{"id":1500,"date":"2011-06-13T20:24:19","date_gmt":"2011-06-13T23:24:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1500"},"modified":"2011-06-13T20:24:19","modified_gmt":"2011-06-13T23:24:19","slug":"do-cogito-a-afirmacao-da-existencia-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1500","title":{"rendered":"Do cogito \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de Deus"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Jos\u00e9 Tarc\u00edsio da Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Neste artigo, partiremos do ponto crucial da filosofia de Descartes (1596-1650), o <em>cogito<\/em>, isto \u00e9, da sua exist\u00eancia como ser pensante \u2013 descoberta a partir da d\u00favida met\u00f3dica<a title=\"\" href=\"#_ftn1\"><sup><\/sup><sup>[1]<\/sup><\/a>. E a partir deste ponto, adentraremos na perspectiva cartesiana sobre a exist\u00eancia de Deus, o ponto primordial deste artigo. Assim sendo, teremos uma melhor compreens\u00e3o das raz\u00f5es que provam essa exist\u00eancia, \u00e0 qual a filosofia cartesiana nos inquieta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aceitando a proposi\u00e7\u00e3o \u201cPenso, logo existo\u201d (<em>Cogito ergo sum<\/em>), somos obrigados a concordar com Descartes sobre o fato de que para existir \u00e9 preciso pensar; sendo assim, existo porque penso<a title=\"\" href=\"#_ftn2\"><sup><\/sup><sup>[2]<\/sup><\/a>. E, al\u00e9m disso, a minha exist\u00eancia depende apenas do pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\">[&#8230;] para que eu exista, n\u00e3o necessita de lugar algum, nem depende de nada material, de modo que eu, isto \u00e9, a alma, pela qual sou o que sou, e totalmente diversa do corpo e mesmo mais f\u00e1cil de ser reconhecida do que este e, ainda que o corpo n\u00e3o existisse, ele n\u00e3o deixaria de ser tudo que \u00e9.<a title=\"\" href=\"#_ftn3\"><sup><\/sup><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas como o existir subjetivo pode garantir a objetividade das coisas existentes, exteriores ao pensamento? A reposta para este questionamento s\u00f3 se validar\u00e1 a partir do momento em que o ser humano se der conta de que existe algo superior \u00e0 sua raz\u00e3o, que lhe faz pensar ou acreditar em um ser mais perfeito que a sua exist\u00eancia ao qual n\u00e3o consegue visualizar: \u201cDeus verdadeiro em que todos os tesouros da sabedoria e da ci\u00eancia permanecem ocultos\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn4\"><sup><\/sup><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com efeito, diz-nos Descartes:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\">[&#8230;] coisas exteriores a mim, como do c\u00e9u, da terra, da luz, do calor e milhares de outras, n\u00e3o fazia tanto esfor\u00e7o em conhecer de onde se originavam, porquanto nada vendo nelas que me parecesse poder torn\u00e1-los superiores a mim, podia crer que, se eram verdadeiras, dependia da natureza, do que esta possu\u00eda a perfei\u00e7\u00e3o e, se n\u00e3o eram, queriam isso significa que se originavam do nada quer dizer que estavam em mim por aquilo que eu tinha de imperfeito. A mesma coisa, entretanto, n\u00e3o podia acontecer com a ideia de um ser mais perfeito do que eu, pois era palpavelmente imposs\u00edvel retir\u00e1-la do nada. <a title=\"\" href=\"#_ftn5\"><sup><\/sup><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Deus \u2013 o garantidor da realidade exterior ao pensamento \u2013 \u00e9 pensado em Descartes como \u201c[&#8230;] supremo, eterno, infinito, onisciente, onipotente, criador de todas as coisas que existem al\u00e9m dele [&#8230;]\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn6\"><sup><\/sup><sup>[6]<\/sup><\/a>. Tal pensamento, assim concebido, abre margem para pensarmos que at\u00e9 mesmo o <em>cogito<\/em> seja garantido por Deus, tanto \u00e9 que Cottinghan vai conceber o Deus cartesiano como \u201c[&#8230;] um ser auto-evidente ou manifesto \u00e0 luz natural, a saber, que ter\u00e1 de haver pelo menos tanta realidade na causa eficaz e total como no efeito de sua causa\u201d <a title=\"\" href=\"#_ftn7\"><sup><\/sup><sup>[7]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, segundo Descartes, como a ideia de Deus pode estar presente no intelecto a ponto de garantir toda a realidade existente? Descartes a concebe como advent\u00edcia, isto \u00e9, a algo apreendido pelo intelecto, de modo que o pr\u00f3prio fato de compreendermos o que significa a perfei\u00e7\u00e3o infinita de Deus demonstra-nos que s\u00f3 pode ter sido um ser mais perfeito que n\u00f3s que nos possibilitou tal compreens\u00e3o \u2013 mesmo que n\u00e3o consigamos visualizar, imaginar ou mesmo ter a capacidade de compreender essa perfei\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\">N\u00e3o importa que eu n\u00e3o consiga compreender o infinito ou o que haja incont\u00e1veis atributos adicionais em Deus que n\u00e3o poderei de maneira alguma compreender, e que talvez nem ocorram \u00e1 minha mente&#8230; \u00c9 suficiente que eu aprenda o infinito. <a title=\"\" href=\"#_ftn8\"><sup><\/sup><sup>[8]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Descartes, para concretizar a sua afirma\u00e7\u00e3o sobre Deus, se prop\u00f5e a discorrer sobre o conceito de ess\u00eancia, analogando-o a um triangulo, o qual estando ou n\u00e3o \u00e0 nossa vista tem por soma dos seus \u00e2ngulos internos a import\u00e2ncia de 180\u00b0. \u201cAssim sendo, \u00e9 pelo menos tamb\u00e9m certo que Deus, esse ser perfeito, \u00e9 ou existe quando o ser pode ser qualquer demonstra\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica\u201d <a title=\"\" href=\"#_ftn9\"><sup><\/sup><sup>[9]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No caso de Deus,<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\">\u00c9 bem evidente que exist\u00eancia n\u00e3o poder\u00e1 mais separar-se da ess\u00eancia de deus, assim o fato dos tr\u00eas \u00e2ngulos serem iguais a dois retos, n\u00e3o podendo ser separado da ess\u00eancia de um tri\u00e2ngulo&#8230; \u00c9&#8230; Uma contradi\u00e7\u00e3o pensar em deus, (isto \u00e9, um ser supremamente perfeito), como n\u00e3o tendo exist\u00eancia (isto \u00e9, n\u00e3o possuindo uma perfei\u00e7\u00e3o). <a title=\"\" href=\"#_ftn10\"><sup><\/sup><sup>[10]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E deste modo, Descartes chega \u00e0 conclus\u00e3o da exist\u00eancia de Deus com o seguinte argumento:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\">Primeiro, Deus e definido como um ser perfeito. N\u00e3o se garante interroga\u00e7\u00e3o algumas neste caso, como falar de um tri\u00e2ngulo, poder\u00e1 falar-se sobre a ess\u00eancia ou natureza de algo, sem se subordinar-se \u00e1 sua exist\u00eancia real. Em segundo lugar, pretende-se que a perfei\u00e7\u00e3o suprema implica a exist\u00eancia. Um ser totalmente perfeito dever\u00e1 possuir todas as perfei\u00e7\u00f5es, e deste modo, se fizesse uma listagem com as qualidades perfeitas de deus, ao lado de omnipot\u00eancia, omnisci\u00eancia e outras, ter-se-ia de incluir a exist\u00eancia. <a title=\"\" href=\"#_ftn11\"><sup><\/sup><sup>[11]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, como dizer que Deus \u00e9 desnecess\u00e1rio na modernidade, uma vez que, ao que parece, j\u00e1 se faz necess\u00e1rio na fundamenta\u00e7\u00e3o do pensamento de Descartes \u2013 considerado o pai do pensamento moderno? Em Descartes, por si s\u00f3, a raz\u00e3o \u00e9 capaz de responder \u00e0 exist\u00eancia?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">COTTINGHAM, John. <em>A filosofia de Descartes<\/em>. Trad. Maria do Ros\u00e1rio Souza Guedes. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">DESCARTES, Ren\u00e9. <em>Discurso sobre o m\u00e9todo e princ\u00edpios da Filosofia <\/em>. Trad. Norberto de Paula Lima, Torrieri Guimar\u00e3es. S\u00e3o Paulo: Ed. Folha de S\u00e3o Paulo, 2010. (Cole\u00e7\u00e3o Folha)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">______. <em>Medita\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas. <\/em>Trad. Homero Santiago. 2 ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2005.<\/p>\n<div><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> O termo d\u00favida met\u00f3dica \u00e9 utilizado no pensamento de Ren\u00e9 Descartes como um processo no qual tudo \u00e9 colocado em d\u00favida, tendo em vista o alcance de uma certeza que seja clara e distinta das demais, assim como as ci\u00eancias matem\u00e1ticas. (Cf. DESCARTES, Ren\u00e9. <em>Medita\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas<\/em>. p. 29-39)<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Cf. DESCARTES, Ren\u00e9. <em>Medita\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas<\/em>. p. 41-55.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> DESCARTES, Ren\u00e9. <em>Discurso sobre o m\u00e9todo e princ\u00edpios da Filosofia<\/em>. p. 28.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> COTTINGHAN, John. <em>A filosofia de Descartes, p. 72.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref5\"><em><strong>[5]<\/strong><\/em><\/a><em> DESCARTES, Ren\u00e9. Discurso sobre o m\u00e9todo e princ\u00edpios da Filosofia<\/em>. p. 28.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> COTTINGHAN, John<em>. A filosofia de Descartes<\/em>, p. 73-74.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> COTTINGHAN, John. <em>A filosofia de Descartes<\/em>, p. 74.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref8\">[8]<\/a> <em>Apud<\/em>. COTTINGHAN, John. <em>A filosofia de Descartes<\/em>, p. 88.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref9\">[9]<\/a> DESCARTES, Ren\u00e9. <em>Discurso sobre o m\u00e9todo e princ\u00edpios da Filosofia<\/em>. p. 29.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref10\">[10]<\/a> <em>Apud<\/em>. COTTINGHAN, John. <em>A filosofia de Descartes<\/em>, p. 88.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a title=\"\" href=\"#_ftnref11\">[11]<\/a>\u00a0 Cof. COTTINGHAN, John. <em>A filosofia de Descartes<\/em>, p. 88.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tarc\u00edsio da Costa Neste artigo, partiremos do ponto crucial da filosofia de Descartes (1596-1650), o cogito, isto \u00e9, da sua exist\u00eancia como ser pensante \u2013 descoberta a partir da d\u00favida met\u00f3dica[1]. E a partir deste ponto, adentraremos na perspectiva cartesiana sobre a exist\u00eancia de Deus, o ponto primordial deste artigo. 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