{"id":1862,"date":"2011-11-02T10:46:43","date_gmt":"2011-11-02T13:46:43","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1862"},"modified":"2011-11-02T10:46:43","modified_gmt":"2011-11-02T13:46:43","slug":"a-linguagem-enquanto-morada-humana-segundo-heidegger","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1862","title":{"rendered":"A linguagem enquanto morada humana segundo Heidegger"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Leandro Marcos Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\"><em>\u201cFalar um com o outro significa: dizer algo para o outro, mostrar um para o outro alguma coisa e confiar-se mutuamente ao que se mostra\u201d. <\/em>Martin Heidegger<strong><em><\/em><\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem \u00e9 dotado de um atributo que o faz se destacar entre tantos seres que existem na face da terra. H\u00e1 nele uma capacidade que o especifica, que faz dele um ser social, de rela\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o. Esta especificidade \u00e9 a linguagem, atributo que faz do homem um ser vivo not\u00e1vel, que o qualifica enquanto tal.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Heidegger dissertou sobre a linguagem, debru\u00e7ou sobre o tema e trouxe contribui\u00e7\u00f5es significativas para a filosofia. \u00c9 a respeito destas contribui\u00e7\u00f5es que iremos tratar neste artigo, em especial o conceito de linguagem e suas implica\u00e7\u00f5es, buscando perceber a linguagem como algo caracter\u00edstico da nossa humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No in\u00edcio da obra <em>A caminho da Linguagem<\/em>, Heidegger diz:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem fala. Falamos quando acordados e em sonho. Falamos continuamente. Falamos mesmo quando n\u00e3o deixamos soar nenhuma palavra. Falamos quando ouvimos e lemos. Falamos igualmente quando n\u00e3o ouvimos e n\u00e3o lemos e, ao inv\u00e9s, realizamos um trabalho ou ficamos \u00e0 toa. Falamos sempre de um jeito ou de outro (HEIDEGGER, 2003, p.7)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tal cita\u00e7\u00e3o ajuda-nos a ter uma compreens\u00e3o mais totalizante acerca da linguagem humana e entendermos o quanto o ser humano \u00e9 pr\u00f3ximo da linguagem. A linguagem \u00e9 algo muito pr\u00f3ximo do ser humano, algo que o encanta e que o faz participante do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 na linguagem que Heidegger vai encontrar a forma de interpretar o homem enquanto part\u00edcipe deste mundo. \u201cA linguagem \u00e9 a casa do ser. \u00c9 nessa morada que habita o homem\u201d (HEIDEGGER <em>apud<\/em> REALE; ANTISERI, 1991, p.591).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A forma que a linguagem no pensamento de Heidegger toma \u00e9 de uma rede de fala e discurso, uma linguagem que n\u00e3o necessita sumariamente de um discurso gramaticalmente completo, \u00e9 uma emiss\u00e3o verbal boa, que em si cont\u00e9m elementos chaves para a correta compreens\u00e3o dos enunciados da fala. (INWOOD, 2004, p.61). O discurso \u00e9 a base da linguagem, \u00e9 visto como uma intera\u00e7\u00e3o de sujeitos, de duas pessoas que v\u00e3o evidenciando no discurso sua temporalidade e a experi\u00eancia do seu ser-no-mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pela humanidade do homem \u00e9 que ele se comunica, possui uma linguagem, o que o distancia dos demais seres presentes na natureza. \u201cHeidegger afirma que falamos porque somos homens e, por conseguinte, falamos quando estamos acordados ou em sonhos, falamos quando n\u00e3o deixamos soar nenhuma palavra\u201d (ASSIS J\u00daNIOR, 2004, p.388).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Heidegger nos prop\u00f5e que conhe\u00e7amos a linguagem por ela mesma, nada mais al\u00e9m da linguagem. A linguagem fala, a fala \u00e9 o que vigora a linguagem enquanto linguagem. \u00c9 preciso explorar a fala para podermos morar na linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O falar do homem n\u00e3o \u00e9 apenas uma de suas in\u00fameras capacidades, mas \u00e9 algo que marca o ser humano de forma profunda, a capacidade do falar nos distingue dos demais seres da natureza e nos faz sermos verdadeiramente homens. \u201cO ser humano n\u00e3o seria homem se lhe fosse recusado falar necessariamente\u201d (HEIDEGGER, 2003, p.191).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A fala se expressa no dito e tamb\u00e9m no sil\u00eancio. Isto se d\u00e1 pelo fato de em determinas situa\u00e7\u00f5es, diante de uma admira\u00e7\u00e3o profunda ou de um terror atroz o homem perder a fala, mas ele n\u00e3o se emudece, pois continua a dizer, pois ele se sente tocado. Ou pode acontecer, por meio de um acidente ou defici\u00eancia, perdemos a capacidade de falar, mas mesmo nesta situa\u00e7\u00e3o o homem n\u00e3o se silencia. \u201cFalar implica em articular sons, seja falando ou calando, e mesmo na mudez, quando n\u00e3o podemos falar\u201d (HEIDEGGER, 2003, p.193).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A fala da linguagem se d\u00e1 tamb\u00e9m por meio da poesia, que \u00e9 a forma mais aut\u00eantica de manifesta\u00e7\u00e3o da linguagem, segundo Heidegger.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A linguagem possui uma autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao homem, n\u00e3o \u00e9 o homem que produz a linguagem, ela n\u00e3o \u00e9 obra humana, \u00e9 totalmente aut\u00f4noma. A palavra \u00e9 fundamental no papel de compreens\u00e3o humana, mas em dado momento, podemos compreender algo sem mesmo possuir palavras para tal.\u00a0 Mas o uso da palavra dentro da compreens\u00e3o humana \u00e9 um fator condicionante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas, \u00e9 um fator primordial. \u201cO nomear \u00e9 crucial. Ele conecta o nome com o conhecimento\u201d (ASSIS J\u00daNIOR, 2004, p.401).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Heidegger considera a linguagem como sendo um elemento muito caracter\u00edstico da nossa humanidade, a partir dela \u00e9 que se desvela a verdade do ser. A linguagem \u00e9 a base da nossa realidade, pois clarifica os fen\u00f4menos e \u00e9 lugar privilegiado para respondermos como ser-a\u00ed (<em>Dasein<\/em>), enquanto seres no mundo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando o homem fala&#8230;ele s\u00f3 fala ap\u00f3s ter consentido em ouvir a l\u00edngua. Mesmo n\u00e3o saber entender a l\u00edngua \u00e9 uma forma de escuta. O homem fala a partir da l\u00edngua [&#8230;] Na verdade, \u00e9 a l\u00edngua que fala e n\u00e3o o homem. O homem fala na medida em que corresponde \u00e0 l\u00edngua (BEAINI, 1986, p.92)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante das perspectivas acerca da linguagem lan\u00e7adas por Heidegger, podemos perceber o quanto h\u00e1 de esfor\u00e7o em conceituar algo t\u00e3o primordial para nossa comunica\u00e7\u00e3o. A linguagem constitui no pensamento de Heidegger uma fonte de produ\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, devido a sua riqueza e complexidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Heidegger nos apresenta vieses para adentrar acerca do universo da linguagem, constr\u00f3i todo um caminho a ser percorrido, desde a conceitua\u00e7\u00e3o at\u00e9 a ess\u00eancia da linguagem. Ele apresenta o discurso e a poesia como sendo este caminho crucial, pelo qual somos chamados a perceber a manifesta\u00e7\u00e3o mais sublime e real da l\u00edngua, a escutar a voz da linguagem, a perceber que na fala se esconde algo intr\u00ednseco a n\u00f3s. \u00c9, portanto, na linguagem que se desvela quem verdadeiramente somos, as potencialidades que temos, a manifesta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica do ser.<strong><em><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<em><\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ASSIS ASSIS J\u00daNIOR, Benjamim M. de. A linguagem como desvelamento do ser em Martin Heidegger. In: VVAA. <strong>Provoca\u00e7\u00f5es<\/strong>: ensaios filos\u00f3ficos &#8211; Monografias 2004. Mariana: Dom Vi\u00e7oso, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">BEAINI, Thais Curi. <strong>Heidegger: <\/strong>arte como cultivo do inaparente. S\u00e3o Paulo: Nova Stella, 1986.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">HEIDEGGER, Martin. <strong>A caminho da linguagem<\/strong>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">INWOOD, Michael. <strong>Heidegger. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Loyola, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <strong>Hist\u00f3ria da filosofia:<\/strong> do romantismo at\u00e9 nossos dias. 2 ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1991. (Filosofia, v.3)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leandro Marcos Costa \u00a0 \u201cFalar um com o outro significa: dizer algo para o outro, mostrar um para o outro alguma coisa e confiar-se mutuamente ao que se mostra\u201d. Martin Heidegger O homem \u00e9 dotado de um atributo que o faz se destacar entre tantos seres que existem na face da terra. 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