{"id":1475,"date":"2011-06-04T08:03:46","date_gmt":"2011-06-04T11:03:46","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1475"},"modified":"2011-06-04T08:03:46","modified_gmt":"2011-06-04T11:03:46","slug":"sobre-a-diferenca-differencedifferance-em-derrida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1475","title":{"rendered":"Sobre a diferen\u00e7a [differ\u00e9nce\/differ\u00e1nce] em Derrida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Rodrigo Artur Medeiros da Silva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao afirmarmos com Arist\u00f3teles as m\u00e1ximas filos\u00f3ficas de que a filosofia \u00e9 a ci\u00eancia de todas as coisas, pelas causas primeiras e princ\u00edpios \u00faltimos, atrav\u00e9s da raz\u00e3o (<em>Cf.<\/em> MORA. 2005, p. 1044-1050), bem como a de que \u201ctodo homem tende, por natureza, ao saber\u201d (ARIST\u00d3TELES, 1969, p. 36), reverenciamos a premissa que versa a raz\u00e3o como o \u00fanico instrumento que margeia a filosofia a denotar toda a realidade existente, ou seja, a dizer que os conceitos filos\u00f3ficos s\u00f3 os s\u00e3o devido ao conhecimento humano. Ora, se s\u00f3 a filosofia pode conceituar todas as coisas e apenas o ser humano \u00e9 provido da raz\u00e3o, o conhecimento pleno da realidade existente \u00e9 peculiar apenas ao humano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Contudo, algumas quest\u00f5es \u2013 formuladas a partir desta tese \u2013 parecem ainda permanecer em foco, tais como: ser\u00e1 que de fato o homem pode conhecer todas as coisas? A linguagem \u2013 devido \u00e0s suas diferentes formas de express\u00e3o \u2013 n\u00e3o seria, pois, um empecilho na conceptualiza\u00e7\u00e3o de toda a realidade? E \u00e9 a partir destes questionamentos que tentaremos expor, de forma reflexiva, neste artigo, parte do pensamento de Jaques Derrida acerca da aceita\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a na linguagem filos\u00f3fica. Segundo Derrida, um conceito pode ou n\u00e3o deixar de o ser devido \u00e0s diferentes formas da linguagem conceitu\u00e1-lo?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Logo no in\u00edcio do cap\u00edtulo intitulado \u201cA diferen\u00e7a\u201d, de sua obra \u201cMargens da filosofia\u201d, Derrida introduz a problem\u00e1tica-chave para a reflex\u00e3o deste artigo \u2013 \u201c[&#8230;] Falarei, pois, da letra <em>a<\/em>, [&#8230;] na escrita da palavra <em>diferen\u00e7a<\/em> [&#8230;]\u201d (DERRIDA, 1991, p. 33) \u2013 no intuito de referir-se a quem se adentra no mundo da linguagem para conceituar algo. Para que algo seja conceituado, o indiv\u00edduo que o conceitua deve se perceber como um ser de linguagem, como nos diz Wolfreys:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:150px;\">Aprendendo o alfabeto, algu\u00e9m est\u00e1 \u201cinstitu\u00eddo\u201d, colocado em rela\u00e7\u00e3o ao sistema de escritura pelo qual algu\u00e9m come\u00e7a como sujeito-na-linguagem, que comunica atrav\u00e9s da coer\u00eancia e da conven\u00e7\u00e3o, o h\u00e1bito e os costumes do sistema, da institui\u00e7\u00e3o da escritura que d\u00e1 voz ao \u201ceu\u201d, de modo que \u201ceu\u201d possa falar. (WOLFREYS. 2009. p. 74)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A palavra diferen\u00e7a, \u00e0 qual Derrida se refere, ser\u00e1 entendida apenas a partir da ocasi\u00e3o em que cada pessoa se v\u00ea obrigada a constatar o momento a partir do qual come\u00e7a a fazer filosofia, ou seja, a dar nome e sentido \u00e0s coisas existentes. Levando-se em conta a experi\u00eancia subjetiva de cada pessoa e, ademais, as implica\u00e7\u00f5es desta \u00e0 linguagem, eis que surge o emblema do neologismo franc\u00eas <em>diff\u00e9rance<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Entendamos o sentido deste neologismo: literalmente, a palavra francesa <em>differ\u00e9nce<\/em> significa diferen\u00e7a, na l\u00edngua portuguesa. Entretanto, Derrida se apoia numa peculiaridade do idioma franc\u00eas para mostrar uma n\u00e3o correspond\u00eancia entre a linguagem oral e a escrita na defini\u00e7\u00e3o de algo \u2013 qualquer que seja \u2013 pelo ser humano. Se a letra <em>a<\/em> for usada no lugar da letra <em>e, <\/em>de modo que a palavra <em>diff\u00e9rence<\/em> passe a ser escrita como <em>diff\u00e9rance<\/em>, a pron\u00fancia continuar\u00e1 a mesma, ao contr\u00e1rio do significado que esta fez com que aquela ganhasse.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:150px;\">Marc Angenot, traduz <em>diff\u00e9rance<\/em> por &#8220;diferi\u00e7\u00e3o&#8221;, rejeitando muito bem as propostas de \u201cdiferr\u00eancia\u201d ou \u201cdiferr\u00e2ncia\u201d, totalmente absurdas. No entanto, \u201cdiferi\u00e7\u00e3o\u201d apenas sugere uma parte da significa\u00e7\u00e3o do termo, ou seja, apenas sugere \u201cretardamento, adiamento\u201d [&#8230;]. O termo cunhado por Derrida, propositadamente pronunci\u00e1vel da mesma forma nas express\u00f5es <em>diff\u00e9rance<\/em> e <em>diff\u00e9rence<\/em>, porque a escritura n\u00e3o copia exactamente a fala, pretende ser uma s\u00edntese deste duplo movimento de ser diferente\/dissemelhante e diferente\/retardado. (CEIA, 2010)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Trata-se de uma desconstru\u00e7\u00e3o do logocentrismo contempor\u00e2neo, de modo que a escrita passa a ser vista n\u00e3o mais como uma representa\u00e7\u00e3o de algo e, sim, como a infinitude de seu pr\u00f3prio jogo. Da\u00ed a raz\u00e3o de Derrida dizer que:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:150px;\">Tudo no tra\u00e7ado da diferen\u00e7a \u00e9 estrat\u00e9gico e aventuroso. Estrat\u00e9gico porque nenhuma verdade transcendente e presente fora do campo da escrita pode comandar teologicamente a totalidade do campo. Aventuroso porque essa estrat\u00e9gia n\u00e3o \u00e9 uma simples estrat\u00e9gia no sentido em que se diz que a estrat\u00e9gia orienta a t\u00e1tica a partir de um des\u00edgnio final, um telos ou um tema de uma domina\u00e7\u00e3o, de um controle ou de uma reapropria\u00e7\u00e3o \u00faltima do movimento ou do campo. [&#8230;] Se h\u00e1 uma certa err\u00e2ncia no tra\u00e7ado da diferen\u00e7a, ela n\u00e3o segue mais a linha do discurso filos\u00f3fico-l\u00f3gico [&#8230;].(DERRIDA, 1991, p. 38)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Observemos, pois, um exemplo claro para confirmar o que ora se encontra supracitado \u2013 a palavra homem: pode ser escrita de v\u00e1rias formas, de acordo com cada idioma (homem, <em>homo<\/em>, <em>uomo<\/em>, <em>man<\/em> etc.), ou at\u00e9 mesmo representada por um boneco desenhado, esculpido ou algo do g\u00eanero. Certamente, quem ler ou vislumbrar a palavra ou a imagem correspondente saber\u00e1 que se trata de um homem. Com efeito, \u201co ser\/fala\/em toda a parte e sempre\/atrav\u00e9s\/de toda\/l\u00edngua\u201d (DERRIDA, 1991, p. 63). Segundo Derrida,<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:150px;\">[&#8230;] o sil\u00eancio piramidal da diferen\u00e7a gr\u00e1fica entre o <em>e<\/em> e o <em>a <\/em>s\u00f3 pode funcionar no interior do sistema de escrita fon\u00e9tica e no interior de uma l\u00edngua ou de uma gram\u00e1tica historialmente associada \u00e0 escrita fon\u00e9tica bem como a toda a cultura de que ela \u00e9 insepar\u00e1vel. (DERRIDA, 1991, p. 36)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E, ademais, se esta palavra \u201c<em>diferen\u00e7a<\/em>\u201d for abarcada nos seus dois respectivos sentidos literais \u2013 temporizar e ser outro (<em>Cf.<\/em> DERRIDA, 1991, p. 38-39), provenientes do verbo latino <em>differre <\/em>\u2013, perceberemos que Derrida, ao dizer que \u201co signo representa o presente na sua aus\u00eancia\u201d (DERRIDA, 1991, p. 40) e ainda que \u201c[&#8230;] quando o presente n\u00e3o se apresenta, ent\u00e3o significamos, servimo-nos de subterf\u00fagio de um signo\u201d (<em>Ibidem<\/em>), versa sobre a necessidade intr\u00ednseca que temos de recorrer a outras palavras para que uma palavra seja definida, filosoficamente, como aquilo que \u00e9 ou como aquilo que n\u00e3o \u00e9; trata-se, pois, do duplo movimento que a palavra <em>diff\u00e9rance <\/em>provoca na filosofia de Derrida. Para clarear, de acordo com Carlos Ceia:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:150px;\">Podemos ilustrar o duplo movimento da <em>diff\u00e9rance<\/em> com o seguinte exemplo: a palavra &#8220;infinito&#8221; pode ser definida por aquilo que \u00e9 (o imensur\u00e1vel, o ilimitado, o absoluto, etc.) \u2014 o que significa que o sentido \u00e9 sempre diferido, visto que precisamos de outras palavras para definir uma palavra \u2014; e pode ser definida por aquilo que n\u00e3o \u00e9, ou seja, pelas suas diferen\u00e7as (&#8220;finito&#8221;, &#8220;limitado&#8221;, &#8220;relativo&#8221;, etc.). (CEIA, 2010)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Certo \u00e9 que podemos dizer, a partir dos pontos sobre os quais refletimos no presente artigo, que a diferen\u00e7a \u00e9 um tratado que se destaca na filosofia de Derrida, a ponto de faz\u00ea-lo ser conhecido no rol dos fil\u00f3sofos como o fil\u00f3sofo da diferen\u00e7a \u2013 por trabalhar o seu pensamento a partir de uma <em>contraposi\u00e7\u00e3o entre a identidade do conceito e a diferen\u00e7a da linguagem<\/em>, aceitando os v\u00e1rios modos de se interpretar e discutir sobre os v\u00e1rios conceitos peculiares ao pensamento filos\u00f3fico. Como, ent\u00e3o, fazer filosofia a partir de Derrida?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ARIST\u00d3TELES. <em>Metaf\u00edsica<\/em>. Trad. Leonel Vallandro. Porto Alegre: Globo, 1969.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">CEIA, Carlos. <em>Diff\u00e9rance<\/em>. Dispon\u00edvel em: &lt;www.fcsh.unl.pt\/edit\/verbetes\/D\/diff\u00e9rance&gt;. Acesso em: 3 maio 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">DERRIDA, Jacques. <em>Margens da Filosofia<\/em>. Campinas: Papirus, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">FERRATER-MORA, Jos\u00e9. <em>Dicion\u00e1rio de Filosofia<\/em>. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2005. Tomo II.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">WOLFREYS, Julian. <em>Compreender Derrida<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rodrigo Artur Medeiros da Silva Ao afirmarmos com Arist\u00f3teles as m\u00e1ximas filos\u00f3ficas de que a filosofia \u00e9 a ci\u00eancia de todas as coisas, pelas causas primeiras e princ\u00edpios \u00faltimos, atrav\u00e9s da raz\u00e3o (Cf. MORA. 2005, p. 1044-1050), bem como a de que \u201ctodo homem tende, por natureza, ao saber\u201d (ARIST\u00d3TELES, 1969, p. 36), reverenciamos a &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[22,131],"tags":[248,258,259],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-1475","6":"format-standard","7":"category-derrida","8":"category-rodrigo-artur-medeiros-da-silva-autores","9":"post_tag-desconstrucao","10":"post_tag-diferenca","11":"post_tag-differance"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1475","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1475"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1475\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1475"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1475"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1475"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}