{"id":2387,"date":"2012-11-04T22:36:32","date_gmt":"2012-11-05T01:36:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2387"},"modified":"2012-11-04T22:36:32","modified_gmt":"2012-11-05T01:36:32","slug":"consciencia-de-si","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2387","title":{"rendered":"A consci\u00eancia-de-si enquanto caminho de reconhecimento do Outro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Daniel Junio Gon\u00e7alves da Silva<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Georg Wilhelm Friedrich Hegel (Alemanha, 1770-1831) \u00e9 considerado o \u00faltimo dos fil\u00f3sofos modernos e que escreve de modo sistem\u00e1tico. Seu pensamento influenciou muitos fil\u00f3sofos posteriores que se dividiram a seu favor e contra; em direita e esquerda hegeliana.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O presente artigo tem como base a obra \u201cFenomenologia do Esp\u00edrito\u201d, mais especificamente o cap\u00edtulo IV realizando uma interpreta\u00e7\u00e3o da dial\u00e9tica do senhor e do escravo. Assim como muitos fil\u00f3sofos, Hegel prop\u00f5e com a \u201cFenomenologia do Esp\u00edrito\u201d um novo jeito de filosofar, ou melhor, um jeito pr\u00f3prio de filosofar. Nosso objetivo aqui \u00e9 mostrar a import\u00e2ncia da alteridade, do outro. Mostrar que diante do outro a consci\u00eancia n\u00e3o pode querer simplesmente domin\u00e1-lo. Poder\u00edamos partir do ponto que Hegel \u00e9 o fil\u00f3sofo da consci\u00eancia, pois na presente obra deu grande \u00eanfase a este tema e prop\u00f4s, como nos diz Marcondes, (2004, p. 216), uma virada significativa: \u201cHegel pretende substituir o problema epistemol\u00f3gico da fundamenta\u00e7\u00e3o do conhecimento pela autorreflex\u00e3o fenomenol\u00f3gica da mente, entendendo a Fenomenologia como a ci\u00eancia dos atos da consci\u00eancia\u201d. Mas tomando num sentido mais amplo, poder\u00edamos compreender a Fenomenologia como a ci\u00eancia da manifesta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A cada vez que o homem filosofa, ele realiza um movimento de sa\u00edda de sua consci\u00eancia comum e vai \u00e0 procura do absoluto. \u201cOra, o itiner\u00e1rio da Fenomenologia \u00e9 a progressiva media\u00e7\u00e3o desta oposi\u00e7\u00e3o at\u00e9 sua total supera\u00e7\u00e3o, e percorre as seguintes etapas: consci\u00eancia (em sentido estrito), autoconsci\u00eancia, raz\u00e3o, esp\u00edrito, religi\u00e3o, saber absoluto\u201d. (REALE, 2005, p. 111). Percebemos que para Hegel o homem deve chegar ao saber absoluto e para tal \u00e9 preciso que ele abandone as finitudes da consci\u00eancia, uma vez que sua consci\u00eancia por si mesma \u00e9 limitada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esclare\u00e7amos para melhor entendermos o termo usado por Hegel chamado consci\u00eancia-de-si. \u201cA consci\u00eancia-de-si \u00e9 em si e para si quando e porque \u00e9 em si e para si uma Outra; quer dizer, s\u00f3 \u00e9 como algo reconhecido\u201d (HEGEL, 1988, p. 126). Nesta parte do cap\u00edtulo IV da \u201cFenomenologia do Esp\u00edrito\u201d, Hegel delibera sobre a independ\u00eancia e depend\u00eancia da consci\u00eancia-de-si, ou seja, sobre a domina\u00e7\u00e3o e a escravid\u00e3o. Pela raz\u00e3o de Hegel escrever de modo fortemente sistem\u00e1tico, antes de aprofundarmos na tem\u00e1tica da consci\u00eancia-de-si, precisamos esclarecer que o esp\u00edrito que se manifesta \u00e9 a consci\u00eancia em sentido lato e que a Fenomenologia possui etapas ou n\u00edveis. \u201cA tese de Hegel \u00e9 que toda consci\u00eancia \u00e9 autoconsci\u00eancia; por sua vez, a autoconsci\u00eancia se descobre como raz\u00e3o; por fim, a raz\u00e3o realiza-se plenamente como esp\u00edrito, que, atrav\u00e9s da religi\u00e3o, alcan\u00e7a seu ponto culminante no saber absoluto\u201d (REALE, 2005, p. 112). Em nosso trabalho entendemos autoconsci\u00eancia como sin\u00f4nimo de consci\u00eancia-de-si. Ap\u00f3s o t\u00e9rmino de cada uma destas etapas ou n\u00edveis deve-se passar para outra.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A primeira etapa, que \u00e9 da consci\u00eancia, em Hegel tem sentido menos abrangente, pois somente chegar\u00e1 ao sentido lato depois de percorrer um caminho que j\u00e1 apresentamos aqui. A consci\u00eancia \u00e9 aquela que conhece o mundo, e analisando esta etapa podemos notar que ela se divide em tr\u00eas momentos que s\u00e3o sucessivos: certeza sens\u00edvel, percep\u00e7\u00e3o e intelecto. Estes momentos se encontram interligados de modo dial\u00e9tico. Os dois primeiros momentos que s\u00e3o o da certeza sens\u00edvel e o da percep\u00e7\u00e3o s\u00e3o importantes, por\u00e9m podem criar equ\u00edvocos. A consci\u00eancia deve compreender que os objetos sens\u00edveis devem passar pelo crivo do intelecto; al\u00e9m do mais, o objeto depende da pr\u00f3pria consci\u00eancia. A oposi\u00e7\u00e3o que \u00e9 desenvolvida entre sujeito e objeto deve ser resolvida, sanada. \u201cConsci\u00eancia indica sempre rela\u00e7\u00e3o determinada entre um &#8220;eu&#8221; e um &#8220;objeto&#8221;, rela\u00e7\u00e3o sujeito-objeto. A oposi\u00e7\u00e3o sujeito-objeto, portanto, \u00e9 caracter\u00edstica distintiva da consci\u00eancia\u201d (REALE, 2005, p. 112). Superada a oposi\u00e7\u00e3o e passados os tr\u00eas momentos, culminando no terceiro, que \u00f3 o do intelecto, temos a passagem da etapa da consci\u00eancia para a etapa da consci\u00eancia-de-si.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Depois de esclarecida a primeira etapa que \u00e9 a da consci\u00eancia, podemos aprofundar mais na segunda que \u00e9 nosso objeto de estudo. Hegel mostra que no processo que a Fenomenologia tra\u00e7a, quando se chega na etapa da consci\u00eancia-de-si ou do saber de si, esta etapa n\u00e3o deve ser constru\u00edda ou percorrida de forma equivocada. Na consci\u00eancia-de-si alguns aspectos devem ser superados e melhorados. Uma primeira atitude que deve ser mudada com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 consci\u00eancia-de-si \u00e9 com rela\u00e7\u00e3o ao reconhecimento do outro, reconhecimento da alteridade. A consci\u00eancia-de-si n\u00e3o deve ser uma consci\u00eancia que negue a alteridade. Hegel quer nos mostrar que a consci\u00eancia-de-si deve estar aberta para o outro: \u201cassim seus momentos devem, de uma parte, ser mantidos rigorosamente separados, e de outra parte, nessa diferen\u00e7a, devem ser tomados ao mesmo tempo como n\u00e3o diferentes, ou seja, devem sempre ser tomados e reconhecidos em sua significa\u00e7\u00e3o oposta\u201d (HEGEL, 1988, p. 126). \u00c9 marca inicial da consci\u00eancia-de-si excluir o outro. A consci\u00eancia-de-si no in\u00edcio se deixa ser influenciada pelo desejo, destarte procura tomar posse das coisas e criar uma situa\u00e7\u00e3o para que tudo dependa si. Ela chega at\u00e9 mesmo ao ponto de negar o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Chegamos ent\u00e3o \u00e0 dial\u00e9tica do senhor e do escravo. O senhor \u00e9 aquele que n\u00e3o hesitou em sair para a luta, ele n\u00e3o teve medo do outro, viu o outro como negativo que pode ser vencido e alcan\u00e7ou a vit\u00f3ria. \u201cO senhor \u00e9 a pot\u00eancia que est\u00e1 por cima desse ser; ora, esse ser \u00e9 a pot\u00eancia que est\u00e1 sobre o Outro; logo, o senhor tem esse Outro por baixo de si: \u00e9 este o silogismo [da domina\u00e7\u00e3o]\u201d (HEGEL, 1988, p. 130). J\u00e1 com o escravo acontece o contr\u00e1rio, este por medo da morte se sujeitou ao senhor e tornou-se dependente dele. Como \u00e9 pot\u00eancia do senhor, este aproveita e abusa do escravo. \u201cO senhor n\u00e3o est\u00e1 certo do ser-para-si como verdade; mas sua verdade \u00e9 de fato a consci\u00eancia inessencial e o agir inessencial dessa consci\u00eancia\u201d (HEGEL, 1988, p. 131). Com essa afirma\u00e7\u00e3o conseguimos perceber que da rela\u00e7\u00e3o entre o senhor e o escravo elenca-se a seguinte consequ\u00eancia: o senhor ao inv\u00e9s de se tornar independente como sempre fora, acaba se tornando dependente. Mas afinal de contas por qual motivo o senhor acaba se tornando dependente visto que sua figura propicia cada vez mais a independ\u00eancia? Em sua c\u00f4moda posi\u00e7\u00e3o o senhor vai aos poucos desaprendendo a fazer muitas coisas que agora seu escravo realiza. Se por um lado o senhor perde independ\u00eancia, por outro o servo vai se tornando cada vez mais independente, pois \u00e9 ele que faz e acontece.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Hegel n\u00e3o quer com a dial\u00e9tica do senhor e do escravo valorizar uma consci\u00eancia-de-si mais do que a outra, visto que no cap\u00edtulo IV fala de duas consci\u00eancias-de-si que v\u00e3o se confrontando; na verdade ele quer mostrar a import\u00e2ncia destas caminharem juntas, de n\u00e3o acontecer a nega\u00e7\u00e3o de uma sobre a outra. Hegel quer propor uma submiss\u00e3o entre as consci\u00eancias; submiss\u00e3o e n\u00e3o subservi\u00eancia. A consci\u00eancia-de-si deve sair do estado do \u201cem si\u201d e chegar ao estado do \u201cpara si\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>Portanto, a rela\u00e7\u00e3o das duas consci\u00eancias-de-si \u00e9 determinada de tal modo que elas se provam a si mesmas e uma a outra atrav\u00e9s de uma luta de vida ou morte. Devem travar esta luta, porque precisam elevar \u00e0 verdade, no Outro e nelas mesmas, sua certeza de ser-para-si. S\u00f3 mediante o p\u00f4r a vida em risco, a liberdade [se conquista]; e se prova que a ess\u00eancia da consci\u00eancia-de-si n\u00e3o \u00e9 o ser, nem o modo imediato como ela surge, nem o seu submergir-se na expans\u00e3o da vida; mas que nada h\u00e1 na consci\u00eancia-de-si que n\u00e3o seja para ela momento evanescente; que ela \u00e9 somente puro ser-para-si. (HEGEL, 1988, p. 128).<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em suma, com esta luta, Hegel quer mostrar que: \u201cA luta pela vida ou pela morte, por meio da qual e somente por meio da qual a autoconsci\u00eancia se realiza sai da posi\u00e7\u00e3o abstrata do <i>em si<\/i> e torna-se <i>para si\u201d <\/i>(REALE, 2005, p. 113). Podemos perceber que a vida se d\u00e1 quando a consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 negada quando n\u00e3o \u00e9 tratada sob a \u00f3tica do servilismo. A morte se d\u00e1 no movimento contr\u00e1rio a este movimento que aqui apresentamos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A dial\u00e9tica do senhor e do escravo e tamb\u00e9m o movimento de suprassun\u00e7\u00e3o em Hegel presentes neste cap\u00edtulo, querem nos mostrar que se tratam de movimentos dial\u00e9ticos onde neles nenhum ser, ou melhor, adequando ao nosso texto, nenhuma consci\u00eancia permanecer\u00e1 sobreposta \u00e0 outra. Senhor e escravo n\u00e3o s\u00e3o apenas superior e inferior; mas s\u00e3o os dois juntos, pois conforme j\u00e1 explicitamos, n\u00e3o h\u00e1 superioridade. Est\u00e3o juntos, pois a banaliza\u00e7\u00e3o de uma das consci\u00eancias ou a banaliza\u00e7\u00e3o do senhor sobre o escravo n\u00e3o leva a lugar algum. O senhor precisa do escravo, o escravo precisa do senhor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">HEGEL, George W. F. <i>Fenomenologia do Esp\u00edrito.<\/i> Trad. Paulo Meneses e Karl-Heinz Efken. Petr\u00f3polis: Vozes, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MARCONDES, Danilo. <i>Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria da Filosofia: <\/i>dos pr\u00e9-socr\u00e1ticos \u00e0 Wittgenstein. 8. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <i>Hist\u00f3ria da Filosofia: <\/i>do Romantismo ao Empiriocriticismo, v. 5. Trad. Ivo Storniolo. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Junio Gon\u00e7alves da Silva Georg Wilhelm Friedrich Hegel (Alemanha, 1770-1831) \u00e9 considerado o \u00faltimo dos fil\u00f3sofos modernos e que escreve de modo sistem\u00e1tico. Seu pensamento influenciou muitos fil\u00f3sofos posteriores que se dividiram a seu favor e contra; em direita e esquerda hegeliana. 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