{"id":1865,"date":"2011-11-02T10:48:47","date_gmt":"2011-11-02T13:48:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1865"},"modified":"2011-11-02T10:48:47","modified_gmt":"2011-11-02T13:48:47","slug":"liberdade-a-possibilidade-de-uma-impossibilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1865","title":{"rendered":"Liberdade: a possibilidade de uma impossibilidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Thiago Gandra do Vale<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Uma das maiores buscas do pensamento ocidental foi a quest\u00e3o do ser. Desse modo, diversos pensadores, conforme o seu tempo, ousaram expor tentativas de se pronunciar sobre o ser. \u00c9 mediante a esta situa\u00e7\u00e3o que pretendemos desenvolver este artigo, com o intuito de mostrar como Heidegger nos exp\u00f5e seu pensamento sobre o ser, a partir do aspecto da liberdade de ser.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em <em>Ser e Tempo <\/em>(2004, p. 27), logo no primeiro par\u00e1grafo, o fil\u00f3sofo da floresta negra inicia afirmando que no solo do pensamento grego se formulou um dogma sobre a quest\u00e3o do ser, e que desde ent\u00e3o ningu\u00e9m percorreu por vias contr\u00e1rias. Os que se pronunciaram sobre o ser, se fundamentaram em uma metaf\u00edsica cl\u00e1ssica na busca por esse sentido, o de ser e do ser. E \u00e9 justamente Heidegger que ir\u00e1 propor essa nova forma de se pensar o ser e seu sentido, precisamente ap\u00f3s a metaf\u00edsica sofrer fortes cr\u00edticas, posteriormente a Kant. Assim, com Heidegger o ser passa a ser buscado mediante a temporalidade, diante de uma hermen\u00eautica fenomenol\u00f3gica que Stein (1988, p. 9) nomeia \u201cencurtamento hermen\u00eautico\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O pensador alem\u00e3o tem consci\u00eancia de que o ser se d\u00e1 no mundo, por\u00e9m limitado \u00e0 temporalidade. Assim, diante disso, ele se desvia da metaf\u00edsica cl\u00e1ssica e sua tradi\u00e7\u00e3o para analisar o ser a partir de seu m\u00e9todo, o \u201cencurtamento hermen\u00eautico\u201d. Com isso, o fil\u00f3sofo da floresta negra fundamenta o seu pensamento ontol\u00f3gico na temporalidade, onde esta o determina a ter consci\u00eancia dela, mostrando-o que se est\u00e1 sobre suas condi\u00e7\u00f5es. Mas, como o ser vai ser ent\u00e3o nesse mundo? Como ele vai se constituir enquanto ser-no-mundo? Na medida em que obtiver a consci\u00eancia dele, da sua finitude e a liberdade para ser nele, o ser se construir\u00e1 enquanto um ser-no-mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 justamente a liberdade que ir\u00e1 conduzir o ser, e, portanto, deix\u00e1-lo ser. O que houve durante o transcorrer da hist\u00f3ria da humanidade \u00e9 que n\u00f3s limitamos o ser com ditames que surgiram de acordo com o seu tempo. No per\u00edodo grego n\u00e3o se detinham espa\u00e7o para a individualidade do sujeito. A liberdade era vivenciada na <em>p\u00f3lis<\/em>, na democracia. No per\u00edodo medieval a liberdade estava condicionada a Deus e a participa\u00e7\u00e3o de sua bondade. E na modernidade h\u00e1 um egocentrismo exacerbado, que se fluiu pela hist\u00f3ria e influenciou a contemporaneidade (ABBAGNANO, 2007, p. 605-613). Quem est\u00e1 certo afinal de contas? Que cada um tome por si a melhor resposta a essa quest\u00e3o, pois nosso intuito aqui ser\u00e1 apenas provoc\u00e1-las.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A liberdade que Heidegger ir\u00e1 propor-nos ao ser, em <em>A Ess\u00eancia do Fundamento<\/em> \u00e9 de deix\u00e1-lo ser e juntamente n\u00f3s tamb\u00e9m sermos. \u201cSomente a liberdade pode deixar um mundo dominar e mundificar o estar-a\u00ed\u201d (HEIDEGGER, s.d. p. 87). Para se chegar a essa liberdade, o pensador alem\u00e3o nos prop\u00f5e uma transcend\u00eancia, mas n\u00e3o no \u00e2mbito de irmos al\u00e9m desse mundo como queria Plat\u00e3o, mas no sentido de irmos ao abismo do mundo, no seu mais puro vazio, onde h\u00e1 o espa\u00e7o para tudo criar e originar-se, onde tudo pode ser em sua ipseidade. Esse ir ao fundo do mundo \u00e9 a pr\u00f3pria liberdade, uma liberdade de n\u00e3o ter fundamento. \u201cA liberdade \u00e9 o abismo que se des-funda.\u201d (PAIVA, 1998, p. 124).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que Heidegger nos prop\u00f5e em <em>A Ess\u00eancia do Fundamento<\/em>, \u00e9 uma busca pelo fundamento de todas as coisas, e ap\u00f3s toda a retomada hist\u00f3rica que ele realiza na mesma, conclui que o fundamento \u00e9 n\u00e3o ter fundamento! O que devemos ter \u00e9 a liberdade de deixarmos tudo ser e nesse mesmo dinamismo n\u00f3s tamb\u00e9m vamos sendo, e constituindo nossas rela\u00e7\u00f5es de ser-com e ser-em. \u00c9 s\u00f3 mediante a liberdade das coisas serem elas mesmas e de n\u00f3s tamb\u00e9m podermos ser \u00e9 que as coisas ser\u00e3o elas mesmas, e com isso se instaurar a verdade do ser. O contrassenso que o discurso filos\u00f3fico caiu foi o propor amarras para o ser.\u00a0 E com isso o ser n\u00e3o se revelou como um si mesmo. Pois, o caminho que o fil\u00f3sofo da floresta negra nos prop\u00f5e \u00e9 o de que se n\u00f3s quisermos chegar a uma determinada verdade sobre uma coisa n\u00f3s temos de dar o espa\u00e7o para ela ser ela mesma. Pois, na medida em que lhe concedemos isso, ela vai se revelando em sua ipseidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, aqui muitos podem estar pensando que Heidegger \u00e9 um irrealista ao propor uma liberdade dessa forma, dizendo que seria imposs\u00edvel devido aos limites f\u00edsicos do mundo ao qual estamos condicionados. Por\u00e9m, uma vez que ele considera que o ser se revela no tempo, ele leva em considera\u00e7\u00e3o os aspectos f\u00edsicos do mundo ao propor-nos tal liberdade de sermos. O tempo se revela no mundo e o ser no tempo. Logo, o ser se revela no mundo e com isso essa liberdade \u00e9 vivenciada no mundo. Por isso, tamb\u00e9m seu movimento de transcend\u00eancia \u00e9, impulsionado pela vontade de ser, em dire\u00e7\u00e3o ao mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tamb\u00e9m poder\u00edamos estar pensando que tal liberdade proposta pelo fil\u00f3sofo da floresta negra seja uma libertinagem, diante de tamanha defesa da liberdade de se ser o que se quer. Mas, isso n\u00e3o pode ocorrer devido a quem vivenciar uma liberdade, em seus desejos e instintos, estaria sendo dependente deles, e, portanto n\u00e3o livre. Mas em Heidegger tamb\u00e9m n\u00e3o poder\u00edamos dizer que essas dimens\u00f5es sejam anuladas. Elas podem ser vividas pelo homem, pois \u00e9 a partir delas que ele vai se construindo e n\u00e3o vira apenas um subordinado delas. Tal liberdade proposta pelo fil\u00f3sofo alem\u00e3o \u00e9 o espa\u00e7o necess\u00e1rio que o ser necessita para ser ele mesmo e ao mesmo tempo os tr\u00e2mites que ele necessita para ser-no-mundo. No sentido de constituir rela\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas com ele, que o possibilitam ser ele mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tal a\u00e7\u00e3o aut\u00eantica que o ser necessita vivenciar, e que Heidegger nos fala em <em>Ser e Tempo<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Heidegger,%20Thiago.docx#_ftn1\"><sup><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a><\/em>, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pelo horizonte da liberdade. Se n\u00e3o for do devido modo, cada um n\u00e3o revela seu ser em sua ipseidade e se aprisiona em modos, passando a vivenciar rela\u00e7\u00f5es inaut\u00eanticas consigo e com os outros. O que o pensador alem\u00e3o est\u00e1 realizando em seu esbo\u00e7o, \u00e9 nos alertar de que precisamos nos desprender das amarras que nos colocam e sermos n\u00f3s mesmos. Por outro lado, ao defender a liberdade como condi\u00e7\u00e3o do ser, ele nos revela que por de tr\u00e1s de todo condicionamento que nos \u00e9 imposto, est\u00e1 \u00e0 liberdade. \u201cA liberdade, enquanto deixar valer o mundo, \u00e9 a origem do fundamento em geral; (&#8230;) A liberdade \u00e9, enquanto fundamento tr\u00edplice e n\u00e3o obstante \u00fanico, o ser-fundamento, a origem do fundamento, o \u00abfundamento do fundamento\u00bb.\u201d (PAIVA, 1998, p. 121).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nisso, quando os gregos, os medievais e os modernos colocaram seus condicionamentos \u00e0 liberdade, o que havia antes deles era a pr\u00f3pria liberdade. Mas, uma liberdade n\u00e3o totalmente plena, porque ainda dependia dos limites f\u00edsicos do mundo, mas uma possibilidade de liberdade de sermos e nos construirmos conforme dita cada consci\u00eancia individual. Pois, por mais que fa\u00e7amos as leis para melhor vivermos em harmonia, o homem se quiser, pela sua consci\u00eancia, transcende a essas regras. Ou de outra forma, pode neg\u00e1-los conforme bem lhe entender. O que ocorre \u00e9 que n\u00e3o respeitam o seu direito de ser e podemos perceber que a justi\u00e7a s\u00f3 acerta quando se trata de casos que violam os direitos naturais.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Concluindo, gostar\u00edamos de propor algumas quest\u00f5es a serem pensadas, para que cada um possa tomar a resposta que melhor lhe haurir. Como anda hoje o respeito por nossa liberdade de ser? Como caminha nosso respeito \u00e0 liberdade dos outros de ser eles mesmos? Ser\u00e1 necess\u00e1rio libertarmos a liberdade das compreens\u00f5es que se tem dela? Heidegger nos prop\u00f5e uma liberdade de n\u00e3o termos fundamentos, n\u00e3o seria isso um fundamento?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ABBAGNANO, Nicola. <em>Dicion\u00e1rio de filosofia<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Ivone Castilho Benedetti. 5ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">HEIDEGGER, Martin. <em>A ess\u00eancia do fundamento. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Artur Mor\u00e3o. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, [s.d.].<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">______. <em>Ser e Tempo I<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Marcia S\u00e1 Cavalcante Schuback. 13. Ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">INWOOD, Michael. O mundo. In: ______. <em>Heidegger.<\/em> Tradu\u00e7\u00e3o de Adail Ubirajara Sobral. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2004. P. 43-50. (Mestres do pensar).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">PAIVA, M\u00e1rcio Ant\u00f4nio de. <em>A liberdade como horizonte da verdade segundo M. Heidegger. <\/em>1998. 254f. Tese. (Doutorado em filosofia). Editrice Pontificia Universit\u00e1 Gregoriana, Roma. 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">STEIN, Ernildo. <em>Seis estudos sobre <\/em>\u00ab<em>Ser e Tempo<\/em>\u00bb<em>. <\/em>Petr\u00f3polis: Vozes, 1988.<\/p>\n<div><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Heidegger,%20Thiago.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> Para mais informa\u00e7\u00f5es sobre a autenticidade do ser, cf. INWOOD, 2004, p. 37-39.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Thiago Gandra do Vale Uma das maiores buscas do pensamento ocidental foi a quest\u00e3o do ser. 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