{"id":2365,"date":"2012-10-19T00:07:35","date_gmt":"2012-10-19T03:07:35","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2365"},"modified":"2012-10-19T00:07:35","modified_gmt":"2012-10-19T03:07:35","slug":"metodo-socratico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2365","title":{"rendered":"M\u00e9todo socr\u00e1tico e m\u00e9todo sof\u00edstico: um breve paralelo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><b>Jackson de Sousa Braga<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">S\u00f3crates \u00e9 um dos fil\u00f3sofos mais conhecidos de toda a humanidade. Ele se op\u00f4s a um grupo famoso e tido como manipulador do poder intelectual de at\u00e9 ent\u00e3o, os sofistas. Tomando como base essas ideias, pretende-se aqui, mesmo que de forma r\u00e1pida, apresentar o m\u00e9todo socr\u00e1tico e sof\u00edstico e tamb\u00e9m fazer uma breve an\u00e1lise da rela\u00e7\u00e3o entre eles.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>M\u00e9todo socr\u00e1tico<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Conforme \u00e9 sabido, S\u00f3crates n\u00e3o deixou nenhum escrito, por\u00e9m seus disc\u00edpulos encarregaram-se de transmitir \u00e0 posteridade suas ideias e propostas epistemol\u00f3gicas e filos\u00f3ficas. S\u00f3crates valia-se de dois m\u00e9todos famosos, que o fizeram trazer grandes reflex\u00f5es para os seus interpelados e disc\u00edpulos<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Socrates,%20Jackson.docx#_ftn1\"><sup><\/sup><sup>[1]<\/sup><\/a>. Aqui pretendemos apresentar estes dois m\u00e9todos e suas caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O primeiro m\u00e9todo famoso em todo pensamento socr\u00e1tico \u00e9 a <i>Ironia<\/i>. N\u00e3o se deve aqui, assumir o sentido desse termo conforme a nossa l\u00edngua corrente, ou seja, como zombaria, sarcasmo ou s\u00e1tira. Mas, antes, como o sentido original da palavra grega, isto \u00e9, como questionamento que traz uma <i>refuta\u00e7\u00e3o<\/i> em busca do conhecimento e da percep\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Socrates,%20Jackson.docx#_ftn2\"><sup><\/sup><sup>[2]<\/sup><\/a>:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A refuta\u00e7\u00e3o (<i>el\u00e9nchos) <\/i>consistia, em certo sentido, a <i>pars destruens<\/i> do m\u00e9todo, ou seja, o m\u00e9todo socr\u00e1tico levava o interlocutor a reconhecer sua pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia. Primeiro ele for\u00e7ava uma defini\u00e7\u00e3o do assunto sobre o qual a investiga\u00e7\u00e3o versava; depois, escavava de v\u00e1rios modos a defini\u00e7\u00e3o fornecida, explicitava e destacava as car\u00eancias e contradi\u00e7\u00f5es que implicava; ent\u00e3o exortava o interlocutor a tentar nova defini\u00e7\u00e3o, criticando-a e refutando-a com o mesmo procedimento; at\u00e9 o momento em que o interlocutor se declarava ignorante. (REALE, 2007, p.102)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Contudo, S\u00f3crates n\u00e3o era um c\u00e9tico e sim uma pessoa crente na verdade que habitava no ser humano e que era necess\u00e1rio um processo\/m\u00e9todo para descobri-la. A este m\u00e9todo S\u00f3crates deu o nome de <i>Mai\u00eautica<\/i>, ou seja, a parturi\u00e7\u00e3o da ideia: \u201cFrequentes vezes comparava sua tarefa a de uma parteira, profiss\u00e3o de sua m\u00e3e, dizendo que ele mesmo n\u00e3o tinha que dar \u00e0 luz sabedoria, mas apenas ajudar os outros a parir suas ideias.\u201d (ST\u00d6RIG, 2009, p.124). <i>\u00a0<\/i>Partindo do m\u00e9todo ir\u00f4nico-refutador, S\u00f3crates ajuda ao outro a ir em busca da verdade e principalmente empenhava na descoberta e na quest\u00e3o que sempre o incomodou: \u201cConhece-te a ti mesmo\u201d.<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Socrates,%20Jackson.docx#_ftn3\"><sup><\/sup><sup>[3]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, as grandes marcas metodol\u00f3gicas de S\u00f3crates no pensamento da Paideia grega s\u00e3o seus m\u00e9todos diferenciados e que faziam o pensamento, as ideias e a verdade assumir seu car\u00e1ter reflexivo e epistemol\u00f3gico, n\u00e3o o deixando como opini\u00e3o (<i>doxa<\/i>) e\/ou ret\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>M\u00e9todo sofista<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Devido ao pensamento de Plat\u00e3o e outros disc\u00edpulos de S\u00f3crates, os sofistas foram vistos apenas como um mercantilizadores do saber. Entretanto, com os estudos atuais e toda a reflex\u00e3o hist\u00f3rico-cr\u00edtica, os pensadores t\u00eam os apontado como grandes conhecedores e ret\u00f3rico de seu tempo que passavam seus conhecimentos aos que podiam remuner\u00e1-los (existem autores que afirmam que os sofistas tamb\u00e9m possu\u00edam turmas gratuitas), sem ter por finalidade somente o car\u00e1ter financeiro, mas antes a democratiza\u00e7\u00e3o do saber (LISBOA, 2011, p. 113-116). Com o intuito de conhecer seu m\u00e9todo e suas ideias pretendemos aqui apresent\u00e1-los, para podermos fazer uma an\u00e1lise junto \u00e0s caracter\u00edsticas socr\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O m\u00e9todo sofista assumia um car\u00e1ter de ensinamento dos saberes que obtinham de pensadores anteriores e tamb\u00e9m da capacidade de defender a ideias e pensamentos que o sujeito tinha. Sua caracter\u00edstica mais marcante n\u00e3o \u00e9 a busca do saber, mas antes de uma forma\u00e7\u00e3o sobre os recursos da linguagem e tamb\u00e9m sobre a arquitetura das ideias pessoais em busca da conquista e vit\u00f3ria, ret\u00f3rico\/orat\u00f3ria, do outro e seus argumentos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Al\u00e9m disso, deve-se a eles grandes conquistas, destacando-se tr\u00eas realiza\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">[&#8230;] os sofistas pela primeira vez na filosofia grega, desviaram o olhar da natureza e dirigiram-no mais amplamente para o <i>homem<\/i>; segundo, foram eles os primeiros a fazer do <i>pensamento<\/i> objeto de pensamento, dando in\u00edcio a uma cr\u00edtica de suas condi\u00e7\u00f5es, possibilidades e limites. E por \u00faltimo submeteram os padr\u00f5es dos valores \u00e9ticos a uma reflex\u00e3o perfeitamente racional, com isso abrindo possibilidade de a \u00e9tica ser tratada cientificamente, e de fazer-se dela um sistema filos\u00f3fico coerente. (ST\u00d6RIG, 2009, p.120)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim sendo, devemos superar o preconceito trazido no pensamento filos\u00f3fico sobre os sofistas, como somente <i>charlat\u00f5es<\/i> do saber e assumi-los tamb\u00e9m como pensadores da realidade humana e homens que distribu\u00edam seu conhecimento a todos, mesmo que de forma remunerada. Ainda devemos ter consci\u00eancia de seu papel significativo de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 reflex\u00e3o antropol\u00f3gica e \u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Considera\u00e7\u00f5es finais: um breve paralelo<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aqui n\u00e3o pretendemos deixar a reflex\u00e3o se findar, mas antes apresent\u00e1-la como um poss\u00edvel caminho de aprofundamento diante das realidades e compara\u00e7\u00f5es feitas entre o m\u00e9todo socr\u00e1tico e o m\u00e9todo sofista. Para isso, pretendemos apresentar tanto os aspectos de encontro do pensamento de S\u00f3crates com os sofistas, bem como suas diverg\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quanto as pontos de encontro entre S\u00f3crates e os sofistas apresentamos 3 como mais marcantes, a saber: ambos acreditam na capacidade de todo o ser humano conhecer e pensar; ambos utilizam m\u00e9todos para o processo de conhecimento, ainda que os empreguem de forma divergente; tanto S\u00f3crates (\u201cConhece-te a ti mesmo\u201d e o conhecimento \u00e9 virtude) como os sofistas (\u201co homem \u00e9 a medida de todas as coisas\u201d) se atentam para quest\u00f5es antropol\u00f3gicas e \u00e9ticas em detrimento das cient\u00edfico-f\u00edsicas<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Socrates,%20Jackson.docx#_ftn4\"><sup><\/sup><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quanto aos pontos de diverg\u00eancia entre o m\u00e9todo socr\u00e1tico e o sof\u00edstico, podemos tamb\u00e9m apontam 3 principais caracter\u00edsticas, cuja rela\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel desfazer: S\u00f3crates se preocupa em descobrir a verdade ou o saber verdadeiro, em contrapartida os sofistas est\u00e3o preocupados em vencer o discurso, com argumento ret\u00f3rico e n\u00e3o descobrir a verdade \u2013 alguns s\u00e3o considerados at\u00e9 mesmo c\u00e9tico ou relativistas, ou seja, que n\u00e3o acreditam em uma verdade ou n\u00e3o podem atingi-la; S\u00f3crates se considera um desconhecedor ou ignorante contra os sofistas que se consideram os verdadeiros s\u00e1bios; S\u00f3crates modifica o centro do saber: \u201cMas o que S\u00f3crates aplicava era uma forma particular de conversa e ensinamento. A situa\u00e7\u00e3o normal, em que o disc\u00edpulo pergunta\u00a0 e o mestre responde, \u00e9 nele invertida. \u00c9 ele quem pergunta\u201d (ST\u00d6RIG, 2009, p.124).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, n\u00e3o se deve considerar S\u00f3crates e os sofistas longes e\/ou totalmente contr\u00e1rios, mas antes ter aten\u00e7\u00e3o para seus devidos estilos de pensamento e de Paideia \u2013 sabendo perceber os pontos de encontro\/desencontro que um tomou do outro. Al\u00e9m disso, esta reflex\u00e3o poder\u00e1 nos ajudar a superar os preconceitos investidos sobre os sofistas, que muitas vezes Plat\u00e3o e outros disc\u00edpulos de S\u00f3crates\/Plat\u00e3o passaram ao pensamento e hist\u00f3ria posterior.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">LISBOA, J. A. <i>et al.<\/i> <i>Paideia:<\/i> T\u00f3picos de Filosofia e Educa\u00e7\u00e3o. Batatais: Centro Universit\u00e1rio Claretiano, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni. <i>Hist\u00f3ria da Filosofia:<\/i> Filosofia Pag\u00e3. 3.ed. S\u00e3o Paulo, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ST\u00d6RIG. Hans Joachim. <i>Hist\u00f3ria Geral da Filosofia<\/i>. 2.ed. Petr\u00f3polis: Editora Vozes, 2009.<\/p>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<hr \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Socrates,%20Jackson.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> S\u00f3crates n\u00e3o atribu\u00eda o conhecimento e as ideias como originais de si, mas dos que ele interpelava com seus questionamentos.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Socrates,%20Jackson.docx#_ftnref2\">[2]<\/a> S\u00f3crates percebia-se como n\u00e3o portador do conhecimento (\u201cSei que nada sei\u201d) e partia a interpelar os \u201cs\u00e1bios\u201d, numa formula dial\u00f3gica-dial\u00e9tica.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Socrates,%20Jackson.docx#_ftnref3\">[3]<\/a> Segundo alguns pensadores suas quest\u00f5es sempre se voltava para essa reflex\u00e3o, devido a sua cren\u00e7a de que a virtude era o conhecimento. (ST\u00d6RIG, 2009, p.124-125.)<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Socrates,%20Jackson.docx#_ftnref4\">[4]<\/a> Anterior a eles, a grande preocupa\u00e7\u00e3o dos pensadores e fil\u00f3sofos era descobrir a origem do universo: \u201cTodos t\u00eam como objetivo buscar uma explica\u00e7\u00e3o para o mundo natural, sendo, neste sentido, <i>filosofias da natureza<\/i>.\u201d (ST\u00d6RIG, 2009, p.100)<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jackson de Sousa Braga S\u00f3crates \u00e9 um dos fil\u00f3sofos mais conhecidos de toda a humanidade. Ele se op\u00f4s a um grupo famoso e tido como manipulador do poder intelectual de at\u00e9 ent\u00e3o, os sofistas. 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