{"id":2283,"date":"2012-08-09T22:05:07","date_gmt":"2012-08-10T01:05:07","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2283"},"modified":"2012-08-09T22:05:07","modified_gmt":"2012-08-10T01:05:07","slug":"a-genese-da-desigualdade-como-um-mal-no-pensamento-de-rousseau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2283","title":{"rendered":"A g\u00eanese da desigualdade como um mal no pensamento de Rousseau"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Rosemar Marcos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">O problema do mal tem um lugar de destaque no campo filos\u00f3fico. Desde os tempos mais remotos da hist\u00f3ria da Filosofia e at\u00e9 os dias de hoje, o homem se depara com a problem\u00e1tica do mal, faz questionamentos e busca poss\u00edveis sa\u00eddas para tal. Nota-se, contudo, n\u00e3o s\u00f3 o mal, mas v\u00e1rios males que persistem em assolar a humanidade. Ter\u00e1 o mal uma origem? Uma causa? Teria ele uma correspond\u00eancia com a natureza humana? S\u00e3o questionamentos que insistem em permanecer.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Um importante fil\u00f3sofo do per\u00edodo do Iluminismo<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Rousseau,%20Rosemar.docx#_ftn1\"><sup><\/sup><sup>[1]<\/sup><\/a>, Jean Jacques Rousseau se prop\u00f4s a trabalhar quest\u00f5es referentes aos males da humanidade, mais precisamente a desigualdade, em uma de suas obras. Em seu <em>Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens,<\/em> Rousseau aborda a tem\u00e1tica da desigualdade social, bem como sua origem, apresentando-a como um dos males do ser humano. Sobre a import\u00e2ncia desse tema, afirma Rousseau: \u201cconsidero, ainda, o assunto deste discurso como uma das quest\u00f5es mais interessantes que a filosofia possa propor\u201d (ROUSSEAU, 1978, p. 228). O presente artigo visa apresentar o pensamento do autor sobre a origem da desigualdade entre os homens e tamb\u00e9m propor uma reflex\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o com os males na perspectiva de Rousseau. O nosso trabalho ter\u00e1 como fundamento o discurso supracitado do fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O ser humano possui dentro de si muitas inquieta\u00e7\u00f5es acerca das muitas realidades que o cercam. A desigualdade social, como um dos males presentes na sociedade, comp\u00f5e o rol de tais inquieta\u00e7\u00f5es. Muitos buscam saber qual \u00e9 a origem de tais males no desenvolvimento da sociedade e suas afeta\u00e7\u00f5es em cada indiv\u00edduo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sendo assim, abordaremos a origem da desigualdade entre os homens na perspectiva de Rousseau levando em considera\u00e7\u00e3o dois aspectos do pensamento do fil\u00f3sofo. Primeiramente, abordaremos a perspectiva da desigualdade entre os homens, que \u00e9 identificada como um dos males no pensamento do autor e em seguida apresentaremos o seu pensamento sobre a origem da desigualdade social entre os homens.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>1 A desigualdade como um dos males da humanidade no pensamento de Rousseau<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No ano de 1793, per\u00edodo em que a Europa vivia grandes transforma\u00e7\u00f5es impulsionadas pelo Iluminismo, Jean Jacques Rousseau se prop\u00f4s a responder \u00e0 quest\u00e3o que a Academia de Dijon perguntava: qual poderia ser a origem da desigualdade entre os homens e se ela seria permitida pela lei natural. Em seu <em>Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens<\/em>, buscou delinear, de certa forma, os resultados do progresso ocorrido na natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Segundo Rousseau (1978), os males do ser humano s\u00e3o a falsidade, a ambi\u00e7\u00e3o devoradora, o ardor de elevar sua fortuna, a concorr\u00eancia, a rivalidade, a dureza, a inveja secreta, o desejo pelos lucros e a desigualdade. Ele aponta todos esses males como consequ\u00eancia direta da propriedade privada. Contudo, ele trabalha com mais \u00eanfase a tem\u00e1tica da desigualdade e a apresenta como um mal da humanidade pelo fato de ela incomodar os homens.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A vis\u00e3o de Rousseau sobre o homem em seu estado natural \u00e9 muito otimista. Ele apresenta a figura do bom selvagem que simboliza o homem em seu estado primevo e que ainda n\u00e3o tivera contato com o progresso. Tal estado de natureza intr\u00ednseco ao homem bom era uma realidade que muita aprazia a Rousseau, que chega a afirmar que \u201cnada \u00e9 mais meigo do que o homem em seu estado primitivo\u201d (ROUSSEAU, 1978, p. 264). O fil\u00f3sofo critica com os efeitos do movimento das luzes, o Iluminismo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao falar da desigualdade o fil\u00f3sofo faz a distin\u00e7\u00e3o de duas desigualdades: a f\u00edsica ou natural e a desigualdade moral ou pol\u00edtica. A desigualdade natural est\u00e1 relacionada aos aspectos naturais como \u201ca diferen\u00e7a das idades, da sa\u00fade, das for\u00e7as do corpo e das qualidades do esp\u00edrito e da alma\u201d (ROUSSEAU, 1978, p. 235). A desigualdade no sentido moral ou pol\u00edtico depende de uma conven\u00e7\u00e3o feita pelo os homens e consiste nas diferen\u00e7as entre ricos e pobres. Para o nosso autor, os mais poderosos gozam de certo privil\u00e9gio, o que ocasiona a desigualdade social entre os homens.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sendo assim, a desigualdade social e os outros males presentes nos seres humanos poderiam ter sido evitados se eles tivessem optado pela vida em seu estado selvagem no momento em que se viram diante do progresso e da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>2 A origem da desigualdade social entre os homens <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A desigualdade, segundo Rousseau, se estabelece a partir de tr\u00eas princ\u00edpios: \u201co estabelecimento da lei e do direito de propriedade foi seu primeiro termo, a institui\u00e7\u00e3o da magistratura o segundo, e que o terceiro e \u00faltimo foi a mudan\u00e7a do poder leg\u00edtimo em poder arbitr\u00e1rio\u201d (ROUSSEAU, 1978, p. 277). Desses tr\u00eas termos podemos presumir a exist\u00eancia da desigualdade na sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Rousseau, a desigualdade \u00e9 apresentada como um dos males que assolam a sociedade e tem sua base no processo de civiliza\u00e7\u00e3o ao qual o homem selvagem fora submetido.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Efetivamente, n\u00e3o \u00e9 conceb\u00edvel que essas primeiras mudan\u00e7as, por quaisquer meios que se tenham realizado, tenham alterado, ao mesmo tempo, e da mesma maneira, todos os indiv\u00edduos da esp\u00e9cie; mas, tendo uns se aperfei\u00e7oado ou deteriorado e adquirido diversas qualidades, boas ou m\u00e1s, que n\u00e3o eram inerentes \u00e0 sua natureza, permaneceram os outros mais tempo em seu estado original; e tal foi, entre os homens, a primeira fonte da desigualdade, mais f\u00e1cil de demonstrar assim, em geral, do que assinalar com precis\u00e3o as suas verdadeiras causas (ROUSSEAU, 1978, p. 228).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Destarte, no pensamento de Rousseau observamos que esses males ou o mal, que aqui identificamos com a desigualdade, n\u00e3o s\u00e3o intr\u00ednsecos \u00e0 natureza humana, mas que surgiram em um determinado momento. Como afirma Costa,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A busca pela \u201corigem\u201d do mal n\u00e3o se confunde, a rigor, com a busca pelo \u201cfundamento\u201d do mal. Para quem imagina que nem sempre houve o mal- como \u00e9 o caso de Rousseau-, o problema consiste em saber da novidade pela qual o mal veio ao mundo e nesse caso o problema \u00e9 o de saber da sua origem; mas, para quem imagina que o mal sempre existiu, n\u00e3o faz sentido perguntar sobre sua origem, mas apenas pelo seu fundamento como a pressupor uma primeira e sempre havida forma do mal. Ao escolher a primeira op\u00e7\u00e3o, Rousseau assume sua consequ\u00eancia principal: a necess\u00e1ria pressuposi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de uma bondade origin\u00e1ria na forma de uma ordem que antecede a novidade pela qual o mal surge. Assim, Rousseau opta que bondade deve ser procurada num passado do passado, ou seja, num passado a-hist\u00f3rico (COSTA, 2005, p. 21).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No tocante \u00e0 procura pela origem da desigualdade existente entre os homens, a quest\u00e3o principal que permanece no pensamento de Rousseau \u00e9 a bondade natural que h\u00e1 no homem em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o dessa bondade em mal pela civiliza\u00e7\u00e3o atrelada ao progresso e \u00e0 propriedade privada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante do ent\u00e3o avan\u00e7ado progresso da sociedade, bem como o com\u00e9rcio, os conceitos de justi\u00e7a, de moral e de desenvolvimento oferecido pelas luzes da raz\u00e3o, Rousseau afirma que<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">a sociedade nascente foi pra\u00e7a do mais horr\u00edvel estado de guerra: o g\u00eanero humano, aviltado e desolado, n\u00e3o podendo mais voltar atr\u00e1s, nem renunciar \u00e0s infelizes aquisi\u00e7\u00f5es j\u00e1 obtidas, e n\u00e3o trabalhando sen\u00e3o para a sua vergonha pelo abuso das faculdades que o honram, se colocou tamb\u00e9m na v\u00e9spera de sua ru\u00edna.(ROUSSEAU, 1978, p. 268)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A desigualdade entre os homens, proveniente da propriedade privada, do progresso e das riquezas, provoca fastio em alguns e mis\u00e9ria em tantos, causa contentamento em poucos e sofrimento em muitos. Sendo assim, \u201cuns morrem de suas necessidades e outros de seus excessos\u201d (ROUSSEAU, 1978, p. 282).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Essa desigualdade insiste em permanecer nos dias atuais, tanto em seu sentido natural quanto no seu sentido moral. H\u00e1 atualmente uma valoriza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as em seu aspecto natural, como as diferen\u00e7as idade, sexo e etnia, entre outros. Por\u00e9m vemos tamb\u00e9m as diferen\u00e7as no sentido moral e pol\u00edtico, como pessoas vivendo em estado de mis\u00e9ria, sem condi\u00e7\u00f5es de uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade e situa\u00e7\u00e3o de moradia prec\u00e1ria, enquanto outros usufruem de boa condi\u00e7\u00e3o de vida, alimenta\u00e7\u00e3o de qualidade e acesso a uma boa educa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o essas as desigualdades \u00e0s quais o homem sempre foi submetido.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Embora n\u00e3o seja a proposta de Rousseau uma volta ao estado de vida selvagem, pelo menos fisicamente, ele prop\u00f5e uma reflex\u00e3o para seus ouvintes da Academia de Dijon e que pode ser transportada para os dias atuais: \u201cn\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que os homens n\u00e3o tenham, afinal, refletido sobre t\u00e3o miser\u00e1vel situa\u00e7\u00e3o e as calamidades que os afligiam?\u201d (ROUSSEAU, 1978, p. 268).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">COSTA, Israel Alexandria. <em>Rousseau e a origem do mal<\/em>. 2005. 144 f. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Filosofia)- Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ROUSSEAU, Jean-Jacques.<em> Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens<\/em>. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os Pensadores).<\/p>\n<div style=\"text-align:justify;\"><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p>[1] No final do s\u00e9culo XVII e in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, o mundo passou por profundas transforma\u00e7\u00f5es devido \u00e0s influ\u00eancias de um movimento surgido na Europa. O Iluminismo propunha que a raz\u00e3o deveria dominar a vis\u00e3o teoc\u00eantrica que perdurava desde a Idade M\u00e9dia. Defendia que somente por meio da raz\u00e3o que era poss\u00edvel compreender os fen\u00f4menos naturais e humanos. Foi chamado de Iluminismo com a justificativa de que as trevas (Idade Media) seriam iluminadas pela raz\u00e3o (luz). Nesse movimento, havia pensadores que defendiam tais ideais e criticavam as cren\u00e7as religiosas bem como as institui\u00e7\u00f5es que tinham forte influ\u00eancia sobre o pensamento da sociedade nessa \u00e9poca. Quest\u00f5es que at\u00e9 ent\u00e3o a f\u00e9 dava respostas, a raz\u00e3o busca respond\u00ea-las. Esse movimento iniciou-se na Inglaterra, mas teve seu auge na Fran\u00e7a onde ficou conhecido como s\u00e9culo das luzes onde viveu grande parte de seus pensadores, Rousseau, Voltaire, Montesquieu e Diderot.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rosemar Marcos O problema do mal tem um lugar de destaque no campo filos\u00f3fico. Desde os tempos mais remotos da hist\u00f3ria da Filosofia e at\u00e9 os dias de hoje, o homem se depara com a problem\u00e1tica do mal, faz questionamentos e busca poss\u00edveis sa\u00eddas para tal. Nota-se, contudo, n\u00e3o s\u00f3 o mal, mas v\u00e1rios males &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[133,135],"tags":[251,377,433,440],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2283","6":"format-standard","7":"category-rosemar-marcos","8":"category-rousseau","9":"post_tag-desigualdade","10":"post_tag-mal","11":"post_tag-politica","12":"post_tag-propriedade"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2283","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2283"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2283\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2283"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2283"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2283"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}