{"id":231,"date":"2009-05-14T16:35:08","date_gmt":"2009-05-14T19:35:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=231"},"modified":"2009-05-14T16:35:08","modified_gmt":"2009-05-14T19:35:08","slug":"berkeley-e-a-critica-ao-materialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=231","title":{"rendered":"Berkeley e a cr\u00edtica ao materialismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marcelo Geraldo de Oliveira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O fil\u00f3sofo ingl\u00eas George Berkeley [1] \u00e9 um representante da corrente \u201cempirista\u201d insatisfeito com o rumo que a filosofia moderna tomou quando se baseou somente na vis\u00e3o materialista. Segundo ele as discuss\u00f5es filos\u00f3ficas e cient\u00edficas de sua \u00e9poca estavam conduzindo a sociedade ao materialismo. Desta feita, em uma de suas obras mais conhecidas, <em>Tratado sobre os princ\u00edpios do conhecimento humano<\/em>, defende que a mat\u00e9ria n\u00e3o existe. Berkeley assegura que todos os objetos percebidos no mundo exterior s\u00e3o apenas id\u00e9ias presentes na mente. Assim, argumenta contra a exist\u00eancia das id\u00e9ias abstratas presentes na filosofia lockiana, afirmando que n\u00e3o podemos conceber uma coisa do nada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Berkeley, juntamente com o tamb\u00e9m ingl\u00eas Locke, \u201csustenta que o conhecimento humano \u00e9 conhecimento de id\u00e9ias e n\u00e3o de fatos\u201d [2]. O que contrap\u00f5e os pensamentos destes dois fil\u00f3sofos \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o que Locke apresenta sobre o dualismo: de que algumas id\u00e9ias s\u00e3o o efeito de coisas externas (prim\u00e1rias) e outras n\u00e3o (secund\u00e1rias). Sendo assim, as primeiras pressuporiam, portanto, a exist\u00eancia de uma exterioridade, uma coisa fora de n\u00f3s, um mundo feito de subst\u00e2ncia ou mat\u00e9ria. Berkeley, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o aceita essa concep\u00e7\u00e3o e defende que s\u00f3 existe aquilo que percebemos, as qualidades secund\u00e1rias, isto \u00e9, os conte\u00fados da consci\u00eancia resultantes da experi\u00eancia que s\u00e3o as percep\u00e7\u00f5es ou id\u00e9ias. Quanto a isto Berkeley escreve:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 evidente para quem quer que examine os objetos do conhecimento humano que s\u00e3o: id\u00e9ias impressas aos sentidos no momento atual; id\u00e9ias percebidas atentando para as emo\u00e7\u00f5es e os atos da mente; ou, por fim, id\u00e9ias formadas com a ajuda da mem\u00f3ria e da imagina\u00e7\u00e3o, reunindo, dividindo ou apenas representando as id\u00e9ias originariamente recebidas pelos (dois) dos modos anteriores. [3]<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, os objetos do nosso conhecimento s\u00e3o as id\u00e9ias. O conhecimento gira em torno das id\u00e9ias. Mas de onde elas prov\u00eam? Como tentativa de resposta a este questionamento, diz Berkeley:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 da vista que obtenho as id\u00e9ias da luz e das cores, com seus v\u00e1rios graus e suas diferen\u00e7as. Com o tato, percebo o duro e o macio, o quente e o frio, o movimento e a resist\u00eancia etc., tudo isso em quantidade e grau maior e menor. O olfato me fornece os odores; o gosto me d\u00e1 os sabores; o ouvido transmite \u00e0 mente os sons, em toda sua variedade de tons e combina\u00e7\u00f5es. [4]<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">As id\u00e9ias s\u00e3o sensa\u00e7\u00f5es, as quais prov\u00eam dos sentidos. Para o homem, n\u00e3o h\u00e1 nada fora da mente. No processo do conhecimento o homem n\u00e3o percebe a coisa em si, a ess\u00eancia, uma vez que esta n\u00e3o pode ser objeto da sensa\u00e7\u00e3o. O que ele percebe na verdade, s\u00e3o apenas as id\u00e9ias das coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A filosofia de Berkeley nos mostra que s\u00f3 podemos conhecer mediante nossos sentidos, isto \u00e9, o mundo n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o aquilo que \u00e9 apresentado aos nossos sentidos. Assim sendo, n\u00e3o existe nada de material na coisa que n\u00e3o tenha sido abstra\u00eddo pela percep\u00e7\u00e3o sens\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O objetivo aqui apresentado por Berkeley \u00e9 demonstrar que tudo que \u00e9 resultante da experi\u00eancia, atrav\u00e9s das percep\u00e7\u00f5es, \u00e9 o que existe. Sendo assim, s\u00f3 se pode afirmar algo como existente se for percebido pelos sentidos. Portanto, tudo que n\u00e3o \u00e9 percebido pelos sentidos n\u00e3o \u00e9 existente. Com isso, Berkeley critica os materialistas e tamb\u00e9m Locke, uma vez que esse afirmava que tendo experi\u00eancia de algo, como por exemplo, do quente, esta id\u00e9ia j\u00e1 estaria fixa na mente e n\u00e3o somente no fogo que \u00e9 material.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O que Berkeley quer sintetizar com o seu pensamento \u00e9 que as coisas existem como percep\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito ou id\u00e9ias presentes na mente ou na consci\u00eancia e n\u00e3o como coisas materiais:<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando algu\u00e9m toca em alguma coisa, isso quer dizer apenas que experimentou a sensa\u00e7\u00e3o de tocar em alguma coisa e n\u00e3o que essa coisa existe. Mas ent\u00e3o pode-se perguntar: como \u00e9 que certas coisas parecem subsistir mesmo quando n\u00e3o s\u00e3o vistas ou tocadas, como por exemplo, a mesa e a \u00e1rvore? [5]<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Berkeley responde a este questionamento da seguinte maneira: Deus \u00e9 quem garante que as id\u00e9ias do objeto sens\u00edvel, mesmo n\u00e3o sendo percebido a princ\u00edpio, sejam, futuramente, impressas nos esp\u00edritos dos homens. O que existe \u00e9 objeto de percep\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma caracter\u00edstica pr\u00f3pria do objeto, mantido por um esp\u00edrito, que \u00e9 Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Enfim, percebe-se que a teoria de Berkeley sobre as id\u00e9ias dos objetos sens\u00edveis n\u00e3o vem de nenhuma subst\u00e2ncia material e sim espiritual, sendo esta a \u00fanica existente. A certeza de se chegar ao conhecimento do objeto que ainda n\u00e3o \u00e9 objeto direto do homem \u00e9 garantida por Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da filosofia<\/em>: do humanismo a Kant. S\u00e3o Paulo: Paulus, 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">CHALITA, Gabriel. <em>Vivendo a filosofia<\/em>. 2 ed. S\u00e3o Paulo: Atual, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">BERKELEY, George.<em> Tratado sobre os princ\u00edpios do conhecimento humano. <\/em>2 ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1980. (Os pensadores).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">_________________________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[1] Apesar de sua origem inglesa, Berkeley nasceu em Kilkenny, na Irlanda. Estudou no Trinity College, de Dublin, e ordenou-se sacerdote da Igreja Anglicana, em 1710. Instalou-se na col\u00f4nia inglesa de Rhode Island, nos Estados Unidos, em 1728, com o objetivo de obter recursos para organizar um col\u00e9gio mission\u00e1rio nas Bermudas &#8211; localizado ao norte da Am\u00e9rica Central, no Oceano Atl\u00e2ntico &#8211; territ\u00f3rio que era col\u00f4nia inglesa desde 1684. Sem alcan\u00e7ar sua meta, voltou tr\u00eas anos depois \u00e0 Inglaterra e foi nomeado bispo em 1734, da pequena diocese de Cloyne, na Irlanda, onde permaneceu at\u00e9 poucos meses antes de sua morte, ocorrida em 1753.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[2] REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da filosofia<\/em>: do humanismo a Kant. p. 538<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[3] REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da filosofia<\/em>: do humanismo a Kant. p. 538.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[4] REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <em>Hist\u00f3ria da filosofia<\/em>: do humanismo a Kant. p. 538.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">[5] CHALITA, Gabriel. <em>Vivendo a filosofia<\/em>. p.261.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcelo Geraldo de Oliveira &nbsp; O fil\u00f3sofo ingl\u00eas George Berkeley [1] \u00e9 um representante da corrente \u201cempirista\u201d insatisfeito com o rumo que a filosofia moderna tomou quando se baseou somente na vis\u00e3o materialista. 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