{"id":1546,"date":"2011-08-04T12:55:50","date_gmt":"2011-08-04T15:55:50","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1546"},"modified":"2011-08-04T12:55:50","modified_gmt":"2011-08-04T15:55:50","slug":"a-dessacralizacao-do-sagrado-uma-alusao-a-religiosidade-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1546","title":{"rendered":"A dessacraliza\u00e7\u00e3o do sagrado: uma alus\u00e3o \u00e0 religiosidade contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Daniel Junior dos Santos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A dessacraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um tema bastante pertinente na contemporaneidade, visto que os valores religiosos e seu simbolismo v\u00eam se deteriorando por consequ\u00eancia de meios manipuladores como a m\u00eddia, televis\u00e3o, levando as pessoas a assumirem uma posi\u00e7\u00e3o a-religiosa diante do transcendente e se situarem num Cosmos desorganizado e sujeito \u00e0 morte. Por isso, o tema dessacraliza\u00e7\u00e3o do sagrado ser\u00e1 desenvolvido numa perspectiva antropol\u00f3gico-divina (rela\u00e7\u00e3o entre homem e o divino), \u00e0 luz de Mircea Eliade<a title=\"\" href=\"\/Blog\/Eliade,%20Daniel%20Junior.docx#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> e outros comentadores, baseando-se em dados sociol\u00f3gicos que por si tentam construir essa teia chamada profana\u00e7\u00e3o; al\u00e9m de enfatizar por meio de uma reflex\u00e3o sociol\u00f3gica das religi\u00f5es a dimens\u00e3o desmistificada do transcendental.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para iniciarmos este assunto vem-nos em mente a seguinte pergunta: O que \u00e9 dessacraliza\u00e7\u00e3o? Segundo Houaiss (2001, p.1015), \u201cdessacraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 desmistifica\u00e7\u00e3o\u201d; fiquemos com esta defini\u00e7\u00e3o por enquanto at\u00e9 que a levantemos na \u00e1rea das religi\u00f5es. Contudo, trata-se de um tema muito complexo para ser desenvolvido num artigo cient\u00edfico por ser de abrang\u00eancia em outras etapas do conhecimento como: a fenomenologia, a sociologia e principalmente a teologia. Assim iremos utilizar como meios de pesquisa o exemplo das religi\u00f5es valendo-se dos seus mitos, ritos, valores, cosmovis\u00f5es, costumes; de forma clara, objetiva, concisa com aux\u00edlio tamb\u00e9m de dados e acontecimentos ver\u00eddicos da atualidade que exprimam e ilustrem o contexto religioso-social que estamos inseridos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Embora seja a religi\u00e3o uma prerrogativa muito particular em que tantos rejeitam que se fale sobre ela por ser algo superficial, de pouca import\u00e2ncia, que s\u00f3 consiste numa cren\u00e7a em algo e mais nada; entretanto ela \u00e9 necess\u00e1ria. Como deixar de lado algo que nos coloca em contato com o Criador? Infelizmente muitas pessoas ignoram; j\u00e1 outras acreditam, mas profanam at\u00e9 contra o que se cr\u00ea. Deus n\u00e3o existe!\u00a0 Esta \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de muitos quando se fala sobre o Divino. Por isso a relev\u00e2ncia deste estudo est\u00e1 intimamente ligada \u00e0s quest\u00f5es acima explicitadas e a sua rela\u00e7\u00e3o com o fen\u00f4meno a-religioso do g\u00eanero humano, relatando as formas de profana\u00e7\u00e3o despertando-se assim uma consci\u00eancia a respeito da cren\u00e7a adotada por cada indiv\u00edduo a partir da seguinte indaga\u00e7\u00e3o: \u00c9 poss\u00edvel que existam pessoas descrentes em tudo? Investigar o porqu\u00ea da repuls\u00e3o que o homem a-religioso mant\u00e9m perante o Sagrado juntamente com sua ades\u00e3o ao profano, para que ent\u00e3o se possa tra\u00e7ar uma retomada do simbolismo religioso na contemporaneidade, este \u00e9 o nosso objetivo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0<strong>1.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><strong>A dualidade entre Sagrado e Profano<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sabemos que Sagrado e Profano constituem duas modalidades de ser a qual o ser humano est\u00e1 destinado a escolher para que se possa dar um sentido a sua exist\u00eancia, sendo esta tamb\u00e9m uma consequ\u00eancia que o far\u00e1 sempre sujeito a outra dimens\u00e3o n\u00e3o escolhida, seja ela sagrada ou o seu oposto. Por outro lado s\u00e3o realidades que se op\u00f5em n\u00e3o sendo uma o mesmo da outra, como nos relata Eliade:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>O Sagrado equivale ao poder, \u00e0 realidade por excel\u00eancia, est\u00e1 saturado de ser. (&#8230;) O homem deseja profundamente ser, participar da realidade, saturar-se de poder. A oposi\u00e7\u00e3o entre sagrado\/profano traduz-se muitas vezes como uma oposi\u00e7\u00e3o entre real e irreal ou pseudo real<\/em>. (ELIADE, 1992, p.14)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem tem dentro de si um desejo impetuoso de \u201cser\u201d, participar de uma realidade impregnada de poder e de sentido. Essa dualidade se expressa por uma luta constante entre aquilo que faz com que ele se aproxime do fict\u00edcio, imagin\u00e1rio, irreal, ou de uma dimens\u00e3o real, que existe e que n\u00e3o esconde o verdadeiro. Assim, esta oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 estabelecida diante dele para que por meio do Cosmos, de sua cren\u00e7a, fa\u00e7a-se com que ele escolha entre viver ou perecer. Podemos fazer uma analogia disso \u00e0 luz da filosofia de Plat\u00e3o segundo a qual nos revela que os verdadeiros valores, formas das coisas materiais e imateriais encontram-se no Mundo das Ideias \u201csagrado\u201d. Enquanto isso, o ser humano tendo como sede de seu conhecimento a sua pr\u00f3pria alma lan\u00e7a-se atrav\u00e9s de seu intelecto na busca do verdadeiro mundo onde habita os valores e formas eternas juntamente com seu Criador; durante este tempo vive numa realidade onde tudo n\u00e3o passa de c\u00f3pias mal criadas da verdadeira forma; Mundo sens\u00edvel \u201cprofano\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o obstante, temos que levar em considera\u00e7\u00e3o que a filosofia de Plat\u00e3o \u00e9 apresentada num outro rumo em rela\u00e7\u00e3o ao que estamos refletindo. Ora, sempre existir\u00e1 essa duplicidade visto que somos entes imperfeitos sujeitos a viver num mundo sacralizado ou ca\u00f3tico, entre o Bem e o Mal. Mesmo que este seja o seu \u201cdestino\u201d, o homem tem de se esfor\u00e7ar para viver num Cosmos sacralizado, impedindo com que o profano se manifeste e o subestime a abandonar o lado divino de ser para assumir um lado mal de ser, como nos explica Eliade (1992, p.17): \u201cH\u00e1, portanto, um espa\u00e7o Sagrado e por consequ\u00eancia \u2018forte\u2019, significativo, e h\u00e1 outros espa\u00e7os n\u00e3o sagrados, e por consequ\u00eancia sem estrutura nem consist\u00eancia, em suma, amorfos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Contudo o sagrado e o seu oposto podem manifestar-se ao mundo dependendo \u00e9 claro da liberdade e consci\u00eancia dos entes em assumir um caminho. E para que se possa escolher este, \u00e9 apresentada como ferramenta essencial e forma de capta\u00e7\u00e3o de tal experi\u00eancia: a religiosidade. Com isso, qual o significado de religiosidade? Segundo Chau\u00ed (2000, p.380), \u201cA religi\u00e3o \u00e9 um v\u00ednculo\u201d. Isso nos mostra que o seu papel \u00e9 o de unir, ligar, uma realidade sagrada a seu receptor, fazendo-se de mitos, ritos, costumes, para reatualizar os fatos dos deuses e vivenci\u00e1-los de perto; como em muitas religi\u00f5es a quest\u00e3o da cosmogonia \u00e9 vivenciada retratando de forma m\u00edtico-religiosa tudo como era no princ\u00edpio e que continuar\u00e1 sendo. Embora este seja o significado da religi\u00e3o: uma conex\u00e3o entre o humano e o divino, pode ela ser uma conex\u00e3o com o profano? N\u00e3o muito distante chegamos \u00e0 resposta. Na atualidade como j\u00e1 foi explicitado na introdu\u00e7\u00e3o, vive-se um momento em que a religi\u00e3o est\u00e1 perdendo algo de muito inestim\u00e1vel: a linguagem simb\u00f3lica e os valores sagrados. Muitos dos que possuem uma cren\u00e7a fazem dela como se fosse algo de poder, de cobi\u00e7a e de conquista pessoal, desvalorizando o sentido do sagrado e de seus ritos, como tamb\u00e9m das religi\u00f5es. A sa\u00edda para esse embate \u00e9 a reeduca\u00e7\u00e3o dos sentidos e valores religiosos que permeiam toda a atmosfera c\u00f3smica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dentro dessa atmosfera seja ela ca\u00f3tica ou sacra, nos \u00e9 apresentado duas formas de experi\u00eancias: a do espa\u00e7o sagrado e a do espa\u00e7o profano. Para as religi\u00f5es em geral, o espa\u00e7o ou lugar \u00e9 o meio de manifesta\u00e7\u00e3o dos deuses, embora este tamb\u00e9m possa ser um espa\u00e7o de manifesta\u00e7\u00e3o profana. Assim, o homem religioso vive num espa\u00e7o fixo que o permite mergulhar na comunh\u00e3o com o transcendente. J\u00e1 aquele que se deixa guiar pelo espa\u00e7o profano vive num mundo homog\u00eaneo e impregnado pelo caos, n\u00e3o tendo nenhum ponto fixo, sujeito a aniquilar-se, como nos diz Eliade (1992, p. 18) ao relatar-nos a import\u00e2ncia do espa\u00e7o sagrado para a revela\u00e7\u00e3o divina: o espa\u00e7o sagrado permite que se obtenha um \u201cponto fixo\u201d, portanto, a orienta\u00e7\u00e3o na homogeneidade ca\u00f3tica, a \u201cfunda\u00e7\u00e3o do mundo\u201d, o viver real. Contudo, a experi\u00eancia profana, mant\u00e9m a homogeneidade; a relatividade do espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Enfim, para o <em>homo religiosus <\/em>que se guia pelo sagrado, n\u00e3o existe um espa\u00e7o homog\u00eaneo, embora possa se submeter ao caos; o tempo \u00e9 um dado que extrapola a sua compreens\u00e3o, sendo ele o eixo donde transcorrem os eventos cosmog\u00f4nicos da cria\u00e7\u00e3o do mundo e dos festins religiosos. J\u00e1 o homem privado de sentimento religioso n\u00e3o vive num espa\u00e7o habitado pelo divino e sim num espa\u00e7o desajustado, confuso e indefinido. A dimens\u00e3o do tempo para ele \u00e9 definida como mon\u00f3tono, ou seja, \u201ctempo festivo\u201d. Traduzindo: pessoas que se deixam guiar pelas coisas materiais e n\u00e3o diferenciam religi\u00e3o de trabalho e festas. Em suma deve-se ter em mente estas particularidades e diferencia\u00e7\u00f5es que fazem com que nos tornemos ora pessoas do sagrado ora pessoas do profano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>2.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><strong>Repuls\u00e3o: homem a-religioso X Sagrado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ap\u00f3s termos feito uma alus\u00e3o ao tema da oposi\u00e7\u00e3o do sagrado e do profano retomemos a sua significa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<ul style=\"text-align:justify;\">\n<li>Sagrado \u2013 \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o de uma realidade suprassens\u00edvel, metaf\u00edsica, superior, e por assim determinar: real, diz-se das coisas interiores (ex: natureza, Deus);<\/li>\n<li>Profano \u2013 \u00e9 a n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o dessa realidade e acolhimento de um mundo desorganizado, diz-se das coisas exteriores, irreal (ex: dinheiro, luxo).<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como eixos de reflex\u00e3o mostraremos que tipos de rea\u00e7\u00e3o existem e se pode existir entre o homem a-religioso<a title=\"\" href=\"\/Blog\/Eliade,%20Daniel%20Junior.docx#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> e o sagrado. Sentimos que nos tempos modernos a for\u00e7a do divino como \u201ccentro organizador\u201d de todas as coisas vem tornando-se algo in\u00fatil, sup\u00e9rfluo para muitos indiv\u00edduos. Segundo Patias, verifica-se uma diminui\u00e7\u00e3o do poder Sagrado como podemos ressaltar:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>No sagrado moderno, verifica-se de um lado, uma diminui\u00e7\u00e3o do poder (sagrado) do centro organizador de cada sociedade. Contribu\u00edram para esta situa\u00e7\u00e3o o avan\u00e7o das explica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e a perda do poder e do prest\u00edgio das institui\u00e7\u00f5es religiosas, que eram os \u00fanicos \u201ccentros organizadores\u201d na sociedade. Contribu\u00edram tamb\u00e9m, o surgimento de v\u00e1rios centros organizadores (religiosos, cient\u00edficos, pol\u00edticos, sociais, inclusive a m\u00eddia) em concorr\u00eancia m\u00fatua, uns com os outros, como \u201cmodelos\u201d e \u201cgermes\u201d do sentido do mundo. O ser humano passou a ter com todos eles, pequenas dist\u00e2ncias sacrificiais<\/em>. (PATIAS, 2007, p.3)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim n\u00e3o muito longe nota-se que os avan\u00e7os em v\u00e1rias \u00e1reas de conhecimento e principalmente no \u00e2mbito da ci\u00eancia fizeram com que as institui\u00e7\u00f5es religiosas deixassem de serem os grandes centros organizadores para cederem lugar aos outros modos organizadores. Isso causou uma concorr\u00eancia entre tais institui\u00e7\u00f5es fazendo com que ambas se despencassem em luta de concorr\u00eancia. Este \u00e9 o retrato e a causa do distanciamento de muitas pessoas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o, fazendo com que tomassem uma postura de n\u00e3o submiss\u00e3o a tais meios devido a sua concorr\u00eancia exacerbada, acarretando o chamado fen\u00f4meno a-religioso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por\u00e9m outro elemento deve ser levado em conta como lembra Patias (2007), o \u201ceu\u201d individual tornara-se o centro organizador, enquanto os centros organizadores antecessores a este, tornaram-se seus submissos. \u00c9 o fato onde muitas pessoas assumem car\u00e1ter ego\u00edsta e individualista, volvendo-se como centros do mundo e tendo seus submissos a religi\u00e3o, ou seja, o pr\u00f3prio divino. Isto deve nos recordar do per\u00edodo do Renascimento onde os cientistas imbu\u00eddos do esp\u00edrito iluminista deslocaram a vis\u00e3o de centro do mundo do Teocentrismo (Deus) para o Antropocentrismo (Homem); influenciando muitos at\u00e9 os dias atuais. O mundo assumiu uma nova configura\u00e7\u00e3o como diz Patias:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Deste modo, depois da decomposi\u00e7\u00e3o do religioso que conduziu a uma diminui\u00e7\u00e3o da intensidade do(s) centro(s) sagrado(s) sacrificiais, veio uma recomposi\u00e7\u00e3o do religioso (sob outro aspecto) na qual o ser humano passou a ser o centro de um novo sagrado (pouco ou n\u00e3o sacrificial). Isso representa uma mudan\u00e7a de paradigma, uma vez que a verdade das religi\u00f5es sofreu uma fragmenta\u00e7\u00e3o em muitas pequenas verdades individuais.<\/em> (<em>Ibidem<\/em>, 2007, p. 3)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Retomando a problem\u00e1tica do homem n\u00e3o religioso notamos que alguns fatores s\u00e3o causas deste afastamento, mas partindo para uma quest\u00e3o que foi elencada na introdu\u00e7\u00e3o: \u00c9 poss\u00edvel que existam pessoas descrentes em tudo? Se uma pessoa n\u00e3o cr\u00ea em nada isto mostra que ela apesar de n\u00e3o acreditar, cr\u00ea em algo, ou seja, o pr\u00f3prio nada, isso no campo da l\u00f3gica. Mas numa outra perspectiva \u00e9 imposs\u00edvel que exista algu\u00e9m que n\u00e3o acredite em alguma coisa, visto que isto consista num horizonte que norteia o modo de si viver. Assim o sagrado \u00e9 tido pelo homem religioso como algo eterno, imut\u00e1vel, a partir disso sente-se atra\u00eddo por Este consistindo o seu pr\u00f3prio modo de ser. Isto \u00e9 fato em muitas religi\u00f5es onde os religiosos sentem-se t\u00e3o atra\u00eddos pelo sobrenatural que deixam de viver sua condi\u00e7\u00e3o como \u201cser humano\u201d e passam a assumir uma vida semelhante a dos deuses. Quanto ao ate\u00edsmo que nega a exist\u00eancia de Deus podemos nos valer do exemplo l\u00f3gico citado, mas com a consci\u00eancia de que este \u00e9 um assunto muito complexo de ser tratado no \u00e2mbito em que nos situamos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outro fator que impede esta aproxima\u00e7\u00e3o do homem com o transcendente esta na parte em que este n\u00e3o se v\u00ea como criatura, um ente criado por um Ser supremo; isto faz com que ele se questione sobre sua condi\u00e7\u00e3o, origem e destino excluindo qualquer explica\u00e7\u00e3o que venha da religi\u00e3o, fundamentando-se na ci\u00eancia. Mas ser\u00e1 que ci\u00eancia e religi\u00e3o s\u00e3o perfeitas?\u00a0 Ambas s\u00e3o imperfeitas, mas juntas podem revelar algo in\u00e9dito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, como nos esclarece Kaufmann (p. 5): \u201cA vida \u00e9 vivida num plano duplo: exist\u00eancia humana que participa de uma vida trans-humana\u201d. Aquele que vive uma experi\u00eancia profana enraizada no que \u00e9 natural desprovido do sobrenatural, n\u00e3o abole completamente a religi\u00e3o, pois esta \u00e9 um conector que o liga ao divino n\u00e3o podendo ser descartada mesmo que o homem n\u00e3o se sujeite a Ele. Assim como nos fala Eliade (1992, p. 18): \u201c&#8230; o homem que optou por uma vida profana n\u00e3o consegue abolir completamente o comportamento religioso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0<strong>3.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><strong>Dessacraliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Depois de desenvolvermos os temas anteriores, abordaremos como t\u00e9rmino a consequ\u00eancia existente da postura profana, chamada dessacraliza\u00e7\u00e3o e a conceituaremos na contemporaneidade. Como nos foi revelado na introdu\u00e7\u00e3o como primeiro significado de dessacraliza\u00e7\u00e3o pelo dicion\u00e1rio Houaiss: dessacraliza\u00e7\u00e3o expressa desmistifica\u00e7\u00e3o. Segundo Eliade (1992, p. 14), \u201ccaracteriza-se como experi\u00eancia total do homem n\u00e3o religioso das sociedades modernas, o qual por essa raz\u00e3o sente uma dificuldade cada vez maior em reencontrar as dimens\u00f5es existenciais do homem religioso das sociedades arcaicas\u201d. Retornando ao passado podemos observar que para os antigos o divino era algo em sua inteireza sagrado inviol\u00e1vel, insubstitu\u00edvel. J\u00e1 para os modernistas, passou a ser o contr\u00e1rio visto que com o advento dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e seu sucessivo desenvolvimento, a dimens\u00e3o sacra foi posta de lado para que se assumisse outra dimens\u00e3o: a informatizada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Enquanto os pr\u00e9-modernistas viam na dimens\u00e3o sagrada a sacralidade do Cosmos e a beleza da cria\u00e7\u00e3o dos deuses, na contemporaneidade se ouve falar em desmatamento, emiss\u00e3o de poluentes a atmosfera, queimadas, tr\u00e1fico de animais; tudo isso diante da vis\u00e3o das religi\u00f5es constituem formas de dessacraliza\u00e7\u00e3o, ou seja, de destrui\u00e7\u00e3o da obra sagrada dos deuses. Quando profanamos, por exemplo, a natureza (n\u00e3o se prendendo somente nela), estamos profanando a nossa pr\u00f3pria identidade enquanto ser humano como nos ilustra Eliade:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>A exist\u00eancia do homo religiosus, sobretudo do primitivo, \u00e9 \u201caberta\u201d para o mundo; vivendo, o homem religioso nunca est\u00e1 sozinho, pois vive nele uma parte do Mundo. Uma exist\u00eancia \u201caberta\u201d para o Mundo n\u00e3o \u00e9 uma exist\u00eancia inconsciente, enterrada na Natureza. A \u201cabertura\u201d para o Mundo permite ao homem religioso conhecer-se conhecendo o Mundo \u2013 e esse conhecimento \u00e9 preciso para ele porque \u00e9 um conhecimento religioso, refere-se ao Ser<\/em>. (<em>Ibidem<\/em>, p.81)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ent\u00e3o ao profanarmos toda a realidade presente no Cosmos estamos profanando a nossa pr\u00f3pria imagem, j\u00e1 que ela \u00e9 um desdobramento de nossa exist\u00eancia por interm\u00e9dio deste. Assim se profanarmos n\u00e3o saberemos quem somos na verdade, tornamo-nos n\u00e3o seres, ou seja, deixamos de ser aquilo que \u00e9ramos. A natureza \u00e9 relacionada para as religi\u00f5es como sendo revela\u00e7\u00e3o de uma realidade sobrenatural, com isso se d\u00e1 a linguagem simb\u00f3lica onde por meio de sinais da natureza se pode captar a luz que emana do divino.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Contudo por meio de ve\u00edculos manipuladores como a m\u00eddia, a religi\u00e3o tem-se tornado enfraquecida nesta problem\u00e1tica, pois os meios de tecnologia corrompem as pessoas com coisas f\u00e1ceis, sendo que muitas delas pertencem ao estilo religioso. E tal instrumento para isso \u00e9 a televis\u00e3o, que para muitos se tornara o \u201cdivino\u201d.\u00a0 Diante disso fica a seguinte pergunta no ar: Quais s\u00e3o as formas de dessacraliza\u00e7\u00e3o presentes no nosso mundo?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Algumas j\u00e1 foram explicitadas, entretanto n\u00e3o \u00e9 somente a natureza que pode ser desmistificada. Existem outras vis\u00f5es dentro das religi\u00f5es que podem ser destru\u00eddas a partir do ato profano, estamos falando dos rituais, mitos, costumes que ao serem levados ao p\u00e9 da letra de forma rigorosa, perfeccionista, podem esvaziar seu sentido e compreens\u00e3o. Isto se tratando de religi\u00f5es que seguem um ritualismo exagerado, preocupando-se com as formas e desligando-se do conte\u00fado. Mas o que significa ritualizar e ritualismo? Ambos s\u00e3o id\u00eanticos?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Patias d\u00e1 a seguinte defini\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>\u201c<\/em>Ritualizar<em>\u201d \u00e9 o processo pelo qual se formam ou se criam ritos. A\u00e7\u00f5es que, com o tempo, s\u00e3o ritualizadas (pessoa que \u00e9 levada a ter um comportamento ritual e ritualiza o pr\u00f3prio agir, tornando-se formal e repetitivo). Visto como um processo positivo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>O \u201c<\/em>ritualismo<em>\u201d, por sua vez, \u00e9 quando se passa a dar uma conota\u00e7\u00e3o negativa ao processo. Um comportamento esteriotipado, esvaziado de qualquer conte\u00fado simb\u00f3lico. (comportamentos nas grandes religi\u00f5es quando se tornam repetitivos, padronizados e formais. Quando um doente recorre a formas ritualizadas para combater a ang\u00fastia, como lavar as m\u00e3os diversas vezes)<\/em>. (PATIAS, 2007, p. 4)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Numa cosmovis\u00e3o atual, vemos que a sociedade est\u00e1 sujeita a tal ritualismo, por\u00e9m sem a linguagem dos mitos; a ind\u00fastria da idolatria do corpo, da moda, do fanatismo no futebol e na religi\u00e3o constituem formas de ritualismo e sendo assim podem ser chamados de dessacraliza\u00e7\u00e3o. Tais eventos proporcionam ao homem uma cultura de vida regrada por v\u00edcios e formalidades, gerando nele a figura de uma criatura perfeita e formal. Deste modo torna-se necess\u00e1ria a retomada dos valores e s\u00edmbolos sagrados sem leva-los a um ritualismo exacerbado, pois estes constituem a fonte manifestadora da realidade sacra e do sentido humano religioso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Percebemos pelos estudos que foram feitos que a principal causa do fen\u00f4meno a-religioso est\u00e1 na competi\u00e7\u00e3o que se deu dos centros organizadores (religiosos, sociais, pol\u00edticos, econ\u00f4micos) fazendo com que o ser humano se distancie do Sagrado e por sua vez das religi\u00f5es. Outro fator relevante \u00e9 o surgimento de novas t\u00e9cnicas na \u00e1rea da ci\u00eancia (inform\u00e1tica) tornando o homem escravo do irreal \u201cprofano\u201d, assumindo uma condi\u00e7\u00e3o de escravid\u00e3o que se estende nos tempos atuais. Por sua vez, a dessacraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o resultado da atitude profana de destruir aquilo que \u00e9 obra e ess\u00eancia divina e est\u00e1 ligada na postura do homem n\u00e3o religioso; o sagrado sempre ser\u00e1 oposto daquilo que \u00e9 profano. O objetivo que fora investigar o porqu\u00ea da repuls\u00e3o que o homem a-religioso mant\u00e9m perante o Sagrado juntamente com sua ades\u00e3o ao profano, para que ent\u00e3o se pusesse a tra\u00e7ar uma retomada do simbolismo religioso na contemporaneidade, foi alcan\u00e7ado. Embora n\u00e3o se tenha feito muito o uso de exemplos acerca da cultura das religi\u00f5es, e por ser um tema religioso, n\u00e3o foi poss\u00edvel aprofundar alguns assuntos espec\u00edficos com a cosmovis\u00e3o de cada religi\u00e3o, mas sim uma s\u00edntese geral. Contudo aprofundou a quest\u00e3o proposta n\u00e3o fugindo da realidade, sem o preceito de querer responder tais questionamentos que foram feitos com o intuito de levar a um esclarecimento individual sobre o assunto.\u00a0 Proporcionou grandes conhecimentos acad\u00eamicos, mas, sobretudo religioso com \u00eanfase na dimens\u00e3o sacra do sagrado. Espera-se um aprofundamento ainda maior sobre este assunto na perspectiva de cada religi\u00e3o com pesquisas, estat\u00edsticas de como porta-se a cren\u00e7a na contemporaneidade.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>CHAU\u00cd, Marilena. A experi\u00eancia do sagrado e a institui\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o. In: ______. <em>Convite \u00e0 Filosofia<\/em>. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 2000, p. 380. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.uff.br\/cienciainformacao\/Disciplinas\/CHAUIconvitea_filo.pdf &gt;. Acesso em: 25 maio 2011.<\/p>\n<p>DESSACRALIZA\u00c7\u00c3O. In: HOUAISS, Ant\u00f4nio; VILLAR, Mauro. <em>Grande Dicion\u00e1rio Houaiss da L\u00edngua Portuguesa<\/em>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 1015.<\/p>\n<p>ELIADE, Mircea. <em>O Sagrado e o Profano<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Rog\u00e9rio Fernandes. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1992. 110 p. (Cole\u00e7\u00e3o T\u00f3picos). T\u00edtulo original: <em>Le Sacr\u00e9 Et Le Profane<\/em>. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.xiconhoca.net\/MirceaEliade\/OSagradoEOProfano.pdf&gt;. Acesso em: 6 abr. 2011.<\/p>\n<p>KAUFMANN, Carlos. Dessacraliza\u00e7\u00e3o do Cotidiano. <em>Rev. Thaumazein<\/em>, n.1, 2007. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.unifra.br\/thaumazein\/edicao1\/artigos\/dessacralizacao.pdf &gt;. Acesso em: 24 maio. 2011.<\/p>\n<p>PATIAS, Jaime Carlos. <em>O Sagrado e o profano<\/em>: do rito religioso ao espet\u00e1culo midi\u00e1tico.\u00a0\u00a0 S\u00e3o Paulo, 2007. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.pluricom.com.br\/forum\/o-sagrado-e-o-profano-do-rito-religioso-ao\/?searchterm=o sagrado e o profano: do rito religioso ao espet\u00e1culo midi\u00e1tico&gt;. Acesso em: 24 maio. 2011.<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Eliade,%20Daniel%20Junior.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> Grande mit\u00f3logo e especialista em filosofia das religi\u00f5es pela Universidade de Bucareste (Rom\u00eania).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Eliade,%20Daniel%20Junior.docx#_ftnref2\">[2]<\/a> Homem n\u00e3o religioso.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Junior dos Santos A dessacraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um tema bastante pertinente na contemporaneidade, visto que os valores religiosos e seu simbolismo v\u00eam se deteriorando por consequ\u00eancia de meios manipuladores como a m\u00eddia, televis\u00e3o, levando as pessoas a assumirem uma posi\u00e7\u00e3o a-religiosa diante do transcendente e se situarem num Cosmos desorganizado e sujeito \u00e0 morte. 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