{"id":2359,"date":"2012-10-19T00:13:23","date_gmt":"2012-10-19T03:13:23","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2359"},"modified":"2012-10-19T00:13:23","modified_gmt":"2012-10-19T03:13:23","slug":"autos-de-alem-mar-o-papel-do-teatro-na-formacao-intelectual-do-povo-nativo-do-brasil-colonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2359","title":{"rendered":"Autos de al\u00e9m-mar: o papel do teatro na forma\u00e7\u00e3o intelectual do povo nativo do Brasil Col\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:left;\"><b>Bruno Aparecido Nepomuceno<\/b><b style=\"text-align:justify;\">\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><i>\u201cA cartilha em que o Brasil aprendeu a ler foi o teatro\u201d (Edwaldo Cafezeiro)<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Talvez o leitor, ao se deparar com o nosso t\u00edtulo, possa se perguntar por que justamente falar sobre teatro em um texto de filosofia? E ainda mais poderia conjecturar: j\u00e1 \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil falar de filosofia em termos de Brasil que lig\u00e1-lo ao tema teatral seria propor caminhos \u00e1rduos demais para um texto t\u00e3o breve e sem pretens\u00f5es como este.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas no que tange a forma\u00e7\u00e3o do pensamento do povo brasileiro, e portanto de sua filosofia, n\u00e3o podemos ignorar a importante influ\u00eancia exercida pelo teatro jesu\u00edtico no processo civilizat\u00f3rio do Brasil Col\u00f4nia. Foi ele, o teatro, uma importante ferramenta para se alcan\u00e7ar os objetivos de formar uma mentalidade cristianizada e moralmente europeia em \u00edndios que nem sabiam de onde vinham as caravelas que n\u00e3o paravam de aportar no seu solo p\u00e1trio.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas antes de enveredarmos nesta pequena amostragem do que a jun\u00e7\u00e3o dos objetivos da Companhia de Jesus com a capacidade pedag\u00f3gica cultural do teatro foi capaz de fazer em terras tupiniquins precisaremos brevemente expor o contexto em esses acontecimentos se inseriram.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A Europa no s\u00e9culo XVI vivia em polvorosa as inspira\u00e7\u00f5es da Contra-reforma cat\u00f3lica e a Igreja se armou de todas as estrat\u00e9gias para reconquistar o territ\u00f3rio, inicialmente inexpressivo, mas que crescia substancialmente, que havia perdido para as iniciativas protestantes, principalmente a levantada por Lutero. Como forma de tentar conter o escoamento de fi\u00e9is e a picha\u00e7\u00e3o da fama da institui\u00e7\u00e3o surgiu a Companhia de Jesus fundada por In\u00e1cio de Loyola. Como miss\u00e3o principal destes religiosos estava a prega\u00e7\u00e3o, a apologia e a propaga\u00e7\u00e3o da f\u00e9 cat\u00f3lica. Assim, \u201cao se compreender a atua\u00e7\u00e3o dos padres jesu\u00edtas \u00e9 poss\u00edvel se compreender tamb\u00e9m parte da hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o\u201d (TOLEDO; RUCKSTADTER; RUCKSTADTER, 2007, p. 33) e \u2013\u00a0 por que n\u00e3o \u2013 da filosofia?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na Europa o trabalho j\u00e1 ia se instalando de forma satisfat\u00f3ria quando se percebeu que havia um territ\u00f3rio al\u00e9m do mar a ser explorado mercantilmente e um povo que nele habitava que podia ser conquistado para serem somados \u00e0s fileiras de crist\u00e3os cat\u00f3licos da verdadeira doutrina. \u00c9 claro que a tarefa dos jesu\u00edtas n\u00e3o seria f\u00e1cil, mas se executada com esmero e dedica\u00e7\u00e3o poderia render bons frutos para a institui\u00e7\u00e3o a que representavam. Assim, \u201c[&#8230;] compreenderam facilmente que seria atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o [&#8230;] que poderiam ajudar a Igreja a reconquistar gradualmente grande parte dos pa\u00edses e na\u00e7\u00f5es que haviam aderido ou estavam aderindo \u00e0s novas doutrinas\u201d (SCHIMITZ, 1994, p. 129).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Foi, pois, com esse intuito, que logo nas primeiras caravanas, desembarcaram no Brasil muitos padres jesu\u00edtas com a miss\u00e3o de catequizarem os nativos chamados ind\u00edgenas. Na terra tropical al\u00e9m dos m\u00e9todos e prega\u00e7\u00f5es j\u00e1 utilizados na Europa, os jesu\u00edtas precisaram lan\u00e7ar m\u00e3o de outro artif\u00edcio que j\u00e1 constava em seu curr\u00edculo de forma\u00e7\u00e3o: o teatro. J\u00e1 por experi\u00eancias no meio dos col\u00e9gios que haviam fundado antes de desembarcarem por aqui os jesu\u00edtas sabiam da potencialidade que este tipo de manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica tinha de tocar os sentimento das pessoas, de onde partia a decis\u00e3o de abra\u00e7arem a f\u00e9 crist\u00e3 cat\u00f3lica.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com base em fontes prim\u00e1rias, como as cartas dos primeiros jesu\u00edtas, viajantes e cronistas do Brasil colonial, o teatro foi introduzido concomitantemente \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o territorial patrocinada pela Coroa Portuguesa. Portanto, tal como na atividade educacional, a Companhia de Jesus foi pioneira e exerceu o monop\u00f3lio no \u00e2mbito das artes c\u00eanicas representadas nas terras bras\u00edlicas. Somente na segunda metade do s\u00e9culo XVII surgiu um cultor de teatro fora da Companhia. (BITTAR; FERREIRA JR., p. 6).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, quando falamos de teatro colonial, consequentemente estamos falando de teatro jesu\u00edtico. Mas a forma com que esse teatro se configurou em terras brasileiras diferia pouco do que era apresentado nos Col\u00e9gios europeus no que concernia ao conte\u00fado, mas sua forma apresentava varia\u00e7\u00f5es para se adaptar aos espa\u00e7os prec\u00e1rios das matas e \u00e0 l\u00edngua e costumes do povo nativo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aqui estava intrinsecamente ligado \u00e0 religiosidade cat\u00f3lica por um lado e ao modelo festivo e mitol\u00f3gico ind\u00edgena por outro, como veremos no decorrer das pr\u00f3ximas linhas.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Se por teatro entendermos espet\u00e1culos amadores isolados, de fins religiosos ou comemorativos, o seu aparecimento coincide com a forma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria nacionalidade, tendo surgido com a catequese das tribos ind\u00edgenas feita pelos mission\u00e1rios da rec\u00e9m- fundada Companhia de Jesus (PRADO, 1993, p. 15).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">E quando se trata de literatura e dramaturgia jesu\u00edta no Brasil Col\u00f4nia as obras de maior express\u00e3o sa\u00edram das m\u00e3os de Jos\u00e9 de Anchieta. Ele, grande orador e intelectual, foi o maior respons\u00e1vel pela propaga\u00e7\u00e3o da f\u00e9 cat\u00f3lica entre os \u00edndios. Aqui instalado Anchieta observou os costumes ind\u00edgenas para, a partir deles, agir estrategicamente numa ofensiva de convers\u00e3o e catequiza\u00e7\u00e3o. Era a luz da mensagem crist\u00e3 que clareava as trevas dos distantes da gra\u00e7a. \u201cAnchieta chega para trazer a luz: Prometeu acorrentado e \u2018iluminado\u2019 pelo \u2018jesuitismo\u2019\u201d (CAFEZEIRO; GADELHA, 1996, p. 20).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os jesu\u00edtas, e aqui precisamente Anchieta, notaram que havia no teatro e nas artes c\u00eanicas (m\u00fasica e dan\u00e7a) elementos em comum com a cultura dos \u00edndios e que este seria o caminho mais f\u00e1cil de se chegar at\u00e9 eles. Mas, mesmo utilizando da arte, o que se observava \u00e9 que o teatro estava a servi\u00e7o de algo maior, de uma doutrina pr\u00e9-fixada e que precisava ser incutida na cabe\u00e7a e no cora\u00e7\u00e3o dos selvagens tupiniquins. \u201cOs jesu\u00edtas tinham em mira dois fins precisos: substituir uma religi\u00e3o (ou mitologia) por outra e um c\u00f3digo moral por outro\u201d (BITTAR; FERREIRA JR., p.14) e por isso, mesmo se utilizando do teatro, a arte em si estava em \u00faltimo lugar. Para \u201ccrescer e expandir-se\u201d, os valores ocidentais precisavam ser transmitidos de forma a serem aceitos e, para tal, os jesu\u00edtas recorreram \u00e0s pr\u00e1ticas mais condizentes com a cultura daqueles que eram o seu objeto de convers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aqui podemos dizer que o teatro foi mais um livro de catequese e moralidade que do que uma manifesta\u00e7\u00e3o puramente art\u00edstica para ado\u00e7ar os sentidos. Nesse mesmo sentido podemos dizer que, por serem intelectuais em demasia \u2013 at\u00e9 nos parece que essa era uma exig\u00eancia b\u00e1sica para que pudessem ser ordenados presb\u00edteros \u2013 a educa\u00e7\u00e3o jesu\u00edta estava encharcada de filosofia, e filosofia escol\u00e1stica propriamente dita.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mais preocupado com a catequiza\u00e7\u00e3o e menos com o estilo liter\u00e1rio, Anchieta \u201cn\u00e3o escrevia pensando na eternidade de sua arte, mas na Eternidade a ser conquistada pelo \u00edndio atrav\u00e9s da convers\u00e3o\u201d (PONTES apud BITTAR; FERREIRA JR., p.14)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para serem entendidos e percebidos, os jesu\u00edtas precisaram se cercar de cuidados em suas produ\u00e7\u00f5es teatrais, cercando-a de artif\u00edcios apara que a mensagem fosse passada. Umas das condi\u00e7\u00f5es, por exemplo, que percebeu imediatamente \u00e9 que as pe\u00e7as precisavam ser escritas e representadas na l\u00edngua materna da maioria dos \u00edndios com que entrava em contato, ou seja, o tupi. Mas isso n\u00e3o significava que o portugu\u00eas, e at\u00e9 mesmo o castelhano e o latim n\u00e3o aparecessem nas produ\u00e7\u00f5es. Muito pelo contr\u00e1rio, eles tamb\u00e9m estavam presentes como que significando o alvo da convers\u00e3o de suas l\u00ednguas tamb\u00e9m. O tupi se colocava para apontar para a l\u00edngua europeia como lugar a ser alcan\u00e7ado. E \u201ccomo as ordens religiosas pretendiam que seus dramas falassem n\u00e3o tanto \u00e0 mente por meio da palavra, mas aos sentidos pela imagem, os limites nacionais e de linguagem n\u00e3o eram obst\u00e1culos\u201d (BERTHOLD, 2003, p. 342). Outras caracter\u00edsticas iam surgindo \u00e0 medida que as montagens iam se consolidando.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando em contato com as tribos, os jesu\u00edtas perceberam que \u201cos \u00edndios recebiam com cantos, rituais e dan\u00e7as os visitantes que eram considerados amigos da sua aldeia. Anchieta acrescentou a esta pr\u00e1tica dos nativos a arte do teatro\u201d (RUCKSTADTER, 2005, p. 38). Perceberam tamb\u00e9m<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">[&#8230;]o forte tra\u00e7o l\u00fadico da sua cultura e talvez por essa raz\u00e3o come\u00e7aram a investir em atividades centradas principalmente na m\u00fasica, na dan\u00e7a, na \u201cteatralidade\u201d da vida tribal repleta de rituais, movimentos, cores, sons para que, por meio delas, o cristianismo fosse assimilado usando-se os pr\u00f3prios valores dos \u00edndios, ou seja, todo o empenho dos jesu\u00edtas nessa forma de catequese \u00e9 \u201ccristianizar\u201d os valores ind\u00edgenas. (BITTAR; FERREIRA JR., p.11)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim entre 1564 a 1598, Anchieta escreveu aproximadamente vinte autos<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/_modelo.docx#_ftn1\"><sup><\/sup><sup>[1]<\/sup><\/a>. Partamos, pois, para caracterizar essas obras e essas apresenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O estilo teatral dos autos consistia na apresenta\u00e7\u00e3o breve, musicada, dan\u00e7ada e quase que declamada de hist\u00f3rias que tinham um fundo catequ\u00e9tico e moral. Elas eram apresentadas em ocasi\u00f5es especiais, na visita de algu\u00e9m importante da Europa ou em festas lit\u00fargicas de santos ou padroeiros. Quanto aos cen\u00e1rios, eram: a sala grande dos col\u00e9gios, a pra\u00e7a p\u00fablica e as aldeias; sendo estas \u00faltimas as preferidas dos jesu\u00edtas. A\u00a0 pe\u00e7a\u00a0 \u00e9\u00a0 encerrada\u00a0 com\u00a0 canto\u00a0 e\u00a0 dan\u00e7a,\u00a0 como\u00a0 a\u00a0 maioria\u00a0 dos\u00a0 autos\u00a0 de\u00a0 Jos\u00e9\u00a0 de Anchieta,\u00a0 recurso\u00a0 l\u00fadico\u00a0 utilizado\u00a0 para\u00a0 atrair\u00a0 os\u00a0 povos\u00a0 ind\u00edgenas.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outra caracter\u00edstica inconfund\u00edvel dos textos de Anchieta \u00e9 a uni\u00e3o dos temas nativos e crist\u00e3os, representados nas pe\u00e7as por personagens ind\u00edgenas e por santos da igreja cat\u00f3lica. Tal uni\u00e3o conseguia atrair ainda mais o p\u00fablico-alvo de Anchieta, que eram os \u00edndios, inclusive com a participa\u00e7\u00e3o dos mesmos nas representa\u00e7\u00f5es. (TOLEDO; RUCKSTADTER; RUCKSTADTER, 2007, p.38)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sobre as pe\u00e7as de Anchieta ainda podemos destacar a inspira\u00e7\u00e3o de seu mestre Gil Vicente (1465-1537), a j\u00e1 citada utiliza\u00e7\u00e3o moderna de mais de uma l\u00edngua\u00a0 em\u00a0 seus\u00a0 autos,\u00a0 e\u00a0 ainda,\u00a0 devido\u00a0 ao\u00a0 contexto\u00a0 colonial,\u00a0 a\u00a0 adapta\u00e7\u00e3o\u00a0 de\u00a0 divindades ind\u00edgenas ao contexto dos santos cat\u00f3licos e a inspira\u00e7\u00e3o medieval da vis\u00e3o dicot\u00f4mica da realidade dividida em bem e mal.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Foi atrav\u00e9s dessa dicotomia que a cultura ind\u00edgena foi mais criticada e suplantada pela moral cat\u00f3lica. Os \u00edndios e a maioria de seus deuses eram colocados do lado mal da hist\u00f3ria e os brancos do lado bom. As pe\u00e7as traziam embutidas cr\u00edticas ao estilo de vida ind\u00edgena propondo a vit\u00f3ria do Deus crist\u00e3o sobre os deuses por eles eleitos.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Cr\u00edticas \u00e0 antropofagia, poligamia e aos demais costumes considerados pag\u00e3os visavam construir uma nova sociedade, pautada em valores crist\u00e3os, tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9 quanto \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o da sociedade como um todo. As miss\u00f5es (ou redu\u00e7\u00f5es) jesu\u00edticas adquiriram import\u00e2ncia na constru\u00e7\u00e3o dessa nova forma de organiza\u00e7\u00e3o social. (TOLEDO; RUCKSTADTER; RUCKSTADTER, 2007, p. 40)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, os \u00edndios viam-se obrigados a abandonar paulatinamente suas cren\u00e7as, seus costumes, suas festas e pr\u00e1ticas sob pena de serem castigados com o inferno ou a dana\u00e7\u00e3o. Nas pe\u00e7as teatrais a eles apresentadas era bem distinta a no\u00e7\u00e3o de que ou se escolhia a Deus \u2013 leia-se aqui o Deus pregado pela Igreja Cat\u00f3lica \u2013 ou se estava condenado \u00e0 morte eterna. N\u00e3o havia outro caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando n\u00e3o s\u00f3 assistiam \u00e0 essas hist\u00f3rias preconceituosas a seu respeito tamb\u00e9m participavam como atores, e n\u00e3o para nossa surpresa faziam pap\u00e9is de personagens que estavam do lado \u201cmal\u201dda hist\u00f3ria.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">[&#8230;]para ridicularizar s\u00edmbolos da mitologia tupi, os jesu\u00edtas utilizavam os pr\u00f3prios \u00edndios para interpret\u00e1-los, como ocorreu, por exemplo, quando o Visitador Crist\u00f3v\u00e3o de Gouveia, no ano de sua chegada, em 1583, fora saudado na aldeia do Esp\u00edrito Santo onde se encenou o\u00a0 Auto Pastoril, de Anchieta, causando, segundo ele enorme devo\u00e7\u00e3o, por n\u00e3o esperar \u201ctais festas de gente t\u00e3o b\u00e1rbara\u201d. N\u00e3o faltara nem um Anhang\u00e1 (diabo), que saiu do mato, interpretado por um \u00edndio, relata Serafim Leite. (BITTAR; FERREIRA JR., p. 14)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A esse respeito Cafezeiro e Gadelha (1996, p.23) tamb\u00e9m atestam a vexa\u00e7\u00e3o a que se prestavam os ind\u00edgenas em autos desse n\u00edvel: \u201cQuanto ao diabo, [&#8230;] encenado pelos ind\u00edgenas, trata-se talvez de uma repress\u00e3o imposta aos brancos para evitar que adotassem os h\u00e1bitos de bigamia, propriedade comum etc., normais nas culturas primitivas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os autos de Anchieta, pois, tinham a miss\u00e3o n\u00e3o somente de representar e impor uma nova cultura branca aos nativos, mas tamb\u00e9m de expor, ridicularizar e julgar sua pr\u00f3pria cultura. Essa representa\u00e7\u00f5es se levantavam como uma esp\u00e9cie de contra-cultura ind\u00edgena e sem nenhum tipo de considera\u00e7\u00e3o alheia utilizavam-se da arte para fazer sucumbir culturas seculares. Com isso, \u201c[&#8230;] n\u00e3o podemos enxergar sen\u00e3o a lenta e eficaz destrui\u00e7\u00e3o de uma cultura\u201d (BITTAR; FERREIRA JR., p. 14) e a imposi\u00e7\u00e3o de outra chancelada como melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O teatro, pois, de ferramenta passa a ser arma, e arma de morte. Talvez Anchieta n\u00e3o tenha percebido que ao utilizar dessa arte indistintamente traiu sua pr\u00f3pria origem que era, como nas dionis\u00edacas gregas, tornar o homem cada vez mais livre de todas as amarras externas e entregue aos seus pr\u00f3prios impulsos e princ\u00edcios. Poder\u00edamos acreditar, inclusive, que as manifesta\u00e7\u00f5es cultuais ind\u00edgenas primitivas estavam muito mais pr\u00f3ximas do deus Dion\u00edsio (a quem, historicamente, a atividade teatral iniciou fazendo culto) do que as aulas de catequese encenadas pelo mission\u00e1rio jesu\u00edta.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 claro que como express\u00e3o o teatro pede outras caracter\u00edsticas al\u00e9m das do car\u00e1ter cultual e sinest\u00e9sico, inclusive, ele evolui na hist\u00f3ria para isso, para encontrar seu lugar. Mas \u00e9 muito mais teatral e filos\u00f3fico, nos termos em que estamos tratando neste texto, uma atividade que proporcione ao outro (seja o ouvinte\/aprendiz da filosofia ou o espectador do teatro) o pensamento cr\u00edtico por si mesmo do que aquela que o faz engolir seus dogmas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 poss\u00edvel apresentar uma filosofia atrav\u00e9s da arte teatral \u2013 e o poderiam ter feito os colonizadores europeus jesu\u00edtas \u2013 sem necessariamente precisar eliminar toda a experi\u00eancia passada do receptor, e cumprir artisticamente e filosoficamente seu papel sem precisar se vender para sistemas totalizantes e dogm\u00e1ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">BERTHOLD, Margot. <i>Hist\u00f3ria mundial do teatro. <\/i>2\u00aa reimp.Trad. Maria Paula V. Zurawski, J. Guisburg. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">BITTAR, Marisa; FERREIRA JR., Amarilio. <i>Teatro jesu\u00edtico, catequese e pluralidade ling\u00fc\u00edstica no Brasil do s\u00e9culo XVI.<\/i> Dispon\u00edvel em : &lt;<a href=\"http:\/\/www.histedbr.fae.unicamp.br\/navegando\/artigos_pdf\/Cezar_Arnaut_de_Toledo_artigo.pdf\">http:\/\/www.histedbr.fae.unicamp.br\/navegando\/artigos_pdf\/Cezar_Arnaut_de_Toledo_artigo.pdf<\/a>&gt;\u00a0 Acesso em: 03 jun. 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">CAFEZEIRO, Edwaldo; GADELHA, Carmem. <i>Hist\u00f3ria do teatro brasileiro:<\/i> um percurso de Anchieta a Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: UFRJ\/EDUERJ\/FUNARTE,1996.<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">OTHON, S\u00f4nia Maria de Oliveira. A\u00a0 pedagogia do teatro brasileiro na historiografia nacional. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.sbhe.org.br\/novo\/congressos\/cbhe2\/pdfs\/Tema7\/0796.pdf\">http:\/\/www.sbhe.org.br\/novo\/congressos\/cbhe2\/pdfs\/Tema7\/0796.pdf<\/a>&gt;. Acesso em: 03 jun. 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">PRADO, D. de A. <i>Teatro de Anchieta a Alencar<\/i>. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1993.<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">RUCKSTADTER, V. C. M. <i>Jos\u00e9 de Anchieta:<\/i> teatro e educa\u00e7\u00e3o no Brasil-Col\u00f4nia. 67 F. Monografia de Especializa\u00e7\u00e3o. Departamento de Fundamentos da Educa\u00e7\u00e3o, UEM. Maring\u00e1, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">SCHMITZ, E.\u00a0 <i>Os Jesu\u00edtas e a Educa\u00e7\u00e3o<\/i>: a filosofia educacional da Companhia de Jesus. S\u00e3o Leopoldo: Unisinos, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align:left;\">TOLEDO, C\u00e9zar de Alencar Arnaut de; RUCKSTADTER, Fl\u00e1vio Massami Martins; RUCKSTADTER, Vanessa Campos Mariano. O teatro jesu\u00edtico na Europa e no Brasil no s\u00e9culo XVI. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.25, mar. 2007. p. 33\u201343 Dispon\u00edvel em &lt;<a href=\"http:\/\/www.histedbr.fae.unicamp.br\/revista\/edicoes\/25\/art03_25.pdf\">http:\/\/www.histedbr.fae.unicamp.br\/revista\/edicoes\/25\/art03_25.pdf<\/a>&gt;. Acesso em: 03 jun. 2012.<\/p>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<hr \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/_modelo.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> Os autos s\u00e3o\u00a0 composi\u00e7\u00f5es religiosas-pastoris,\u00a0 que\u00a0 se\u00a0 aproximam\u00a0 do\u00a0 mundo\u00a0 medieval\u00a0 uma\u00a0 vez\u00a0 que\u00a0 o\u00a0 tema\u00a0 central reflete valores da \u00e9poca, como por exemplo a utiliza\u00e7\u00e3o de alegorias.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Aparecido Nepomuceno\u00a0 \u201cA cartilha em que o Brasil aprendeu a ler foi o teatro\u201d (Edwaldo Cafezeiro) Talvez o leitor, ao se deparar com o nosso t\u00edtulo, possa se perguntar por que justamente falar sobre teatro em um texto de filosofia? 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