{"id":1348,"date":"2011-04-02T12:58:14","date_gmt":"2011-04-02T15:58:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1348"},"modified":"2011-04-02T12:58:14","modified_gmt":"2011-04-02T15:58:14","slug":"a-morte-em-montaigne","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1348","title":{"rendered":"A morte em Montaigne"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Renato Cesar de Lima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quem nunca teve a curiosidade, nem que seja m\u00ednima, de saber como \u00e9 o primeiro segundo ap\u00f3s a morte? Nunca ningu\u00e9m \u201cretornou\u201d para contar. J\u00e1 se ouviu experi\u00eancias de pessoas que alegam terem presenciado o momento p\u00f3s-morte. Mas nada concreto. Para Montaigne<a href=\"#_ftn1\"><sup><\/sup><sup>[1]<\/sup><\/a>, a express\u00e3o morrer vai muito al\u00e9m de seu sentido natural que normalmente \u00e9 empregado. Para ele, h\u00e1 duas formas de se deparar (ou ter a experi\u00eancia) com a morte: o estudo e a contempla\u00e7\u00e3o. \u201cMeditar sobre a morte \u00e9 meditar sobre a liberdade\u201d (<em>Ensaios<\/em>, XX: Filosofar \u00e9 aprender a morrer) e \u00e9 basicamente sobre isso que ele tanto insiste em seus ensaios. E \u00e9 de alguma forma que este estudo e esta contempla\u00e7\u00e3o nos levam a uma experi\u00eancia extracorp\u00f3rea.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A morte nos surpreende de v\u00e1rias formas, leva a todos sem distin\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a, cor, nacionalidade, idade&#8230; De Reis e Rainhas ao Papa e ao pr\u00f3prio Jesus Cristo. \u00c9 a \u00fanica certeza deste mundo: de que um dia morreremos. E para onde iremos? Ningu\u00e9m sabe. \u00c9 por isso que Montaigne compara o fato da morte com o filosofar. \u201cTemo que tenhamos os olhos maiores do que a barriga, e mais curiosidade do que capacidade.\u201d. E assim \u00e9 o mundo hoje. Se filosofar \u00e9 raciocinar tirando indu\u00e7\u00f5es, argumentar, discutir com sutileza, Montaigne vai muito al\u00e9m. Todas as reflex\u00f5es, argumenta\u00e7\u00f5es que se observam neste mundo nos levam a um pensar \u00fanico: n\u00e3o ter medo de morrer. At\u00e9 mesmo as Sagradas Escrituras revelam que n\u00e3o h\u00e1 a necessidade de se ter medo da morte ou mesmo do que vem antes ou ap\u00f3s ela, pois todo o esfor\u00e7o tende \u00e0 felicidade e o bem viver. \u201cEm Montaigne o Ceticismo convive com uma f\u00e9 sincera, porque ele \u00e9 estrutural desconfian\u00e7a na raz\u00e3o e, justamente por isso, n\u00e3o pode por em causa a f\u00e9\u201d (REALE; ANTISERI, 2005).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A vida virtuosa \u00e9 equiparada a vida feliz, sendo essa virtude tudo aquilo que faz o homem ser bom naquilo que \u00e9 fazendo ser aquilo que deve ser. Sendo que \u00e0 luz do pensamento de Montaigne, ele mesmo conclui que um dos principais benef\u00edcios da virtude \u00e9 o menosprezo pela morte. Em seus escritos, Montaigne aponta para o acontecer inevit\u00e1vel e universal da morte e da prepara\u00e7\u00e3o para a mesma. N\u00e3o h\u00e1 idade para morrer, nem lugar. E o motivo desta morte pode ser de qualquer forma. A \u201c(&#8230;) morte \u00e9 o objetivo de nossa caminhada, \u00e9 o objeto necess\u00e1rio de nossa mira (&#8230;)\u201d<sup>. <\/sup>E h\u00e1 tamb\u00e9m aqueles que se julgam capazes de n\u00e3o pensar na morte, como contesta Montaigne, contra a tolice de negar este pensamento. Negar a morte tende a aumentar mais o sofrimento, pois quando ela se aproxima e tal pessoa se d\u00e1 conta de sua aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 tomado pela dor e desespero. A virtude est\u00e1 ligada ao aprendizado da morte. Aprender a morrer \u00e9 aprender a viver.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pensar na morte nos afasta do terr\u00edvel sentimento que ela apresenta: o inesperado, o desassossego do desconhecido, o susto. Habituando-se a ela, tendo-a no pensamento, conclui-se que est\u00e1 pr\u00f3xima e que nada pode ser feito. \u00c9 com tranquilidade que Montaigne almeja se deparar com a pr\u00f3pria morte: \u201cQuero (&#8230;) que a morte me encontre plantando minhas couves, mas despreocupado dela, e mais ainda de meu jardim imperfeito.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Montaigne nos apresenta uma \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre a vida e a morte, imposs\u00edvel se pensar em ambas separadamente. Para o Cristianismo, a morte \u00e9 o \u00ednicio da vida eterna, por exemplo. Filosofar \u00e9 aprender a morrer, talvez seja este o papel da Filosofia. Mas esta express\u00e3o, \u201cfilosofar \u00e9 aprender a morrer\u201d, n\u00e3o \u00e9 um termo de fundamento crist\u00e3o. Montaigne faz uma alus\u00e3o a Jesus Cristo, decerto, mas s\u00f3 por conta de sua morte aos trinta e tr\u00eas anos. O cristianismo entra em algumas quest\u00f5es montaignianas, mas sem implica\u00e7\u00f5es religiosas e nem s\u00e3o tribut\u00e1rios de esperan\u00e7a crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O ato de pensar na morte n\u00e3o \u00e9 para a salva\u00e7\u00e3o da alma, mas tem a fun\u00e7\u00e3o de transmitir sua tranquilidade. Montaigne tenta criar, assim, uma \u201cmelhor vis\u00e3o\u201d da morte. A m\u00e1xima que se pode extrair insere-se no conjunto de li\u00e7\u00f5es \u00e9ticas de felicidade: \u201cA premedita\u00e7\u00e3o da morte \u00e9 premedita\u00e7\u00e3o da liberdade\u201d. Ou ainda: \u201cQuem ensinasse os homens a morrer estaria ensinando-os a viver\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 de grande valia preparar-se para a morte. A pr\u00f3pria natureza nos auxilia na prepara\u00e7\u00e3o para a morte, como por exemplo, quando estamos doentes ou estamos na fase da velhice, o desapego da vida: \u201c(&#8230;) percebo que \u00e0 medida que me enfronho na doen\u00e7a come\u00e7o a ter naturalmente um certo desd\u00e9m pela vida.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aguardemos nossa morte. Preparemos para tal. Aproveitemos&#8230; Montaigne assim encerra seu pensamento acerca da morte: \u201cFeliz \u00e9 a morte que nos surpreende sem que haja tempo para semelhantes preparativos!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MONTAIGNE, Michel de. <em>Ensaios<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Milliet. S\u00e3o Paulo: Nova Cultural, 1991. (Cole\u00e7\u00e3o Os Pensadores)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>. Vol. 3; 2. ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">TURRI, M\u00e1rcia Hoffmann do Amaral e Silva. <em>Filosofar \u00e9 aprender a morrer<\/em>. Dispon\u00edvel em &lt;http:\/\/www.ajufesp.org.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=172:filosofar-e-aprender-a-morrer&amp;catid=68:artigos&amp;Itemid=114&gt;, acesso em: 22\/02\/11.<\/p>\n<div>\n<hr size=\"1\" \/>\n<div>\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Fil\u00f3sofo do per\u00edodo renascentista. Nasceu na Fran\u00e7a em 1533 e morreu em 1592. Sofreu influ\u00eancias do estoicismo, ceticismo e epicurismo. Obra: <em>Ensaios<\/em> (1580 e 1588).<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renato Cesar de Lima &nbsp; Quem nunca teve a curiosidade, nem que seja m\u00ednima, de saber como \u00e9 o primeiro segundo ap\u00f3s a morte? Nunca ningu\u00e9m \u201cretornou\u201d para contar. J\u00e1 se ouviu experi\u00eancias de pessoas que alegam terem presenciado o momento p\u00f3s-morte. Mas nada concreto. Para Montaigne[1], a express\u00e3o morrer vai muito al\u00e9m de seu &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[112,129],"tags":[319,340,401,514],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-1348","6":"format-standard","7":"category-montaigne","8":"category-renato-cesar-de-lima","9":"post_tag-fim","10":"post_tag-homem","11":"post_tag-morte","12":"post_tag-virtude"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1348","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1348"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1348\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1348"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1348"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1348"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}