atrav\u00e9s de obras de hist\u00f3ria da filosofia e tamb\u00e9m valendo-se do subsidio da Hist\u00f3ria geral, foi poss\u00edvel fazer uma pesquisa bastante abrangente e diversificada para se compreender tal per\u00edodo, que deixou seu legado na filosofia, na hist\u00f3ria, nas artes e nas ci\u00eancias. Analisar estas multiformes tomadas pelo per\u00edodo renascentista \u00e9 compreender uma grande mudan\u00e7a nos paradigmas do homem, que acabara de sair da Idade M\u00e9dia e se deparava com a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia e tamb\u00e9m com a natureza que estava a sua volta, a qual deveria ser explorada para ser compreendia de forma racional e sistematizada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No per\u00edodo renascentista, o homem passa a ter compreens\u00e3o mais antropoc\u00eantrica do seu ser e a cerca de sua realidade (o que n\u00e3o exclu\u00eda a possibilidade da exist\u00eancia de Deus, eles admitiam o ser transcendente e que possu\u00eda no \u00e2mago do seu ser algo divino, que possibilitava ao homem ver-se como um portador da gra\u00e7a e n\u00e3o apenas como um pecador miser\u00e1vel, esta nova perspectiva se faz materializada nas obras de artes que exaltavam a supremacia do ser humano e a sua respectiva beleza). Tem-se neste per\u00edodo, entre os s\u00e9culos XV e XVI, uma nova leitura acerca do mundo e dos pensamentos acerca da natureza, at\u00e9 ent\u00e3o sacralizados e dogmatizados pela forte influ\u00eancia que o poder da Igreja exercia no per\u00edodo medieval.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Houve tamb\u00e9m, uma produ\u00e7\u00e3o cultural, art\u00edstica e cient\u00edfica muito significativa neste per\u00edodo, perpassar pelos principais pensadores desta \u00e9poca hist\u00f3rica, \u00e9 uma forma de tamb\u00e9m adentrar no pensamento do homem renascentista, que abre espa\u00e7o para a seculariza\u00e7\u00e3o do mundo e um avan\u00e7o sem precedente para as ci\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cO renascimento \u00e9 assim nomeado, por fazer uma retomada hist\u00f3rica \u00e0s refer\u00eancias da antiguidade\u201d (SHMIDT, 2005). Houve um interesse muito grande acerca dos escritos gregos para se compreender o homem no seu atual est\u00e1gio. Foi uma forma de retomada a cultura antiga.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Houve todo um contexto hist\u00f3rico que contribuiu para que houvesse essa reflex\u00e3o mais antropoc\u00eantrica acerca do Homem, tais transforma\u00e7\u00f5es foram \u00e0 transi\u00e7\u00e3o do feudalismo para o capitalismo mercantil (sec. XV) e \u201ca ascens\u00e3o da burguesia, que atrav\u00e9s da acumula\u00e7\u00e3o de capital advinda do com\u00e9rcio internacional, investia uma parte deste lucro na constru\u00e7\u00e3o de pal\u00e1cios, igrejas e obras publicas\u201d (ARRUDA, 1997, p.110). A cria\u00e7\u00e3o da imprensa tamb\u00e9m foi um fator de suma import\u00e2ncia, pois possibilitou a autonomia crescente dos fil\u00f3sofos e escritores e pesquisadores da natureza que se desvinculassem da Igreja. Al\u00e9m das grandes navega\u00e7\u00f5es, que estimulou o estudo cient\u00edfico do espa\u00e7o terrestre e de sua rela\u00e7\u00e3o com o universo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com o renascimento, houve um novo modo de pensar e compreender o homem e o mundo, que se multiplicavam nas id\u00e9ias dos pensadores. Deus passa a n\u00e3o ser mais o protagonista dos questionamentos do homem, que agora descobrira em si uma fonte inesgot\u00e1vel de inspira\u00e7\u00e3o e conhecimento, assim o homem e a natureza tornam-se centros quase que un\u00e2nime dos questionamentos. A natureza que o envolvia, a raz\u00e3o que o dominava, as ci\u00eancias que se desenvolviam, tudo isto mudou de forma significativa a forma com que o homem vislumbrava o mundo. O universo j\u00e1 n\u00e3o era visto de forma mais puramente religiosa e dogmatizado, mas de forma racional e emp\u00edrica, imparciais aos valores advindos da cultura medieval.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>N\u00e3o houve uma filosofia oficial renascentista. Entretanto, os pensadores renascentistas se identificavam com o chamado humanismo, que eram defensores da vis\u00e3o antropoc\u00eantrica. Os humanistas se preocupavam em recuperar obras gregas e romanas antigas que tinham sido esquecidas [&#8230;] Os humanistas renascentistas se interessavam pelos valores do individuo de um modo desconhecido da antiguidade ou na Idade M\u00e9dia. Exemplo o fil\u00f3sofo Michael de Montaigne, que escreveu um livro cujo tema era sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/em> (SHMIDT,2005, p. 135)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O Renascimento teve impacto em diversas \u00e1reas, como nas ci\u00eancias. Abriu-se possibilidades de se descobrir empiricamente a realidade que estava no mundo, de forma experimental e ben\u00e9fica para o desenrolar das ci\u00eancias. Muitos cientistas afirmavam que se poderia chegar \u00e0 verdade das coisas usando de forma bem empregada a raz\u00e3o. A verdade agora n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o vinculada \u00e0s cren\u00e7as e religi\u00f5es, mas sim na raz\u00e3o, que para os renascentistas, era capaz de explicar toda a realidade. Com esta certeza, o homem passa a ter uma vis\u00e3o mais racional acerca da realidade, abrindo um precedente para se pensar no mundo, de forma bem diferente como era concebido pelo homem da Idade M\u00e9dia e muito mais ampla. O olhar sobre o mundo ganha vida quase que pr\u00f3pria, uma perspectiva mais geogr\u00e1fica e cientifica sobre o universo \u00e9 desencadeada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nas artes, essa liberdade e autonomia advindo do pensar renascentista, fez com que a arte fosse valorizada por si mesma, n\u00e3o como algo ligado e valorativa a religi\u00e3o. A beleza est\u00e9tica \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o da mais pura liberdade humana, e \u00e9 nesta \u00e1rea em espec\u00edfico que o homem se sentiu livre para expressar toda a sua beleza e autonomia.\u00a0 Houve uma produ\u00e7\u00e3o riqu\u00edssima de belas obras, fruto desse novo homem que acabara de se deparar com a beleza do mundo, do universo, do pr\u00f3prio homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na pol\u00edtica, houve um enfraquecimento do poder pol\u00edtico do papado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Surgem fora da It\u00e1lia, os Estados nacionais e na It\u00e1lia, as rep\u00fablicas e as senhorias. Trata-se nos dois casos, de regimes que nos quais se respira liberdade e nos quais se procura mais o bem-estar material do que espiritual dos cidad\u00e3os. Agora, a preocupa\u00e7\u00e3o dos governantes n\u00e3o est\u00e3o mais votadas para Deus e a Igreja, mas para os pr\u00f3prio s\u00faditos, e muitas vezes, para o interesse pr\u00f3prio e para pr\u00f3pria fam\u00edlia.<\/em> (MONDIN, 1981, p.9)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esta s\u00e9rie de mudan\u00e7as ajudou a impulsionar a nova concep\u00e7\u00e3o de mundo e homem da renascen\u00e7a. O principal nome nesta \u00e1rea da pol\u00edtica foi Maquiavel, que na sua obra <em>\u201cO Principe\u201d<\/em>, se disp\u00f5e a escrever sobre o estado ideal, composto por uma \u201cpol\u00edtica como resultado da experi\u00eancia das coisas modernas e da continua liga\u00e7\u00e3o das antigas.\u201d (MONDIN, 1981, p.9).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No campo da religi\u00e3o o homem se deparava com uma igreja hier\u00e1rquica, que intermediava o homem e Deus. Esta institui\u00e7\u00e3o fort\u00edssima na Idade M\u00e9dia vai sendo alvo de diversos cismas, e questionamentos acerca dos abusos das rel\u00edquias e das indulg\u00eancias, al\u00e9m da imoralidade do clero e da crise que enfrentava a autoridade do papa. Todos estes problemas referente \u00e0s estruturas da igreja n\u00e3o podiam interferir no esp\u00edrito do homem renascentista, que passa a ser mais c\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o. Lutero faz uma nova leitura acerca deste sentimento e promove uma reforma na Igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E por fim, na filosofia, houve uma preocupa\u00e7\u00e3o de conceituar de forma sistematizada esta nova concep\u00e7\u00e3o de homem e das coisas, advindas da matura\u00e7\u00e3o do pensar do homem renascentista.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>A filosofia em sua qualidade de dimens\u00e3o do esp\u00edrito, ela se empenha em viver suas crises, sua mudan\u00e7as e suas transforma\u00e7\u00f5es. Foi o que ela fez na renascen\u00e7a, participando da angustia interior que atormentava o homem daquele tempo, entregue a conquista da pr\u00f3pria autonomia e liberdade.<\/em> (MONDIN<strong>, <\/strong>198,<strong> <\/strong>p.14)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os principais fil\u00f3sofos foram Pomponazzi (1462-1525), Giodarno Bruno (1548-1600), Campanella (1509-1588), Erasmo de Roterd\u00e3 (1469-1536), Bondin (1529-1596), Maquiavel (1469-1527), Thomas Morus (1480-1535), Montaigne (1533-1592).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando o ser humano muda de perspectiva de vida, ele se depara com algo novo, que o faz desafiar os limites da sua pr\u00f3pria raz\u00e3o. O homem tem sua autonomia fundamentada na sua racionalidade, com ela ele vislumbra a imensid\u00e3o do mundo, sem antes ter medo dessa imensid\u00e3o, este \u00e9 apenas mais um salto para que a sua raz\u00e3o alcance ainda mais \u00e1reas que n\u00e3o foram posta a seu conhecimento. O per\u00edodo renascentista ilustra bem estas palavras, com fatores que possibilitaram um novo modo de ver o mundo, o homem inaugura em sua realidade elementos que s\u00e3o capazes de modificar a estrutura social, pol\u00edtica, cientifica, cultural e filos\u00f3fica da sua \u00e9poca, algo de extrema aud\u00e1cia, que impulsiona a esp\u00e9cie humana a conhecer mais profundamente o mundo que o cerca, fazendo deste mundo um lugar de experi\u00eancias m\u00faltiplas e riqu\u00edssimas, que faz emergi v\u00e1rios sentimentos, como angustia, felicidade, realiza\u00e7\u00e3o e autonomia. Em conclus\u00e3o, o renascimento nos mostra o quanto o homem pode inovar em sua capacidade de pensar o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ARRUDA, Jos\u00e9 Jobson. <strong>Hist\u00f3ria integrada<\/strong>: da idade m\u00e9dia ao nascimento do mundo moderno. 4\u00aa Ed. S\u00e3o Paulo: Editora \u00c1tica, 1997. (V. 2)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MONDIN, Battista. <strong>Curso de filosofia<\/strong>: os fil\u00f3sofos. 2\u00aa Ed. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1981.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <strong>Hist\u00f3ria da filosofia<\/strong>: do humanismo a Kant. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1990. (Cole\u00e7\u00e3o filosofia, v.2)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SHMIDT, Mario Furley. <strong>Nova hist\u00f3ria cr\u00edtica: <\/strong>ensino m\u00e9dio. S\u00e3o Paulo: Nova Gera\u00e7\u00e3o, 2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leandro Marcos Costa \u201c\u00d3, suprema liberdade de Deus Pai! \u00d3, suprema e admir\u00e1vel felicidade do homem! Homem ao qual foi concedido obter aquilo que deseja e ser aquilo que quer. [&#8230;]\u201d Pico de Mir\u00e2ndola. 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