{"id":2177,"date":"2012-04-14T18:33:42","date_gmt":"2012-04-14T21:33:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2177"},"modified":"2012-04-14T18:33:42","modified_gmt":"2012-04-14T21:33:42","slug":"paixao-acao-do-corpo-sobre-a-alma-uma-abordagem-cartesiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2177","title":{"rendered":"Paix\u00e3o, a\u00e7\u00e3o do corpo sobre a alma: uma abordagem cartesiana"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Harley Carlos de Carvalho Lima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em sua obra <em>Paix\u00f5es da alma,<\/em> Ren\u00e9 Descartes trata de um dualismo paradoxal, a saber: alma e corpo. E \u00e9 neste contexto dual\u00edstico que o artigo vem trabalhar: paix\u00e3o, uma a\u00e7\u00e3o do corpo sobre a alma. Mas para isso, ser\u00e1 necess\u00e1rio fazer uma distin\u00e7\u00e3o entre as fun\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es da alma, e as respectivas fun\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es do corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para bem entendermos o contexto do dualismo cartesiano, devemos levar em conta que no pensamento de Descartes o \u00fanico sujeito que interfere, ou que age contr\u00e1rio \u00e0 alma, \u00e9 o corpo. Por isso a forma mais clara de termos o conhecimento das paix\u00f5es \u00e9 fazer a separa\u00e7\u00e3o destes dois elementos e examin\u00e1-los para saber tamb\u00e9m a qual dos dois devemos atribuir as fun\u00e7\u00f5es existentes em n\u00f3s. Visto que Descartes \u00e9 considerado um pensador dualista, a distin\u00e7\u00e3o corpo e alma \u00e9 real em seu pensamento, pois as duas subst\u00e2ncias podem existir sem depender uma da outra, contudo no homem elas est\u00e3o necessariamente interligadas. Outra coisa que se deve acentuar \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de paix\u00e3o, segundo Descartes<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Parece-me que podemos em geral defini-las por percep\u00e7\u00f5es, ou sentimentos, ou emo\u00e7\u00f5es da alma, que referimos particularmente a ela, e que s\u00e3o causadas, mantidas e fortalecidas por algum movimento dos esp\u00edritos. (DESCARTES, 1983, p. 227).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nisso \u00e9 bem evidente que as paix\u00f5es se manifestam nos dois paradoxos \u201ccorpo e alma\u201d. Um est\u00e1 interligado ao outro, e \u00e9 f\u00e1cil perceber no que afirma Marcos e Andrade (2011), que na filosofia dual\u00edstica, as paix\u00f5es s\u00e3o os sentimentos e emo\u00e7\u00f5es experimentados pela alma e que s\u00e3o gerados por um movimento do corpo. Sem ignorar que o que estimula a alma a ambicionar as coisas para as quais ela disp\u00f5e ao corpo, s\u00e3o considerados efeitos das paix\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0<strong>1 Alma e corpo, e suas respectivas fun\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No pensamento cartesiano as fun\u00e7\u00f5es do corpo est\u00e3o na disposi\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os, da mat\u00e9ria. Cada \u00f3rg\u00e3o tem a sua fun\u00e7\u00e3o. O calor e o movimento do corpo procedem do pr\u00f3prio corpo, visto que aqueles movimentos n\u00e3o dependem da alma, nem do movimento da alma, que \u00e9 o pensamento. \u201c&#8230; devemos crer que todo o calor e todos os movimentos em n\u00f3s existentes, na medida em que n\u00e3o dependem do pensamento, pertencem apenas ao corpo\u201d (DESCARTES, 1983, p. 218). Outro ponto importante para observa\u00e7\u00e3o \u00e9 que a <em>res extensa<\/em>, para Descartes, n\u00e3o compreende somente\u00a0 nosso corpo (humano), mas sim\u00a0 toda a realidade exterior, toda mat\u00e9ria.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m sabemos que este mundo, ou a mat\u00e9ria extensa de que o universo \u00e9 composto, n\u00e3o tem limites, porque, por mais longe que lev\u00e1ssemos a nossa imagina\u00e7\u00e3o, mesmo assim poder\u00edamos imaginar outros espa\u00e7os indefinidamente extensos, e n\u00e3o s\u00f3 os imaginamos como os concebemos t\u00e3o reais quanto imaginamos. Por isso, eles cont\u00eam um corpo indefinidamente extenso, pois a ideia de extens\u00e3o que concebemos, seja em que espa\u00e7o for, \u00e9 a verdadeira ideia que devemos ter de corpo. (DESCARTES 2005, p. 68).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Descartes (1983), enquanto estamos com vida, ou o nosso corpo est\u00e1 em constante movimento, existe presente em n\u00f3s uma ininterrupta vivacidade que est\u00e1 em nosso cora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de fogo a\u00ed alimentado pelo sangue das veias, e que esse fogo \u00e9 o princ\u00edpio de nossas partes corporais.\u00a0 Outro termo que Descartes usa para a compreens\u00e3o do movimento dos membros do corpo \u00e9 o de \u201cesp\u00edritos animais\u201d, os quais o fil\u00f3sofo afirma serem elementos f\u00edsicos. \u201cNa Fisiologia de Descartes, desempenham o papel hoje atribu\u00eddo aos impulsos neuro- el\u00e9tricos.\u201d (COTTINGHAM, 1995, p. 60). S\u00e3o estes \u201cesp\u00edritos\u201d, ou corpos extremamente pequenos que transmitem as informa\u00e7\u00f5es ao sistema nervoso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 a alma no cartesianismo \u00e9 considerada como uma coisa pensante (<em>res cogitans<\/em>). Por isso, podemos considerar que para a alma n\u00e3o se pode atribuir nada a mais que n\u00e3o seja o pensamento, que por sua vez pode ser dividido em duas partes, a saber: as nossas vontades e as percep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As vontades, ou voli\u00e7\u00f5es, dentro da filosofia cartesiana podem ser caracterizadas por aquelas a\u00e7\u00f5es da alma que t\u00eam por fim, que culminam, que agem e que terminam a sua a\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria alma. Uma demonstra\u00e7\u00e3o dessa a\u00e7\u00e3o \u00e9 o sentimento de amor\/afeto ou outro sentimento que n\u00e3o aplicamos a algo material. Diferentemente por outro lado, est\u00e3o as a\u00e7\u00f5es que t\u00eam por fim o corpo, exemplo disto \u00e9 quando o nosso pensamento ou nossa vontade deseja fazer um exerc\u00edcio f\u00edsico, da\u00ed aplicamos nossa vontade ao corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As percep\u00e7\u00f5es ou conhecimento existente, s\u00e3o tamb\u00e9m divididas em duas esp\u00e9cies, em uma margem est\u00e1 a alma e na outra o corpo. Do lado da percep\u00e7\u00e3o que tem como ponto culminante a alma, Descartes coloca como referencial as percep\u00e7\u00f5es de nossas vontades ou imagina\u00e7\u00e3o. \u201c&#8230; tais s\u00e3o os sentimentos de alegria, de c\u00f3lera e outros semelhantes\u201d (DESCARTES, 1983, p.226).\u00a0 E por outro lado a que tem o corpo como a\u00e7\u00e3o, s\u00e3o as que relacionamos aos apetites naturais (fome, sede&#8230;).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Descartes, a alma est\u00e1 ligada ao corpo, ela est\u00e1 no todo do corpo. Ao mesmo tempo podemos observar que no pensamento cartesiano h\u00e1 uma independ\u00eancia, uma dicotomia entre as duas subst\u00e2ncias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A jun\u00e7\u00e3o corpo e alma, segundo o filosofo, se d\u00e1 por uma parte do c\u00e9rebro chamada gl\u00e2ndula pineal ou <em>conarium<\/em>. Esta gl\u00e2ndula \u00e9 para Descartes a principal sede da alma. E por ser esta gl\u00e2ndula o \u00fanico lugar no c\u00e9rebro n\u00e3o constitu\u00eddo de duas partes \u00e9 que Descartes coloca a mesma como sede da alma. \u201c&#8230; embora a alma esteja unida a todo o corpo, n\u00e3o obstante h\u00e1 nele alguma parte em que ela exerce suas fun\u00e7\u00f5es mais particularmente do que em todas as outras.\u201d (DESCARTES, 1983, p 228).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, podemos concluir que para Descartes a a\u00e7\u00e3o passional depende da jun\u00e7\u00e3o e intera\u00e7\u00e3o do paradoxo \u201ccorpo e alma\u201d, e \u00e9 certo afirmar que na concep\u00e7\u00e3o cartesiana h\u00e1 uma separa\u00e7\u00e3o das subst\u00e2ncias \u201cpensamento e mat\u00e9ria\u201d, mas ao mesmo tempo existe uma jun\u00e7\u00e3o entre as mesmas. Para Descartes, as paix\u00f5es s\u00e3o percep\u00e7\u00f5es, voli\u00e7\u00f5es causadas pelo corpo e sentidas na alma, e que para termos o conhecimento da mesma, cumpre-nos fazer a distin\u00e7\u00e3o entre as fun\u00e7\u00f5es existentes, entre as subst\u00e2ncias alma e corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">COTTINGHAN, John. <em>As Paix\u00f5es da Alma<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de J. Guinsburg e Bento Prado J\u00fanior. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1983. 154 p. (Os Pensadores).<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">______. <em>Dicion\u00e1rio Descartes<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Helena Martins. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. 171 p.<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">DESCARTES, Ren\u00e9. <em>Princ\u00edpios da filosofia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Rideel, 2005. 106 p. (Biblioteca Cl\u00e1ssica).<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">MARCOS, Rosemar; ANDRADE, Thiago. As paix\u00f5es humanas na perspectiva cartesiana e pascaliana. <em>Pensamento Extempor\u00e2neo<\/em>, Mariana, nov. 2011. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/2011\/11\/12\/as-paixoes-humanas-na-perspectiva-cartesiana-e-pasacaliana\/\">http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/2011\/11\/12\/as-paixoes-humanas-na-perspectiva-cartesiana-e-pasacaliana\/<\/a>. Acesso em: 29 fev. 2012.<\/p>\n<div id=\"-chrome-auto-translate-plugin-dialog\" style=\"opacity:1!important;background-image:initial!important;background-attachment:initial!important;background-origin:initial!important;background-clip:initial!important;background-color:transparent!important;position:absolute!important;top:0;left:0;overflow-x:visible!important;overflow-y:visible!important;z-index:999999!important;text-align:left!important;display:none;background-position:initial initial!important;background-repeat:initial initial!important;padding:0!important;margin:0!important;\">\n<div style=\"max-width:300px!important;color:#121212!important;opacity:1!important;border:1px solid #363636!important;-webkit-border-radius:10px!important;background-color:#ffffff!important;font-size:16px!important;padding:8px!important;overflow:visible!important;background-image:-webkit-gradient(linear,left top,right bottom,color-stop(0%,#FFF),color-stop(50%,#EEE),color-stop(100%,#FFF));z-index:999999!important;text-align:left!important;\"><\/div>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"position:absolute!important;z-index:-1!important;right:1px!important;top:-20px!important;cursor:pointer!important;-webkit-border-radius:20px;background-color:rgba(200,200,200,0.3)!important;padding:3px 5px 0!important;margin:0!important;\" src=\"http:\/\/www.google.com\/uds\/css\/small-logo.png\" alt=\"\" \/><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Harley Carlos de Carvalho Lima \u00a0 Introdu\u00e7\u00e3o Em sua obra Paix\u00f5es da alma, Ren\u00e9 Descartes trata de um dualismo paradoxal, a saber: alma e corpo. 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