{"id":2339,"date":"2012-08-26T10:49:16","date_gmt":"2012-08-26T13:49:16","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2339"},"modified":"2012-08-26T10:49:16","modified_gmt":"2012-08-26T13:49:16","slug":"um-obstaculo-para-a-ciencia-segundo-francis-bacon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2339","title":{"rendered":"Um obst\u00e1culo para a ci\u00eancia segundo Francis Bacon"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Rafael Guimar\u00e3es de Oliveira<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">A problem\u00e1tica do pensamento de Bacon (1561-1626) consiste na cr\u00edtica ao comportamento da ci\u00eancia de sua \u00e9poca, e de \u00e9pocas passadas, que n\u00e3o evolu\u00eda, que n\u00e3o apresentava operabilidade nenhuma \u00e0 vida humana e que vivia numa estagna\u00e7\u00e3o completa: \u201c(&#8230;) os m\u00e9todos [cient\u00edficos] de seu tempo n\u00e3o permitem inventar, e a ci\u00eancia gira em c\u00edrculos.\u201d (CAMUS et. al, 2011, p. 194). A partir disso, o autor escreve sua obra <em>Novum Organum<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Bacon,%20Rafael.docx#_ftn1\"><sup><strong><sup>[1]<\/sup><\/strong><\/sup><\/a><\/em>, relevante em sua bibliografia, em que relata essa constata\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 relacionada diretamente com que ele definiu como <em>\u00eddolos<\/em>, e sugere uma nova vis\u00e3o do m\u00e9todo da indu\u00e7\u00e3o, como a possibilidade de superar o estancamento da ci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para nosso artigo, tentaremos estabelecer uma panor\u00e2mica do pensamento do fil\u00f3sofo acerca da cr\u00edtica \u00e0 ci\u00eancia de seu tempo que ele comp\u00f4s na obra retroindicada, dando aten\u00e7\u00e3o especial aos <em>\u00eddolos do teatro<\/em>, para um questionamento que \u00e9 a pretens\u00e3o deste escrito: qual \u00e9 a pertin\u00eancia desse pensamento baconiano no mundo hodierno? Mesmo que n\u00e3o consigamos dar alguma resposta absoluta, queremos provocar o pensamento do leitor, e viabilizar uma poss\u00edvel ferramenta cr\u00edtica diante do processo de conhecimento na atualidade, a partir do comportamento dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Bacon, a ci\u00eancia de sua \u00e9poca, e de \u00e9pocas anteriores, nada produziu ou realizou: \u201c[O fil\u00f3sofo] ressalta constantemente o fato de que (&#8230;) os fil\u00f3sofos e s\u00e1bios n\u00e3o trilharam o caminho de uma ci\u00eancia operativa, em benef\u00edcio do homem\u201d (ANDRADE, 1979, p. XV). Essa proposi\u00e7\u00e3o tem uma consequ\u00eancia que ele trabalha em sua obra: os m\u00e9todos cient\u00edficos, e a pr\u00f3pria ci\u00eancia, s\u00f3 tem validade se eles produzirem algo para o homem, se eles forem fecundos. A partir disso, o autor se prop\u00f5e a analisar com aten\u00e7\u00e3o as causas do porque, at\u00e9 ent\u00e3o, a ci\u00eancia n\u00e3o havia se prestado a ser fecunda para o homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A ci\u00eancia, aqui trabalhada, era tida como o conhecimento verdadeiro da natureza, e que a partir disso possibilitaria o homem domin\u00e1-la. Sendo assim, a ci\u00eancia deve ser a composi\u00e7\u00e3o de um conhecimento que possibilite algo de concreto e positivo para o homem, e que \u00e9 o pr\u00f3prio ato de domina\u00e7\u00e3o da natureza, para o crescimento do mesmo; mas por algum motivo, que \u00e9 apontado pelo autor, como veremos a seguir, n\u00e3o est\u00e1 desempenhando essa fun\u00e7\u00e3o: \u201cpara se conseguir o conhecimento correto da natureza e descobrir os meios de torna-la eficaz, seria necess\u00e1rio ao investigador liberta-se daquilo que Bacon chama de \u2018\u00eddolos\u2019 e no\u00e7\u00f5es falsas\u201d (ANDRADE, 1979, p. XV).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O termo <em>\u00eddolo<\/em> \u00e9 configurado por Bacon como o impedimento da mente humana de desenvolver a ci\u00eancia, de inventar novos meios de o homem dominar a natureza. Esse movimento de impedimento ele explica assim:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O intelecto humano, quando assente em uma convic\u00e7\u00e3o (ou por j\u00e1 bem aceita e acreditada ou por que o agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E ainda que em maior n\u00famero, n\u00e3o observa a for\u00e7a das inst\u00e2ncias contr\u00e1rias, despreza-as, ou, recorrendo a distin\u00e7\u00f5es, p\u00f5e-nas de parte e rejeita, n\u00e3o sem grande e pernicioso preju\u00edzo. (BACON, 1979, p. 23)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ele aponta quatro tipos de \u00eddolos, que constituem o \u00f3bice para ci\u00eancia: \u201cS\u00e3o de quatro g\u00eaneros os \u00eddolos que bloqueiam a mente humana. Para melhor apresenta-los, lhes assinamos nomes, a saber: <em>\u00cddolos da Tribo; \u00cddolos da Caverna; \u00cddolos do Foro <\/em>e <em>\u00cddolos do Teatro<\/em>.\u201d (BACON, 1979, p. 21). Ent\u00e3o essas s\u00e3o as formas de bloqueio da expans\u00e3o do conhecimento, e que ter\u00e3o que ser superados pela nova leitura de um m\u00e9todo que vamos expor mais a diante, e que o autor coloca como a \u00fanica possibilidade de se superar esses \u00eddolos e garantir o progresso da ci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O nosso intuito \u00e9 focar nos \u00eddolos do teatro. Mas, antes disso, vamos expor, de forma geral, de que se tratam os outros tr\u00eas \u00eddolos, ou impedimentos. Os \u00eddolos da tribo constituem aquela possibilidade, inerente ao homem, de querer conhecer as coisas pela superficialidade das experi\u00eancias dadas no conv\u00edvio da esp\u00e9cie humana. Nos \u00eddolos da caverna, fazendo alus\u00e3o ao mito plat\u00f4nico, est\u00e1 o olhar distorcido do humano para a realidade, considerando apenas a representa\u00e7\u00e3o dada pela \u201cluz\u201d que cada um carrega em sua \u201ccaverna\u201d. J\u00e1 nos \u00eddolos do foro, encontra-se o problema da linguagem, que se presta a ambiguidade, e assim, compromete a constru\u00e7\u00e3o de um pensamento v\u00e1lido e frutuoso.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na origem da conven\u00e7\u00e3o dos \u00eddolos do teatro est\u00e3o algumas correntes \u201cfilos\u00f3ficas\u201d, que representam as regras inv\u00e1lidas de demonstra\u00e7\u00e3o do conhecimento. Essas correntes, ditas \u201cfilos\u00f3ficas\u201d, s\u00e3o na verdade pura inven\u00e7\u00e3o, a exemplo do teatro, como uma sequ\u00eancia de cenas ficcionais, onde a realidade n\u00e3o \u00e9 tratada.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">H\u00e1 (&#8230;) \u00eddolos que imigraram para o esp\u00edrito dos homens por meio das diversas doutrinas filos\u00f3ficas e tamb\u00e9m pelas regras viciosas de demonstra\u00e7\u00e3o. S\u00e3o os <em>\u00eddolos do teatro<\/em>: por parecer que as filosofias adotadas ou inventadas s\u00e3o outras tantas f\u00e1bulas, produzidas e representadas, que figuram mundos fict\u00edcios e teatrais. (BACON, 1979, p. 22)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Bacon considera ainda que os \u00eddolos do teatro n\u00e3o nasceram com o intelecto, mas foram alojados nele por meios de demonstra\u00e7\u00f5es pervertidas e por contos ut\u00f3picos. Sendo assim, essa \u00e9 a forma mais fantasiosa de comprometer o desempenho da ci\u00eancia, e tamb\u00e9m o jeito mais f\u00e1cil, por se tratar de uma forma quase infal\u00edvel de atrair o intelecto humano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como ent\u00e3o combater a presen\u00e7a dos \u00eddolos no intelecto e garantir o progresso da ci\u00eancia e seus benef\u00edcios? A solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 nas seguintes palavras de Bacon: \u201ca forma\u00e7\u00e3o de no\u00e7\u00f5es e axiomas pela <em>verdadeira indu\u00e7\u00e3o<\/em> \u00e9, sem d\u00favida, o rem\u00e9dio apropriado para afastar e repelir os \u00eddolos.\u201d (BACON, 1979, p. 21, grifo nosso). Portanto trata-se da indu\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 um m\u00e9todo in\u00e9dito, mas que em Bacon ganha a configura\u00e7\u00e3o de ser capaz de conhecer verdadeiramente os fen\u00f4menos, partindo da an\u00e1lise de realidades concretas, manifestas na experimenta\u00e7\u00e3o; depois disso, criar paradigmas que permitam transpor a formas particulares para formas gerais. Criar padr\u00f5es de conhecimentos particulares, que permitam atua\u00e7\u00f5es frutuosas no universal da natureza, a fim de domin\u00e1-la a partir de t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ap\u00f3s chegarmos nesse ponto, podemos construir um questionamento acerca da atua\u00e7\u00e3o do obst\u00e1culo c\u00e9nico no processo do conhecimento no mundo hoje. \u00c9 claro que querer transliterar as palavras de Bacon para os dias atuais \u00e9 inv\u00e1lido, mas utilizar dos moldes de como ele pensou ser os <em>\u00eddolos do teatro<\/em> nos ajuda no prop\u00f3sito de verificar a pertin\u00eancia desse pensamento hoje. Trazendo para o discurso a atua\u00e7\u00e3o da corrente consumista no mundo contempor\u00e2neo, ser\u00e1 que o homem n\u00e3o est\u00e1 dando margem para a supremacia dos \u00eddolos da engana\u00e7\u00e3o do sonho de que ter \u00e9 melhor do que ser, em detrimento do processo de conhecimento e contempla\u00e7\u00e3o da verdade? Hoje com o dom\u00ednio das m\u00eddias por parte dessa corrente, vemos um show de fantasia e engana\u00e7\u00e3o do homem, ao inv\u00e9s de uma tomada de consci\u00eancia de que seu conhecimento pode e deve ser eficiente na constru\u00e7\u00e3o de melhorias para a vida humana. Talvez pud\u00e9ssemos sugerir uma nova configura\u00e7\u00e3o para o que Bacon pensou como \u00eddolos do teatro, e denomina-los como <em>\u00eddolos do consumismo<\/em>. E um fato \u00e9 cada vez mais evidente: diante disso, o homem tem se tornado impossibilitado de progredir intelectualmente, pois o que \u00e9 considerado importante mesmo \u00e9 comprar, gastar e ter o material.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, Bacon comp\u00f5e uma cr\u00edtica com prop\u00f3sito de dar novos rumos \u00e0 ci\u00eancia de sua \u00e9poca, e com o escrito em estudo ele consegue fazer com que ela d\u00ea os frutos exigidos em seu tempo. O grande trunfo \u00e9 denunciar os \u00eddolos que n\u00e3o permitem o progresso da ci\u00eancia. E \u00e9 nos moldes da conceitua\u00e7\u00e3o da denuncia dos \u00eddolos do teatro, que lan\u00e7amos um questionamento: ser\u00e1 que ainda hoje sofremos com a estagna\u00e7\u00e3o provocada pelos \u00eddolos do teatro? Ao que consta, h\u00e1 elementos que possibilitam esta nossa intui\u00e7\u00e3o. Talvez n\u00e3o possamos falar em \u00eddolos do teatro propriamente, mas de uma nova ordem de \u00eddolos, a dos consumistas, respeitando os moldes baconianos dos obst\u00e1culos c\u00eanicos que aqui apresentamos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">ANDRADE, Jos\u00e9 Aluysio Reis de. Bacon: vida e obra. <em>In:<\/em> BACON, Francis. <em>Novum Organum; Nova Atl\u00e2ntida<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Aluysio Reis de Andrade. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os pensadores)<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">BACON, Francis. <em>Novum Organum; Nova Atl\u00e2ntida<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Aluysio Reis de Andrade. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os pensadores)<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">CAMUS, S\u00e1bastien et al. <em>100 obras chaves de filosofia<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o L\u00facia Mathilde. 2. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 2011.<\/p>\n<div><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div style=\"text-align:left;\">\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Bacon,%20Rafael.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> Que pode ser traduzido como: novo instrumento.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rafael Guimar\u00e3es de Oliveira A problem\u00e1tica do pensamento de Bacon (1561-1626) consiste na cr\u00edtica ao comportamento da ci\u00eancia de sua \u00e9poca, e de \u00e9pocas passadas, que n\u00e3o evolu\u00eda, que n\u00e3o apresentava operabilidade nenhuma \u00e0 vida humana e que vivia numa estagna\u00e7\u00e3o completa: \u201c(&#8230;) os m\u00e9todos [cient\u00edficos] de seu tempo n\u00e3o permitem inventar, e a ci\u00eancia &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[44,124],"tags":[215,203,355],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2339","6":"format-standard","7":"category-francis-bacon","8":"category-rafael-guimaraes-de-oliveira","9":"post_tag-ciencia","10":"post_tag-idolos","11":"post_tag-inducao"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2339","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2339"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2339\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2339"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2339"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2339"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}