{"id":1732,"date":"2011-09-30T16:23:01","date_gmt":"2011-09-30T19:23:01","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1732"},"modified":"2011-09-30T16:23:01","modified_gmt":"2011-09-30T19:23:01","slug":"o-jogo-e-a-repeticao-a-vida-encarada-no-fluxo-do-eterno-retorno-em-nietzsche","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1732","title":{"rendered":"O jogo e a repeti\u00e7\u00e3o: a vida encarada no fluxo do eterno retorno em Nietzsche"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Bruno Aparecido Nepomuceno<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nietzsche fez-nos engolir sem nenhum paliativo a forte constata\u00e7\u00e3o da morte de Deus. Eis que tivemos que encarar a dura verdade na qual nossos olhos dogm\u00e1ticos e metaf\u00edsicos n\u00e3o ousavam corajosamente se fixar anteriormente, seja por inseguran\u00e7a do que poderia isso acarretar, seja por medo do que esta afirma\u00e7\u00e3o poderia causar num mundo que havia se amparado \u00e0 figura de um ser divino fora dele que, al\u00e9m de sustent\u00e1-lo nas m\u00e3os, projetava-o para um futuro id\u00edlico de plenitude e alegria a que se acordou chamar de c\u00e9u ou porvir.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Era a partir dessa figura metaf\u00edsica, na infinidade de seus nomes e rostos, que a nossa sociedade ocidental foi florescendo e se construindo. At\u00e9 mesmo na modernidade, onde a raz\u00e3o havia se tornado senhora de si, houve lugar significativo para essa caricatura do transcendente. L\u00e1, ela tomou o nome e o rosto de raz\u00e3o. E fr\u00e1gil do jeito que sempre foi, n\u00e3o podendo se lan\u00e7ar ao novo e desprotegido caminho da nega\u00e7\u00e3o de Deus, procurou dar a ele outros significados ou simplesmente ignorou sua pseudoexist\u00eancia por medo de pulverizar sua imagem j\u00e1 outrora estilha\u00e7ada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando tomava sobre si a responsabilidade do mundo, da vida e do pr\u00f3prio futuro \u2013 futuro este que se transformou no alvo imediato de nosso querer, agora n\u00e3o mais alojado num c\u00e9u metaf\u00edsico, mas num depois melhor constru\u00eddo por nossas pr\u00f3prias m\u00e3os \u2013 o homem mergulhava inevitavelmente no vazio, no nada, no desfundamento da vida e via-se submerso naquilo que Nietzsche chamou de niilismo, o enfrentamento do nada. A vida a partir da\u00ed passou a ganhar um valor de nada, o agora passou a ser desapreciado em fun\u00e7\u00e3o de um n\u00e3o-agora, de um n\u00e3o-desse-jeito e de um n\u00e3o-aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dessa forma, o homem, para ganhar aquilo para o qual imputou como valor de exist\u00eancia deixou de participar de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e de sentir passar por si o fluxo da pr\u00f3pria vida, o respiro que o enleava no campo da experi\u00eancia de si, o devir eterno que o carregava para seu destino tr\u00e1gico: a concretiza\u00e7\u00e3o f\u00e1tica de ser unicamente humano, demasiado humano. A vida, que deveria ser identificada como for\u00e7a, impulso criador, energia e princ\u00edpio din\u00e2mico de unidade de todas as fun\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas fundamentais, foi negada e negligenciada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A vontade de pot\u00eancia quando deparou-se com o niilismo, confrontou-se consigo mesma, com a possibilidade de continuar ou n\u00e3o impulsionando o homem ou com a inutilidade de sua for\u00e7a perante o nada. Ergueu-se uma luta de for\u00e7as: o vazio versus a pot\u00eancia. Quem conseguiria arrastar o outro para o que aspirava? Mas ningu\u00e9m est\u00e1 livre do niilismo. Ele \u00e9 o ingrediente necess\u00e1rio para a concretiza\u00e7\u00e3o da sociedade da forma com que est\u00e1 estruturada na contemporaneidade. Mas ser\u00e1 que desapareceu de n\u00f3s, por isso, a vontade de pot\u00eancia, a vontade de viver, a afirma\u00e7\u00e3o do agora e da pr\u00f3pria vida? H\u00e1 ainda sa\u00edda para essa crise de ilus\u00f5es e fantasias \u00e0 qual fomos obrigados a aderir e para a qual o niilismo nos empurrou? Para responder essas perguntas \u00e9 que surge para Nietzsche a mais aterrorizante de suas ideias: o eterno retorno.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Essa ideia de Nietzsche surge como consequ\u00eancia de um projeto afirmador da vida que empreendeu, de uma luta individual filos\u00f3fica que assumiu. Embrenhado no tr\u00e1gico no qual se transformara a sua vida, ou na simples detec\u00e7\u00e3o que ela j\u00e1 o era, nosso fil\u00f3sofo procurou um jeito de manter sua vontade de pot\u00eancia no tim\u00e3o do barco de sua hist\u00f3ria que sucumbia perante as ondas revoltas do mar em que fora jogado. E n\u00e3o havia nele ind\u00edcios de desist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O eterno retorno \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o da vida levada ao extremo, da forma com que ela se nos apresenta. \u00c9 aceita\u00e7\u00e3o incondicional do devir, entrada plena em seu fluxo. \u201cAfirmar o presente \u00e9 o eterniz\u00e1-lo, \u00e9 afirmar ao mesmo tempo a necessidade de um futuro infinitamente repetido e de um passado tamb\u00e9m infinitamente repetido\u201d. (LEFRANC, 2008, p. 311).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, ao que parece, a proposta do eterno retorno n\u00e3o \u00e9 uma reposta fugidia e desesperada de Nietzsche para fundamentar a vida humana. Se assim o fosse, ele estaria traindo seu pr\u00f3prio pensamento que propunha uma retirada total dos fundamentos metaf\u00edsicos da vida para torn\u00e1-la mais aut\u00eantica. N\u00e3o \u00e9 um calmante alucin\u00f3geno de um homem \u00e0 beira da cis\u00e3o de si, nem mesmo malogro de um poeta filos\u00f3fico frustrado. Eterno retorno \u00e9 filosofia e antifilosofia ao mesmo tempo! \u00c9 paradoxo que espelha o pr\u00f3prio momento tragic\u00f4mico da vida, movimento antag\u00f4nico de vontades de pot\u00eancias que se imp\u00f5em, se sobrep\u00f5em e que engendram o sentido da exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 filosofia \u00e0 medida que \u00e9 resultado de seu pensamento cr\u00edtico aplicado \u00e0 vida e \u00e0s coisas, \u00e0 medida que utiliza de princ\u00edpios muito antes elucidados pelo pr\u00f3prio Her\u00e1clito, algo que o pr\u00f3prio Nietzsche assumiu:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A doutrina do \u2018eterno retorno\u2019, ou seja, do ciclo absoluto e infinitamente repetido de todas as coisas \u2013 essa doutrina de Zaratustra <em>poderia<\/em> afinal ter sido ensinada tamb\u00e9m por Her\u00e1clito. Ao menos encontram-se tra\u00e7os dela no estoicismo, que herdou de Her\u00e1clito quase todas as suas ideias fundamentais. (NIETZSCHE, Ecce Homo, Nascimento da Trag\u00e9dia, \u00a73)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, apesar de n\u00e3o novo, ainda h\u00e1 um car\u00e1ter original na doutrina do eterno retorno proclamada por Nietzsche. N\u00e3o \u00e9 mais obscura sua exist\u00eancia ou apenas uma esp\u00e9cie de possibilidade do devir como no pensamento pr\u00e9-socr\u00e1tico. \u00c9 concretude, facticidade, realiza\u00e7\u00e3o. Ele est\u00e1 acontecendo e todos n\u00f3s estamos imersos nele. Tudo vai, mas tudo, e exatamente do mesmo jeito, volta. \u00c9 a vida como um eterno movimento c\u00edclico sem possibilidades de tangentes. N\u00e3o h\u00e1 ponto de partida e nem ponto de chegada. \u201cPara o disc\u00edpulo de Dioniso, o mundo n\u00e3o teve come\u00e7o e n\u00e3o ter\u00e1 fim. Ele simplesmente subsiste ou, mais precisamente, ele n\u00e3o cessa de passar, de <em>acontecer<\/em>, de se repetir e de jogar o seu jogo de dados e de acasos ao infinito\u201d (ALMEIDA, 2005, p. 161).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dessa forma n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o para aparatos metaf\u00edsicos nem fundamentos l\u00f3gicos no pensamento nietzschiano. A vida, o passado, o presente e o futuro est\u00e3o completamente entregues \u00e0 responsabilidade do sujeito. Cabe a cada um ser o agente libert\u00e1rio de si mesmo no processo fluido da vida. Tudo est\u00e1 em nossas m\u00e3os e o passado e o futuro est\u00e3o aqui e agora.\u00a0 \u00c9 no instante presente que eles se encontram e se renovam eternamente.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">(&#8230;) pensar o eterno retorno \u00e9 pensar que a afirma\u00e7\u00e3o do presente repercute infinitamente em eco no passado como no futuro, que \u00e9 imposs\u00edvel querer o instante presente sem querer de modo id\u00eantico uma infinidade de instantes passados e uma infinidade de instantes futuros. (LEFRANC, 2008, p. 309).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O agora voltar\u00e1! E vir\u00e1 uma sucess\u00e3o de vezes. Eu, voc\u00ea que l\u00ea esse artigo, o que voc\u00ea pensa ao l\u00ea-lo, os cheiros que voc\u00ea sente, os movimentos que voc\u00ea faz e at\u00e9 o pr\u00f3prio questionamento da veracidade dessas informa\u00e7\u00f5es. Tudo voltar\u00e1. H\u00e1 algo de mais libert\u00e1rio e, ao mesmo tempo, mais assustador que essa revela\u00e7\u00e3o? Ou\u00e7amos a narra\u00e7\u00e3o inquietante de Nietzsche na revela\u00e7\u00e3o desse fato:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">E se um dia ou uma noite um dem\u00f4nio se esgueirasse em tua mais solit\u00e1ria solid\u00e3o e te dissesse: \u201cEsta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, ter\u00e1s de viv\u00ea-la ainda uma vez e ainda in\u00fameras vezes: e n\u00e3o haver\u00e1 nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que h\u00e1 de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida h\u00e1 de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequ\u00eancia \u2013 e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as \u00e1rvores, e do mesmo modo este instante e eu pr\u00f3prio. A eterna ampulheta da exist\u00eancia ser\u00e1 sempre virada outra vez \u2013 e tu com ela, poeirinha da poeira!\u201c N\u00e3o te lan\u00e7arias ao ch\u00e3o e rangerias os dentes e amaldi\u00e7oarias o dem\u00f4nio que te falasses assim? (NIETZSCHE, 1999, A Gaia ci\u00eancia, \u00a7 341).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 isso que Nietzsche chama de pensamento terrificante e abissal (Cf. ALMEIDA 2005, p. 158). Seu \u201cZaratustra n\u00e3o apresenta o pensamento do eterno retorno apenas como misterioso e secreto, mas como nauseante, dif\u00edcil de suportar.\u201d (DELEUZE 1976, p. 53). Tudo tem o seu retorno. E a palavra \u201ctudo\u201d nunca foi utilizada com tanta propriedade como nessa afirma\u00e7\u00e3o. Por isso n\u00e3o h\u00e1 progresso, n\u00e3o h\u00e1 Deus, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma solu\u00e7\u00e3o <em>ex maquina<\/em> que poder\u00e1 nos elevar, salvar ou justificar. Estamos s\u00f3s diante da possibilidade aterrorizadora da repeti\u00e7\u00e3o. Os dados do jogo da vida j\u00e1 foram lan\u00e7ados e nenhum cron\u00f4metro poder\u00e1 alardear o fim desse ciclo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O \u00fanico par\u00e2metro para a vida e para o mundo s\u00e3o eles pr\u00f3prios. Constituem-se mat\u00e9rias-primas e obras de arte ao mesmo tempo. Em uma esp\u00e9cie de autofagia o mundo se alimenta, se desenvolve, reproduz e recome\u00e7a. O mundo \u201cnunca come\u00e7ou a vir a ser e nunca cessar\u00e1 de passar \u2013 ele se <em>mant\u00e9m<\/em> nestes dois processos&#8230; Ele vive de si mesmo: os seus excrementos s\u00e3o o seu alimento\u201d. (NIETZSCHE <em>Fragments posthumes<\/em>, primavera de 1888, 13, 14 [188], 376 citado por ALMEIDA 2005, p. 161).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A partir dessa cruel revela\u00e7\u00e3o h\u00e1 somente duas escolhas: negar ou afirmar a vida, ceder a ela ou protagoniz\u00e1-la, pois n\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica pessoa que, diante da possibilidade da repeti\u00e7\u00e3o eterna de tudo o que vive, n\u00e3o repense suas decis\u00f5es e seus atos. N\u00e3o posicionar-se j\u00e1 \u00e9 posicionar-se. A roda gigante do mundo n\u00e3o exclui ningu\u00e9m e n\u00e3o pede ades\u00e3o, pede decis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cO mundo \u00e9 um ciclo que j\u00e1 se repetiu uma infinidade de vezes e que joga seu jogo ao infinito. \u2013 Esta concep\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma concep\u00e7\u00e3o mecanicista; pois, se fosse, n\u00e3o arrastaria um retorno infinito de casos id\u00eanticos, mas um estado final\u201d. (NIETZSCHE, <em>Fragments posthumes<\/em>, primavera de 1988, XIV, 14 [188] citado por LEFRANC 2008, p.306).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esta roda \u2013 que na verdade \u00e9 empobrecida quando ilustrada pela imagem do c\u00edrculo, pois n\u00e3o h\u00e1 uma equival\u00eancia material ou ideal para a monstruosidade que \u00e9 o eterno retorno \u2013 \u00e9 movida pelas for\u00e7as ou (vontades de) pot\u00eancias que pulsam no mundo. S\u00e3o for\u00e7as limitadas dispersas no tempo infinito e \u00e9 essa equa\u00e7\u00e3o que justifica a teoria do nosso fil\u00f3sofo. Ele diz que,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">(&#8230;) se o mundo pode ser pensado como uma grandeza determinada de for\u00e7as e com um n\u00famero determinado de centros de for\u00e7a, segue-se que este mesmo mundo deve passar por um n\u00famero calcul\u00e1vel de combina\u00e7\u00f5es no grande jogo de dados ou de acasos de sua exist\u00eancias\u201d. (ALMEIDA 2005, p.160).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o h\u00e1, pois, surpresas no percurso e muito menos <em>telos.<\/em> O rio do devir corre impulsionado pelo mesmo potencial e mesmo que, quando nos banhamos nele por duas ou mais vezes ele n\u00e3o se repita, suas \u00e1guas ainda s\u00e3o as mesmas, fazem parte de um ciclo hidrol\u00f3gico que voltar\u00e1 por toda a eternidade. Essa teoria \u00e9 ainda endossada quando se pensa na idade do mundo, nos s\u00e9culos infindos em que ele se embrenhou e ainda n\u00e3o demonstrou sinais de acabamento. Por isso, \u201cse o universo tivesse uma posi\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio, diz Nietzsche, se o devir tivesse um objetivo ou um estado final, ele j\u00e1 o teria atingido\u201d (DELEUZE 1976, p. 38).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O mundo \u00e9 justificado pelo pr\u00f3prio mundo, o homem pelo pr\u00f3prio homem e a vida pela pr\u00f3pria vida. N\u00e3o h\u00e1 mais parte que justifique o todo, agora s\u00f3 se deve assumir o completo complexo vital que \u00e9 a exist\u00eancia. O tr\u00e1gico, tamb\u00e9m, \u00a0n\u00e3o mais pode mais assustar pois \u00e9 tudo o que temos, n\u00e3o h\u00e1 ideal com que se comparar.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, a vida \u00e9 dor, sofrimento, trag\u00e9dia. Como afirmar e querer o retorno daquilo que nos violenta e desafia? \u00c9 aqui que podemos falar de antifilosofia. Uma pitada de avesso moral e transvalora\u00e7\u00e3o dos valores. \u00c9 preciso perceber que o que foi entendido e constitu\u00eddo como bom, bem, mau e mal eram inven\u00e7\u00f5es de mentes ressentidas e decadentes (<em>d\u00e9cadent<\/em>). Na genealogia das palavras e dos termos h\u00e1 uma base judaico-crist\u00e3 que resolveu inverter os valores e acreditar que os bons eram os que padeciam e maus os que se impunham por suas castas ou por sua economia. O bem passou a ser substantivo e s\u00f3 podia ser alcan\u00e7ado numa \u201cvida-que-n\u00e3o-esta\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que prop\u00f5e o eterno retorno, como elucidado, \u00e9 a transvalora\u00e7\u00e3o dos valores, ou seja, a investiga\u00e7\u00e3o dos valores atribu\u00eddos aos pr\u00f3prios valores, uma cr\u00edtica aos valores que regeram nossa moral e direcionaram nossas decis\u00f5es. Quando isso for feito h\u00e1 de se perceber que a vida n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dicot\u00f4mica como pretendiam os te\u00f3ricos morais, fil\u00f3sofos idealistas que pretenderam desvelar a verdade, mas s\u00f3 interpretaram a seu modo os fatos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Da transvalora\u00e7\u00e3o de todos os valores h\u00e1 de se alcan\u00e7ar um olhar fluido sobre a vida, amante dos fatos e n\u00e3o mais severo, legislador e juiz como dantes. \u201cS\u00f3 deseja para si um retornar eterno quem realmente ama seus instantes. Dizer sim \u00e0 vida \u00e9 dizer sim \u00e0 diversidade da mesma e, ao mesmo tempo, afirmar que n\u00e3o h\u00e1 obst\u00e1culos para quem ama a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.\u201d (SOUSA 2009, p. 29).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A essa din\u00e2mica Nietzsche chama de <em>amor fati, <\/em>o que se traduziu por \u201camor aos fatos\u201d, ou mais estritamente, \u201camor ao destino\u201d. Amor a tudo que se nos apresenta da forma com que se nos apresenta, sem rebeli\u00e3o, sem revolta, sem resist\u00eancia, mas com muito, muito protagonismo. \u201cN\u00e3o se trata de amar o sofrimento, mas a vida que n\u00e3o existe sem sofrimento\u201d (SOUSA 2009, p. 27).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O <em>amor fati<\/em> devolve vida \u00e0 vida e mata todo idealismo. Felicidade deixa de ser um ideal \u2013 algo que s\u00f3 se poderia conquistar num futuro, o que para Nietzsche \u00e9 inalcan\u00e7\u00e1vel pela impossibilidade de se existir um fim \u00faltimo \u2013 e passa a ser a pr\u00f3pria trag\u00e9dia, a alegria do tr\u00e1gico. Paradoxalmente trag\u00e9dia proporciona alegria, como nos primeiros gregos.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quem n\u00e3o se instala no limiar do instante, esquecendo todos os passados, quem n\u00e3o \u00e9 capaz de manter-se sobre um ponto como uma deusa de vit\u00f3ria, sem vertigem e medo, nunca saber\u00e1 o que \u00e9 felicidade e, pior ainda, nunca far\u00e1 algo que torne outros felizes. Pensem no exemplo extremo, um homem que n\u00e3o possu\u00edsse a for\u00e7a de esquecer, que estivesse condenado a ver por toda parte um vir-a-ser: tal homem n\u00e3o acredita mais em seu pr\u00f3prio ser, n\u00e3o acredita mais em si, v\u00ea tudo desmanchar-se em pontos m\u00f3veis e se perde nesse rio do vir-a-ser: finalmente como bom disc\u00edpulo de Her\u00e1clito, mal ousar\u00e1 levantar o dedo. (NIETZSCHE<em>,<\/em> 1999, Considera\u00e7\u00f5es extempor\u00e2neas, da utilidade e da desvantagem da hist\u00f3ria para a vida, \u00a7 1).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ainda insurge, apesar de tudo, a necessidade de perguntar-se se Nietzsche afinal fizera do eterno retorno uma esp\u00e9cie de fundamento para a vida ou de um imperativo moral. Se a resposta for afirmativa poder\u00e1 parecer que ca\u00edra nas malhas da filosofia do fundamento e da moral que tanto criticara. Se essa tese se confirmar, poder\u00edamos concluir que o martelo destruidor de \u00eddolos de Nietzsche n\u00e3o funcionara para sua pr\u00f3pria teoria. O eterno retorno poderia ser confundido com um fundamento metaf\u00edsico, o que minaria o pensamento inovador de nosso fil\u00f3sofo dionis\u00edaco.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, apesar de ter repercuss\u00f5es \u00e9ticas, o eterno retorno n\u00e3o \u00e9 algo que poderia ser chamado de fundamento, pois ele n\u00e3o pode garantir seguran\u00e7a de nada a ningu\u00e9m, nem prometer salva\u00e7\u00e3o para aqueles que a ele estiverem aderido. A vida ainda continua nas m\u00e3os do sujeito e n\u00e3o pode ser atribu\u00edda a outrem. Por isso, \u201ccomo pensamento \u00e9tico o eterno retorno \u00e9 a nova formula\u00e7\u00e3o da s\u00edntese pr\u00e1tica: <strong>O que tu quiseres, queira-o de tal modo que tamb\u00e9m queiras seu retorno <\/strong>(grifo do autor)\u201d (DELEUZE 1976, p. 56), mas n\u00e3o \u00e9 um aparato \u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dessa forma, o eterno retorno n\u00e3o se prende a valores morais pr\u00e9-determinados, n\u00e3o trai nenhum argumento de Nietzsche, muito pelo contr\u00e1rio os confirma e confirma. \u201c(&#8230;) o pensamento do eterno retorno \u00e9 um pensamento al\u00e9m do bem e do mal e, acabamos de ver, um pensamento super-humano, dionis\u00edaco, indissoci\u00e1vel do imoralismo.\u201d (LEFRANC 2008, p. 311).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas nem mesmo o retorno \u00e9 algo fixo, im\u00f3vel e imut\u00e1vel. Ele faz parte do pr\u00f3prio sistema aberto do devir. Como fluidez do impulso art\u00edstico criador da vida. Ent\u00e3o, afinal de contas o que retorna?<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">(&#8230;) o que retorna \u00e9 o diferente. Se esse instante no qual cada homem vive retorna sem cessar; se esse instante \u00e9 o da pluralidade, das for\u00e7as em suas rela\u00e7\u00f5es, instante da vontade de pot\u00eancia, ent\u00e3o estamos diante do retorno do mesmo. Eterno porque cada instante tem a marca do devir, do movimento que n\u00e3o para. Nessa perspectiva, o que retorna \u00e9 a diferen\u00e7a eterna. (SOUSA 2009, p.26)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cO eterno retorno n\u00e3o \u00e9 a perman\u00eancia do mesmo, o estado do equil\u00edbrio, nem a morada do id\u00eantico. No eterno retorno n\u00e3o \u00e9 o mesmo ou o um que retornam, mas o pr\u00f3prio retorno \u00e9 o um que se diz somente do diverso e do que difere\u201d (DELEUZE 1976, p. 38).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por isso, eterno retorno n\u00e3o \u00e9 determinismo. Muito pelo contr\u00e1rio, \u00e9 possibilidade, abertura. Pois seria mui cansativa e mon\u00f3tona a vida que n\u00e3o encarasse o car\u00e1ter de criatividade que \u00e9 inerente a ela.\u00a0 Vida como obra de arte, e arte tr\u00e1gica! N\u00e3o deveria ser repeti\u00e7\u00e3o do mesmo jogo e das mesmas jogadas somente, mas tamb\u00e9m repeti\u00e7\u00e3o das mesmas sensa\u00e7\u00f5es emocionantes que nos levaram a jogar. E como toda adrenalina, a cada vez que sentida provoca algo diferente. Essa \u00e9 a melhor vida, distante daquilo que nos enoja:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">(&#8230;) as pequenas compensa\u00e7\u00f5es, os pequenos prazeres, as pequenas alegrias, tudo o que se concede uma vez, nada mais do que uma vez. Tudo o que s\u00f3 se pode refazer no dia seguinte com a condi\u00e7\u00e3o de se ter dito na v\u00e9spera: amanh\u00e3 n\u00e3o o farei mais \u2013 todo o cerimonial do obsessivo. (DELEUZE 1976, p. 14).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Essa \u00e9 a vida da afirma\u00e7\u00e3o, do amor ao destino e ao esbo\u00e7o tr\u00e1gico que somos n\u00f3s. E Nietzsche assumiu com toda propriedade esse estilo de vida. O eterno retorno foi seu melhor modo de encarar o mundo e o todo. Por isso, seu ambicioso projeto de al\u00e9m-homem visionava o abandono do medo e de todo niilismo que gerasse o estancamento da vontade de pot\u00eancia da vida para imobilizar-nos perante sua monstruosidade tr\u00e1gica. Nietzsche, o pensador afirmativo, amava a ideia do retorno e por isso n\u00e3o viveu em afli\u00e7\u00e3o e nem em ang\u00fastia. Dizia ele:\u00a0 \u201cRetornarei eternamente para a mesma e id\u00eantica vida, nas coisas maiores como nas menores, e para ensinar de novo o eterno retorno de todas as coisas.\u201d (NIETZSCHE <em>Zaratustra<\/em> III, O Convalescente citado por LEFRANC 2008, p. 308).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aprendamos dele que a vida \u00e9 o s\u00f3-agora-para-sempre e que saibamos fazer eterna nossa escolha do hoje, para que nela confluam em um s\u00f3 \u00fanico movimento e momento: o presente, o passado e o futuro. Que novamente a roleta da vida seja rodada e que os dados sejam novamente lan\u00e7ados para que voltemos jogar aquela partida que de t\u00e3o boa mereceu ser repetida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ALMEIDA, R. M. <em>Nietzsche e o paradoxo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">DELEUZE, G. <em>Nietzsche e a filosofia<\/em>. Trad. Edmundo Fernandes Dias e Ruth Joffily Dias. Rio de Janeiro: Rio, 1976 (Semeion).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">LEFRANC, J. <em>Compreender Nietzsche<\/em>. 4.ed. Trad. L\u00facia M. Endlich Orth. Petr\u00f3polis: Vozes, 2008. (Compeernder).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">NIETZSCHE, F. <em>Ecce homo<\/em>: como algu\u00e9m se torna o que \u00e9. 1. reimp. Trad. Paulo C\u00e9sar de Souza. S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">______. <em>Obras incompletas.<\/em> Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. S\u00e3o Paulo: Nova Cultural, 1999 (Os Pensadores).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SOUSA, M. A. de. <em>Nietzsche:<\/em> viver intensamente, tornar-se o que se \u00e9. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2009. (Filosofia em quest\u00e3o).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Aparecido Nepomuceno Nietzsche fez-nos engolir sem nenhum paliativo a forte constata\u00e7\u00e3o da morte de Deus. 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