{"id":1479,"date":"2011-06-04T08:02:43","date_gmt":"2011-06-04T11:02:43","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1479"},"modified":"2011-06-04T08:02:43","modified_gmt":"2011-06-04T11:02:43","slug":"a-guerra-de-todos-contra-todos-e-a-luta-pela-vida-em-thomas-hobbes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1479","title":{"rendered":"A guerra de todos contra todos e a luta pela vida em Thomas Hobbes"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Bruno Aparecido Nepomuceno<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Na sociedade atual, algu\u00e9m que n\u00e3o admita que todos os seres humanos sejam iguais perante a lei e, que, tamb\u00e9m, t\u00eam os mesmos direitos (o que chamar\u00edamos de universais) seria certamente taxado de louco e\/ou preconceituoso. Dessa forma \u00e9 preciso estar concorde tamb\u00e9m que todo homem, por natureza, \u00e9 igual; tem em si os mesmos princ\u00edpios que caracterizam sua constitui\u00e7\u00e3o corp\u00f3rea e ps\u00edquica, bem como seus desejos e impulsos. Mas, como no mundo h\u00e1 uma infinidade de coisas que o comp\u00f5e al\u00e9m do homem e que a ele atraem, seus desejos podem gui\u00e1-lo para a vontade de aquisi\u00e7\u00e3o dessas diversas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o obstante a multiplicidade de coisas e desejos, pode acontecer &#8211; e nada mais normal que isso &#8211; que coincida em dois ou mais homens o desejo por uma mesma coisa. Nesse instante \u00e9 que se instaura um impasse dif\u00edcil de resolver-se. Se os dois &#8211; ou tr\u00eas, ou seja, l\u00e1 que n\u00famero for &#8211; t\u00eam os mesmos direitos sobre a dada coisa, como pensar uma resolu\u00e7\u00e3o para a essa querela de forma que agrade todas as partes interessadas?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 aqui ent\u00e3o que entra o nosso ponto de discuss\u00e3o. Como \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o humana antes do estabelecimento de um estado civil, regido por leis e, o que h\u00e1 no homem que n\u00e3o o faz partir imediatamente para a instaura\u00e7\u00e3o geral de uma guerra at\u00e9 conseguir o que quer, uma vez que v\u00ea em seus iguais concorrentes e j\u00e1 que \u201cnesta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel consentir a felicidade, porque todos vivem perseguidos pelo temor de serem atacados uns pelos outros\u201d (MONDIN, 1981, p.100)?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Thomas Hobbes, fil\u00f3sofo ingl\u00eas moderno, reservou boa parte de suas principais obras <em>Do cidad\u00e3o<\/em> e <em>Leviat\u00e3<\/em> para expor seu pensamento sobre este assunto. Relatou em sua autobiografia que, quando nasceu, sua m\u00e3e dera \u00e0 luz junto com ele seu irm\u00e3o g\u00eameo: o medo (REALE, 1990, p. 483). Talvez quisesse com essa brincadeira dizer que nem ele mesmo havia escapado da heran\u00e7a de todo homem, o temor de perder a pr\u00f3pria vida. O princ\u00edpio de autoconserva\u00e7\u00e3o humana \u00e9 regido pelo medo que cada um tem da morte numa poss\u00edvel guerra.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Essa \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o dos homens no estado de natureza<a title=\"\" href=\"\/Blog\/Hobbes,%20Bruno.docx#_ftn1\"><sup><\/sup><sup>[1]<\/sup><\/a> em que tudo lhes parece amea\u00e7ador; estado em que todos t\u00eam desejo e vontade de se ferirem, em que vivem em m\u00fatua desconfian\u00e7a, fuga, cautela em suas falas e a\u00e7\u00f5es e at\u00e9 mesmo, em certas situa\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as e ataques. Destarte,<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>(&#8230;) a causa do medo rec\u00edproco consiste, em parte, na igualdade natural dos homens, em parte na sua m\u00fatua vontade de se ferirem \u2013 do que decorre que nem podemos esperar dos outros, nem prometer a n\u00f3s mesmos, a menor seguran\u00e7a.<\/em> (HOBBES, 2002, p. 29).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Disso n\u00e3o conclu\u00edmos necessariamente que o homem nasce mau, ou que recebeu uma esp\u00e9cie de perversidade de sua natureza. N\u00e3o est\u00e1 inscrito nele a vontade de fazer o mal pelo mal, ou at\u00e9 mesmo o bem pelo bem. Ele somente tenta fazer o melhor para si, o que melhor possa lhe agradar. Para isso foge dos perigos que o cerca e ataca quando preciso. O que n\u00e3o \u00e9 necessariamente motivo para imput\u00e1-lo como perverso, cruel ou malvado. Para ele est\u00e1 determinado que \u201c\u00e9 bom o que causa prazer, mau o que faz sofrer\u201d (MONDIN, 1981, p.100).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Eis, portanto o homem diante de sua pobre condi\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 ele ciente de que s\u00f3 ser\u00e1 dono do que conseguir por suas pr\u00f3prias for\u00e7as, de que est\u00e1 sozinho na luta pela vida, de que os outros \u00e0 sua volta podem lhe prejudicar a qualquer momento e de que ele s\u00f3 \u201cvale o quanto vale por si, sem ajuda dos outros.\u201d (HOBBES, 2002, p. 28). Querendo se libertar de tal mis\u00e9ria instaura um tempo de guerra!<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Portanto tudo aquilo que \u00e9 v\u00e1lido para um tempo de guerra, em que todo homem \u00e9 inimigo de todo homem, o mesmo \u00e9 v\u00e1lido para o tempo durante o qual os homens vivem sem outra seguran\u00e7a sen\u00e3o a que lhes pode ser oferecida por sua pr\u00f3pria for\u00e7a e sua pr\u00f3pria inven\u00e7\u00e3o. Numa tal situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 [&#8230;] sociedade; e o que \u00e9 pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem \u00e9 solit\u00e1ria; pobre s\u00f3rdida, embrutecida e curta.<\/em> (HOBBES,1979, p.76)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os que ainda tinham uma vis\u00e3o id\u00edlica do mundo e do homem poderiam pensar que Hobbes estava sendo cruel demais em taxar o homem como esse potencial vivo de guerra e destrui\u00e7\u00e3o. Poderiam dizer que prova disso \u00e9 que eles s\u00e3o capazes de conviver muito bem juntos e de at\u00e9 estabelecerem entre si v\u00ednculos fraternos e amorosos. Mas a essas contesta\u00e7\u00f5es o pr\u00f3prio Hobbes responde:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Se um homem devesse amar outro por natureza \u2013 isto \u00e9, enquanto homem \u2013 n\u00e3o poder\u00edamos encontrar raz\u00e3o para que todo homem n\u00e3o ame igualmente todo homem, por ser t\u00e3o homem quanto qualquer outro, ou para que frequente mais aqueles cuja companhia lhe confere honra ou proveito.<\/em> (HOBBES, 2002, p. 26)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desta ent\u00e3o desesperadora condi\u00e7\u00e3o em que o homem estaria entregue no estado de natureza confrontada com a organiza\u00e7\u00e3o social que o homem foi obrigado a criar \u2013 chamada por Hobbes de estado civil \u2013 surgem alguns questionamentos. O primeiro que ocorre ao nosso pensamento poderia ser assim formulado: como a ra\u00e7a humana n\u00e3o se destruiu totalmente nesse estado de guerra de todos contra todos? E outro que nasce intimamente ligado a esse \u00faltimo: o que sustenta a rela\u00e7\u00e3o ou associa\u00e7\u00e3o humana, uma vez que ela precisou ser instaurada?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A resposta \u00e0 primeira pergunta pode ser dada quando se pensa no fato que o homem preza em todos os seus atos pela conserva\u00e7\u00e3o de seus interesses e, acima de tudo, de sua vida, que \u00e9 o maior desejo do homem. Para isso ele deixa-se reger pelo medo, pois ele sabe que apesar da igualdade da for\u00e7a de seu esp\u00edrito com outros homens pode ser que ele encontre algu\u00e9m com o f\u00edsico mais bem preparado para a guerra que o seu. Em \u00faltima inst\u00e2ncia o homem deseja ent\u00e3o a paz.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>A paz que faz com que sua vida seja conservada. As paix\u00f5es que fazem os homens tender para a paz s\u00e3o o medo da morte, o desejo daquelas coisas que s\u00e3o necess\u00e1rias para uma vida confort\u00e1vel, e a esperan\u00e7a de consegui-las atrav\u00e9s do trabalho.<\/em> (HOBBES, 1979,\u00a0 p.77)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 a segunda resposta parece-nos saltar aos olhar quando lemos sua obra. Fica claro que o princ\u00edpio de conserva\u00e7\u00e3o da vida no homem o faz administrar seus sentimentos, impulsos e instintos a ponto de faz\u00ea-lo congregar-se a outros. Mas, mesmo nessa congrega\u00e7\u00e3o, o que vale ainda \u00e9 o interesse individual, \u00e9 por isso que ela se sustenta. N\u00e3o se acha ainda uma ideia de bem comum, ou de doa\u00e7\u00e3o e gratuidade. \u201cPortanto, n\u00e3o procuramos companhia naturalmente e s\u00f3 por si mesma, mas para dela recebermos alguma honra ou proveito; estes n\u00f3s desejamos primariamente, aquela s\u00f3 secundariamente\u201d (HOBBES, 2002, p.26).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Se voltarmos nossos olhos para as rela\u00e7\u00f5es que estabelecemos em nossa vida e formos ao fundo de nossos interesses realmente podemos encontrar l\u00e1, mesmo que em princ\u00edpio n\u00e3o queiramos admitir, um g\u00e9rmen de vontade de receber algo. Quando nos agregamos a outros, na maioria das vezes, queremos tirar dessa rela\u00e7\u00e3o algo que nos satisfa\u00e7a, seja esse algo no n\u00edvel material ou no imaterial, como preenchimento de qualquer car\u00eancia que tenhamos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 por isso que Hobbes defende o estabelecimento e a efetiva\u00e7\u00e3o do estado civil, ele seria \u201co terreno e o horizonte de sua realiza\u00e7\u00e3o humana.\u201d (VAZ, 1991, p. 78) Nele o homem daria a autonomia da organiza\u00e7\u00e3o social nas m\u00e3os de um \u00fanico homem ou de um \u00fanico e reduzido grupo de pessoas. Assim ficaria garantida a paz e a conc\u00f3rdia dos homens. Criar-se-ia uma forma de conviv\u00eancia onde se poderia separar o que \u00e9 l\u00edcito do que n\u00e3o \u00e9. E<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Quem quer que sustente que teria sido melhor continuarmos naquele estado, em que todas as coisas eram permitidas a todos, estar\u00e1 se contradizendo. Pois todo homem, por necessidade natural, deseja aquilo que para ele \u00e9 bom; e assim ningu\u00e9m considera que lhe fa\u00e7a bem uma guerra de todos contra todos, que \u00e9 a consequ\u00eancia necess\u00e1ria daquele estado. Portanto sucede que, devido ao medo que sentimos uns dos outros, entendemos que conv\u00e9m nos livrarmos dessa condi\u00e7\u00e3o , e conseguirmos alguns associados\u00a0 (fellows) \u2013 para que, se tivermos de travar guerra, ela n\u00e3o seja contra todos, nem nos falte algum aux\u00edlio.<\/em> (HOBBES, 2002, p.34).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">HOBBES, Thomas. <em>Do cidad\u00e3o<\/em>. 3. ed. Tradu\u00e7\u00e3o de Janine Ribeiro. S\u00e3o Paulo: Martins fontes, 2002. Original ingl\u00eas. (Cl\u00e1ssicos).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">______. <em>Leviat\u00e3 ou mat\u00e9ria, forma e poder de um estado eclesi\u00e1stico e civil. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva<em>.<\/em> 2. ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os Pensadores).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MONDIN, Battista. <em>Curso de filosofia<\/em>: Os fil\u00f3sofos do ocidente. Tradu\u00e7\u00e3o de Ben\u00f4ni Lemos. 5. ed. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1981. v.2.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni, DARIO, Antiseri. <em>Hist\u00f3ria da filosofia<\/em>: do humanismo a Kant. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1990. v.2 (Filosofia)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">VAZ, Henrique C. Lima. <em>Antropologia Filos\u00f3fica<\/em>. 10ed. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1991. v.1.<\/p>\n<div><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Hobbes,%20Bruno.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> Condi\u00e7\u00e3o do homem, antes da constitui\u00e7\u00e3o da sociedade civil<em>.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Aparecido Nepomuceno Na sociedade atual, algu\u00e9m que n\u00e3o admita que todos os seres humanos sejam iguais perante a lei e, que, tamb\u00e9m, t\u00eam os mesmos direitos (o que chamar\u00edamos de universais) seria certamente taxado de louco e\/ou preconceituoso. 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