{"id":2015,"date":"2011-12-05T07:53:53","date_gmt":"2011-12-05T10:53:53","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2015"},"modified":"2011-12-05T07:53:53","modified_gmt":"2011-12-05T10:53:53","slug":"gadamer-e-o-resgate-do-preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2015","title":{"rendered":"Gadamer e o resgate do preconceito"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>M\u00e1rcio Henrique da Silva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Voc\u00ea tem <em>preconceitos<\/em>? Essa \u00e9 uma pergunta sobre a qual cabe uma profunda reflex\u00e3o. Por que <em>preconceito<\/em>? Qual ser\u00e1 sua validade? Ter\u00e1 ele alguma utilidade? O pensamento acerca do preconceito \u00e9 o que nos traz a uma an\u00e1lise na \u00f3tica de Gadamer<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Gadamer,%20Marcio.docx#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Muitos, por\u00e9m, t\u00eam uma vis\u00e3o em sentido negativo sobre o que venha ser preconceito, e isso pode vir a interferir quando somos inqueridos sobre tal concep\u00e7\u00e3o. Vemos, em nossos dias, que quaisquer formas de preconceitos, sejam eles religiosos, \u00e9tnicos, raciais, sociais, econ\u00f4micos etc., s\u00e3o considerados crimes, e quando praticados, implicam penalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao analisarmos o que Gadamer entende por <em>preconceito<\/em>, poderemos ter uma vis\u00e3o mais ampla nesse sentido.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Gadamer reavalia o conceito de \u201cpreconceito\u201d, entendendo como pr\u00e9-conceitos as ideias que tecem nossa Vor-vert\u00e4ndnis, isto \u00e9, nossa pr\u00e9-compreens\u00e3o, as quais continuamente subjazem \u00e0 prova da experi\u00eancia (REALE; ANTISERI, 2008, p.260).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Todos n\u00f3s temos pr\u00e9-compreens\u00f5es. Por exemplo: Quando estamos por conhecer algu\u00e9m, certamente vem \u00e0 nossa mente: como ser\u00e1 a pessoa? E logo nos v\u00eam ao pensamento ideias de altura, peso, cor dos olhos, o que mais a pessoa gosta, o que menos ela gosta, m\u00fasica preferida etc., e assim vamos construindo uma imagem com as nossas pr\u00e9-compreens\u00f5es. De fato, n\u00e3o sabemos se tais ideias corresponder\u00e3o ao que a pessoa a ser conhecida seja; mesmo assim, n\u00e3o deixamos de fazer um preconceito a seu respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tudo aquilo que \u00e9 desconhecido gera em n\u00f3s incerteza, mas ao mesmo tempo uma esperan\u00e7a. Dar cr\u00e9dito ao que seja negativo ou positivo dentro do <em>preconceito<\/em> \u00e9 pr\u00f3prio de cada um, mas n\u00e3o podemos afirmar que <em>ele <\/em>seja em si negativo nem tampouco positivo; depender\u00e1 do sujeito que faz tal preju\u00edzo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A palavra preconceito tem uma liga\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica com a palavra preju\u00edzo. \u201cPr\u00e9judice, como praejudicium, tamb\u00e9m significa, assim, simplesmente limita\u00e7\u00e3o, desvantagem, dano, preju\u00edzo\u201d. Mas este car\u00e1ter negativo \u00e9 apenas uma consequ\u00eancia. \u00c9 justamente a validade positiva, o valor prejudicial da decis\u00e3o precedente \u2013 como, justamente, de um \u201cprecedente\u201d &#8211; que fundamenta a consequ\u00eancia negativa (REALE; ANTISERI, 2008, p. 260).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">S\u00f3 podemos falar de um car\u00e1ter negativo na palavra <em>preconceito<\/em>, porque existe dentro da mesma uma abertura ao positivo. Por isso, <em>ele <\/em>se funda tanto no que seja negativo quanto no positivo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Podemos nos perguntar, por que, ent\u00e3o, temos uma concep\u00e7\u00e3o de que <em>preconceito<\/em> seja algo infundado e mesmo de posi\u00e7\u00e3o negativista?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A no\u00e7\u00e3o de <em>preconceito<\/em> sofreu grande influ\u00eancia negativa por parte do iluminismo, que viu <em>nele<\/em> um empecilho para a raz\u00e3o, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 a busca pela verdade, a liberta\u00e7\u00e3o do homem, passagem da menoridade para sua maioridade. Naquele momento, o iluminismo se preocupava t\u00e3o somente com o que o homem poderia produzir a partir se sua capacidade intelectiva. O progresso estava nas m\u00e3os do sujeito, e para que ele o alcan\u00e7asse seria necess\u00e1rio romper com quaisquer tipos de ideias, dogmas, conhecimentos infundados, partir do \u201cnada\u201d seria o caminho. Destruir os <em>preconceitos<\/em>, essa era a ordem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao pulverizar a imagem de <em>preconceito<\/em>, os iluministas buscaram dissipar tamb\u00e9m a religi\u00e3o crist\u00e3, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 garantir e fazer valer o Magist\u00e9rio eclesial, a Sagrada Escritura e a Tradi\u00e7\u00e3o; tudo isso constitu\u00eda, para os iluministas, um entrave para o progresso t\u00e9cnico-cient\u00edfico, pois n\u00e3o baseados na raz\u00e3o impediam o avan\u00e7o humano em rela\u00e7\u00e3o ao fazer. A deusa raz\u00e3o, ante a Igreja, encontrava seu maior obst\u00e1culo; \u201cA cr\u00edtica iluminista da religi\u00e3o acoplou ao conceito de <em>preconceito<\/em> o significado de \u2018ju\u00edzo infundado\u2019\u201d (REALE; ANTISERI, 2008, p. 260).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cUma an\u00e1lise da hist\u00f3ria do conceito mostra que \u00e9 somente no <em>Aufkl\u00e4rung<\/em> que o conceito de preconceito recebeu o matiz negativo que agora possui\u201d (GADAMER, 1998, p.407). O ideal iluminista procurou descartar tudo aquilo que o impedia de seguir adiante em seus anseios progressistas, e se valeu de uma interpreta\u00e7\u00e3o unilateral para por de lado qualquer tipo de preconceito, por caracteriz\u00e1-lo como pensamento infundado, irracional.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para os racionalistas,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Somente a fundamenta\u00e7\u00e3o, a garantia do m\u00e9todo (e n\u00e3o o encontro com a coisa como tal) confere ao ju\u00edzo sua dignidade. Aos olhos do Aufkl\u00e4rung, a falta de fundamenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa espa\u00e7os para outros modos de certeza, pois significa que o ju\u00edzo n\u00e3o tem um fundamento na coisa, que \u00e9 um ju\u00edzo \u201csem fundamento\u201d (GADAMER, 1998, p. 407-408).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo o fil\u00f3sofo, \u00e9 imposs\u00edvel estarmos isentos de quaisquer <em>preconceitos<\/em> diante da nossa capacidade de especula\u00e7\u00e3o; s\u00e3o tamb\u00e9m <em>eles<\/em> que nos impulsionam a ir ao encontro do que seja verdadeiro. N\u00e3o longe disso, a falta de fundamenta\u00e7\u00e3o poderia acarretar num descr\u00e9dito daquilo a que se faz alus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O iluminismo quis fundamentar tudo na raz\u00e3o, e fez dela um m\u00e9todo para alcan\u00e7ar seus ideais, por\u00e9m se esqueceu de que n\u00e3o se pode fazer uma busca partindo do zero, sem no\u00e7\u00f5es que sejam pr\u00e9vias. Quando se busca algo, \u00e9 pelo fato de se ter sido impulsionado anteriormente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O <em>preconceito, <\/em>como caminho para o conhecimento, tem sua validade e utilidade, mas n\u00e3o se trata de t\u00ea-lo ou n\u00e3o. \u00c9, antes de mais, uma posi\u00e7\u00e3o que tomamos ante o que se nos apresenta, podendo assumir um ju\u00edzo positivo ou negativo. \u00a0J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel ficar indiferente quanto ao preconceito. Sua parcela representa muito em nossos atos e em nosso jeito de ver o mundo. Cabe a n\u00f3s fazermos dele bom uso, seja nos \u00e2mbitos religiosos, \u00e9tnicos, raciais, sociais, econ\u00f4micos. Diga sim ao preconceito respons\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong><span style=\"text-decoration:underline;\"><br \/>\n<\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>GADAMER, H-G. Tra\u00e7os fundamentais de uma hermen\u00eautica filos\u00f3fica. In: ______. <em>Verdade e m\u00e9todo<\/em>. Trad. Fl\u00e1vio P. Meurer. 2. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1998.<\/p>\n<p>REALE, Giovani; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da filosofia<\/em>: De Nietzsche \u00e0 Escola de Frankfurt. Trad. Ivo Storniolo. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2008. (Cole\u00e7\u00e3o Hist\u00f3ria da filosofia, 6).<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Gadamer,%20Marcio.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> Aluno de Heidegger, Hans George Gadamer (1900-2002) \u2013 professor em Leipzig, depois em Frankfurt e, por fim, em Heidelberg -, int\u00e9rprete refinado e arguto, sobretudo da filosofia antiga, mas tamb\u00e9m de Hegel e dos historicistas, publicou em 1960 uma obra hoje considerada cl\u00e1ssica para a teoria da hermen\u00eautica, Verdade e m\u00e9todo, onde tanto as quest\u00f5es t\u00e9cnicas como as perspectivas filos\u00f3ficas da hermen\u00eautica fundem-se em um todo coerente (REALE; ANTISERI, 2008, p.250).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"-chrome-auto-translate-plugin-dialog\" style=\"opacity:1!important;background-image:initial!important;background-attachment:initial!important;background-color:transparent!important;position:absolute!important;top:0;left:0;z-index:999999!important;text-align:left!important;display:none;background-position:initial initial!important;background-repeat:initial initial!important;margin:0!important;padding:0!important;\">\n<div style=\"max-width:300px!important;color:#121212!important;opacity:1!important;border:1px solid #363636!important;-webkit-border-radius:10px!important;background-color:#ffffff!important;font-size:16px!important;overflow:visible!important;background-image:0 color-stop(50%,#EEE), color-stop(100%,#FFF));z-index:999999!important;text-align:left!important;padding:8px!important;\"><\/div>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"position:absolute!important;z-index:-1!important;right:1px!important;top:-20px!important;cursor:pointer!important;-webkit-border-radius:20px;background-color:rgba(200,200,200,0.3)!important;margin:0!important;padding:3px 5px 0!important;\" src=\"http:\/\/www.google.com\/uds\/css\/small-logo.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rcio Henrique da Silva Voc\u00ea tem preconceitos? 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