{"id":1517,"date":"2011-06-13T20:45:37","date_gmt":"2011-06-13T23:45:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1517"},"modified":"2011-06-13T20:45:37","modified_gmt":"2011-06-13T23:45:37","slug":"a-igualdade-na-perspectiva-de-voltaire","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1517","title":{"rendered":"A igualdade na perspectiva de Voltaire"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Leandro Alves Figueira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Percebendo, no viver, as coisas que lhe d\u00e3o prazer, as que satisfazem suas necessidades, as que lhe s\u00e3o \u00fateis, Voltaire<a title=\"\" href=\"#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> nos apresenta que o homem nasce com uma tend\u00eancia violenta para a domina\u00e7\u00e3o, as riquezas e os prazeres. A partir disso, se pode concluir que todos os homens seriam necessariamente iguais se n\u00e3o tivessem necessidades.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem carece por coisas agrad\u00e1veis, que o satisfa\u00e7a, tais como dinheiro, mulheres, carros\u00a0 etc. Por conseguinte, ele quer usufruir de todos os seus prazeres e, para isso, luta com suas estrat\u00e9gias para alcan\u00e7ar tais fins. \u00c9 comum encontrarmos, na sociedade, homens que subordinam o outro, em prol do seu bem-estar. Enquadra-se aqui, no campo da pol\u00edtica hoje por exemplo, tais homens que abusam do poder p\u00fablico, desviando verbas que deveriam beneficiar a sociedade em diversas \u00e1reas n\u00e3o pensando nas consequ\u00eancias de tais atitudes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Deste modo, Voltaire nos afirma que \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o haver divis\u00e3o de classes na sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Uma fam\u00edlia numerosa cultivou uma terra f\u00e9rtil; duas fam\u00edlias vizinhas, mais pequenas, possuem campos s\u00e1faros e rudes no laborar: \u00e9 preciso que as duas fam\u00edlias pobres sirvam \u00e0 fam\u00edlia opulenta, ou a degolem, \u00e9 bom lembrar. Uma das duas fam\u00edlias indigentes vai oferecer os seus bra\u00e7os \u00e0 fam\u00edlia rica, para conseguir ganhar o seu p\u00e3o; a outra vai atacar os rica\u00e7os e \u00e9 vencida. A fam\u00edlia servi\u00e7al d\u00e1 origem \u00e0 criadagem assalariada e aos oper\u00e1rios, a fam\u00edlia vencida d\u00e1 origem aos escravos<\/em>. (VOLTAIRE, 1978, p. 217)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A sociedade, em si, \u00e9 dividida em duas classes, sendo uma de opressores e outra de oprimidos. Observamos homens de bens, donos de com\u00e9rcios que possuem renda e lutam por adquirir cada vez mais posses, como forma de manipular a classe baixa e os trabalhadores, que lutam pela sobreviv\u00eancia e pela busca do alimento de cada dia. \u201cAssim, desde cedo os homens se distinguiram em duas classes: a primeira, dos homens divinos que sacrificam seu amor-pr\u00f3prio ao bem p\u00fablico; a segunda, dos miser\u00e1veis, que s\u00f3 amam a si mesmos.\u201d (VOLTAIRE, 1978, p. 79).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Infelizmente, embora haja um desejo interior no homem de participar da primeira classe, no fundo do cora\u00e7\u00e3o, muitos pertencem \u00e0 segunda, a dos miser\u00e1veis, que s\u00e3o aqueles que s\u00f3 preocupam consigo mesmo, por exemplo, os homens de bens citado acima.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cA mis\u00e9ria, condi\u00e7\u00e3o agregada \u00e0 nossa esp\u00e9cie, subordina um homem a outro homem; n\u00e3o \u00e9 a desigualdade que \u00e9 um mal real, mas a depend\u00eancia.\u201d (VOLTAIRE, 1978, p. 217).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Por ter sofrido a intoler\u00e2ncia, as ordens e a insol\u00eancia dos poderosos e tamb\u00e9m por ter cora\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o, foi advers\u00e1rio tenaz de todo fanatismo e despotismo. Por ter sido burgu\u00eas e \u00f3timo homem de neg\u00f3cios, admirava a constitui\u00e7\u00e3o que, na Inglaterra, dera-se \u2018uma na\u00e7\u00e3o de bodegueiros.<\/em> (REALE; ANTISERI, 2005, p.733)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Voltaire percebeu que mesmo havendo a divis\u00e3o de classes na sociedade, de um lado a dos opressores e de outro a dos oprimidos, nem todos os oprimidos s\u00e3o infelizes. Se observarmos bem nosso contexto, percebemos que a maioria das pessoas nasceram nesse estado; nessa condi\u00e7\u00e3o, somente o trabalho \u00e9 capaz de suavizar a dor da tamanha desigualdade presente na sociedade. Ao contr\u00e1rio, quando deparamos com pessoas oprimidas e, al\u00e9m disso, sem trabalho, sem recursos, logo surgir\u00e1 os conflitos sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A igualdade na perspectiva de Voltaire \u00e9 vista como uma utopia. Para ele, \u00e9 f\u00e1cil falar em igualdade quem n\u00e3o almeja ter posses, acumular bens e \u00e9 extremamente dif\u00edcil os homens, que tem seus recursos pr\u00f3prios, pensar nessa tem\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por um lado, encontramos na igualdade um ponto negativo: o homem \u00e9 livre para adquirir tais bens e usufru\u00ed-los, a ponto de dominar os outros. J\u00e1 por outro lado, como ponto positivo, Voltaire insiste no direito do homem de julgar-se inteiramente igual aos outros homens, assim um cozinheiro de um cardeal pode afirmar: \u201cSou um homem tal qual meu amo, nasci como ele a chorar; h\u00e1 de morrer, como eu, nas mesmas ang\u00fastias e nas mesmas dores da agonia\u201d. (VOLTAIRE, 1978, p. 218).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A igualdade para Voltaire \u00e9 apresentada como um princ\u00edpio segundo o qual todos os indiv\u00edduos respeitam as leis da sociedade, \u00e0s quais lhe garantem a paz e a organiza\u00e7\u00e3o. Ou seja, um indiv\u00edduo tem o direito de acumular bens, desde que trate o outro, mesmo que n\u00e3o possua posses, da mesma forma que trata uma pessoa que as tenha.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em suma, devemos nos questionar: h\u00e1 possibilidade de construir uma sociedade igualit\u00e1ria na contemporaneidade? Existem homens que vivem puramente de forma igualit\u00e1ria hoje? A realidade que se v\u00ea \u00e9 que o homem luta para adquirir cada vez mais seu prest\u00edgio sem se preocupar com os outros. Voltaire nos afirma que o homem \u00e9 livre para lutar em prol de seus objetivos pessoais, uma vez que o meio j\u00e1 o influencia. Por\u00e9m, devemos estar conscientes que nessa luta pela sobreviv\u00eancia deve haver respeito e harmonia no tratamento de um indiv\u00edduo para com o outro, havendo assim no meio das diversidades da sociedade, uma parcela de luta pela igualdade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>: de Spinoza a Kant. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005. v. II.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">VOLTAIRE. <em>Dicion\u00e1rio Filos\u00f3fico<\/em>. 2. ed. Trad. Marilena Chau\u00ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores)<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Voltaire nasceu em 1694 em Paris e foi educado em um col\u00e9gio mantido por Jesu\u00edtas. Tendo recebido consider\u00e1vel heran\u00e7a, deixou o col\u00e9gio e iniciou seus estudos de direitos. Voltaire viveu a experi\u00eancia de c\u00e1rcere e escreveu poemas em homenagens a reis, freq\u00fcentou a alta corte em v\u00e1rios pa\u00edses da Europa. Publicou v\u00e1rias obras e mesmo em idade avan\u00e7ada n\u00e3o cessou suas atividades intelectuais. Morreu aclamado e considerado pelo povo em maio de 1778. Voltaire foi curioso por toda a ci\u00eancia, expunha com clareza e ironia as quest\u00f5es mais obscuras e exerceu, sobre os homens de sua \u00e9poca e posteridade, consider\u00e1vel influ\u00eancia.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"-chrome-auto-translate-plugin-dialog\" style=\"display:none;opacity:1!important;background:transparent!important;position:absolute!important;top:0;left:0;overflow:visible!important;z-index:999999!important;text-align:left!important;border-color:none!important;margin:0!important;padding:0!important;\">\n<div style=\"max-width:300px!important;color:#121212!important;opacity:1!important;border:1px solid #363636!important;-webkit-border-radius:10px!important;background-color:#ffffff!important;font-size:16px!important;overflow:visible!important;background-image:0 color-stop(50%,#EEE), color-stop(100%,#FFF));z-index:999999!important;text-align:left!important;padding:8px!important;\"><\/div>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"position:absolute!important;z-index:-1!important;right:1px!important;top:-20px!important;cursor:pointer!important;-webkit-border-radius:20px;background-color:rgba(200,200,200,0.3)!important;margin:0!important;padding:3px 5px 0!important;\" src=\"http:\/\/www.google.com\/uds\/css\/small-logo.png\" alt=\"\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leandro Alves Figueira Percebendo, no viver, as coisas que lhe d\u00e3o prazer, as que satisfazem suas necessidades, as que lhe s\u00e3o \u00fateis, Voltaire[1] nos apresenta que o homem nasce com uma tend\u00eancia violenta para a domina\u00e7\u00e3o, as riquezas e os prazeres. A partir disso, se pode concluir que todos os homens seriam necessariamente iguais se &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[85,160],"tags":[347,349],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-1517","6":"format-standard","7":"category-leandro-alves-figueira","8":"category-voltaire","9":"post_tag-igualdade","10":"post_tag-iluminismo"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1517","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1517"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1517\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1517"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1517"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1517"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}