{"id":2026,"date":"2011-12-05T09:50:19","date_gmt":"2011-12-05T12:50:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2026"},"modified":"2011-12-05T09:50:19","modified_gmt":"2011-12-05T12:50:19","slug":"o-mito-e-a-musica-segundo-levi-strauss","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2026","title":{"rendered":"O mito e a m\u00fasica segundo L\u00e9vi-Strauss"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Bernardo Ferreira de Sousa <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na vida de Claude L\u00e9vi-Strauss, a m\u00fasica teve lugar de destaque, pois desde pequeno ele sempre se interessou por ela. Isso se iniciou quando ele teve suas primeiras li\u00e7\u00f5es de violino e com isso chegou at\u00e9 a compor um libreto. No entanto, por ocasi\u00e3o de alguns desajustes, deixou de lado o contato com tal instrumento e com a composi\u00e7\u00e3o, e acabou tornando-se antrop\u00f3logo. Ao se tornar antrop\u00f3logo, tentou pesquisar a arte musical atrav\u00e9s do mito, e ao faz\u00ea-lo foi bastante feliz, pois o mito abrange tanto as artes em geral quanto a sociedade em si. Diante disso procuraremos entender nesse artigo a rela\u00e7\u00e3o entre mito e m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo L\u00e9vi-Strauss, a rela\u00e7\u00e3o entre mito e m\u00fasica prov\u00e9m de duas fontes: a primeira da similaridade e a outra da contiguidade. Essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 nada mais do que dois fatos iguais, ou seja, tanto o mito quanto a m\u00fasica s\u00e3o, na realidade, o mesmo fato. Mas isso n\u00e3o foi compreendido de imediato pelo autor em quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Foi a similaridade que lhe chamou mais a aten\u00e7\u00e3o. Explicando-a ele diz: \u201co aspecto da similaridade, a minha convic\u00e7\u00e3o era que, tal como sucede numa partitura musical; \u00e9 imposs\u00edvel compreender um mito como uma sequ\u00eancia cont\u00ednua\u201d (L\u00c9VI-STRAUSS, 1987, p.66). Assim, a similaridade existe quando lemos de maneira correta o mito, ou seja, como uma partitura musical, pois o mito possui uma totalidade e \u00e9 a partir dessa totalidade que descobrimos o seu significado. Portanto, a similaridade existe quando procuramos ler o mito como uma partitura orquestral, ou seja, lendo o mito frase por frase dentro de uma totalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas como acontece ou inicia esta rela\u00e7\u00e3o e qual o por qu\u00ea disso? Respondendo a esta quest\u00e3o L\u00e9vi-Strauss afirma: \u201ca minha opini\u00e3o, \u00e9 o segundo aspecto, o aspecto da contiguidade, que nos d\u00e1 a chave para este problema\u201d (L\u00c9VI-STRAUSS, 1987, p.67). A contiguidade \u00e9 algo que est\u00e1 pr\u00f3ximo, ou melhor, em contato com. Nosso autor explica isso com uma volta aos termos hist\u00f3ricos:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">o pensamento mitol\u00f3gico, n\u00e3o digo se dissipou ou desapareceu, mas passou para segundo plano no pensamento ocidental da Renascen\u00e7a e do s\u00e9culo XVIII, que come\u00e7aram a aparecer as primeiras novelas, em vez de hist\u00f3rias ainda elaboradas segundo o modelo da mitologia (L\u00c9VI-STRAUSS, 1987, p.67).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">E \u00e9 neste per\u00edodo que come\u00e7am tamb\u00e9m a surgir em todo ocidente grandes estilos musicais, alguns citados por nosso L\u00e9vi-Strauss, tais como Mozart, Beethoven e Wagner. Ele exemplifica que na tetralogia de Wagner, <em>O Anel do Nibelungo<\/em>, em que as quatro \u00f3peras (<em>O Ouro do Reno, As Valqu\u00edrias, Siegfried e O Crep\u00fasculo dos Deuses<\/em>) t\u00eam como tema a maldi\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 posse do ouro e \u00e0 ren\u00fancia do amor. Para um melhor esclarecimento, Rocha analisa que \u201cem <em>O Ouro do Reno<\/em> a posse do ouro est\u00e1 ligada \u00e0 ren\u00fancia a todo tipo de amor. Em <em>As Valqu\u00edrias<\/em> o tema do amor aparece de forma incestuosa, portanto proibido. S\u00e3o temas musicais tamb\u00e9m comuns na mitologia\u201d (ROCHA, 2008, p.2). Para L\u00e9vi-Strauss, estes exemplos s\u00e3o suficientes para mostrar a similaridade de m\u00e9todo entre a an\u00e1lise do mito e a compreens\u00e3o da m\u00fasica. Mas cada parte, cada fragmento deve estar \u201crelacionado com o antes e com o depois, para que com a audi\u00e7\u00e3o em conjunto se possa chegar a um perfeito entendimento\u201d (ROCHA, 2008, p.3). Portanto, a contiguidade \u00e9 isso: um correr no tempo hist\u00f3rico, \u00e9 um ouvir m\u00fasica de um ponto para o outro, de um termo inicial a um termo final atrav\u00e9s do tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mito e m\u00fasica s\u00e3o similares e cont\u00edguas, abordados de forma abrangente, inclu\u00eddos no rol dos maiores estudos estruturais, ao lado da matem\u00e1tica e da linguagem natural. E \u00e9 nessa perspectiva que nosso autor qualifica o mito e a m\u00fasica numa rela\u00e7\u00e3o clara e conveniente.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas dentro deste elo similar, existe outra vertente citada L\u00e9vi-Strauss que compreende a m\u00fasica e a linguagem. A linguagem (espons\u00e1vel pela propaga\u00e7\u00e3o do mito) est\u00e1 relacionada \u00e0 lingu\u00edstica, ou seja, aos fonemas, \u00e0s palavras e \u00e0s frases. A m\u00fasica est\u00e1 relacionada \u00e0 melodia, ou seja, ao conjunto de notas, e nela h\u00e1 fonemas, notas e frases. E por fim o mito est\u00e1 relacionado \u00e0s palavras, e nele h\u00e1 palavras, frases, mas faltam fonemas. H\u00e1 algo de similar entre mito, m\u00fasica e linguagem, conforme explica L\u00e9vi-Strauss:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Poder-se-ia dizer perfeitamente que, enquanto na linguagem se tem os fonemas como material elementar, na m\u00fasica temos algo que eu poderia chamar \u00absonemas\u00bb \u2013 em ingl\u00eas, talvez que a palavra mais adequada fosse \u00abtonemas\u00bb. Isto \u00e9 uma similaridade (L\u00c9VI-STRAUSS, 1987, p.75).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ent\u00e3o em L\u00e9vi-Strauss \u00e9 poss\u00edvel buscar uma similaridade entre mito, m\u00fasica e linguagem, mas para que isso seja poss\u00edvel inicia-se sempre na linguagem, pois tanto o mito quanto a m\u00fasica se desenvolveram a partir da linguagem, mas em diferentes dire\u00e7\u00f5es. Assim, \u201ca m\u00fasica destaca os aspectos do som j\u00e1 presentes na linguagem, enquanto a mitologia sublinha o aspecto do sentido, o aspecto do significado, que tamb\u00e9m est\u00e1 profundamente presente na linguagem\u201d (L\u00c9VI-STRAUSS, 1987, p.77).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, temos a clareza relacional entre mito e m\u00fasica, sendo que na \u201cm\u00fasica \u00e9 o elemento sonoro que predomina, e no mito \u00e9 o significado\u201d (L\u00c9VI-STRAUSS, 1987, p.77). Com isso \u00e9 afirmado por L\u00e9vi-Strauss, e colocado como central na reflex\u00e3o entre mito e m\u00fasica, um paralelismo que aborda os aspectos da similaridade e da contiguidade, e segundo nosso autor o paralelismo \u00e9 poss\u00edvel se levarmos em conta a m\u00fasica como surgiu na civiliza\u00e7\u00e3o ocidental.<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. <em>Mito e significado. <\/em>Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">ROCHA, Ant\u00f4nio do Amaral. <em>Mito e m\u00fasica. <\/em>Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/aamaralrocha.blogspot.com\/2008\/01\/mito-e-msica.html\">http:\/\/aamaralrocha.blogspot.com\/2008\/01\/mito-e-msica.html<\/a>. Acesso em: 20 nov. 2011.<\/p>\n<div id=\"-chrome-auto-translate-plugin-dialog\" style=\"opacity:1!important;background-image:initial!important;background-attachment:initial!important;background-color:transparent!important;position:absolute!important;top:0;left:0;z-index:999999!important;text-align:left!important;display:none;background-position:initial initial!important;background-repeat:initial initial!important;margin:0!important;padding:0!important;\">\n<div style=\"max-width:300px!important;color:#121212!important;opacity:1!important;border:1px solid #363636!important;-webkit-border-radius:10px!important;background-color:#ffffff!important;font-size:16px!important;overflow:visible!important;background-image:0 color-stop(50%,#EEE), color-stop(100%,#FFF));z-index:999999!important;text-align:left!important;padding:8px!important;\"><\/div>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"position:absolute!important;z-index:-1!important;right:1px!important;top:-20px!important;cursor:pointer!important;-webkit-border-radius:20px;background-color:rgba(200,200,200,0.3)!important;margin:0!important;padding:3px 5px 0!important;\" src=\"http:\/\/www.google.com\/uds\/css\/small-logo.png\" alt=\"\" \/><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bernardo Ferreira de Sousa Na vida de Claude L\u00e9vi-Strauss, a m\u00fasica teve lugar de destaque, pois desde pequeno ele sempre se interessou por ela. 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