{"id":1983,"date":"2011-11-16T07:46:03","date_gmt":"2011-11-16T10:46:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=1983"},"modified":"2011-11-16T07:46:03","modified_gmt":"2011-11-16T10:46:03","slug":"a-possibilidade-de-se-pensar-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=1983","title":{"rendered":"A possibilidade de se pensar a morte"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Fabiano Alves Assis<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Rafael Guimar\u00e3es de Oliveira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A morte causa grande desassossego no homem que se prop\u00f5e elaborar um pensamento acerca da mesma. Essa inquieta\u00e7\u00e3o faz parte da hist\u00f3ria humana, devido \u00e0 conting\u00eancia do tema. Sabemos, a grosso modo, que um dia nos faltar\u00e1 o h\u00e1lito da vida. Vida que aprendemos a am\u00e1-la, que temos bons motivos para estim\u00e1-la, que n\u00e3o queremos deixar de goz\u00e1-la. Al\u00e9m disso, h\u00e1 um enigma sobre o que acontece, ou se algo acontece, ap\u00f3s a morte. Diante dessa certeza e das d\u00favidas que dela surgem, cabe ao homem se esfor\u00e7ar para chegar, no limite que lhe \u00e9 permitido, ao entendimento do que seria morrer, e conduzir sua vida, da melhor forma poss\u00edvel, para esse momento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O nosso desejo caminha nessa perspectiva. Inspirados por tr\u00eas pensadores, Bertrand Russell (1872-1970), Michel Montaigne (1533- 1592) e Michel Foucault (1926-1984), queremos apontar as possibilidades do pensamento sobre a morte e indicar direcionamentos cab\u00edveis para bem viv\u00ea-la. Uma \u00faltima considera\u00e7\u00e3o antes de iniciar nosso racioc\u00ednio, baseadas nos autores que retroindicamos: n\u00e3o \u00e9 pretens\u00e3o de nossa investiga\u00e7\u00e3o perturbar, refutar, desvalorizar ou desacreditar o pensamento sobre a morte advinda da doutrina crist\u00e3. Apenas gostar\u00edamos de verificar se a nossa reflex\u00e3o, que foi constru\u00edda a partir de tr\u00eas pensamentos, \u00e9 poss\u00edvel e at\u00e9 que ponto.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>A \u201cvida ap\u00f3s a morte\u201d na perspectiva de Russell<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O primeiro questionamento que propomos, na aventura de dizer algo sobre a morte, \u00e9 se existe, ou se \u00e9 poss\u00edvel, alguma atividade humana ap\u00f3s o \u00f3bito. Para esse debate, consideramos o pensamento de Russell satisfat\u00f3rio<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/morte,%20Fabiano%20e%20Rafael.docx#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O pensador ingl\u00eas considera a morte como fim do processo biol\u00f3gico humano; que compreende o corpo, que est\u00e1 fadado \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o que se encerra no falecimento, e a alma, que est\u00e1 relacionada \u00e0 atividade mental- cerebral \u2013 e, portanto, ao corpo que morre. Nessa perspectiva, a possibilidade de sobreviv\u00eancia \u00e0 morte est\u00e1 na mem\u00f3ria, que necessariamente dever\u00e1 existir ativamente na vida de outra pessoa, especificamente no c\u00e9rebro, que \u00e9 capaz do gerenciamento da mesma:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Se, por conseguinte, devemos acreditar que uma pessoa sobrevive \u00e0 morte, temos de acreditar que as lembran\u00e7as e os h\u00e1bitos que constituem a pessoa continuar\u00e3o a ser exibidos num n\u00e3o conjunto de ocorr\u00eancias. (RUSSELL, 1960, p 71).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sendo assim, para esse nosso pensamento, baseado nessa perspectiva de Russell, a probabilidade de \u201cvida\u201d ap\u00f3s a morte \u00e9 m\u00ednima e dependente da mem\u00f3ria. Devido \u00e0 complexidade de continuar esse discurso, consideramos suficiente o que convencionamos at\u00e9 agora para pensar sobre o tema. E o nosso foco se voltar\u00e1 para o antes da morte, para tornar poss\u00edvel algo depois da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Aprender a morrer \u00e9 o que nos resta, Montaigne nos ajuda.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Considerando a intui\u00e7\u00e3o de Russell, e se ela estiver correta, como ent\u00e3o conseguir que a nossa mem\u00f3ria perpetue, garantindo nossa sobreviv\u00eancia \u00e0 morte? \u00c9 necess\u00e1rio aprender a morrer. E para isso, \u00e9 necess\u00e1rio aprender a viver da melhor forma poss\u00edvel. Quem vive bem, quando morre, n\u00e3o somente encerra seu processo biol\u00f3gico, mas garante a lembran\u00e7a de sua vida. Ora, quem foi exemplo de vida, foi virtuoso, viveu bem est\u00e1 vivo em nossa mente: suas palavras, suas a\u00e7\u00f5es, seus atos, seus compromissos s\u00e3o docemente recordados, embora seu corpo esteja putrefato ou nem exista mais. E temos exemplos que possam comprovar isso: o pai ou a m\u00e3e, ou ainda o parente pr\u00f3ximo que j\u00e1 faleceram, mas est\u00e3o vivos na lembran\u00e7a de seus parentes, que abriga os carinhos e os afetos que deles receberam em vida. Ainda mais, pessoas santas e virtuosas, como Dom Luciano Mendes ou Beato Karol Wojtyla, est\u00e3o vivas no pensamento dos homens que t\u00eam contato com biografias excepcionais, mesmo que biologicamente estejam adormecidos pelo tempo. Esse \u00e9 o aspecto antes da morte, que configura a possibilidade de Russell para depois da morte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas resta-nos ainda apontar um caminho, com o auxilio das intui\u00e7\u00f5es de Montaigne. O caminho que nos possibilita viver bem, e a isso compreendemos como virtuosamente, n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o o da Filosofia. As palavras do pr\u00f3prio pensador nos ajuda a entender o porque:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diz C\u00edcero que filosofar n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o preparar-se para morrer. Isso talvez (&#8230;) porque toda a sabedoria e intelig\u00eancia resultam finalmente que aprendemos a n\u00e3o ter receio de morrer. (MONTAIGNE, 1980, p. 44)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>O valor da vida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte, um apontamento de Foucault.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Depois de considerar que estamos morrendo e da possibilidade de sobreviv\u00eancia \u00e0 morte atrav\u00e9s da memoria e, atrav\u00e9s da Filosofia, a sua efetiva\u00e7\u00e3o, Foucault aponta um aspecto importante para esse processo, no per\u00edodo antes da morte, no agora, no presente, e que encaixa no pensamento que at\u00e9 aqui convencionamos. Com a Filosofia, al\u00e9m do desenvolvimento das virtudes, \u00e9 poss\u00edvel ao homem o alargamento de uma \u201cconsci\u00eancia de si mesmo\u201d (FOUCAULT, 2004, p. 580), que lhe mostrar\u00e1 o verdadeiro valor da vida e que contribuir\u00e1 para uma melhor viv\u00eancia, uma vida mais bem vivida, e por consequ\u00eancia uma melhor morte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, o pensamento sobre a morte \u00e9 que permite a retrospec\u00e7\u00e3o e a memoriza\u00e7\u00e3o valorativa da vida. Tamb\u00e9m aqui, como vemos, a morte n\u00e3o \u00e9 um pensamento sobre o porvir. O exerc\u00edcio, o pensamento sobre a morte \u00e9 (&#8230;) um meio (&#8230;) para realizar o grande circuito da memoriza\u00e7\u00e3o pelo qual totalizaremos toda a nossa vida e a faremos aparecer como ela \u00e9. \u00c9 o julgamento sobre o presente e a valoriza\u00e7\u00e3o do passado que se realizam neste pensamento sobre a morte, que justamente n\u00e3o deve ser um pensamento sobre o porvir, mas um pensamento sobre mim mesmo enquanto estou morrendo\u201d (FOCAULT, 2004, p 582).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para isso \u00e9 necess\u00e1rio ao homem retornar, atrav\u00e9s da mem\u00f3ria, ao passado e perceber o que ele construiu at\u00e9 ent\u00e3o. E observar o que h\u00e1 de positivo ou negativo, e se for oportuno, reconstruir. Sendo assim, desde a vida ele poder\u00e1 construir uma mem\u00f3ria de qualidade, virtuosa, que o ensinar\u00e1 a morrer e que garantir\u00e1 a sobreviv\u00eancia \u00e0 morte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o de nossas intui\u00e7\u00f5es, a partir da leitura desses tr\u00eas pensamentos sobre a morte, podemos compreender, se nosso caminho estiver correto, que: a morte \u00e9 um processo biol\u00f3gico que encerra a transforma\u00e7\u00e3o do corpo, que abriga, no c\u00e9rebro, a alma, que \u00e9 relacionada com a fun\u00e7\u00e3o mental. Da\u00ed podemos perceber que a \u00fanica possibilidade de atividade humana ap\u00f3s o \u00f3bito \u00e9 a mem\u00f3ria, que deve se repetir em outra vida. Para garantir essa continuidade \u00e9 necess\u00e1rio saber morrer. Para saber morrer \u00e9 necess\u00e1rio saber viver. E para saber viver \u00e9 necess\u00e1rio filosofar. Filosofia garante uma vida virtuosa, que garantir\u00e1, por sua vez, a perpetuidade da exist\u00eancia do homem. Al\u00e9m disso, a Filosofia permite ao homem iniciar esse processo de morte em vida, quando se aproxima de sua hist\u00f3ria, atrav\u00e9s da pr\u00f3pria mem\u00f3ria, no passado e no presente para construir sua possibilidade de continuidade existencial ap\u00f3s a morte, no futuro. Essa \u00e9 a nossa reflex\u00e3o sobre a morte e a forma com que acreditamos pensa-la tomando como base os textos de Bertrand Russell, Michel Montaigne e Michel Focault. Diante da leitura e interpreta\u00e7\u00e3o dos mesmos, consideramos poss\u00edvel, nessas condi\u00e7\u00f5es, trilhar um caminho que nos permite provar a morte de uma forma sublimada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">FOUCAULT, Michel. <em>A hermen\u00eautica do sujeito<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o M\u00e1rcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MONTAIGNE, Michel Eyquem de. <em>Ensaios<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o S\u00e9rgio Milliet. 2\u00aa Ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cutural, 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">RUSSELL, Bertrand. <em>Por que n\u00e3o sou crist\u00e3o<\/em>e outros ensaios s\u00f4bre a religi\u00e3o e assuntos correlatos. Tradu\u00e7\u00e3o Brenno Silvera. S\u00e3o Paulo: Exposi\u00e7\u00e3o do Livro, 1960.<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/morte,%20Fabiano%20e%20Rafael.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> As suas considera\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais verific\u00e1veis e menos otimistas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doutrina crist\u00e3. Essa, por sua vez, se quis\u00e9ssemos tom\u00e1-la como base n\u00e3o conseguir\u00edamos progresso neste prop\u00f3sito, pois ter\u00edamos que definir e abstrair o que ela quer dizer com \u201cvida\u201d ap\u00f3s a morte, e esse seria um tema para outro artigo.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<div><\/div>\n<div id=\"-chrome-auto-translate-plugin-dialog\" style=\"opacity:1!important;background-image:initial!important;background-attachment:initial!important;background-color:transparent!important;position:absolute!important;top:0;left:0;z-index:999999!important;text-align:left!important;display:none;background-position:initial initial!important;background-repeat:initial initial!important;margin:0!important;padding:0!important;\">\n<div style=\"max-width:300px!important;color:#121212!important;opacity:1!important;border:1px solid #363636!important;-webkit-border-radius:10px!important;background-color:#ffffff!important;font-size:16px!important;overflow:visible!important;background-image:0 color-stop(50%,#EEE), color-stop(100%,#FFF));z-index:999999!important;text-align:left!important;padding:8px!important;\"><\/div>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"position:absolute!important;z-index:-1!important;right:1px!important;top:-20px!important;cursor:pointer!important;-webkit-border-radius:20px;background-color:rgba(200,200,200,0.3)!important;margin:0!important;padding:3px 5px 0!important;\" src=\"http:\/\/www.google.com\/uds\/css\/small-logo.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabiano Alves Assis Rafael Guimar\u00e3es de Oliveira A morte causa grande desassossego no homem que se prop\u00f5e elaborar um pensamento acerca da mesma. 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