{"id":1551,"date":"2011-08-04T12:40:57","date_gmt":"2011-08-04T15:40:57","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1551"},"modified":"2011-08-04T12:40:57","modified_gmt":"2011-08-04T15:40:57","slug":"o-outro-o-excluido-filosofia-da-libertacao-de-henrique-dussel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1551","title":{"rendered":"O outro &#8211; o exclu\u00eddo: filosofia da liberta\u00e7\u00e3o de Henrique Dussel"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Jo\u00e3o Paulo Rodrigues Pereira<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:30px;\"><em>As primeiras express\u00f5es. <\/em>N\u00e3o havia nenhuma pessoa, nenhum animal, p\u00e1ssaro, peixe, caranguejo, \u00e1rvore, pedra, buraco, desfiladeiro, campo ou floresta.<em> Por si s\u00f3 o c\u00e9u existiu. (&#8230;) N\u00e3o havia mais nada, o que quer que fosse. Em sil\u00eancio ou em repouso. Cada coisa foi feita silenciosa.\u00a0<\/em><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A filosofia nasce na Gr\u00e9cia e se espalha por todo mundo, inclusive na Am\u00e9rica latina. No entanto, no decorrer da hist\u00f3ria, o par\u00e2metro do filosofar ficou arraigado no modelo Grego que foi difundido pelos europeus. Assim, ao estudar filosofia estuda-se a cultura, a l\u00edngua, a hist\u00f3ria, o pensamento e a estrutura da sociedade dos povos europeus. Mas por que n\u00e3o pensar numa filosofia da Am\u00e9rica latina? Por que n\u00e3o estudar a nossa cultura, nossa hist\u00f3ria, nosso pensamento e nossas l\u00ednguas? Sendo que temos nossa pr\u00f3pria identidade, nossa pr\u00f3pria historia \u2013 como nos mostra o livro <em>Popol- vuh, <\/em>citado em ep\u00edgrafe.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A filosofia da liberta\u00e7\u00e3o de Henrique Dussel<a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> nasce com este intento: propor um pensamento a partir da realidade da Am\u00e9rica Latina. Deste modo, sua proposta filos\u00f3fica enceta no outro, no exclu\u00eddo, no pobre que clama por justi\u00e7a. Para tanto, Dussel prop\u00f5e analisar esta realidade por meio de cinco categorias, que s\u00e3o: Proximidade, Exterioridade, Totalidade, Aliena\u00e7\u00e3o e Liberta\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, neste artigo ser\u00e1 tratado, o outro como exclu\u00eddo, propriamente, atrav\u00e9s da categoria de Exterioridade, uma vez que a mesma \u00e9 o \u00e2mago da filosofia da liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A categoria de exterioridade \u00e9 assimilada da filosofia de Levinas. Com isso, Dussel v\u00ea no pensamento de Levinas uma oportunidade de pensar a filosofia da Am\u00e9rica Latina, como se segue:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Quando em 1970 come\u00e7amos a recorrer a L\u00e9vinas em nossa Para uma \u00e9tica da liberta\u00e7\u00e3o latino-americana, foi-nos poss\u00edvel a supera\u00e7\u00e3o do Heidegger de Ser e Tempo. Sem abandonar essa perspectiva, vamos continuar agora nosso argumento partindo do horizonte pulsional. A primeira perspectiva de L\u00e9vinas, cr\u00edtico a partir da fenomenologia, foi um situar-se sistematicamente a partir de fora da mera ordem gnosiol\u00f3gica. O judeu lituano (&#8230;) viveu a \u201cexperi\u00eancia\u201d traum\u00e1tica de cinco anos de seu corpo vulner\u00e1vel concreto, no campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista (<\/em>Stammlager<em>). Foi uma v\u00edtima do holocausto judeu no cora\u00e7\u00e3o da modernidade.<\/em> (DUSSEL, 2000, p. 363)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Levinas, depois de ter sofrido os horrores da guerra, percebe que a ontologia heideggeriana \u00e9 um pensamento violento causador da guerra, isto \u00e9, um pensamento totalit\u00e1rio, pois n\u00e3o abre espa\u00e7o para se pensar o diferente, o outro. \u201cN\u00e3o \u00e9, portanto, uma rela\u00e7\u00e3o com o outro como tal, mas a redu\u00e7\u00e3o do outro ao mesmo\u201d (LEVINAS, 2008, p. 33). Assim, Levinas prop\u00f5e a \u00e9tica como filosofia primeira a partir da alteridade do outro. Com esta perspectiva, Dussel v\u00ea a originalidade de Levinas: a descoberta da alteridade, isto \u00e9, o outro que est\u00e1 no mundo e \u00e9 exterior ao meu mundo. Por\u00e9m, ainda que fant\u00e1stica, a descoberta continua limitada, pois Levinas v\u00ea o outro apenas como o judeu massacrado por Hitler, ou seja, o outro de Levinas \u00e9 o outro europeu.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Levinas fala sempre do outro como o \u201cabsolutamente outro\u201d. Tende, ent\u00e3o, para o equ\u00edvoco. Por outro lado, nunca pensou que o outro pudesse ser um \u00edndio, um africano, um asi\u00e1tico. O outro para n\u00f3s \u00e9 a Am\u00e9rica Latina em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 totalidade europ\u00e9ia; \u00e9 o povo pobre e oprimido da Am\u00e9rica Latina em rela\u00e7\u00e3o as oligarquias dominadoras e, contudo, dependentes.<\/em> (DUSSEL, 1986, p. 196).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O outro, segundo Dussel, \u00e9 aquele que irrompe com o sistema, com o habitual, com o cotidiano; desta forma, ele \u00e9 o n\u00e3o habitual, o diferente o extraordin\u00e1rio. Ele \u00e9 exterioridade, mas exterior a todo o sistema \u2013 o sistema individual, isto \u00e9, o mundo rotineiro de cada pessoa; e o sistema da sociedade (atualmente o capitalismo). Por conseguinte, o outro se revela<a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> como \u201co pobre, o oprimido; aquele que \u00e0 beira do caminho, fora do sistema, mostrar seu rosto sofredor\u201d (DUSSEL, s.d. \/a, p.48). Por isso, a filosofia da liberta\u00e7\u00e3o se prop\u00f5e ir atr\u00e1s da raz\u00e3o do outro \u2013 outro enquanto exclu\u00eddo, aquele que est\u00e1 \u00e0 margem do sistema:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>Na verdade, n\u00f3s n\u00e3o somos aquele outro \u201c<\/em>diferente da raz\u00e3o<em>\u201d, mas pelo contr\u00e1rio, o que pretendemos \u00e9 manifestar eficazmente \u201ca raz\u00e3o do outro\u201d: do \u00edndio assassinado por genoc\u00eddio, do escravo africano reduzido a uma mercadoria, da mulher vilipendiada como objeto sexual, da crian\u00e7a subjugada pedagogicamente (sujeito \u201cbanc\u00e1rio\u201d, como a define Paulo Freire<\/em><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00f3s pretendemos ser a express\u00e3o da \u201cRaz\u00e3o\u201d dos que se situam bem al\u00e9m da \u201cRaz\u00e3o\u201d<em> euroc\u00eantrica machista, pedagogicamente dominadora, culturalmente dominadora, religiosamente fetichista. <\/em>O que pretendemos \u00e9 uma filosofia da liberta\u00e7\u00e3o do Outro, isto \u00e9, daquele que est\u00e1 fora e distante dos horizontes desse mundo de hegemonias como o econ\u00f4mico-pol\u00edtico (do fratric\u00eddio), da comunidade de comunica\u00e7\u00e3o real euroc\u00eantrica (do filic\u00eddio), eroticidade f\u00e1lica e castradora da mulher (do uroc\u00eddio), e, n\u00e3o em \u00faltimo lugar, o do indiv\u00edduo que considera a natureza como media\u00e7\u00e3o explor\u00e1vel para a valoriza\u00e7\u00e3o do valor capital (ecoc\u00eddio) (DUSSEL, 2005, p. 47-48).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Das coisas que est\u00e3o no mundo, ou melhor, no sistema em que se vive, h\u00e1 uma coisa que se exp\u00f5e como totalmente diferente. Nas ruas, nas pra\u00e7as, nas ind\u00fastrias, nos centros comerciais, nos vilarejos, pertos dos rios e das montanhas, h\u00e1 sempre o diferente: o rosto de outros homens. Comumente, eles se apresentam, no rotineiro da vida, como uma coisa, como um objeto, como algo que faz parte do sistema, e n\u00e3o como outro homem: \u201cO chofer do t\u00e1xi d\u00e1 a impress\u00e3o de ser um prolongamento mec\u00e2nico do carro; a dona da casa como um momento a mais da limpeza e da arte culin\u00e1ria; o professor como um ornamento da escola; o soldado como um membro do ex\u00e9rcito (&#8230;) \u00e9 ent\u00e3o um ente; \u00e9 parte de sistemas\u201d (DUSSEL, s.d. \/a, p.48).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem est\u00e1 t\u00e3o atrelado ao sistema, pode-se dizer quase insol\u00favel, que \u00e9 dif\u00edcil reconhec\u00ea-lo como outro homem, que \u00e9 dif\u00edcil isol\u00e1-lo do sistema. Seu rosto<a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> \u00e9 visto, simplesmente, como uma coisa sem mist\u00e9rio, como um instrumento, como algo que n\u00e3o transcende o aspecto f\u00edsico. Ele, o rosto, \u00e9 visto como uma m\u00e1scara, como algo que n\u00e3o interpela, pois a m\u00e1scara n\u00e3o \u00e9 rosto, mas ao contrario, ela \u00e9 uma coisa que completa um ambiente, como um m\u00f3vel que completa a casa. \u201cPassa-se junto ao outro e simplesmente se diz: \u2018um oper\u00e1rio\u2019!, ou: \u2018um \u00edndio\u2019!, ou \u2018um negro\u2019!\u201d (DUSSEL, s.d. \/a, p.59).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, h\u00e1 momentos em que o sistema \u00e9 quebrado e o rosto do outro se mostra como outro homem, n\u00e3o meramente com um objeto ou um instrumento do sistema, mas o outro se revela em sua total exterioridade<a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. Isto acontece \u201cquando de repente o chofer do t\u00e1xi se apresenta como amigo e nos diz: \u2013 como vais? (&#8230;) Muito mais quando se nos diz: \u2013 \u2018Uma ajuda, por favor! \u2019 ou \u2013 \u2018Estou com fome; d\u00ea-me de comer! \u2019 (DUSSEL, s.d. \/a, p.46). Inesperadamente a pergunta nasce em meu mundo, causa impacto, e quebra o meu sistema; a outra pessoa que, at\u00e9 ent\u00e3o, era vista como um instrumento se revela em toda a sua exterioridade como outro homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desta forma, o outro se mostra n\u00e3o como um objeto, mas como algu\u00e9m, conseguindo assim, fugir da totaliza\u00e7\u00e3o instrumental. Ao se revelar como algu\u00e9m, ele se mostra livre, bem como se mostra um mist\u00e9rio, uma vez que resiste a toda totaliza\u00e7\u00e3o instrumental:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;padding-left:120px;\"><em>O outro, como outro livre e que exige justi\u00e7a, instaura uma hist\u00f3ria imprevis\u00edvel. O outro como mist\u00e9rio \u00e9 o para onde, o mais al\u00e9m de meu mundo, que o movimento dial\u00e9tico n\u00e3o pretender\u00e1 compreender como totalidade totalizada, uma vez que, por sua estrutura finita, sabe que jamais conseguir\u00e1. A totalidade, como o visto feito sistema, op\u00f5e-se a infinitiza\u00e7\u00e3o (<\/em>infinicion<em>) de um movimento dial\u00e9tico hist\u00f3rico que se abre para ouvir a palavra do outro, que se revela a partir de um exterioridade insond\u00e1vel e imprevis\u00edvel<\/em>. (DUSSEL, 1986, p.187.).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao fugir da totaliza\u00e7\u00e3o instrumental, o outro se revela como exterioridade, como aquele que \u00e9 livre, isto \u00e9, ele n\u00e3o \u00e9 parte do meu mundo \u2013 incondicionado ao meu sistema e, por isso, \u201cjamais posso a-barcar, com-preender, po-ssuir, tornar totalmente meu o \u201coutro\u201d, e tantas outras mais\u201d (ZIMMERMANN, 1987, p.183). Isto \u00e9, o outro enquanto outro \u00e9 aquele que \u00e9 exterior ao meu mundo, \u00e9 livre. Assim, \u201cjamais poderei dizer, acabadamente: J\u00e1 compreendi (&#8230;). Quando compreendo como media\u00e7\u00e3o, como instrumento (&#8230;) ent\u00e3o o incluo em meu mundo e o deixo afastar-se impessoalmente como <em>Mitsein<\/em><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftn7\"><sup><\/sup><sup>[7]<\/sup><\/a><em>\u201d <\/em>(DUSSEL, s.d. \/b, p. 116). Por\u00e9m, a alteridade s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel a partir da liberdade<a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>, isto \u00e9, o outro s\u00f3 \u00e9 outro quando consegue fugir do sistema, ao contr\u00e1rio, ele n\u00e3o \u00e9 livre \u00e9 funcional, n\u00e3o \u00e9 outro, mas \u00e9 profissional, parte de um sistema, de uma estrutura.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por estar fora do sistema, o direito do outro n\u00e3o se justifica pelas leis do sistema, mas em sua exterioridade. Por se mostrar como algu\u00e9m e n\u00e3o como coisa, seu direito funda-se na constitui\u00e7\u00e3o da dignidade humana. \u201cSeu rosto (&#8230;) \u00e9 provoca\u00e7\u00e3o e ju\u00edzo por simples revela\u00e7\u00e3o\u201d (DUSSEL, s.d. \/a, p.49). Deste modo, o pobre, o exclu\u00eddo, o outro, clama \u00e0 justi\u00e7a. \u201cA simples presen\u00e7a do oprimido como tal \u00e9 o fim da boa consci\u00eancia do opressor\u201d (DUSSEL, s.d. \/a, p.49).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O outro, em sua total exterioridade, pode ser considerado o n\u00e3o-ser. O Ser \u00e9 considerado o fundamento do sistema, mas n\u00e3o s\u00f3 do sistema, como tamb\u00e9m, o fundamento do mundo cotidiano<a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>. No entanto, h\u00e1 realidade para al\u00e9m do ser, para al\u00e9m do sistema e, por isso, o outro \u00e9 considerado como n\u00e3o-ser. \u201cAl\u00e9m do horizonte do ser, o outro \u00e9 o b\u00e1rbaro (que n\u00e3o \u00e9 homem para Arist\u00f3teles), ou a mulher na sociedade machista (que \u00e9 castrada para Freud), ou o \u00f3rf\u00e3o que nada \u00e9 e deve aprender tudo (como o Em\u00edlio de Rousseau).\u201d (DUSSEL, s.d. \/a, p. 51).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como n\u00e3o-ser, como exclu\u00eddo, o outro foge das algemas da Raz\u00e3o. Por causa da sua alteridade ele n\u00e3o pode ser compreendido por nenhum sistema. Enquanto exterioridade, o outro est\u00e1 para al\u00e9m da raz\u00e3o. Assim, no mist\u00e9rio do outro somente pela f\u00e9 se pode penetrar. Quando se ouve a voz do outro: tenho fome! O que se pode pensar: ele me engana! Ou est\u00e1 mentido! Devo acreditar? No entanto, a palavra do outro sempre \u00e9 uma revela\u00e7\u00e3o. \u201cPor isso, se precisa de f\u00e9: f\u00e9 na palavra do outro, f\u00e9 no novo que sempre se cria <em>ex-nihilo<\/em>, do que ainda n\u00e3o foi e ainda n\u00e3o \u00e9, mas que ainda pode ser. \u00c8 f\u00e9 que o eu tem no tu, que \u00e9 o outro\u201d (ZIMMERMANN, 1987, p.184).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Neste sentido, para aceitar a palavra do outro n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ter motivo, mas o crit\u00e9rio de certeza \u00e9, unicamente, porque em sua palavra o outro se revela como outro. \u201cN\u00e3o aceito o que me revela nem pela evid\u00eancia de seu conte\u00fado, nem por ser certo. Aceito porque atr\u00e1s de sua palavra se encontra a pr\u00f3pria realidade de algu\u00e9m\u201d (DUSSEL, s.d. \/a, p. 53). Assim, ao se aproximar do outro, faz-se mister que se venha com a \u00f3tica da f\u00e9, sobretudo, porque na palavra do outro cont\u00e9m a certeza de que ele \u00e9 um outro homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, percebe-se que por meio da categoria de exterioridade, que \u00e9 a mais importante da filosofia da liberta\u00e7\u00e3o, Dussel prop\u00f5e um vi\u00e9s para se pensar a filosofia na America Latina.\u00a0 Partindo de sua pr\u00f3pria realidade, sobretudo, do pobre, do exclu\u00eddo, do outro \u2013 o outro como aquele que esta fora das totaliza\u00e7\u00f5es do sistema \u2013 ou seja, do exclu\u00eddo,\u00a0 \u00e9 poss\u00edvel pensar numa filosofia com a identidade latino-americana. Deste modo, mesmo que a America Latina n\u00e3o tenha uma tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, como a Europa, fica evidente que por meio de sua cultura, de sua historia \u2013 mesmo que esta hist\u00f3ria seja marcada por um povo exclu\u00eddo, um povo sofredor \u2013 \u00e9 prov\u00e1vel pensar filosoficamente a partir desta realidade.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>CLEMENTE, Adelson, L. S. <em>A v\u00edtima, o outro exclu\u00eddo na filosofia de Enrique Dussel<\/em>. Monografia (Bacharel em Filosofia) Faculdade Arquidiocesana de Mariana. Mariana, 2008.<\/p>\n<p>BEOZZO, Jos\u00e9, O. Enrique Dussel, fil\u00f3sofo crist\u00e3o, te\u00f3logo e historiador<em>. <\/em>In: LAMPE, Armando (Org.).<em> Hist\u00f3ria e liberta\u00e7\u00e3o<\/em>: Homenagem aos 60 anos de Enrique Dussel. Petr\u00f3polis: Vozes, 1996, p. 11-20.<\/p>\n<p>BROTHERSTON, Gordon; MEDEIROS, Sergio (orgs). <em>Popol Vuh. <\/em>S\u00e3o Paulo: Iluminares, 2007.<\/p>\n<p>DUSSEL, Enrique, D. <em>Filosofia da liberta\u00e7\u00e3o:<\/em> na Am\u00e9rica Latina. Trad. Luiz Jo\u00e3o Gaio. S\u00e3o Paulo: Loyola, s.d. \/a.<\/p>\n<p>______. <em>Para uma \u00e9tica da liberta\u00e7\u00e3o latino-americana: <\/em>I acesso ao ponto de partida da \u00e9tica. S\u00e3o Paulo: Loyola, s. d \/b.<\/p>\n<p>______. <em>M\u00e9todo Para Uma Filosofia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/em>. Trad. Jandir Jo\u00e3o Zanotelli. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1986.<\/p>\n<p>______. <em>\u00c9tica da liberta\u00e7\u00e3o na idade da globaliza\u00e7\u00e3o e da exclus\u00e3o.<\/em> Trad. Ephraim, F. Jaime, A. et al. Petr\u00f3polis: Vozes, 2000.<\/p>\n<p>______. <em>Filosofia da Liberta\u00e7\u00e3o:<\/em> cr\u00edtica a ideologia da exclus\u00e3o. Trad. Georges I. Maissiat. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005.<\/p>\n<p>LEVINAS, Emmanuel. <em>Totalidade e infinito.<\/em> Trad. Jos\u00e9 Pinto Ribeiro. 3. ed. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 2008.<\/p>\n<p>VASCONCELOS, Maria L\u00facia M. C. <em>Conceitos de Educa\u00e7\u00e3o em Paulo Freire.<\/em> 4. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 2010.<\/p>\n<p>ZIMMERMANN, Roque. <em>Uma Abordagem Filos\u00f3fica a Partir de Enrique Dussel:<\/em> Am\u00e9rica Latina o N\u00e3o-Ser. 2. ed. Petr\u00f3polis: S\u00e3o Paulo, 1987.<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> Este livro (<em>Popol-Vuh<\/em>) foi escrito em meados do s\u00e9culo XVI pelos quich\u00e9s na sua pr\u00f3pria l\u00edngua, pertencente a fam\u00edlia maia. Naquele momento, os quich\u00e9s viviam, como continuam vivendo, nas montanhas da Guatemala Ocidental, perto da fronteira do que era o imp\u00e9rio tribut\u00e1rio mexica ou asteca e do que hoje s\u00e3o os Estados Unidos do M\u00e9xico (BROTHERSTON; MEDEIROS, 2007, p. 11).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftnref2\">[2]<\/a> Enrique Domingos Dussel nasceu, em 24 de dezembro de1934, numa peque e pobre aldeia, em La Paz, Mendonza, Argentina, no seio de uma fam\u00edlia de boa condi\u00e7\u00e3o social (&#8230;). O pai era m\u00e9dico e a m\u00e3e, de origem latina, era cat\u00f3lica e possui uma consci\u00eancia social agu\u00e7ada. Tinha tudo par ser um Burgu\u00eas, mas o contato com os pobres e injusti\u00e7ados na inf\u00e2ncia e juventude, deixou marcas profundas em sua vida. (Adelson, p. 9). O itiner\u00e1rio intelectual de Henrique Dussel levou-o dos estudos filos\u00f3ficos na Universidade nacional de Cuyo, em Mendonza, na Argentina (&#8230;) a um doutorado em filosofia na Universidade complutense de Madri, \u00e0 licenciatura em teologia no instituto Cat\u00f3lico de Paris e ao Doutorado em hist\u00f3ria na Sorbonne. Foi pioneiro em abrir caminhos para o nascimento de uma filosofia latino-americana. Sua contribui\u00e7\u00e3o mais original situa-se na esfera da \u00e9tica, como proposta de liberta\u00e7\u00e3o no campo pol\u00edtico- econ\u00f4mico, a partir do pobre, alteridade cr\u00edtica de todo o sistema e \u201co outro\u201d, por excel\u00eancia (LAMPE, 1996, \u00a0p. 13-15).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftnref3\">[3]<\/a> <strong>Revelar<\/strong> n\u00e3o \u00e9 mais que interpelar desde a exterioridade para mobilizar o esfor\u00e7o libertador (DUSSEL, s.d. \/a, p.110).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftnref4\">[4]<\/a> <strong>Educa\u00e7\u00e3o Banc\u00e1ria<\/strong>: Configura a abordagem pedag\u00f3gica pela qual o educador \u00e9 agente transmissor de informa\u00e7\u00f5es e conhecimentos aos educandos.\u00a0 Para esta concep\u00e7\u00e3o, o \u00fanico papel do educador \u00e9 o de expor\/ impor conhecimentos, sua miss\u00e3o \u00e9 meramente informativa. Por isso, adota-se analogicamente, o termo \u201cbanc\u00e1ria\u201d. A id\u00e9ia que se tem \u00e9 de que aquele que possui conhecimento ir\u00e1 \u201cdepositar\u201d, transferir, pura e simplesmente, aquilo que conhece para aquele que nada sabe, o deposit\u00e1rio do saber de outrem. (VASCONCELOS, 2010, p.83).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftnref5\">[5]<\/a> O outro como rosto interpela, revelante, provocante, somente nesse caso \u00e9 pessoa (DUSSEL, S.D a, p.50). \u00c9-se outro na medida em que se \u00e9 exterior a totalidade, e neste mesmo sentido se \u00e9 rosto (pessoa) humano interpelante (DUSSEL, s.d. \/a, p. 51)<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftnref6\">[6]<\/a> Exterioridade \u00e9 sin\u00f4nimo de alteridade (Cf. DUSSEL. s.d. \/a, p.48).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftnref7\">[7]<\/a> O outro n\u00e3o \u00e9 aquele com o qual estou no mundo (o <em>Mitsein<\/em> de Heidegger) e com rela\u00e7\u00e3o ao qual tenho um modo pr\u00f3prio de com-preens\u00e3o (DUSSEL, s.d. \/b, p. 116)<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftnref8\">[8]<\/a> Liberdade aqui n\u00e3o \u00e9 somente uma certa possibilidade de escolher entre diversas media\u00e7\u00f5es que dependem do projeto cotidiano. Liberdade agora \u00e9 a incondicionalidade do outro com rela\u00e7\u00e3o ao mundo no qual sempre sou o centro. O outro como outro, isto \u00e9, como centro de seu pr\u00f3prio mundo (embora seja um dominado ou oprimido), pode dizer o imposs\u00edvel, o inesperado, o in\u00e9dito em meu mundo, no sistema. (DUSSEL, s.d. \/a, p. 51)<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Blog\/Dussel,%20Joao%20Paulo.docx#_ftnref9\">[9]<\/a> Sobre este tema ver: DUSSEL, s.d. \/a, p.47.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Paulo Rodrigues Pereira As primeiras express\u00f5es. N\u00e3o havia nenhuma pessoa, nenhum animal, p\u00e1ssaro, peixe, caranguejo, \u00e1rvore, pedra, buraco, desfiladeiro, campo ou floresta. Por si s\u00f3 o c\u00e9u existiu. (&#8230;) N\u00e3o havia mais nada, o que quer que fosse. Em sil\u00eancio ou em repouso. Cada coisa foi feita silenciosa.\u00a0[1] A filosofia nasce na Gr\u00e9cia e &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[25,72,89],"tags":[294,312,413],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-1551","6":"format-standard","7":"category-dussel","8":"category-joao-paulo-rodrigues-pereira","9":"category-levinas","10":"post_tag-exclusao","11":"post_tag-filosofia-da-libertacao","12":"post_tag-outro"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1551","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1551"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1551\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}