{"id":2167,"date":"2012-04-10T14:13:44","date_gmt":"2012-04-10T17:13:44","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2167"},"modified":"2012-04-10T14:13:44","modified_gmt":"2012-04-10T17:13:44","slug":"compreensao-montaniana-do-morrer-a-via-entre-existir-e-perecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2167","title":{"rendered":"Compreens\u00e3o montaniana do morrer: a via entre existir e perecer"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Daniel Junior dos Santos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A vida humana \u00e9 marcada por in\u00fameros paradigmas (felicidade <em>versus<\/em> tristeza, soberba <em>versus<\/em> desapego, dor <em>versus<\/em> prazer, amor <em>versus<\/em> \u00f3dio), entretanto um dos mais conturbados e questionados \u00e9 o seguinte: De onde vimos e para onde nos dirigimos? Encontramos m\u00faltiplas teorias que tentam fundamentar e sistematizar uma resposta, por\u00e9m n\u00e3o existe um consenso entre os fil\u00f3sofos e as religi\u00f5es quanto \u00e0 origem e destino da exist\u00eancia humana. Portanto, ainda hoje o ser humano se questiona tanto sobre a sua genealogia quanto o seu fim, e o vi\u00e9s que o atormenta \u00e9 este: Porque tenho medo da morte? A morte \u00e9 o fim de tudo ou existir\u00e1 algo por detr\u00e1s dela?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo o fil\u00f3sofo franc\u00eas Michel de Montaigne<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Montaigne,%20Daniel.doc#_ftn1\"><sup><\/sup><sup>[1]<\/sup><\/a>, o qual nos valer\u00e1 nesta alus\u00e3o, a problem\u00e1tica encontra-se n\u00e3o na morte, mas no fato de morrer (passagem de um estado para outro). Quando se questiona algu\u00e9m sobre a morte, o primeiro sentimento que lhe impele \u00e9 o medo, a tens\u00e3o em morrer e estar morto; logo, retard\u00e1-la ou ocult\u00e1-la parece ser a melhor sa\u00edda. Na cultura contempor\u00e2nea vislumbramos no homem a avers\u00e3o pela morte no sentido de que o futuro pode lhe condenar e a temeridade em viver o presente pode resultar-lhe numa infelicidade ou perca de tempo. Assim, o grande vil\u00e3o ao qual estamos fadados \u00e9 este: viver bem e alcan\u00e7armos a felicidade sem pensar na consequ\u00eancia da morte ou pensarmos nela e sermos iludidos de ter vivido uma vida infeliz?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A morte do ponto de vista biol\u00f3gico \u00e9 o fim da exist\u00eancia, ou seja, cessar das atividades f\u00edsico-biol\u00f3gicas de um determinado ser. Deste modo percebe-se a morte como fator inevit\u00e1vel e intr\u00ednseco \u00e0 subjetividade de cada ente. No momento em que nascemos estamos predestinados para n\u00e3o existirmos mais. Numa outra perspectiva, antropol\u00f3gico-crist\u00e3, concebe-se a morte como fim da vida, mas n\u00e3o da exist\u00eancia. A morte \u00e9 o fim da vida humana, mas in\u00edcio de uma exist\u00eancia ininterrupta<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Montaigne,%20Daniel.doc#_ftn2\"><sup><\/sup><sup>[2]<\/sup><\/a>. A partir disso, Montaigne percorre um itiner\u00e1rio existencial arraigado pelo ceticismo, epicurismo e de uma f\u00e9 moderada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aparentemente pensar sobre o morrer parece ser algo absurdo, estranho, mas ao mesmo tempo tr\u00e1gico e desafiador. Refletir sobre a exist\u00eancia e o seu fim nada mais \u00e9 do que pensar sobre a pr\u00f3pria liberdade humana. Assim, as duas vias que s\u00e3o apresentadas como transportes para uma realidade extracorp\u00f3rea, submetendo-se a experi\u00eancia ou semelhan\u00e7a do morrer, s\u00e3o o estudo e a contempla\u00e7\u00e3o: a Filosofia. Logo, ensinar-nos a n\u00e3o temer a morte \u00e9 nos ensinar a morrer \u201cbem\u201d, ou seja, preparar-se para suportar o fim inadi\u00e1vel sem se apegar \u00e0s coisas deste mundo como afirma Montaigne:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Meditar sobre a morte \u00e9 meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer, desaprendeu de servir; nenhum mal atingir\u00e1 quem na exist\u00eancia compreendeu que a priva\u00e7\u00e3o da vida n\u00e3o \u00e9 um mal; saber morrer nos exime de toda sujei\u00e7\u00e3o e constrangimento. (MONTAIGNE, 1980, p.47).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A princ\u00edpio colocamos a seguinte pergunta: Porque o homem tem medo da morte? Na perspectiva montaniana, a raiz de tal medo est\u00e1 na passagem da vida para a morte. Entretanto alguns elementos fomentam esta resist\u00eancia contra a pr\u00f3pria morte, dentre eles destaca-se: o destino p\u00f3s-morte, preocupa\u00e7\u00e3o com os prazeres da vida, processo hist\u00f3rico (tempo, espa\u00e7o e modo da morte), alcance ou n\u00e3o da felicidade. Para o fil\u00f3sofo, aprender a morrer \u00e9 fator intr\u00ednseco para uma boa morte, no qual \u00e9 caracterizado por um salto em que damos do viver ao perecer, sem desprezo da vida como ele mesmo nos diz: \u201cConcluo que quanto mais me desprender da vida e me aproximar da morte, tanto mais facilmente me conformarei com a passagem de uma para outra.\u201d (MONTAIGNE, 1980, p. 48).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Embora n\u00e3o seja f\u00e1cil tomar esta decis\u00e3o e mesmo que ela apare\u00e7a ser inconveniente e incoerente para muitos, a morte sempre atormentar\u00e1 o homem tirando-o de seu sono. Como probabilidade de sa\u00edda encontrada para o sentimento de medo que ela nos incute, segundo Vaz (2008, p. 7), a obra <em>Os Ensaios <\/em>prop\u00f5e duas estrat\u00e9gias opostas entre si para tal embate: \u201cna primeira delas, h\u00e1 uma valoriza\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo de constante simula\u00e7\u00e3o mental da pr\u00f3pria morte e, na segunda, Montaigne descredita a simula\u00e7\u00e3o da morte e prop\u00f5e uma confian\u00e7a na predisposi\u00e7\u00e3o natural a n\u00e3o temer a morte e o morrer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na primeira estrat\u00e9gia de dissipa\u00e7\u00e3o do temor causado pela morte, nota-se a preocupa\u00e7\u00e3o de se imaginar, simular a pr\u00f3pria morte sob suas circunst\u00e2ncias e causas, ou seja, um m\u00e9todo que proporcionar\u00e1 um dom\u00ednio sobre si mesmo diante do sofrimento preparando o indiv\u00edduo internamente para o encontro com a morte, como nos diz Vaz (2008, p. 33): \u201cA prescri\u00e7\u00e3o da simula\u00e7\u00e3o da morte \u00e9 uma esp\u00e9cie de tatuagem mental que em letras garrafais exorta \u2018Lembra-te de que h\u00e1s de morrer\u2019, grafada e gravada em nosso castelo interior\u201d. Quanto \u00e0 segunda estrat\u00e9gia que descredita a simula\u00e7\u00e3o da morte e pressup\u00f5e uma predisposi\u00e7\u00e3o natural em n\u00e3o temer a morte, tenta estabelecer um ponto mediano entre a nega\u00e7\u00e3o ou priva\u00e7\u00e3o da morte e a simula\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do morrer, acentuando a morte ao acaso: \u201c&#8230; a afirma\u00e7\u00e3o da predisposi\u00e7\u00e3o \u00e0 morte nos conduz \u00e0 met\u00e1fora da viagem sem rumo, tortuosa, guiada pelas belezas da paisagem, como caminhos da floresta.\u201d (VAZ, 2008, p. 51).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Acrescentamos a este pensamento, que todo ser naturalmente apresenta medo, ang\u00fastia, desespero por sua ru\u00edna e, sobretudo, pelo tempo de aproveitamento da vida enquanto a morte n\u00e3o o atemoriza. Logo, a principal preocupa\u00e7\u00e3o das pessoas no processo anterior a morte diz respeito \u00e0 felicidade: Ser\u00e1 que eu sou feliz nesta vida? Montaigne nos alerta sobre isso dizendo: \u201cEm rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte, viver pouco ou muito \u00e9 a mesma coisa, pois nada \u00e9 longo ou curto quando deixa de existir.\u201d (MONTAIGNE, 1980, p.49). Destarte, a felicidade ou o seu contr\u00e1rio n\u00e3o se abarca na durabilidade de nossa vida, mas sim no que usufru\u00edmos e fazemos dela: o bem ou mal. Quanto a este assunto, somente depois da morte poderemos julgar se de fato fomos felizes ou infelizes em vida.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em suma, filosofar \u00e9 aprender a morrer na medida em que se vive a virtude, sendo esta a via entre a exist\u00eancia e o perecer, o fim \u00faltimo da hist\u00f3ria. Embora a virtude apresente como grande benef\u00edcio o desprezo pela morte, ela n\u00e3o extingue a possibilidade de pensar sobre esta. Portanto, a vida virtuosa \u00e9 o ponto de intersec\u00e7\u00e3o entre uma exist\u00eancia temer\u00e1ria, amedrontada, no entanto quieta e \u00e0 espera de seu t\u00e9rmino inadi\u00e1vel. Encontrar-se com a pr\u00f3pria morte \u00e9 desvelar as m\u00e1scaras e caricaturas que introjetamos em nossa mente a respeito do morrer, como diz Montaigne: \u201cArranquemos as m\u00e1scaras \u00e0s coisas como \u00e0s pessoas e por baixo veremos muito simplesmente a morte.\u201d (MONTAIGNE, 1980, p.51).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MONTAIGNE, Michel. <em>Ensaios<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Milliet. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1980. 500 p. (Os Pensadores)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">VAZ, L\u00facio. <em>Da simula\u00e7\u00e3o da morte<\/em>: vers\u00e3o e avers\u00e3o em Montaigne. 2008. 113 f. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Filosofia) \u2013 Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2007. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/opus.grude.ufmg.br\/opus\/opusanexos.nsf\/4d078acf4b397b3f83256e86004d9d55\/58f5bc2481bee60d0325765c0057cb88\/$FILE\/Disserta\u00e7\u00e3o.%20L\u00facio%20Vaz.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/opus.grude.ufmg.br\/opus\/opusanexos.nsf\/4d078acf4b397b3f83256e86004d9d55\/58f5bc2481bee60d0325765c0057cb88\/$FILE\/Disserta\u00e7\u00e3o.%20L\u00facio%20Vaz.pdf<\/a>&gt;. Acesso em: 15 fev. 2012.<\/p>\n<div><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Montaigne,%20Daniel.doc#_ftnref1\">[1]<\/a> Nasceu em 1533 no Castelo de Montaige e morreu em 1592. C\u00e9tico e conservador, escreveu <em>Os Ensaios,<\/em> obra esta publicada em 1580 (livro I e II) e 1588 (livro III).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align:justify;\"><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Montaigne,%20Daniel.doc#_ftnref2\">[2]<\/a> Quanto \u00e0 discuss\u00e3o sobre o problema da imortalidade da alma, vale ressaltar que fora assunto de debate para o autor, todavia n\u00e3o abordaremos. Cf. MONTAIGNE, Michel. Apologia de Raymond Sebond<em>. Ensaios<\/em>. 2\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1980.\u00a0 p. 204-279.<em> <\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"-chrome-auto-translate-plugin-dialog\" style=\"opacity:1!important;background-image:initial!important;background-attachment:initial!important;background-origin:initial!important;background-clip:initial!important;background-color:transparent!important;position:absolute!important;top:0;left:0;overflow-x:visible!important;overflow-y:visible!important;z-index:999999!important;text-align:left!important;display:none;background-position:initial initial!important;background-repeat:initial initial!important;padding:0!important;margin:0!important;\">\n<div style=\"max-width:300px!important;color:#121212!important;opacity:1!important;border:1px solid #363636!important;-webkit-border-radius:10px!important;background-color:#ffffff!important;font-size:16px!important;padding:8px!important;overflow:visible!important;background-image:-webkit-gradient(linear,left top,right bottom,color-stop(0%,#FFF),color-stop(50%,#EEE),color-stop(100%,#FFF));z-index:999999!important;text-align:left!important;\"><\/div>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"position:absolute!important;z-index:-1!important;right:1px!important;top:-20px!important;cursor:pointer!important;-webkit-border-radius:20px;background-color:rgba(200,200,200,0.3)!important;padding:3px 5px 0!important;margin:0!important;\" src=\"http:\/\/www.google.com\/uds\/css\/small-logo.png\" alt=\"\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Junior dos Santos A vida humana \u00e9 marcada por in\u00fameros paradigmas (felicidade versus tristeza, soberba versus desapego, dor versus prazer, amor versus \u00f3dio), entretanto um dos mais conturbados e questionados \u00e9 o seguinte: De onde vimos e para onde nos dirigimos? 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