{"id":2229,"date":"2012-06-12T21:50:26","date_gmt":"2012-06-13T00:50:26","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2229"},"modified":"2012-06-12T21:50:26","modified_gmt":"2012-06-13T00:50:26","slug":"retorica-platao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2229","title":{"rendered":"A concep\u00e7\u00e3o de ret\u00f3rica a partir do \u201cG\u00f3rgias\u201d de Plat\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Luiz Carlos Santana <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">A ret\u00f3rica \u00e9 uma arte, a arte de bem falar, de mostrar eloqu\u00eancia diante de um p\u00fablico para ganhar a sua causa. O objetivo geral deste artigo \u00e9 averiguar o conceito de ret\u00f3rica no \u201cG\u00f3rgias\u201d de Plat\u00e3o e tamb\u00e9m relacionar o conceito de ret\u00f3rica com a vis\u00e3o que Plat\u00e3o tinha dos sofistas, al\u00e9m de apresentar a Filosofia como forma de obter a verdade. Essa averigua\u00e7\u00e3o ser\u00e1 feita pelo processo hermen\u00eautico, a partir da bibliografia e das obras de Plat\u00e3o. Essa abordagem se justifica porque ao conhecer a vis\u00e3o plat\u00f4nica de ret\u00f3rica compreendemos uma parte da teoria do conhecimento elaborada pelo fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para adentrar mais a fundo na quest\u00e3o da ret\u00f3rica, \u00e9 preciso defini-la. Segundo Abbagnano (2007, p. 856):<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A ret\u00f3rica \u00e9 arte de persuadir com o uso de instrumentos lingu\u00edsticos. A ret\u00f3rica foi a grande inven\u00e7\u00e3o dos sofistas, e G\u00f3rgias de Leontinos foi um de seus fundadores (s\u00e9c. V a.C). O di\u00e1logo de Plat\u00e3o intitulado <em>G\u00f3rgias<\/em> insiste no car\u00e1ter fundamental da ret\u00f3rica sofista: sua independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e1 disponibilidade de provas ou de argumentos que produzam conhecimento real ou convic\u00e7\u00e3o racional. O objetivo da ret\u00f3rica \u00e9 &#8220;persuadir por meio de discursos os ju\u00edzes nos tribunais, os conselheiros no conselho, os membros da assembleia na em qualquer outra reuni\u00e3o p\u00fablica&#8221; ( <em>G\u00f3rg.. <\/em>452 e); portanto, o ret\u00f3rico \u00e9 h\u00e1bil &#8220;em falar contra todos e sobre qualquer assunto, de tal modo que. para a maioria das pessoas, consegue ser mais persuasivo que qualquer outro com respeito ao que quiser&#8221; <em>(Ibiel., <\/em>457 a). Assim entendida, a Ret\u00f3rica pareceu a Plat\u00e3o mais pr\u00f3xima da arte culin\u00e1ria que da medicina: mais apta a satisfazer o gosto do que a melhorar a pessoa <em>(Ibid.. <\/em>&lt;i65 e). Plat\u00e3o op\u00f4s a ela a Ret\u00f3rica pedag\u00f3gica ou educativa, que seria &#8220;a arte de guiar a alma por meio de racioc\u00ednios, n\u00e3o somente nos tribunais e nas assembleias populares, mas tamb\u00e9m nas conversa\u00e7\u00f5es particulares&#8221; <em>(Fedro. <\/em>26 1 a); no entanto, a ret\u00f3rica assim entendida identifica-se com a filosofia. Portanto. Plat\u00e3o n\u00e3o atribuiu \u00e0 ret\u00f3rica uma fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Isso, na verdade, foi feito por Arist\u00f3teles, que a considerou em \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com a dial\u00e9tica, como se fosse a <em>contrapartida <\/em>desta <em>(Rei.. <\/em>I. 1, 135-4 a. 1). Segundo Arist\u00f3teles, a ret\u00f3rica \u00e9 &#8220;a faculdade de considerar, em qualquer caso os meios de persuas\u00e3o dispon\u00edveis&#8221; <em>(Ibid.. <\/em>I, 2. 1355 b 26). Enquanto qualquer outra arte s\u00f3 pode instruir ou persuadir em torno de seus pr\u00f3prios objetos, a ret\u00f3rica n\u00e3o se limita a uma esfera especial de compet\u00eancia, mas considera os meios de persuas\u00e3o que se referem a todos os objetos poss\u00edveis <em>(Ibid., <\/em>I, 2, 1355 b 26)[&#8230;]. Para Plat\u00e3o (1990), ret\u00f3rica n\u00e3o \u00e9 arte, mas sim, obreira de persuas\u00e3o que gera cren\u00e7a, n\u00e3o o saber, sobre o justo e o injusto. \u00c9 um tipo de adula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">De acordo com Reale e Antiseri (1990, p.151), Plat\u00e3o afirma que \u201ca ret\u00f3rica n\u00e3o passa de pura adula\u00e7\u00e3o e adultera\u00e7\u00e3o do verdadeiro.\u201d Desse modo, pode-se at\u00e9 mesmo compar\u00e1-la a arte, por seu falseamento: \u201cAssim como a arte pretende imitar todas as coisas sem delas possuir um verdadeiro conhecimento, da mesma forma a ret\u00f3rica busca persuadir e convencer a todos sobre tudo sem dispor de conhecimento algum.\u201d (REALE; ANTISERI, 1990, p.151).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sabemos que a filosofia nasce da separa\u00e7\u00e3o do logos da realidade. Todo ser humano quer ser detentor do poder e o logos \u00e9 o meio pelo qual pode-se obter o poder desejado. Como o logos \u00e9 capaz de definir o ser, s\u00f3 atrav\u00e9s dele, o ser \u00e9 percebido e contemplado na sua grandeza. O homem \u00e9 o \u00fanico ser que possui o dom da fala. Mas apenas falar, n\u00e3o \u00e9 o suficiente; \u00e9 preciso falar bem e, sobretudo, saber investigar e inutilizar as falsas verdade dos discursos impostos pelo sofismo. A cr\u00edtica plat\u00f4nica caracteriza o discurso dos sofistas como discurso de mera apar\u00eancia, ou seja, como discurso que ignora a aplica\u00e7\u00e3o dos logos sobre o ser ao qual a filosofia se dedica. Percebe-se, que o sofista \u00e9 acusado de fabricar imagens de discurso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo Christophe Rogue (2005, p. 28), a ret\u00f3rica, sabendo apenas persuadir, produz um saber que n\u00e3o pode dar raz\u00e3o de si mesmo. Por isso, G\u00f3rgias se recusa a consider\u00e1-la como uma verdadeira <em>techn\u00ea<\/em>, mas a considera antes como uma rotina emp\u00edrica, uma pr\u00e1tica cujo valor epistemol\u00f3gico n\u00e3o ultrapasse a da simples cozinha, que, com ela, busca apenas agradar e adular.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sem d\u00favida, a ret\u00f3rica \u00e9 uma t\u00e9cnica que representa certo perigo para a filosofia, pois aquela se apoia no empirismo e, esta, na raz\u00e3o. Segundo Jeanni\u00e8re, (1994, p. 49-50):<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A linguagem n\u00e3o \u00e9 somente um instrumento \u2018ret\u00f3rico\u2019, cujo manejo t\u00e9cnico, nos discursos p\u00fablicos, garante a vantagem para um orador h\u00e1bil: ela \u00e9 o instrumento gra\u00e7as ao qual o sujeito exprime ju\u00edzos. [&#8230;]Dizer que a linguagem \u00e9 um instrumento significa que a linguagem n\u00e3o \u00e9 simples express\u00e3o exterior, posterior, de um pensamento que se desenrolou inteiramente na interioridade do sujeito; ela tamb\u00e9m n\u00e3o consiste simplesmente em indicar objetos nomeando-os, j\u00e1 que, designado um objeto, podemos acrescentar que ele \u00e9 belo. N\u00e3o basta tamb\u00e9m classificar os objetos em categorias, n\u00e3o basta poder enumerar o que \u00e9 belo; \u00e9 preciso saber ainda o que \u00e9 o Belo. Falar n\u00e3o consiste em por palavras sobre o que j\u00e1 sabemos; podemos definir a beleza? A linguagem \u00e9 o instrumento necess\u00e1rio do pensamento.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A linguagem \u00e9 um instrumento que se produz por si mesmo. Ela est\u00e1 a servi\u00e7o da ideia que ela exprime e n\u00e3o apenas do sujeito que fala. A verdade, \u00e9 que essa t\u00e9cnica conhecida como ret\u00f3rica, \u00e9 por vezes muito usada como forma de manipular os ouvintes aos quais o orador se dirige. \u00c9 uma t\u00e9cnica persuasiva baseada em estrat\u00e9gias usadas por aqueles que possuem o dom da fala. Enquanto a filosofia se utiliza da raz\u00e3o, a ret\u00f3rica usa de meios psicol\u00f3gicos e argumentativos que fazem o interlocutor entrar num jogo de palavras tendo como base a indu\u00e7\u00e3o. O orador n\u00e3o tem um saber espec\u00edfico, ele aproveita do seu saber lingu\u00edstico para envolver o interlocutor de tal maneira, que este por achar que o orador sabe demais, n\u00e3o consegue refutar o que lhe \u00e9 dito, deixando-se levar pelo m\u00e9todo indutivo e articulador usado pelo ret\u00f3rico. Visto que o interlocutor n\u00e3o tem sequer o direito de discutir, os termos apresentados pelo ret\u00f3rico n\u00e3o s\u00e3o para serem discutidos, pois o ret\u00f3rico usa esses termos com o car\u00e1ter de imposi\u00e7\u00e3o. O ret\u00f3rico usa o discurso pelo discurso.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A ret\u00f3rica utiliza a palavra no sentido lexicogr\u00e1fico. O sofista n\u00e3o se preocupa coisa alguma, a n\u00e3o ser em controlar a rela\u00e7\u00e3o da palavra com a coisa. E logo que o discurso ultrapassa esse horizonte estreito, que consiste em por uma palavra sobre uma coisa, ele s\u00f3 pensa na rela\u00e7\u00e3o da palavra com o sentimento, com a impress\u00e3o que a palavra pode despertar no sujeito ou em seus ouvintes. (JEANNI\u00c8RE, 1994, p. 51).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Algumas pessoas fazem uso da linguagem simplesmente para conseguir obter o poder, baseado na mesma linha de pensamento que os sofistas usavam no seu tempo. J\u00e1 a filosofia n\u00e3o v\u00ea a linguagem como obten\u00e7\u00e3o de lucro, mas sim, como meio para se chegar \u00e0 verdade. Quando a linguagem \u00e9 usada como instrumento para servi\u00e7o da verdade, o homem est\u00e1 usando de sua sabedoria para fins filos\u00f3ficos. \u00c9 preciso salientar a diferen\u00e7a entre linguagem e palavra. A linguagem, de uma forma geral, \u00e9 o conjunto dos elementos que possibilitam a comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 algo que vem da alma e pode se manifestar em diversas formas para expressar o comunicar. Palavra \u00e9 simplesmente a manifesta\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica do indiv\u00edduo. A linguagem sofre uma descaracteriza\u00e7\u00e3o quando \u00e9 comparada meramente como palavra. A palavra, por\u00e9m, pode expressar tamb\u00e9m a linguagem do individuo; mas se esta trazer em si a emo\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea da alma e n\u00e3o simplesmente um aspecto verbal.\u00a0 A ret\u00f3rica \u00e9 mais um jogo de palavras do que a linguagem em si, pois o ret\u00f3rico usa a manipula\u00e7\u00e3o, a imposi\u00e7\u00e3o e o empirismo baseados em cren\u00e7as e especula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Baseado nos fatos sobre o uso da ret\u00f3rica e nos m\u00e9todos em que ela \u00e9 aplicada pode-se observar que se trata de uma t\u00e9cnica que se baseia no discurso pelo discurso, num saber impositivo e coercitivo contradizendo o racioc\u00ednio filos\u00f3fico. \u00c9 um jogo onde a disputa pelo poder se evidencia. \u00c9 uma t\u00e9cnica que poderia at\u00e9 ser positiva, se n\u00e3o fosse usada para manipular o interlocutor. \u00c9 preciso investigar os fatos, question\u00e1-los. Parece-nos que a filosofia seria o caminho mais vi\u00e1vel para se chegar \u00e0 verdade, ou pelo menos se aproximar dela. A ret\u00f3rica n\u00e3o d\u00e1 abertura para a investiga\u00e7\u00e3o na sua pr\u00e1tica em si; j\u00e1 a filosofia, por si s\u00f3, se encarrega do m\u00e9todo da indaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>ABBAGNANO, Nicola. <em>Dicion\u00e1rio de Filosofia<\/em>. 5. ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2007.<\/p>\n<p>JEANNI\u00c8RE, Abel. <em>Plat\u00e3o<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Lucy Magalh\u00e3es. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.<\/p>\n<p>PLATAO. G\u00f3rgias. In:______. <em>G\u00f3rgias. O Banquete. Fedro<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Manuel de Oliveira Pulqu\u00e9rio. Lisboa: Verbo, 1973, p. 19-192. (S\u00e9rie Cl\u00e1ssicos Gregos e Latinos).<\/p>\n<p>REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>: Antiguidade e Idade M\u00e9dia. S\u00e3o Paulo, Paulinas,1990, v. 1.<\/p>\n<p>ROGUE, Christophe. <em>Compreender Plat\u00e3o<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Jaime A. Clasen. Petr\u00f3polis: Vozes, 2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Carlos Santana A ret\u00f3rica \u00e9 uma arte, a arte de bem falar, de mostrar eloqu\u00eancia diante de um p\u00fablico para ganhar a sua causa. 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