{"id":2227,"date":"2012-06-12T21:46:50","date_gmt":"2012-06-13T00:46:50","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2227"},"modified":"2012-06-12T21:46:50","modified_gmt":"2012-06-13T00:46:50","slug":"reino-hobbes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2227","title":{"rendered":"O reino de Deus e o Estado hobbesiano"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Fabiano Milione Hon\u00f3rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Neste artigo pretende-se uma abordagem acerca do Estado no pensamento de Hobbes e, fazendo uma rela\u00e7\u00e3o com o Reino de Deus, prop\u00f5e-se chegar a uma defini\u00e7\u00e3o de como viver no Estado de forma est\u00e1vel. O Estado para esse fil\u00f3sofo \u00e9 formado basicamente por um governante, que ele chama de soberano, e seus s\u00faditos. \u00c9 papel do soberano representar seus s\u00faditos e seus interesses, e \u00e9 papel dos s\u00faditos obedecer ao soberano. Esta rela\u00e7\u00e3o entre soberano e s\u00fadito se d\u00e1 por contratos, assim como toda a forma\u00e7\u00e3o do Estado e da sociedade. O homem diminui seu estado de natureza que \u00e9 ele pr\u00f3prio sem normas sociais externas e, com rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua de consenso com os outros, coloca uma pessoa no poder. \u201cA ess\u00eancia do Estado (&#8230;) \u00e9 uma pessoa, de cujos atos (&#8230;) de uma grande multid\u00e3o, com pactos m\u00fatuos, se tornou autor, a fim de que possa usar a for\u00e7a e os meios de todos eles (&#8230;) por sua paz e para defesa comum.\u201d (REALE; ANTISERI, 2005, p 90).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Hobbes aceita e defende Deus e a religi\u00e3o no Estado, dizendo que o Estado ideal deve ser crist\u00e3o, sendo completo. N\u00e3o que ele seja uma pessoa fide\u00edsta, mas utiliza Deus e a religi\u00e3o como argumento de autoridade para colocar em pr\u00e1tica as leis da cidade baseando-se nas leis divinas como um instrumento de difus\u00e3o de suas ideias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aceitando Deus ele atribui algumas caracter\u00edsticas ao Ser divino como sua exist\u00eancia, ser causa do mundo e ser tamb\u00e9m infinito n\u00e3o podendo atribuir a ele caracter\u00edsticas que o diminuam como sentimentos humanos, localiza\u00e7\u00e3o. Para se falar de Deus, deve-se usar adjetivos negativos como infinito, superlativos como o maior, ou indefinidos como bom, justo (MITSUSHIMA, 2012, p. 6).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ele aceita a religi\u00e3o no Estado, mas critica alguns aspectos do catolicismo. Ele vai contra algumas interpreta\u00e7\u00f5es b\u00edblicas, contra a canoniza\u00e7\u00e3o de santos, prociss\u00f5es e festas em homenagem a eles. Tamb\u00e9m n\u00e3o aceita s\u00edmbolos como \u00e1gua benta, sal e imagens, pois nada disto consta na B\u00edblia. Muito disto se deve de sua forma\u00e7\u00e3o anglicana. Para ele o que cabe ao poder da Igreja \u00e9 apenas ensinar e converter os ainda n\u00e3o crentes ao cristianismo, assim como os antigos ap\u00f3stolos de Cristo faziam. Seu papel \u00e9 de levar aos povos a Palavra de Deus de forma livre e n\u00e3o imposta. N\u00e3o cabe \u00e0 ela governar e se intrometer em outros aspectos no Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o existe para Hobbes uma autoexclus\u00e3o entre a cidade com suas leis e a religi\u00e3o tamb\u00e9m com suas leis, porque ambos os poderes devem estar nas m\u00e3os do soberano. O povo deve obedecer a seu governante em todas as suas ordens; sendo ele fiel crist\u00e3o, jamais ordenar\u00e1 algo ao povo que fosse contra as Sagradas Escrituras e a Igreja. No caso de se ter um soberano infiel, \u00e9 melhor obedecer \u00e0 lei de Deus e enfrentar o que vier como consequ\u00eancia, se a f\u00e9 for forte o suficiente, como por exemplo para suportar um mart\u00edrio. Na cidade crist\u00e3, no que se refere ao poder temporal quanto espiritual estar nas m\u00e3os do soberano, \u00e9 porque em ambas h\u00e1 a presen\u00e7a do divino no civil e devem ser regidas por algu\u00e9m que saiba tratar ambas.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Numa cidade crist\u00e3, os mandamentos de Deus a respeito dos neg\u00f3cios temporais (&#8230;) s\u00e3o as leis e a senten\u00e7a da cidade, exaradas por aqueles que ela autorizou a fazer leis e a julgar das controv\u00e9rsias. J\u00e1 no que diz respeito aos neg\u00f3cios espirituais (&#8230;), os mandamentos de Deus est\u00e3o nas leis e senten\u00e7as da cidade, isto \u00e9, da Igreja (&#8230;), editadas por pastores que tenham sido ordenados conforme a lei [e] autorizados pela cidade. Segue-se ent\u00e3o com toda evid\u00eancia, que numa rep\u00fablica crist\u00e3 se deve obedi\u00eancia ao soberano em todas as coisas, espirituais e temporais. (HOBBES, 2002, p. 344).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A proposta de ser estudar a concep\u00e7\u00e3o do Reino de Deus, o que \u00e9 necess\u00e1rio para nele entrar e sua rela\u00e7\u00e3o com o estado, se deve principalmente a uma passagem no in\u00edcio do cap\u00edtulo XLIII da obra <em>O Leviat\u00e3, <\/em>em que diz o seguinte: Mas esta dificuldade de obedecer ao mesmo tempo a Deus e ao soberano civil sobre a terra n\u00e3o tem gravidade para aqueles que sabem distinguir entre o que \u00e9 necess\u00e1rio e o que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio para sua entrada no Reino de Deus.(HOBBES, 1983, p. 341) Assim, sabendo de que precisa o homem para entrar no Reino de Deus se chega ao necess\u00e1rio para o bem viver no Estado. Como dito acima, as duas leis, a humana e a divina, devem estar sob a posse do soberano. Mas em que realmente consistem ambas as leis?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim sendo come\u00e7a-se a abordagem pela lei civil, ou humana, que \u00e9 manifesta no Estado. Para Hobbes, as leis civis s\u00e3o aquelas que todos os cidad\u00e3os devem respeitar e obedecer dentro de um Estado. Cabe a cada um dos homens habitantes do Estado o conhecimento dessas leis para n\u00e3o correr o risco de ir de embate a elas. O legislador, ou seja, quem faz ou revoga as leis, deve ser o soberano e ele n\u00e3o deve estar sujeito \u00e0 essas leis. Outro ponto a ser observado \u00e9 a rigidez com que elas devem ser tratadas, n\u00e3o \u00e9 um conselho, mas uma ordem (HOBBES, 1983, p. 161). No in\u00edcio do cap\u00edtulo XXVI, o fil\u00f3sofo d\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o bem clara do que deva ser a lei civil:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Considerado isto, defino a lei civil da seguinte maneira: A lei civil \u00e9, para todo s\u00fadito, constitu\u00edda por aquelas regras que o Estado lhe imp\u00f5e, oralmente ou por escrito, ou por outro sinal suficiente de sua vontade, para usar como crit\u00e9rio de distin\u00e7\u00e3o entre o bem e o mal; isto \u00e9, do que \u00e9 contr\u00e1rio ou n\u00e3o \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 regra. (HOBBES, 1983, p. 161).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao contr\u00e1rio da lei civil, que \u00e9 formulada por homens, a lei divina \u00e9 formulada pelo pr\u00f3prio Deus. Ela foi manifestada aos homens no decorrer da hist\u00f3ria do povo de Israel tendo seu cume em Jesus. O povo liberto da escravid\u00e3o do Egito n\u00e3o estava vivendo de acordo com a vontade de Deus, assim ele chamou um homem, Mois\u00e9s, e a ele incumbiu a miss\u00e3o de transmiti-la ao povo os conhecidos Dez Mandamentos. No decorrer da hist\u00f3ria, Deus tamb\u00e9m enviou alguns preceitos atrav\u00e9s de seus profetas, mas foi com Jesus que a lei divina se manifestou em sua plenitude com a lei do amor. Como ele diz: \u201cA parte das Escrituras que se tornou lei em primeiro lugar foram os dez mandamentos, escritos nas duas t\u00e1buas de pedra e entregues pelo pr\u00f3prio Deus a Mois\u00e9s, e dadas a conhecer por Mois\u00e9s ao povo.\u201d (HOBBES, 1983, p. 305).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O conceito de lei de Deus tamb\u00e9m \u00e9 uma forma do governante se manter no poder e governar com mais autoridade. Ela manda que todo o homem obede\u00e7a \u00e0s leis civis e tamb\u00e9m obede\u00e7a ao soberano governante. Com isso n\u00e3o h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o e uma oposi\u00e7\u00e3o entre as duas leis.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">E esta lei de Deus que ordena a obedi\u00eancia \u00e0 lei civil ordena por consequ\u00eancia a obedi\u00eancia a todos os preceitos da B\u00edblia, a qual (&#8230;) \u00e9 a \u00fanica lei naqueles lugares onde o soberano civil assim o estabeleceu, e nos outros lugares \u00e9 apenas conselho, que cada um, por sua conta e risco, pode sem injusti\u00e7a recusar obedecer.&#8221; (HOBBES, 1983, p. 342).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Hobbes, a salva\u00e7\u00e3o estava contida em duas atitudes, que s\u00e3o a f\u00e9 em Cristo e a obedi\u00eancia \u00e0s leis. Esta \u00faltima est\u00e1 ligada ao fato de que o Reino de Deus est\u00e1 aberto \u00e0queles que mesmo tendo transgredido alguma vez a lei divina, mas arrependido, cr\u00ea na salva\u00e7\u00e3o. A obedi\u00eancia \u00e0s leis \u00e9 um esfor\u00e7o s\u00e9rio para cumprir a sua vontade e acaba por ter v\u00e1rios nomes como a caridade no amor aos outros, obedecendo a Cristo na sua doa\u00e7\u00e3o, a retid\u00e3o que \u00e9 dar aos outros o devido e at\u00e9 mesmo o arrependimento que \u00e9 o afastamento do pecado; ambos s\u00e3o a vontade de obedecer \u00e0 Deus.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, todo aquele que desejar sinceramente cumprir as ordens de Deus, ou que se arrepender verdadeiramente de suas transgress\u00f5es, ou que amar a Deus com todo o seu cora\u00e7\u00e3o, e ao pr\u00f3ximo como a si mesmo, tem toda a obedi\u00eancia necess\u00e1ria \u00e0 sua entrada no reino de Deus, pois se Deus exigisse uma inoc\u00eancia perfeita n\u00e3o haveria carne que se salvasse. (HOBBES, 1983, p. 342).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O outro ponto necess\u00e1rio \u00e0 salva\u00e7\u00e3o \u00e9 a f\u00e9, e esse pensador diz que para se crer deve-se primeiro que conhecer em quem crer e conhecer o que ele diz. Deus transmitiu sua mensagem de forma direta ao seu povo no Antigo Testamento, depois no Novo ele enviou Jesus que veio aos homens como um deles e passou o encargo de anunci\u00e1-lo aos ap\u00f3stolos e depois a pastores. Assim, o pastor supremo deve ser o soberano para que possa transmitir a f\u00e9 em seu Estado como diz: \u201cE portanto, vendo que o exame das doutrinas pertence ao pastor supremo, a pessoa em quem todos aqueles que n\u00e3o t\u00eam nenhuma revela\u00e7\u00e3o especial devem acreditar \u00e9 (em todos os Estados) o pastor supremo, isto \u00e9, o soberano civil.\u201d (HOBBES, 1983, p. 343) A f\u00e9 \u00e9 um dom divino e a causa de nossa f\u00e9 \u00e9 o encontro e cren\u00e7a com a Palavra de Deus. Essa ensina que para a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio apenas crer que Jesus \u00e9 o Cristo. Com isso se cr\u00ea naquele prometido por Deus para remir o pecado da humanidade introduzido por Ad\u00e3o, abrindo novamente as portas do Reino Eterno.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em suma, aquele que defender esta funda\u00e7\u00e3o, Jesus \u00e9 o Cristo, defende expressamente tudo aquilo que v\u00ea corretamente deduzido dela, e implicitamente tudo aquilo que \u00e9 conseq\u00fcente com isso, embora n\u00e3o tenhamos habilidade suficiente para discernir a conseq\u00fc\u00eancia. E, portanto continua a ser verdade que a cren\u00e7a neste \u00fanico artigo constitui f\u00e9 suficiente para obter a remiss\u00e3o dos pecados aos penitentes, e consequentemente para traz\u00ea-los para o reino do c\u00e9u. (HOBBES, 1983, p. 348).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tendo-se mostrado o que \u00e9 necess\u00e1rio para entrar no Reino de Deus \u00e9 f\u00e1cil conciliar a obedi\u00eancia ao soberano e \u00e0 lei divina porque, com as palavras do pr\u00f3prio Hobbes,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Se for crist\u00e3o, permite a cren\u00e7a neste artigo que Jesus \u00e9 o Cristo, e em todos os artigos que est\u00e3o nele contidos, ou que s\u00e3o por evidente conseq\u00fc\u00eancia dele deduzidos, o que \u00e9 toda a f\u00e9 necess\u00e1ria \u00e0 salva\u00e7\u00e3o. E porque \u00e9 um soberano, exige obedi\u00eancia a todas suas leis, isto \u00e9, a todas as leis civis, nas quais est\u00e3o tamb\u00e9m contidas todas as leis de natureza, isto \u00e9, todas as leis de Deus, pois al\u00e9m das leis de natureza e das leis da Igreja, que fazem parte da lei civil n\u00e3o h\u00e1 nenhumas outras leis divinas. Quem obedecer portanto a seu soberano crist\u00e3o n\u00e3o fica por isso impedido nem de acreditar nem de obedecer a Deus. (HOBBES, 1983, p. 349).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com esta exposi\u00e7\u00e3o, pode-se concluir que para Hobbes um bom caminho para o andamento do Estado seja o de procurar conhecer o Reino de Deus e pratic\u00e1-lo. Tendo f\u00e9 em Jesus Cristo e obedecendo \u00e0s leis, se chega a um acordo em obedecer tamb\u00e9m as leis civis e o soberano. Hobbes n\u00e3o demonstra ser um fil\u00f3sofo ateu; mesmo que Deus e a religi\u00e3o sejam para ele instrumentos de dom\u00ednio no estado, ele demonstra claramente um conhecimento e uma aceita\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es relacionadas ao divino.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>HOBBES, Thomas. <em>Leviat\u00e3 ou mat\u00e9ria, forma e poder de um Estado eclesi\u00e1stico e civil<\/em>. Trad. Jo\u00e3o Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores)<\/p>\n<p>______. <em>Do cidad\u00e3o<\/em>. Trad. Renato Janine Ribeiro. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2002<\/p>\n<p>MITSUSHIMA, Luci. <em>Hobbes e a religi\u00e3o<\/em>. 2012. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/gruposdeestudounifai.files.wordpress.com\/2012\/02\/hobbes-e-a-religic3a3o1.pdf&gt; Acesso em: 10 maio 2012.<\/p>\n<p>REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>: de Spinoza a Kant. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005. v. 4.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabiano Milione Hon\u00f3rio Neste artigo pretende-se uma abordagem acerca do Estado no pensamento de Hobbes e, fazendo uma rela\u00e7\u00e3o com o Reino de Deus, prop\u00f5e-se chegar a uma defini\u00e7\u00e3o de como viver no Estado de forma est\u00e1vel. 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