{"id":1514,"date":"2011-06-13T20:58:37","date_gmt":"2011-06-13T23:58:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1514"},"modified":"2011-06-13T20:58:37","modified_gmt":"2011-06-13T23:58:37","slug":"niilismo-o-alicerce-da-pos-modernidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1514","title":{"rendered":"Niilismo: o alicerce da p\u00f3s-modernidade?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Joel Santos de Marselha<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o existe Deus, h\u00e1 uma aus\u00eancia de fundamento, de um ser absoluto, de uma verdade absoluta, de um sentido para a vida, n\u00e3o h\u00e1 <em>arqu\u00e9<\/em> nem <em>t\u00e9los<\/em>. O que vigora \u00e9 somente o esquecimento do ser e a morte de Deus. Com base nesse niilismo proposto por Heidegger e Nietzsche, este artigo tem como objetivo demonstrar como \u00e9 poss\u00edvel pensar a p\u00f3s-modernidade, segundo Gianni Vattimo, e a primeira quest\u00e3o a ser colocada \u00e9 a seguinte: Seria poss\u00edvel falar de uma p\u00f3s-modernidade?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Vattimo, a modernidade consiste na centraliza\u00e7\u00e3o do cogito. E, nesse sentido, Vattimo prop\u00f5e uma cr\u00edtica, sobretudo a Descartes \u2013 que \u00e9 o pai do pensamento moderno \u2013 com base na reinterpreta\u00e7\u00e3o da ontologia de Heidegger \u00e0 luz do niilismo de Nietzsche, o que lhe possibilita falar em uma p\u00f3s-modernidade, que \u00e9 uma conseq\u00fc\u00eancia deste fen\u00f4meno constatado por este fil\u00f3sofo alem\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Vattimo, em comunh\u00e3o com o pensamento de Heidegger, afirma que o niilismo pode ser resumido na express\u00e3o \u201dDeus est\u00e1 morto\u201d, posto que esse evento, que atingiu o pensamento ocidental a partir do legado nietzschiano, coloca, em xeque, a necessidade de um fundamento \u00faltimo, de um <em>arqu\u00e9<\/em> de um <em>t\u00e9los<\/em> (PECORARO, 2009, \u00a0p. 391.).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo Nietzsche, esse h\u00f3spede da Modernidade \u2013 niilismo \u2013 tem v\u00e1rias interfaces, podendo ele se apresentar como negativo, passivo, reativo e ativo (NIETZSCHE <em>apud <\/em>GOMES, 2004, p. 166). O niilismo negativo, que \u00e9 de onde os demais surgem, tem sua origem com o platonismo e com o cristianismo. Al\u00e9m de ter sua base na desvaloriza\u00e7\u00e3o e na dissolu\u00e7\u00e3o dos valores supremos tradicionais e propor novos valores no lugar destes, consiste na nega\u00e7\u00e3o do mundo sens\u00edvel, perene, em prol da afirma\u00e7\u00e3o do mundo ideal, supra-sens\u00edvel, o que deixa evidente que, nesse primeiro tipo de niilismo, o homem deseja se desvincular do tempo, para se tornar infinito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O niilismo passivo \u00e9 cren\u00e7a na id\u00e9ia de que a vida n\u00e3o tem mais valor e de que o ser humano est\u00e1 s\u00f3 e desamparado no universo. \u00c9 a vontade de nada, j\u00e1 que \u00e9 um sinal de fraqueza do esp\u00edrito, pois o indiv\u00edduo, na etapa niilista, reconhece os valores antigos como falsos, mas n\u00e3o se tem a for\u00e7a para destru\u00ed-los e muito menos para instaurar novos valores (GOMES, 2004, p. 166).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O reativo se manifesta como ocultamento do transcendente \u2013 de Deus, dado que \u00e9 uma \u201crea\u00e7\u00e3o expl\u00edcita aos valores superiores instaurados pela cria\u00e7\u00e3o do Deus crist\u00e3o\u201d (GOMES, 2004, p. 166), o que deixa expl\u00edcito a no\u00e7\u00e3o de morte de Deus e de toda dimens\u00e3o da transcend\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 o niilismo ativo \u00e9 a transvalora\u00e7\u00e3o dos valores, pois: \u201cAqui, a vontade de poder assume seu poder de a\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o\u201d (GOMES, 2004, p. 166) e, atrav\u00e9s dela, o homem cria os seus valores e afirma sua exist\u00eancia, i. \u00e9, por meio desse desapego de Deus, o homem afirma a sua vontade de pot\u00eancia, o que faz com que emirja a responsabilidade do ser humano de ter que se construir por si s\u00f3 ( PECORARO, 2009, p. 391).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 quanto ao niilismo de Heidegger, Vattimo vai dizer que ele segue a linha do nietzschiano, por\u00e9m com a seguinte distin\u00e7\u00e3o: se, para Nietzsche, o niilismo consiste na desvaloriza\u00e7\u00e3o dos valores supremos, para Heidegger, ele \u00e9 o esquecimento do ser \u2013 \u201cconfus\u00e3o\u201d entre ente e ser; sua categoriza\u00e7\u00e3o e presentifica\u00e7\u00e3o, mas deixa claro, assim como Nietzsche, que se deve buscar algo para al\u00e9m do niilismo (PECORARO, 2009, p.392).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Perante este esquecimento do ser, Heidegger prop\u00f5e uma nova maneira de pens\u00e1-lo, que \u00e9 atrav\u00e9s da ontologia, ou seja, pensando-o a partir do <em>Dasein <\/em>&#8211; o ser-a\u00ed: \u00fanico ente capaz de se perguntar pelo sentido do ser (ROBERTO, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De acordo com Nietzsche e Heidegger, a modernidade pode se caracterizar pelo fato de que ela se baseia na apropria\u00e7\u00e3o dos \u201cfundamentos\u201d, que freq\u00fcentemente s\u00e3o pensados tamb\u00e9m como as \u201corigens\u201d, de modo que as revolu\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas da hist\u00f3ria ocidental se apresentam e se legitimam, na maioria das vezes, como \u201crecupera\u00e7\u00f5es\u201d, renascimento, retorno (VATTIMO, 1996, p. VI).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A modernidade se alicer\u00e7a em fundamentos, que d\u00e1 consist\u00eancia ao seu pensamento filos\u00f3fico, mas, quando se constata a anula\u00e7\u00e3o desses fundamentos<em> <\/em>&#8211; o niilismo, \u00e9 que se torna poss\u00edvel se falar, aos olhos de Vattimo, da g\u00eanese da p\u00f3s-modernidade, pois:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>\u00c9 com esta conclus\u00e3o niilista que se sai de fato da modernidade, segundo Nietzsche.\u00a0 Pois a no\u00e7\u00e3o de verdade n\u00e3o mais subsiste e o fundamento n\u00e3o mais funciona, dado que n\u00e3o h\u00e1 fundamento algum para crer no fundamento, isto \u00e9, no fato de que o pensamento deva \u201cfundar\u201d: n\u00e3o se sair\u00e1 da modernidade mediante uma supera\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, que seria um\u00a0 passo ainda de todo interno \u00e0 pr\u00f3pria modernidade. Fica claro, assim, que se deve buscar um caminho diferente<\/em>. (VATTIMO, 1996, p. 173)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A p\u00f3s-modernidade, segundo Vattimo, para se diferenciar da modernidade, deve afirmar, como sua caracter\u00edstica, o pensamento fraco, que \u00e9 se propor o repensamento de todas as quest\u00f5es sem pretender uma supera\u00e7\u00e3o, mas sim uma sustenta\u00e7\u00e3o dos mesmos. Fora de qualquer possibilidade de se absolutizar um pensamento ou tom\u00e1-lo como fundamento, o pensamento fraco se mostra sem for\u00e7a, unidade e predetermina\u00e7\u00e3o, pelo fato de querer ser ultrametaf\u00edsico, ou seja, viver na consuma\u00e7\u00e3o do niilismo (GOMES, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Chegando ao final deste artigo, deve-se destacar que grande \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o de Vattimo para a filosofia p\u00f3s-moderna, posto que anuncia o seu surgimento a partir de sua an\u00e1lise do pensamento nietzschiano e heideggeriano, v\u00ea que o niilismo \u00e9 a base para o emergir da era\u00a0 p\u00f3s-moderna, cuja marca principal \u00e9 a aus\u00eancia de um fundamento, de um <em>arqu\u00e9<\/em> ou <em>t\u00e9los<\/em>, pois \u00e9 uma luta contra a absolutiza\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o e de todo tipo de meta-discurso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">GOMES, Elizeu Donisete de Paiva. Uma leitura do niilismo nietzschiano como hist\u00f3ria do Ocidente. In:<strong> <\/strong><em>Provoca\u00e7\u00f5es<\/em><strong>:<\/strong> ensaios filos\u00f3ficos. Mariana: Dom Vi\u00e7oso, 2004. p.145-191.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">GOMES, Tiago da silva. O \u201cpensamento fraco\u201d como caracter\u00edstica emblem\u00e1tica da\u00a0p\u00f3s-modernidade. <em>Pensamento extempor\u00e2neo<\/em>, Mariana, 2009. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/2009\/10\/24\/o-%E2%80%9Cpensamento-fraco%E2%80%9D-como-caracteristica-emblematica-da-pos-modernidade\/\">http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/2009\/10\/24\/o-%E2%80%9Cpensamento-fraco%E2%80%9D-como-caracteristica-emblematica-da-pos-modernidade\/<\/a>&gt;. Acesso em: 31 maio 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">PECORARO, Rossano. <em>Os fil\u00f3sofos<\/em>: cl\u00e1ssicos da filosofia. Petr\u00f3polis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC &#8211; Rio, 2009. V. III.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ROBERTO, Luciano da Silva. Os modos de ser do \u201cDasein\u201d a partir da anal\u00edtica existencial\u00a0heideggeriana. <em>Pensamento extempor\u00e2neo<\/em>, Mariana, 2009. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/2009\/08\/15\/os-modos-de-ser-do-%e2%80%9cdasein%e2%80%9d-a-partir-da-analitica-existencial-heideggeriana\/\">http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/2009\/08\/15\/os-modos-de-ser-do-%e2%80%9cdasein%e2%80%9d-a-partir-da-analitica-existencial-heideggeriana\/<\/a>&gt;. Acesso em: 31 maio 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">VATTIMO, Giovanni. <em>O fim da modernidade<\/em>: niilismo e hermen\u00eautica na cultura p\u00f3s-moderna. Trad. Eduardo Brand\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1996. [1985]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joel Santos de Marselha N\u00e3o existe Deus, h\u00e1 uma aus\u00eancia de fundamento, de um ser absoluto, de uma verdade absoluta, de um sentido para a vida, n\u00e3o h\u00e1 arqu\u00e9 nem t\u00e9los. O que vigora \u00e9 somente o esquecimento do ser e a morte de Deus. 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