{"id":2220,"date":"2012-06-12T21:36:14","date_gmt":"2012-06-13T00:36:14","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2220"},"modified":"2012-06-12T21:36:14","modified_gmt":"2012-06-13T00:36:14","slug":"hume-e-o-milagre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2220","title":{"rendered":"Hume e o milagre"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Alex Cristiano dos Santos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pelo presente artigo abordar-se-\u00e1 a concep\u00e7\u00e3o humeana a respeito da possibilidade de ocorr\u00eancia de milagres, baseando-se fundamentalmente na se\u00e7\u00e3o X \u201cDos milagres\u201d de sua obra \u201cInvestiga\u00e7\u00e3o acerca do entendimento humano\u201d e em alguns comentadores. Para Hume o milagre \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o das leis da natureza, utilizado pelas religi\u00f5es para sua autoafirma\u00e7\u00e3o e fundamentado primordialmente em testemunhos. Um dos problemas de sua fundamenta\u00e7\u00e3o encontra-se na passagem entre percep\u00e7\u00e3o sensorial e testemunho. Quanto maior a dist\u00e2ncia entre percep\u00e7\u00e3o sensorial e testemunho maior \u00e9 a perda de importantes detalhes que poderiam elucidar os acontecimentos. Tais perdas se d\u00e3o pelo processo rememorativo na medida em que o testemunho se distancia da experi\u00eancia. As leis da natureza s\u00e3o fundamentadas em experi\u00eancias firmes sendo, portanto, inviol\u00e1veis. Se houvesse possibilidade de viola\u00e7\u00e3o de tais leis, elas n\u00e3o seriam realmente leis da natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">David Hume designa por milagre os eventos miraculosos que violam as leis da natureza e por extraordin\u00e1rios os eventos que n\u00e3o ocorrem com frequ\u00eancia, mas n\u00e3o violam tais leis.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo Hume, as leis da natureza fundamentam-se em experi\u00eancias firmes e s\u00e3o, portanto, inviol\u00e1veis. Tais leis s\u00e3o constitu\u00eddas atrav\u00e9s de dados captados pela experi\u00eancia e transformados em conhecimento emp\u00edrico. Todo acontecimento observ\u00e1vel contraposto \u00e0s leis da natureza resultam num \u00edndice de probabilidade de ocorr\u00eancia de tais acontecimentos (HUME, 2001, p. 46). Segundo Hume existe a possibilidade da ocorr\u00eancia de acontecimentos pouco frequentes, mas que n\u00e3o quebram as leis da natureza. Tais leis s\u00e3o de imposs\u00edvel viola\u00e7\u00e3o, pois se fossem viol\u00e1veis n\u00e3o seriam, portanto, leis da natureza. Com isso, para Hume, torna-se imposs\u00edvel a ocorr\u00eancia de milagres, ou seja, a ocorr\u00eancia de qualquer tipo de evento miraculoso que viole tais leis.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Milagre, experi\u00eancia e probabilidades<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Utilizando a terminologia de Hume, milagre \u00e9 um evento miraculoso, evento que viola as leis da natureza, as experi\u00eancias naturais baseadas nessas leis, diferentemente de eventos raros e que n\u00e3o ocorrem com frequ\u00eancia, mas que n\u00e3o violam tais leis, eventos esses, segundo Hume, chamados extraordin\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo Hume (2001, p. 48), na observa\u00e7\u00e3o dos acontecimentos, \u201cdevemos dar prefer\u00eancia aos [argumentos] que se fundam sobre maior n\u00famero de experi\u00eancias passadas. Porquanto, procedendo segundo esta regra, rejeitamos rapidamente um fato raro e inacredit\u00e1vel em escala ordin\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na se\u00e7\u00e3o X das \u201cInvestiga\u00e7\u00f5es sobre o entendimento humano\u201d, Hume argumenta que todo conhecimento fundamentado empiricamente possui maior valor que qualquer testemunho que venha a sustentar qualquer suposto milagre (FIESER, 2001, p. 5).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Fundamenta\u00e7\u00e3o do milagre<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Hume, o milagre \u00e9 um meio utilizado para difus\u00e3o do sagrado, difundido principalmente entre b\u00e1rbaros e ignorantes como mecanismo de estabelecimento das religi\u00f5es. O poss\u00edvel esclarecimento pelos doutos acaba tornando-se imposs\u00edvel devido \u00e0 desaten\u00e7\u00e3o inicial com rela\u00e7\u00e3o aos acontecimentos. Quando se interessam por revelar a farsa, a documenta\u00e7\u00e3o e as testemunhas necess\u00e1rias para tal j\u00e1 acabaram por se perder no tempo, o que impossibilita sua elucida\u00e7\u00e3o. (HUME, 2001)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um dos problemas encontrados na fundamenta\u00e7\u00e3o dos milagres \u00e9 a diferen\u00e7a entre a percep\u00e7\u00e3o sensorial e o testemunho. O distanciamento temporal entre percep\u00e7\u00e3o sensorial e testemunho resulta na perda de importantes detalhes que poderiam esclarecer os acontecimentos devido \u00e0s perdas do processo memorativo \u00e0 medida que tal se distancia da experi\u00eancia. (HUME, 2001, p. 45)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, segundo Hume, n\u00e3o h\u00e1 testemunho suficiente para comprovar qualquer milagre, porque a distancia temporal e a passagem entre experi\u00eancia e relato ocultam dados que poderiam esclarecer o suposto \u201cmilagre\u201d como evento natural de rara frequ\u00eancia ou acontecimento fraudulento.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>O milagre e as leis naturais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na concep\u00e7\u00e3o humeana, o milagre \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o das leis da natureza e, se tais leis da natureza pudessem ser violadas, isto apenas mostraria que n\u00e3o eram realmente leis. Para que as leis da natureza realmente o sejam \u00e9 necess\u00e1rio que se baseiem em \u201cexperi\u00eancia firme e inalter\u00e1vel\u201d (CHAVES, 1978, p. 3) sendo assim inviol\u00e1veis. Portanto, \u00e9 imposs\u00edvel que haja milagres.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Hume (2001, p. 47) acrescenta: \u201cUm milagre \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o das leis da natureza; e como uma experi\u00eancia constante e inalter\u00e1vel estabeleceu estas leis, a prova contra o milagre, devido \u00e0 pr\u00f3pria natureza do fato, \u00e9 t\u00e3o completa como qualquer argumento da natureza que se possa imaginar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>David Hume e os milagres<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo o pensamento exposto na se\u00e7\u00e3o X \u201cDos milagres\u201d na obra \u201cInvestiga\u00e7\u00e3o acerca do entendimento humano\u201d, Hume declara imposs\u00edvel a cren\u00e7a em milagres que, segundo a sua concep\u00e7\u00e3o, seriam viola\u00e7\u00f5es das leis da natureza. A se\u00e7\u00e3o X \u201cDos milagres\u201d se divide em duas partes: na primeira parte, Hume diz que \u201ca experi\u00eancia uniforme das leis da natureza tem mais valor que o testemunho de qualquer suposto milagre\u201d. (FIESER, 2001, p. 5) Na segunda parte, Hume faz quatro contesta\u00e7\u00f5es contra os testemunhos de milagres: (1) Integridade das testemunhas; (2) propens\u00e3o ao sensacionalismo; (3) capacidade intelectiva dos povos; (4) suporte religioso. (FIESER, 2001, p. 5)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Hume apoia-se nas leis da natureza para evidenciar seu argumento de que qualquer evento de ordem miraculosa \u2013 milagre \u2013 que rompa com tais leis, aproxima-se mais da velhacaria e desonestidade que da veracidade dos fatos, concluindo seu pensamento com a impossibilidade da ocorr\u00eancia de milagres.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, David Hume concebe a possibilidade de ocorr\u00eancia de eventos extraordin\u00e1rios, ou seja, eventos de rara frequ\u00eancia, mas que n\u00e3o violam as leis da natureza, mas n\u00e3o a possibilidade do acontecimento de eventos miraculosos \u2013 milagres. Para Hume \u00e9 imposs\u00edvel \u00e0 ocorr\u00eancia de qualquer evento miraculoso \u2013 milagre, pois tais eventos violariam as leis da natureza e tais leis s\u00e3o inviol\u00e1veis, pois se n\u00e3o o fossem n\u00e3o seriam realmente leis da natureza.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>CHAVES, Eduardo O. C. Milagres, a hist\u00f3ria e a ci\u00eancia: uma an\u00e1lise do argumento de Hume. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.cfh.ufsc.br\/~wfil\/milagre.htm. Acesso em: 13 fev. 2012.<\/p>\n<p>FIESER, James. Escritos sobre religi\u00e3o. <em>The Internet Encyclopedia of Philosophy. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Jaimir Conte. 2001. T\u00edtulo original: Writings on Religion. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.cfh.ufsc.br\/~conte\/txt-fieser2.pdf. Acesso em: 13 fev. 2012.<\/p>\n<p>HUME, David. Dos milagres. In: ______. <em>Investiga\u00e7\u00e3o acerca do entendimento humano.<\/em> p. 45 \u2013 54. Tradu\u00e7\u00e3o: Anoar Aiex. Dispon\u00edvel em: br.egroups.com\/group\/acropolis\/. Acesso em 13 fev. 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alex Cristiano dos Santos Introdu\u00e7\u00e3o Pelo presente artigo abordar-se-\u00e1 a concep\u00e7\u00e3o humeana a respeito da possibilidade de ocorr\u00eancia de milagres, baseando-se fundamentalmente na se\u00e7\u00e3o X \u201cDos milagres\u201d de sua obra \u201cInvestiga\u00e7\u00e3o acerca do entendimento humano\u201d e em alguns comentadores. 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