{"id":1521,"date":"2011-06-13T21:00:50","date_gmt":"2011-06-14T00:00:50","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1521"},"modified":"2011-06-13T21:00:50","modified_gmt":"2011-06-14T00:00:50","slug":"a-idade-da-razao-e-das-paixoes-segundo-rousseau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1521","title":{"rendered":"A idade da raz\u00e3o e das paix\u00f5es segundo Rousseau"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Wagner J\u00fanior dos Santos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">O presente artigo abordar\u00e1, de uma maneira objetiva, a idade da raz\u00e3o e das paix\u00f5es no pensamento de Rousseau (1712-1778), fase esta compreendida entre jovens de 15 a 20 anos. Segundo o fil\u00f3sofo,<strong><em> <\/em><\/strong>\u201co homem n\u00e3o foi feito para permanecer sempre na inf\u00e2ncia\u201d<strong><em> <\/em><\/strong>(ROUSSEAU, 2004, p. 286). Vale aqui nos questionar acerca de como compreender as paix\u00f5es se passamos r\u00e1pido por essa vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Rousseau afirma que at\u00e9 a chegada da idade n\u00fabil, as crian\u00e7as dos dois sexos nada t\u00eam de aparente que as distinga; ambas t\u00eam o mesmo rosto, mesma voz, mesmo aspecto, meninas s\u00e3o crian\u00e7as e meninos s\u00e3o crian\u00e7as, o mesmo nome basta para \u201cseres\u201d t\u00e3o semelhantes, todos s\u00e3o iguais (ROUSSEAU, 2004, p. 285).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Uma revolu\u00e7\u00e3o na vida humana \u00e9 anunciada pelos murm\u00farios das paix\u00f5es nascentes, e com ela tamb\u00e9m \u00e9 anunciada a aproxima\u00e7\u00e3o do perigo. At\u00e9 certa idade, os olhos que s\u00e3o os espelhos da alma, n\u00e3o passam de um olhar d\u00f3cil de bondade. A partir do momento em que se encontra a paix\u00e3o, ganham outra linguagem e express\u00e3o. Os mesmos olhos que antes eram inocentes tornam-se sens\u00edveis, antes de saberem o que sentem, inquietam-se sem raz\u00e3o para isto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo o pensamento de Rousseau, em sua tese fundamental que consiste na liberdade bem guiada pela raz\u00e3o e pelo pensamento educativo, os est\u00e1gios de idade devem variar, para preparar os jovens para a vida social. Rousseau queria uma sociedade em que as pessoas fossem n\u00e3o apenas livres e iguais, mas tamb\u00e9m soberanas, que exercessem um papel ativo dentro do contexto. E para que isso acontecesse seria necess\u00e1rio ensin\u00e1-las a serem livres, aut\u00eanticas e aut\u00f4nomas. Seria essa uma tarefa de poder civilizar a civiliza\u00e7\u00e3o, ou seja, deveria iniciar com a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. Rousseau afirma que o ser humano \u00e9 bom, mas deixou-se corromper pela sociedade, \u201cas crian\u00e7as que s\u00e3o criadas em uma sociedade que \u00e9 civilizada, vai se perdendo o instinto de crian\u00e7a d\u00f3cil e a partir da\u00ed, come\u00e7a a ser falsa e cheia de v\u00edcios\u201d. (CHALITA, 2004, p. 282).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Todo apego \u00e9 sinal de insufici\u00eancia. Se cada um de n\u00f3s n\u00e3o tivesse nenhuma necessidade dos outros, n\u00e3o pensar\u00edamos em unirmo-nos a eles. Nossas paix\u00f5es s\u00e3o o principal instrumento de nossa conserva\u00e7\u00e3o, portanto, v\u00e3 seria nossa inten\u00e7\u00e3o de querermos distra\u00ed-la. Estar\u00edamos raciocinando bem se, do fato de ser constituinte da natureza do homem ter paix\u00f5es, conclu\u00edssemos que todas as paix\u00f5es que sentimos e vemos-nos outros, s\u00e3o naturais. \u201cNossas paix\u00f5es s\u00e3o limitadas, s\u00e3o os instrumentos de nossa liberdade, tendem a nos conservar\u201d. (ROUSSEAU, 2004, p. 287).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A fonte de nossas paix\u00f5es, a origem e o princ\u00edpio de todas as outras, a \u00fanica que nasce com o homem e nunca o abandona enquanto ele vive, \u00e9 o amor de si. Paix\u00e3o essa primitiva, inata, anterior a todas as outras, e que todas as outras n\u00e3o passam de certos sentidos de modifica\u00e7\u00f5es. O amor a si, que s\u00f3 a n\u00f3s mesmos considera, fica contente quando nossas verdadeiras necessidades s\u00e3o satisfeitas. Mas o amor-pr\u00f3prio, que se compara, nunca est\u00e1 contente ou poderia estar, pois esse sentimento, preferindo aos outros, tamb\u00e9m exige que os outros se prefiram a eles, o que \u00e9 imposs\u00edvel. Assim, o que torna o homem essencialmente bom \u00e9 ter poucas necessidades e pouco a se comparar com os outros; ao contr\u00e1rio do que o torna essencialmente mau, ou seja, ter muita necessidade e dar muita aten\u00e7\u00e3o e opini\u00e3o aos outros \u00e9 que o torna essencialmente mal.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O adolescente quando chega aos dezesseis anos sabe o que \u00e9 sofrer, pois ele pr\u00f3prio sofreu. No entanto mal sabem que outros seres tamb\u00e9m sofrem; ver o sofrimento sem o sentir, n\u00e3o \u00e9 conhec\u00ea-lo. E n\u00e3o imagina o que sentem os outros, quando por\u00e9m, o primeiro desenvolvimento dos sentidos acende nele o fogo da imagina\u00e7\u00e3o, come\u00e7a a perceber em seus semelhantes, suas queixas e, comovendo-se sofre com suas dores. \u00c9 ent\u00e3o que o triste quadro da humanidade sofredora deve trazer ao seu cora\u00e7\u00e3o a primeira compaix\u00e3o que jamais tenha experimentado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Enfim, a fonte de todas as paix\u00f5es \u00e9 a sensibilidade. Todo ser que sente suas rela\u00e7\u00f5es \u00e9 necessariamente afetado quando essas rela\u00e7\u00f5es se alteram e quando se imagina ou acredita imaginar outras rela\u00e7\u00f5es mais convincentes que a sua natureza. Os erros da imagina\u00e7\u00e3o que transformam em v\u00edcios as paix\u00f5es de todos os seres s\u00e3o limitados. Eis ent\u00e3o a s\u00edntese da sabedoria humana quanto ao uso das paix\u00f5es: sentir as verdadeiras rela\u00e7\u00f5es do homem, tanto na esp\u00e9cie quanto no indiv\u00edduo, e ordenar todas as afei\u00e7\u00f5es da alma conforme essas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A partir desse princ\u00edpio, \u00e9 poss\u00edvel verificar como podemos dirigir, para o bem ou para o mal, todas as paix\u00f5es das crian\u00e7as e dos homens. A adolesc\u00eancia n\u00e3o \u00e9 a idade da vingan\u00e7a, nem do \u00f3dio, \u00e9 a idade da clem\u00eancia e da generosidade. Assim como afirma Rousseau, podemos concluir que, a crian\u00e7a que conservou at\u00e9 os vinte anos a inoc\u00eancia, \u00e9 nessa idade o mais generoso, o mais amoroso e o mais am\u00e1vel dos homens, pois n\u00e3o se deixou corromper diante da civiliza\u00e7\u00e3o. Um jovem educado \u00e9 levado pelos primeiros movimentos da natureza na dire\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es ternas e afetuosas, onde seu cora\u00e7\u00e3o compassivo se comove com os sofrimentos de seus semelhantes. O homem do \u201cmundo\u201d est\u00e1 inteiro em sua m\u00e1scara, n\u00e3o estando quase nunca em si mesmo, \u00e9 sempre um estrangeiro e sente-se pouco a vontade quando \u00e9 obrigado a voltar a si. O que ele \u00e9 nada \u00e9, o que parece ser \u00e9 tudo pra ele.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Rousseau n\u00e3o considera a educa\u00e7\u00e3o como uma \u201csegunda natureza\u201d, mas como uma continua\u00e7\u00e3o da natureza por todos os desvios poss\u00edveis e imagin\u00e1veis. O problema se torna um paradoxo quase que insuper\u00e1vel, uma vez que se trata de socializar o ser humano sem \u201cdesnatur\u00e1-lo\u201d, educ\u00e1-lo e deform\u00e1-lo. Ent\u00e3o como elevar o ser humano \u00e0 cultura sem sair da natureza? Para responder um paradoxo como este Rousseau trata de retirar a educa\u00e7\u00e3o das m\u00e3os exclusivas dos educadores, tomando por norma \u00faltima a pr\u00f3pria natureza, quererem secund\u00e1-la seria um erro, \u00e9 preciso apenas segui-la; sem o que como Rousseau gosta de dizer, \u201ctudo est\u00e1 perdido\u201d, n\u00e3o h\u00e1 mais rem\u00e9dio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Vemos um grande descaso hoje na educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e dos jovens, e vale aqui se perguntar por qual motivo isso vem ocorrendo nos dias de hoje? A educa\u00e7\u00e3o do nosso tempo tem contribu\u00eddo para formar homens que sejam capazes de se tornarem livres? Vemos que para formar um homem livre h\u00e1 apenas um meio: trat\u00e1-lo como ser livre e respeitar sua liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0O que vemos hoje \u00e9 na verdade s\u00e3o pais fracos, que cedem a todos os pedidos dos filhos, longe de respeitar sua liberdade, corrompem-na: longe de fazer dele um ser livre, submetem-no \u00e0s fantasias e mais tarde as suas paix\u00f5es. O mais grave n\u00e3o \u00e9 que eles pr\u00f3prios se tornem escravos dos filhos, o pior que fazem dele um escravo.\u00a0 Isso pode acarretar em acostum\u00e1-lo a obter tudo, pois, crescendo, seus desejos sem cessar pela facilidade de satisfaz\u00ea-los, mais cedo ou mais tarde a impot\u00eancia vos for\u00e7ar\u00e1, ainda que contra a vontade a usar da recusa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O pensamento de Rousseau teve grande influ\u00eancia no desenvolvimento da pedagogia. Por valorizar as emo\u00e7\u00f5es, foi reconhecido como precursor do Romantismo e se caracterizou pelo predom\u00ednio dos sentimentos e da imagina\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ROUSSEAU, Jean-Jaques<em>. Em\u00edlio ou da educa\u00e7\u00e3o<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Roberto Leal ferreira.\u00a0 3. ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">CHALITA, Gabriel. <em>Vivendo a filosofia<\/em>. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Atual, 2004.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wagner J\u00fanior dos Santos O presente artigo abordar\u00e1, de uma maneira objetiva, a idade da raz\u00e3o e das paix\u00f5es no pensamento de Rousseau (1712-1778), fase esta compreendida entre jovens de 15 a 20 anos. 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