{"id":2007,"date":"2011-11-29T21:19:49","date_gmt":"2011-11-30T00:19:49","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2007"},"modified":"2011-11-29T21:19:49","modified_gmt":"2011-11-30T00:19:49","slug":"o-argumento-da-linguagem-privada-em-wittgenstein","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2007","title":{"rendered":"O argumento da linguagem privada em Wittgenstein"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Leandro Alves Figueira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A linguagem humana possui papel fundamental para descrever o conhecimento das coisas que nos rodeiam ou n\u00e3o. \u00c9 ela que manifesta da melhor forma o pensamento abstrato que n\u00f3s fazemos para conhecer o mundo, atrav\u00e9s do mito, da arte, da ci\u00eancia e principalmente da filosofia. Com essa perspectiva, procuraremos desenvolver o mais famoso argumento de Wittgenstein<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Wittgenstein,%20Leandro.docx#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> a respeito da linguagem privada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Wittgenstein, a filosofia \u00e9 uma luta contra os mal-entendidos que prov\u00eam de um uso da linguagem cotidiana. Filosofar, para ele, em certo sentido \u00e9 querer \u201ccompreender algo que j\u00e1 est\u00e1 aberto diante de nossos olhos\u201d (WITTGENSTEIN, 1994, p.64). Isso significa, portanto, uma investiga\u00e7\u00e3o gramatical (WITTGENSTEIN, 1994,p.65), isto \u00e9, a descri\u00e7\u00e3o do uso que fazemos de nossa linguagem cotidiana, das express\u00f5es lingu\u00edsticas (WITTGENSTEIN, 1994, p.73).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas a linguagem pode se ampliar. Com certeza, mas se essa palavra \u201campliar\u201d tem um sentido, aqui, eu j\u00e1 sei qual \u00e9. Devo ser capaz de especificar como imagino essa amplia\u00e7\u00e3o. E o que n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel pensar n\u00e3o posso ent\u00e3o exprimir ou at\u00e9 mesmo insinuar. E, neste caso, a palavra \u201cent\u00e3o\u201d significa \u201cneste c\u00e1lculo\u201d ou \u201cse as palavras forem usadas segundo estas regras gramaticais\u201d&#8230; Signo assim nos leva para al\u00e9m de si mesmo, nem tampouco um racioc\u00ednio (WITTGENSTEIN,1994, p.42).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por conseguinte, o argumento da linguagem privada se desenvolve como um \u201cprivil\u00e9gio\u201d peculiar das experi\u00eancias, as quais fazem e adquirem conhecimentos a partir delas. Esse privil\u00e9gio est\u00e1 voltado no que podemos chamar de ilus\u00e3o da primeira pessoa. Como \u00e9 que eu posso saber, ao ver uma pessoa sentindo dor, as causas dessa e o determinado complexo do organismo de um indiv\u00edduo? Pois bem, a pr\u00f3pria dor est\u00e1 oculta por sua express\u00e3o, s\u00f3 podendo ser diretamente observada por aquele que sofre assim pensamos muitas vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 comum nos depararmos com pessoas que expressam ao sentir uma dor, que s\u00f3 ela \u00e9 capaz de mencionar a sensa\u00e7\u00e3o que a mesma est\u00e1 passando. Como exemplo, podemos citar a sensa\u00e7\u00e3o de algumas pessoas ao perderem um ente querido, as quais se sentem desesperadas, angustiadas, a tal ponto de afirmar que o outro n\u00e3o pode ter a no\u00e7\u00e3o da dor que a mesma est\u00e1 passando.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">At\u00e9 que ponto ent\u00e3o as minhas sensa\u00e7\u00f5es s\u00e3o privadas?-Ora, s\u00f3 eu posso saber se realmente sinto dor; o outro pode apenas supor.- Num sentido, \u00e9 falso, noutro, absurdo. Se usamos a palavra \u201csaber\u201d como normalmente \u00e9 usada (de que outra maneira us\u00e1-la sen\u00e3o assim!), ent\u00e3o os outros saber\u00e3o com muita frequ\u00eancia quando sinto dor.- Sim, mas decerto, n\u00e3o com a certeza com que eu pr\u00f3prio sei!- Ningu\u00e9m pode, em absoluto, dizer de mim (a n\u00e3o ser por brincadeira) que eu sei que sinto dores. O que quer dizer isto- a n\u00e3o ser que eu sinto dores? (WITTGENSTEIN, 1994, p.124)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quanto \u00e0 quest\u00e3o da dor, Wittgenstein nos responder\u00e1 contradizendo o pensamento acima, que os nossos comportamentos tendem a evidenciar a dor, a qual estamos sentindo. O enunciado \u201cs\u00f3 eu sei que estou sofrendo a minha dor\u201d possui fun\u00e7\u00f5es diferentes quanto \u00e0 linguagem expressa na primeira ou terceira pessoa. Na terceira pessoa, julga-se necess\u00e1ria uma consulta m\u00e9dica para diagnosticar a determinada dor. Ao contr\u00e1rio, na primeira pessoa n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria a descri\u00e7\u00e3o da dor, ela por sua vez \u00e9 subjetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desse modo, n\u00e3o podemos referir as nossas sensa\u00e7\u00f5es por meio de palavras intelig\u00edveis numa linguagem p\u00fablica, pensando que os outros n\u00e3o podem captar o que estamos sentindo. Com a evolu\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, as pessoas n\u00e3o est\u00e3o obsoletas ao ponto de n\u00e3o desconfiar ou apontar na express\u00e3o do outro, o que a mesma est\u00e1 sentindo. Logo, as pessoas ao se depararem com um indiv\u00edduo sentindo uma determinada dor, por exemplo uma dor de cabe\u00e7a, as mesmas se sentir\u00e3o inquietas a tal ponto de buscarem de maneira superficial ou profunda a an\u00e1lise da determinada sensa\u00e7\u00e3o que o indiv\u00edduo est\u00e1 sentindo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Podemos dizer, contudo, que quanto \u00e0 primeira e \u00e0 terceira pessoa possuem import\u00e2ncia para chegar ao conhecimento at\u00e9 mesmo para chegar \u00e0 ess\u00eancia de qualquer estudo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Wittgenstein confere um peso excessivo \u00e0 distin\u00e7\u00e3o entre usos expressivos e descritivos. Um mesmo proferimento pode desempenhar ambas as fun\u00e7\u00f5es: o proferimento de pode corresponder tanto \u00e0 informa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio peso quanto \u00e0 express\u00e3o de remorso. Al\u00e9m disso, embora o proferimento \u201cEu acredito que p\u201d n\u00e3o constitua uma descri\u00e7\u00e3o, ele \u00e9, ami\u00fade, um relato e n\u00e3o uma manifesta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea; pode indicar firmes convic\u00e7\u00f5es minhas (GLOCK,1998, p.155-156).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A express\u00e3o do outro na primeira pessoa demonstra privacidade, j\u00e1 que o falante n\u00e3o se preocupa com a vis\u00e3o do outro, j\u00e1 que suas experi\u00eancias s\u00e3o pessoais. Voc\u00ea caro leitor, certamente pode relatar uma dessas experi\u00eancias da linguagem privada, afinal todos n\u00f3s conhecemos os nossos estados mentais mesmo que n\u00e3o observemos os nossos comportamentos, e sentimos coisas que ao nosso ver pode ser compreendido apenas por n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A possibilidade da linguagem privada \u00e9 pressuposta desde a filosofia moderna, tomando como ponto de partida Ren\u00e9 Descartes. Podemos afirmar que a primeira pessoa possui a capacidade, atrav\u00e9s da raz\u00e3o, de bem julgar o que \u00e9 bom\u00a0 e distinguir o falso do verdadeiro. Por\u00e9m devemos ter a aten\u00e7\u00e3o para n\u00e3o privar este conhecimento s\u00f3 para n\u00f3s mesmos, e, principalmente, n\u00e3o julgar que o outro n\u00e3o possua a capacidade de compreender a nossa dor, por exemplo, a partir do nosso comportamento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, cabe a n\u00f3s a partir deste artigo, a tarefa de n\u00e3o julgar como falsa ou verdadeira a express\u00e3o do outro. Devemos sim, saber usar a linguagem com a devida aten\u00e7\u00e3o em todos os campos, aprimorando o conhecimento, uma vez que a linguagem privada pode ser descrita. Por\u00e9m, pode ser compreendida atrav\u00e9s do comportamento, da expressividade sensorial.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>COTRIM, Gilberto. <em>Fundamentos da Filosofia:<\/em> <em>Hist\u00f3ria e grandes<\/em> <em>temas<\/em>. 15. ed. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2000.<\/p>\n<p>GLOCK, Hans-Johann. <em>Dicion\u00e1rio Wittgesnstein<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.<\/p>\n<p>HINTIKKA, Jaakko; HINTIKKA, Merril B. <em>Uma investiga\u00e7\u00e3o sobre Wittgenstein. <\/em>S\u00e3o Paulo: Papirus, 1994.<\/p>\n<p>PENCO, Carlo. <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia da linguagem.<\/em>Petrop\u00f3lis: Vozes, 2006.<\/p>\n<p>WITTGENSTEIN, Ludwig. <em>Investiga\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas<\/em>. Petrop\u00f3lis: Vozes, 1994.<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Wittgenstein,%20Leandro.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> Ludwig Josef Johann Wittgenstein nasceu aos 26 de abril de 1889. Faleceu na Inglaterra dois dias ap\u00f3s completar 62 anos, em 1951.O seu pensamento \u00e9 dividido em duas fases: a primeira corresponde ao Tractatus logico-philosophicus, \u00fanica obra que publicou em vida e que insere na tradi\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise l\u00f3gica da linguagem. J\u00e1 a sua segunda fase, conhecida como \u201co segundo Wittgenstein\u201d tem como no\u00e7\u00e3o central o jogo da linguagem, ou seja, a multiplicidade de usos que fazemos de palavras e express\u00f5es sem que haja nenhuma ess\u00eancia definidora da linguagem enquanto tal.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"-chrome-auto-translate-plugin-dialog\" style=\"opacity:1!important;background-image:initial!important;background-attachment:initial!important;background-color:transparent!important;position:absolute!important;top:0;left:0;z-index:999999!important;text-align:left!important;display:none;background-position:initial initial!important;background-repeat:initial initial!important;margin:0!important;padding:0!important;\">undefined<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leandro Alves Figueira A linguagem humana possui papel fundamental para descrever o conhecimento das coisas que nos rodeiam ou n\u00e3o. \u00c9 ela que manifesta da melhor forma o pensamento abstrato que n\u00f3s fazemos para conhecer o mundo, atrav\u00e9s do mito, da arte, da ci\u00eancia e principalmente da filosofia. 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