{"id":1503,"date":"2011-06-13T20:27:15","date_gmt":"2011-06-13T23:27:15","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1503"},"modified":"2011-06-13T20:27:15","modified_gmt":"2011-06-13T23:27:15","slug":"o-dever-no-pensamento-de-kant-uma-reflexao-sobre-o-que-se-deve-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1503","title":{"rendered":"O dever no pensamento de Kant: uma reflex\u00e3o sobre o que se deve fazer"},"content":{"rendered":"<p><strong>F\u00e1bio Avelar Salmen<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Uma das quest\u00f5es forjadas a partir do pensamento de Kant<a title=\"\" href=\"#_ftn1\"><sup><\/sup><sup>[1]<\/sup><\/a> pode ser traduzida na inquieta\u00e7\u00e3o que muitos de n\u00f3s temos acerca <em>do que devemos fazer<\/em> em nossa caminhada existencial. Nossa autocr\u00edtica comportamental surge incessantemente em diferentes intensidades em decorr\u00eancia de nossas atitudes nas mais variadas situa\u00e7\u00f5es do cotidiano, em especial nas que se referem \u00e0 nossa conduta moral: Devia eu ter agido assim? O que me levou a proceder desta ou daquela forma? Neste ensaio, pretendemos rever alguns elementos da filosofia kantiana sobre o dever, sem a pretens\u00e3o de esgot\u00e1-los, de forma a oferecer algum embasamento para reflex\u00e3o e reavalia\u00e7\u00e3o de conceitos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No dizer de Kant, nada no mundo pode ser considerado bom sem restri\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser a <em>boa vontade<\/em>. O pensamento expressa a cr\u00edtica ao conceito de corre\u00e7\u00e3o, vigente em muito do que se faz e que n\u00e3o resistiria a uma an\u00e1lise mais rigorosa de sua motiva\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca. Assim, comportamentos considerados virtuosos, como atos de coragem ou de humildade, compaix\u00e3o ou temperan\u00e7a, podem n\u00e3o s\u00ea-lo dependendo da inten\u00e7\u00e3o com que s\u00e3o praticados.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>N\u00c3O \u00c9 POSS\u00cdVEL conceber coisa alguma no mundo, ou mesmo fora do mundo, que sem restri\u00e7\u00e3o possa ser considerada boa, a n\u00e3o ser uma s\u00f3: uma BOA VONTADE. A intelig\u00eancia, o dom de apreender as semelhan\u00e7as das coisas, a faculdade de julgar, e os demais talentos do esp\u00edrito, seja qual for o nome que se lhes d\u00ea, ou a coragem, a decis\u00e3o, a perseveran\u00e7a nos prop\u00f3sitos, como qualidades do temperamento, s\u00e3o sem d\u00favida, sob m\u00faltiplos respeitos, coisas boas e apetec\u00edveis; podem entanto estes dons da natureza tornar-se extremamente maus e prejudiciais, se n\u00e3o for boa vontade que deles deve servir-se e cuja especial disposi\u00e7\u00e3o se denomina car\u00e1ter. O mesmo se diga dos dons da fortuna. O poder, a riqueza, a honra, a pr\u00f3pria sa\u00fade e o completo bem-estar e satisfa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio estado, em resumo o que se chama felicidade, geram uma confian\u00e7a em si mesmo que muitas vezes se converte em presun\u00e7\u00e3o, quando falta a boa vontade para moderar e fazer convergir para fins universais tanto a imprud\u00eancia que tais dons exercem sobre a alma como tamb\u00e9m o princ\u00edpio da a\u00e7\u00e3o. Isto, sem contar que um espectador razo\u00e1vel e imparcial nunca lograria sentir satisfa\u00e7\u00e3o em ver que tudo corre ininterruptamente segundo os desejos de uma pessoa que n\u00e3o ostenta nenhum vest\u00edgio de verdadeira boa vontade; donde parece que a boa vontade constitui a condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para ser feliz<\/em> (KANT, 1964,\u00a0 p. 4, grifo do autor).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De igual modo, agir motivado pela sensibilidade \u00e9 considerado doentio, ainda que tal agir seja feito porque constitui dever. Para Kant, aquilo que \u00e9 moralmente correto ou correto do ponto de vista pr\u00e1tico \u00e9 o que s\u00f3 depende da raz\u00e3o, que nos move em vez de qualquer sentimento de compaix\u00e3o ou estima. Existe uma oposi\u00e7\u00e3o entre o ponto de vista da legalidade, tamb\u00e9m entendida como conformidade com a lei e a refer\u00eancia segundo a moralidade verdadeira, resultado da pureza de inten\u00e7\u00e3o, sendo que esta n\u00e3o corresponde ao desejo de execu\u00e7\u00e3o, mas \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7o para sua realiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 na inten\u00e7\u00e3o, independentemente do fim visado, que se encontra o valor moral de um ato e que o dever pode ser entendido como a necessidade de agir por respeito \u00e0 lei (PASCAL, 1990, p. 114).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, <em>dever \u00e9 a a\u00e7\u00e3o \u00e0 qual algu\u00e9m est\u00e1 obrigado<\/em>, apesar de podermos estar a ele obrigados de maneiras diferentes. Segundo Kant (2010, p. 46-48), aquilo que representa uma a\u00e7\u00e3o como necess\u00e1ria de forma objetiva \u00e9 chamado imperativo categ\u00f3rico. A a\u00e7\u00e3o \u00e9 tornada necess\u00e1ria n\u00e3o por meio da representa\u00e7\u00e3o de algum fim que pode por ela ser atingido, mas de forma direta. Um imperativo categ\u00f3rico \u00e9 uma lei moralmente pr\u00e1tica, pois imp\u00f5e uma obriga\u00e7\u00e3o quanto a certas a\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma lei que comanda ou pro\u00edbe. Essa lei converte a\u00e7\u00f5es em deveres, da\u00ed constituir-se em uma lei pr\u00e1tica. Entretanto, indiv\u00edduos diferentes poder\u00e3o ter m\u00e1ximas pessoais ou fundamentos subjetivos diferentes relativamente \u00e0 mesma lei. Diferencia-se, assim, a legalidade, como a conformidade de uma a\u00e7\u00e3o com a lei do dever; j\u00e1 a conformidade da m\u00e1xima (a forma como o sujeito deseja agir) de uma a\u00e7\u00e3o com uma lei corresponde \u00e0 moralidade da a\u00e7\u00e3o. Um princ\u00edpio de dever \u00e9 um princ\u00edpio que a raz\u00e3o a ele prescreve de forma absoluta e objetiva: como se <em>deve<\/em> agir. O imperativo categ\u00f3rico, afirmador do que seja a obriga\u00e7\u00e3o, corresponde ao princ\u00edpio supremo da doutrina dos costumes, que pode ser formulado como sendo <em>agir com base em uma m\u00e1xima que tamb\u00e9m possa ter validade como uma lei universal<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A filosofia de Kant relativa ao dever estende-se tamb\u00e9m ao universo da felicidade dos outros, quando pondera sobre a raz\u00e3o da pr\u00e1tica do bem. Diante de nossa pr\u00f3pria necessidade de tamb\u00e9m sermos amados ou ajudados pelos outros, a \u00fanica forma de fazer com que essa m\u00e1xima seja obrigat\u00f3ria \u00e9 consider\u00e1-la como lei universal. Tornamo-nos a n\u00f3s mesmos um fim para eles e os tornamos nossos fins, quando praticamos a benefic\u00eancia. A felicidade dos outros \u00e9, portanto, um fim que \u00e9 tamb\u00e9m um dever (KANT, 2010, p. 162).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A contribui\u00e7\u00e3o de Kant no sentido de investigar analiticamente os conceitos relativos ao dever nos conduz a buscar um melhor entendimento do que seja a nossa boa vontade, valorizada pelo fil\u00f3sofo, bem como do que entendemos por dever, diferenciando-se o merit\u00f3rio <em>agir por dever<\/em> de a\u00e7\u00f5es pela busca de <em>conformidade com o dever<\/em>. Quando somos honestos ao pagar o que devemos a quem nos emprestou agimos em conformidade com nosso dever, por\u00e9m, se temos interesse em sermos bem vistos porque outros devedores n\u00e3o o fazem, n\u00e3o se pode dizer que agimos por dever. Analogamente, ao ajudarmos algu\u00e9m necessitado porque isso nos faz sentir bem temos menor valor moral do que se o fiz\u00e9ssemos sem tal motiva\u00e7\u00e3o sens\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Podemos buscar aux\u00edlio nas Escrituras para a avalia\u00e7\u00e3o de nossa conduta moral. \u201cDe fato, se amais os que vos amam, que merecimento tereis?&#8230; E se saudais s\u00f3 vossos irm\u00e3os, que fazeis de extraordin\u00e1rio?\u201d (B\u00cdBLIA SAGRADA, 2006). O texto b\u00edblico ilustra a pr\u00e1tica n\u00e3o caracter\u00edstica do exerc\u00edcio da boa vontade. Quando agimos tendo como motiva\u00e7\u00e3o a expectativa de recebermos algo equivalente em troca, perdemos o m\u00e9rito da boa vontade kantiana, entendida como a vontade de agir por dever. A resposta a tal motiva\u00e7\u00e3o, embora se nos apresente como algo simples e corriqueiro, assume dimens\u00e3o de maior profundidade e nos remete ao questionamento inicial sobre a inten\u00e7\u00e3o que nos move a realiz\u00e1-las.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Retomando a abordagem de Kant sobre o dever como agir por obriga\u00e7\u00e3o e livre de interesses pessoais, poderemos considerar que agir honestamente ou n\u00e3o maltratarmos os outros ou mesmo praticar o bem a quem quer que seja ser\u00e1 moralmente acertado se assim o fizermos pelo dever e n\u00e3o por quaisquer inclina\u00e7\u00f5es. Tais a\u00e7\u00f5es s\u00e3o ent\u00e3o consideradas devidas porque se assim o fizermos \u00e9 porque assim \u00e9 esperado, assim dev\u00edamos fazer. Longe de dirimir todas as d\u00favidas que tais discuss\u00f5es suscitam, deixamos o est\u00edmulo \u00e0 reflex\u00e3o sobre o conjunto de fen\u00f4menos sociais bem como e, principalmente, sobre nossas a\u00e7\u00f5es como cidad\u00e3os e pessoas de bem que procuramos ser, no sentido de buscarmos coer\u00eancia com nossos princ\u00edpios de vida, aproximando-nos do ideal da pr\u00e1tica da boa vontade kantiana.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">B\u00cdBLIA SAGRADA, N. T. <em>Evangelho segundo Mateus<\/em>. Aparecida: Editora Santu\u00e1rio, 2006. cap. 5, p. 1463.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">KANT, Immanuel. <em>Fundamenta\u00e7\u00e3o da Metaf\u00edsica dos Costumes<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Ant\u00f4nio Pinto de Carvalho. S\u00e3o Paulo: Companhia Editora Nacional, 1964. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.4shared.com\/get\/qJdq8OGn\/kant_fundamentacao_da_metafisi.html. Acesso em: 25 maio 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">KANT, Immanuel. <em>A metaf\u00edsica dos costumes<\/em>. In: ______. Livros que mudaram o mundo.\u00a0 S\u00e3o Paulo: Folha de S\u00e3o Paulo, 2010. v. 8.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">PASCAL, Georges. A lei moral.<em> <\/em>In: ______. <em>O pensamento de Kant<\/em>. 3. ed. Tradu\u00e7\u00e3o de Raimundo Vier. Petr\u00f3polis: Vozes, 1990. Original franc\u00eas. [1977].<\/p>\n<div><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Kant (1724 \u2013 1804) nasceu em K\u00f6nigsberg, Pr\u00fassia Oriental (territ\u00f3rio hoje dividido entre Pol\u00f4nia, Litu\u00e2nia e R\u00fassia). Autor de extensa obra, \u00e9 considerado como um dos grandes pensadores da Hist\u00f3ria, tendo produzido uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o na filosofia com sua cr\u00edtica fundamental de conceitos, metodologias e do pr\u00f3prio eixo do objeto filos\u00f3fico.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F\u00e1bio Avelar Salmen Uma das quest\u00f5es forjadas a partir do pensamento de Kant[1] pode ser traduzida na inquieta\u00e7\u00e3o que muitos de n\u00f3s temos acerca do que devemos fazer em nossa caminhada existencial. 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