{"id":1833,"date":"2011-10-14T11:48:30","date_gmt":"2011-10-14T14:48:30","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1833"},"modified":"2011-10-14T11:48:30","modified_gmt":"2011-10-14T14:48:30","slug":"a-alienacao-religiosa-no-pensamento-de-karl-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1833","title":{"rendered":"A aliena\u00e7\u00e3o religiosa no pensamento de Karl Marx"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Danilo dos Santos Gomes<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Karl Marx define a religi\u00e3o pura e simplesmente como uma proje\u00e7\u00e3o de nossa realidade terrena para um plano superior metaf\u00edsico. A religi\u00e3o consiste para ele em um mundo fant\u00e1stico, criado pela mente humana que tenta dar a certos fen\u00f4menos naturais um ar sobrenatural, isto significa que religi\u00e3o com o seu Deus n\u00e3o passa de uma mera ilus\u00e3o, algo a que n\u00e3o se deve dar cr\u00e9dito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para aqueles que estudam, estudaram ou t\u00eam pelo menos uma no\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria da filosofia, veremos que v\u00e1rios autores em sua antropologia n\u00e3o hesitaram em afirmar que o homem \u00e9 um ser dotado de car\u00eancia. Marx \u00e9 um destes:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ele define a natureza humana por suas car\u00eancias ou necessidades e pela dial\u00e9tica da satisfa\u00e7\u00e3o dessas necessidades, desdobrando-se seja na rela\u00e7\u00e3o do homem com a natureza exterior pelo trabalho, seja em sua rela\u00e7\u00e3o com os outros homens pela natureza (LIMA VAZ, 2000, p. 129).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem, segundo Marx, \u00e9 aquele que produz, <em>homo faber<\/em> (NOGARE, 1990, p. 101). Ele est\u00e1 sempre a produzir algo para suprir suas necessidades para facilitar sua vida, gerando assim seu bem-estar. Sendo o homem, como vimos, fr\u00e1gil, isso significa que ele necessita de algo para preencher sua exist\u00eancia. A partir de suas dificuldades ele passou a criar n\u00e3o s\u00f3 elementos materiais, mas criou tamb\u00e9m um ente e um lugar metaf\u00edsico, uma esp\u00e9cie de muleta para suportar o peso e as exig\u00eancias de sua vida, visto que a mat\u00e9ria n\u00e3o consegue preencher ou responder certas quest\u00f5es que envolvem a vida humana tais como a morte e o sofrimento. Da\u00ed a cria\u00e7\u00e3o de um Deus transcendente, que possa apoiar todas as suas dificuldades e esperar que este mesmo Deus possa acalent\u00e1-lo em seu desterro e recompens\u00e1-lo futuramente com bens celestiais e uma vida eterna.\u00a0 A religi\u00e3o, portanto, para Karl Marx, passa a uma ilus\u00e3o, aliena\u00e7\u00e3o, ou num dizer mais marxista \u201cum \u00f3pio\u201d para amenizar o sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Uma teoria marxistas sustentam, como por exemplo, Engels, \u00e9 que a religi\u00e3o surgiu atrav\u00e9s do espanto, medo. Ao observar a f\u00faria de certos fen\u00f4menos naturais que ocorriam ao seu redor os homens primitivos come\u00e7aram a atribuir tais for\u00e7as a alguma entidade sobrenatural, e a partir desta descoberta ele passou a criar certos ritos e oferecer determinados sacrif\u00edcios para apaziguar a divindade ofendida. Passaram a acreditar tamb\u00e9m que certas d\u00e1divas, tais como chuva para os campos, boa colheita s\u00e3o sinais da benevol\u00eancia divina (FADDEN, 1963).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que deve ficar bem claro, nesta teoria, \u00e9 que o medo criou a divindade. Deus nada mais \u00e9 que o reflexo do pr\u00f3prio homem. Foi o homem quem criou a divindade e n\u00e3o o contr\u00e1rio. A religi\u00e3o com os seus ritos s\u00e3o apenas manifesta\u00e7\u00f5es de um homem desesperado e indefeso diante da f\u00faria da natureza. \u201cA religi\u00e3o nasceu com o m\u00e9todo supersticioso para mitigar os horrorosos efeitos das for\u00e7as naturais\u201d (FADDEM, 1963, p. 150).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um fator que provavelmente influenciou o pensamento de Marx contra a religi\u00e3o foi a sua hist\u00f3ria de vida. Ele viveu em um ambiente em que os cidad\u00e3os n\u00e3o podiam exercer as profiss\u00f5es se n\u00e3o fossem crist\u00e3os. A fam\u00edlia de Marx era de origem judaica, seu pai aceitou o batismo na igreja luterana, simplesmente para exercer sua profiss\u00e3o. \u201cA imposi\u00e7\u00e3o externa de um credo religioso certamente contribuiu para orientar religiosamente o esp\u00edrito de Marx, que, com toda a probabilidade, foi ateu desde a mocidade\u201d (ROVIGHI, 1990, p. 78).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outra grande influ\u00eancia que marcou Karl Marx foi o pensamento filos\u00f3fico de Feuerbach: \u201cConsta que nos primeiros e mais decisivos anos\u00a0 de sua atividade filos\u00f3fica, entre 1841, data da publica\u00e7\u00e3o da obra a Ess\u00eancia do cristianismo, e 1844 Marx foi um entusiasta feuerbachiano\u201d (NOGARE,1990, p. 89).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Feuebarch, em <em>Ess\u00eancia do cristianismo<\/em>, afirma que a criatura inventou o criador e, portanto, \u00e9 ela verdadeiramente o criador. Deus \u00e9 um reflexo do pr\u00f3prio homem, uma proje\u00e7\u00e3o, uma invers\u00e3o dos desejos humanos, um produto no qual o homem finito prec\u00e1rio e dependente projeta seus desejos e possibilidades de perfei\u00e7\u00e3o, onipot\u00eancia. A religi\u00e3o consiste no sentimento mais puro e absoluto do homem. O homem deseja para si o que nele mesmo n\u00e3o encontra, como por exemplo: o ideal de justi\u00e7a, bondade e virtude.\u00a0 Deus \u00e9 um homem gen\u00e9rico que idealizamos e que n\u00e3o conseguimos realizar por n\u00f3s mesmos (NOGARE, I990).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Marx viu na ideologia de Feuerbach a resposta para destronar a grande farsa que \u00e9 a religi\u00e3o. Talvez tenha encontrado em suas palavras o forte instrumento que tanto precisava para a liberta\u00e7\u00e3o do homem de uma ideologia religiosa, alucinante, que ensinava que o homem deveria rejeitar o sens\u00edvel tendo em vista o imaterial, abstrato, aceitar o sofrimento, a exclus\u00e3o, deveria negar a si pr\u00f3prio, ou seja, perder a sua identidade visando o pr\u00f3ximo. Ter uma atitude passiva diante de seus opressores tendo assim uma atitude de pseudo-humildade. Por fim, a religi\u00e3o alienava o povo fazendo-o acreditar que quanto mais lhe faltasse algo nesta vida mais teria na eternidade. A religi\u00e3o transformava os homens em marionetes fazendo-os cumprir sem reclamar ou blasfemar as leis que lhes foram impostas por Deus, pela moral e por uma sociedade decadente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Marx certamente vibrou ao ler estas audaciosas palavras de Feuerbach:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Temos de colocar no lugar do amor de deus, o amor dos homens, como uma \u00fanica, verdadeira religi\u00e3o, no lugar da f\u00e9 em um deus, a f\u00e9 no homem em si, em sua for\u00e7a, a f\u00e9 em que o destino da humanidade n\u00e3o depende de um ser fora ou acima dela, mas dela pr\u00f3pria, que o \u00fanico diabo do homem \u00e9 o pr\u00f3prio homem (NOGARE, 1990, p. 90).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Podemos nos perguntar: o que \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Etimologicamente, vem de alienar = tornar alheio; alienar-se = tornar-se alheio. Como se v\u00ea, o termo significa uma no\u00e7\u00e3o relativa e n\u00e3o pode, pois, entender-se exatamente sem a especifica\u00e7\u00e3o do segundo termo da rela\u00e7\u00e3o ao qual se opera a aliena\u00e7\u00e3o (NOGARE, 1990, p. 93).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aliena\u00e7\u00e3o em Marx, como tamb\u00e9m em Feuerbach, \u00e9 uma transfer\u00eancia de nossa consci\u00eancia para uma realidade fora de n\u00f3s. Da\u00ed a compara\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o com o \u00f3pio. Por que Marx comparou a religi\u00e3o com o \u00f3pio? O \u00f3pio \u00e9 um coquetel de plantas alucin\u00f3genas, possui um efeito sedativo. Ele acalma os nervos, intoxica a mente, fazendo seus\u00a0 usu\u00e1rios delirarem, criando assim um mundo imagin\u00e1rio onde eles vivem as suas fantasias. Karl Marx quer afirmar com essa compara\u00e7\u00e3o o seguinte: \u201cA religi\u00e3o, por sua natureza e atividade, visa os sofrimentos f\u00edsicos e mentais da vida, prometendo maior ventura num estado futuro da exist\u00eancia\u201d (FADDEN, 1963, p. 151).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A religi\u00e3o \u00e9 um anest\u00e9sico na terr\u00edvel e dolorosa exist\u00eancia do homem. Para Marx, a religi\u00e3o n\u00e3o passa de uma \u201cquimera\u201d, ilus\u00e3o, e aqueles que aderem a tal alucina\u00e7\u00e3o, s\u00e3o fracos e incapazes de enfrentar suas dificuldades. \u201cA religi\u00e3o \u00e9 o \u00f3pio do povo, porque engana o homem, induzindo-o a pensar que deve aceitar com mansid\u00e3o o seu presente estado de vida\u201d (FADDEN, 1963, p. 154). Por isso, para Marx, somente quando a religi\u00e3o for destru\u00edda \u00e9 que o homem recuperar\u00e1 a sua liberdade e dignidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Vivemos hoje em nossa sociedade uma busca pelo transcendente. O n\u00famero de religi\u00f5es e correntes espirituais tem crescido exacerbadamente. Hoje se promete tudo e ao mesmo tempo nada, as pessoas podem escolher o lugar em que elas se sentirem melhor sem comprometimento, a religi\u00e3o come\u00e7a a ser vista como uma terapia. Muitos fazem dela um esconderijo, um abrigo, atrav\u00e9s do qual elas podem negar ou esconder suas mis\u00e9rias. Outros a fazem como instrumento de explora\u00e7\u00e3o, em que o dinheiro extorquido de uma classe necessitada constitui o crescimento e enriquecimento de outros.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nesse aspecto, podemos dizer que Karl Marx estava correto ao afirmar que a religi\u00e3o \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o, narc\u00f3tico espiritual. O homem cria uma falsa ideia de Deus e passa a acreditar que de fato ele existe. Projeta na maioria das vezes sua pr\u00f3pria consci\u00eancia e cria uma ideologia escravizante, que tiraniza o homem em vez de libert\u00e1-lo. S\u00e3o exemplos disso os fanatismos e o fundamentalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao mesmo tempo em que vivemos esta busca pelo transcendente, estamos em uma crise. Infelizmente as ditas religi\u00f5es e correntes espirituais n\u00e3o libertam, mas aprisionam o homem em duras cadeias, apresentando ora um deus materialista, em que somente os que possuem bens s\u00e3o agraciados, ora espiritualista demais, em que a mat\u00e9ria e a vida terrena devem ser deixadas de lado, tendo em vista a eternidade. De fato a natureza divina varia de acordo com a necessidade daqueles que a adoram.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">FADDEN, J. Mc. <em>Filosofia do comunismo.<\/em> 2. ed. Lisboa: Uni\u00e3o gr\u00e1fica, 1963. (Gal\u00e1xia, vol. I).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">LIMA VAZ, Henrique Cl\u00e1udio. <em>Antropologia filos\u00f3fica I<\/em>. 5. Ed. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2000. (Filosofia).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">NOGARE, Pedro Dalle. <em>Humanismos e anti-humanismos<\/em>:<em> <\/em>introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 antropologia filos\u00f3fica. 12. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">RIVIGHI, Sofia Vanni. <em>Hist\u00f3ria da filosofia contempor\u00e2nea do s\u00e9culo XIX \u00e0 neoescol\u00e1stica. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Ana Pareschi Capovilla. S\u00e3o Paulo: Loyola, 1999.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Danilo dos Santos Gomes Karl Marx define a religi\u00e3o pura e simplesmente como uma proje\u00e7\u00e3o de nossa realidade terrena para um plano superior metaf\u00edsico. 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