{"id":2397,"date":"2012-11-05T08:53:24","date_gmt":"2012-11-05T11:53:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2397"},"modified":"2012-11-05T08:53:24","modified_gmt":"2012-11-05T11:53:24","slug":"o-esvaziamento-do-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2397","title":{"rendered":"O esvaziamento do homem"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><b>Victor Hugo Silva<\/b><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O pensamento de Karl Marx (1818-1883) tornou-se na contemporaneidade umas das correntes mais discutidas, n\u00e3o somente pelo seu teor filos\u00f3fico, mas tamb\u00e9m econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social.\u00a0 Sua teoria surgiu no s\u00e9culo XIX, oriundo de um contexto hist\u00f3rico marcado pela expans\u00e3o do capitalismo e por uma expressiva explora\u00e7\u00e3o do homem em favor do desenvolvimento t\u00e9cnico.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Neste sentido, a sua filosofia da <i>pr\u00e1xis<\/i><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Marx,%20Victor.docx#_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>, se colocando numa maneira libertadora de algo que aliena o homem, recontextualiza o sentido antropol\u00f3gico no que se chamaria <i>materialismo hist\u00f3rico<\/i>. Ou seja, o sentido existencial humano, nesta concep\u00e7\u00e3o marxista, perder\u00e1 seu horizonte metaf\u00edsico para ser substitu\u00eddo, somente, pela abrang\u00eancia finita e materialista do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao que foi exposto no par\u00e1grafo acima, n\u00e3o pretendemos fazer uma cr\u00edtica a todo sistema marxista. Contudo, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o ao abordar sua filosofia como <i>pr\u00e1xis <\/i>social, buscamos nela inquirir qual o papel do homem nesta pr\u00e1xis e sua conseq\u00fc\u00eancia para a compreens\u00e3o antropol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao considerar o homem como fruto <i>natural <\/i>e <i>hist\u00f3rico<\/i>, Marx coloca uma \u00fanica necessidade que se faz natural e, tamb\u00e9m hist\u00f3rica, na exist\u00eancia do individuo, a saber: o trabalho. N\u00e3o obstante, encontramos o primeiro determinismo no pensamento marxista, isto \u00e9, o homem se faz no seu trabalho a partir de sua natureza: \u201ca ess\u00eancia subjetiva da propriedade privada, a pr\u00f3pria propriedade privada enquanto atividade para si, como sujeito, como pessoa, \u00e9 o trabalho\u201d (MARX, 1978, p.3).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A ess\u00eancia do homem \u00e9 o trabalho. At\u00e9 aqui, qual \u00e9 o problema disso? N\u00e3o \u00e9 bom que o homem se construa de maneira social e econ\u00f4mica a partir de seu labor? At\u00e9 certo ponto Marx v\u00ea o trabalho como ben\u00e9fico para o homem, por que faz parte de sua condi\u00e7\u00e3o natural<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Marx,%20Victor.docx#_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No entanto, Marx v\u00ea um problema em seu tempo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Entretanto, se olharmos para a hist\u00f3ria e a sociedade [da \u00e9poca], veremos que o trabalho n\u00e3o \u00e9mais feito juntamente com os outros homens, pela necessidade de apropria\u00e7\u00e3o da natureza externa, veremos que n\u00e3o \u00e9 mais realizado pela necessidade de objetivar a pr\u00f3pria humanidade, as pr\u00f3prias id\u00e9ias e projetos, na mat\u00e9ria-prima. Oque vemos \u00e9 que o homem trabalha pela sua pura subsist\u00eancia (REALE, 2005, p.176).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mas, ao perceber que este trabalho, por sua vez, estava sendo alienado<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Marx,%20Victor.docx#_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, fugindo de uma condi\u00e7\u00e3o natural, ele \u2013 Marx \u2013 propor\u00e1 uma dial\u00e9tica da desconstru\u00e7\u00e3o, pegando como via negativa a estrutura hegeliana<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Marx,%20Victor.docx#_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Neste sentido, a s\u00edntese ser\u00e1<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Toda emancipa\u00e7\u00e3o [ser\u00e1] um retorna das rela\u00e7\u00f5es, ao pr\u00f3prio ser humano (&#8230;). Somente se o ser humano realmente individual retomar a si como cidad\u00e3o abstrato e, em seu trabalho individual, em suas rela\u00e7\u00f5es individuais, torna-se ente da classe, somente se o ser humano reconhecer e organizar suas for\u00e7as pr\u00f3prias e, por isso n\u00e3o mais separar de si, na for\u00e7a social, a for\u00e7a pol\u00edtica, somente ent\u00e3o estar\u00e1 conclu\u00edda a emancipa\u00e7\u00e3o humana (WOLFDIETRICH, p. 138, 2006).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim, chegamos ao aspecto esperado na vis\u00e3o antropol\u00f3gica de Marx. Ou seja, o homem consistir-se-\u00e1 pelo seu contexto hist\u00f3rico e social e nada mais do que isso. Na dial\u00e9tica humana, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o a constr\u00f3i da seguinte maneira: \u201c(&#8230;) o homem possui seu ato de nascimento: a hist\u00f3ria, que, no entanto, \u00e9 para ele uma hist\u00f3ria consciente (&#8230;)\u201d. A hist\u00f3ria \u00e9 a verdadeira <i>hist\u00f3ria<\/i> natural do homem (MARX, p.41, 1978).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, ao que percebemos na discuss\u00e3o acima, o homem nasce dentro de uma bitola hist\u00f3rica, que ser\u00e1 marcado pelo confronto de classes<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Marx,%20Victor.docx#_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. Por conseguinte, este mesmo homem ser\u00e1 fruto destes confrontos ao qual ele estar\u00e1 empenhado pela sua emancipa\u00e7\u00e3o material!<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por\u00e9m, ser\u00e1 que a realiza\u00e7\u00e3o humana incide predominantemente pela mat\u00e9ria? E o problema do mal seria resolvido pelo comunismo<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Marx,%20Victor.docx#_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>? E a filosofia, n\u00e3o seria reduzida ao uma mera sociologia hist\u00f3rica? Ali\u00e1s, haveria espa\u00e7o para a filosofia? E, sobretudo, haveria espa\u00e7o para o homem dotado de suas potencialidades e individualidade? Dado que Marx prop\u00f5e uma sa\u00edda da aliena\u00e7\u00e3o no contexto materialista, o homem cai em sua teoria numa aliena\u00e7\u00e3o da liberdade! Com isso, a potencialidade do homem \u201cSer\u201d se aliena na potencialidade da mat\u00e9ria. Pois n\u00e3o restar\u00e1 perspectiva alguma para o homem na teoria marxista, a n\u00e3o ser se alienar na coletividade da massa, perdendo assim, sua singularidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esta singularidade que dissolvida num bem comum ele \u00e9 conseq\u00fcente em todos os aspectos da vida do homem, ou seja, no trabalho, nos bens, no modo de pensar, de agir, de professar algo. E, \u00e9 neste sentido que afirmei na introdu\u00e7\u00e3o ao dizer que <i>o homem perder\u00e1 sua perspectiva metaf\u00edsica<\/i>. Isto \u00e9, n\u00e3o existe sujeito agente que pensa, cria, manifesta, mas massa passiva que age em favor de um bem comum estabelecido-determinado por alguns dentro do sistema comunista. E por isso, questionamos: a realiza\u00e7\u00e3o humana \u00e9 s\u00f3 pela mat\u00e9ria?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nesta perspectiva, a realiza\u00e7\u00e3o humana ser\u00e1 em vista de uma materialidade comum do seres de uma comunidade, que tem um paradigma de <i>bem<\/i> que esbo\u00e7a uma resolu\u00e7\u00e3o dos problemas humanos. E por isso, questionamos novamente: a realiza\u00e7\u00e3o humana \u00e9 s\u00f3 pela mat\u00e9ria? A dimens\u00e3o da realiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria se perderia, pois a felicidade do outro objetivamente deve ser a minha felicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E neste sentido, fazendo uma cr\u00edtica a este aspecto do pensamento marxista, retomo um questionamento feito acima: h\u00e1 espa\u00e7o para a filosofia? Sendo ela \u2013 a filosofia &#8211; um instrumento humano de busca da verdade, ela perderia sua potencialidade, pois, j\u00e1 haveria uma verdade estabelecida e imut\u00e1vel, n\u00e3o pass\u00edvel de uma reflex\u00e3o acerca dela. A mat\u00e9ria que amparada pela id\u00e9ia de bem-comunista seria o dogma filos\u00f3fico marxista. E por isso, n\u00e3o poder\u00edamos filosofar e nem buscar a realiza\u00e7\u00e3o humana fora das redomas propostas pelo marxismo. E nisto, o homem vir\u00e1 a ser escravo de uma id\u00e9ia de liberdade que, \u00e9 mais pris\u00e3o do que liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MARX, Karl. <i>Pensamentos<\/i>. S\u00e3o Paulo: Nova cultural, 1978 Os Pensadores).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <i>Hist\u00f3ria da filosofia: <\/i>do Romantismo ao Empiriocriticismo<i>.<\/i> S\u00e3o Paulo: Paulus, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SCHMIED-KOWARZIK, Wolfdietrich. A dial\u00e9tica como fundamento da pr\u00e1tica <i>In: <\/i>FLAISCHER, M; HENNIGFELD, J (org). <i>Fil\u00f3sofos do s\u00e9culo XIX<\/i>. Rio Grande do Sul: Unisinos, 2006.<\/p>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<hr \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Marx,%20Victor.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> Assim considerada.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Marx,%20Victor.docx#_ftnref2\">[2]<\/a> Ele faz compara\u00e7\u00e3o an\u00e1loga aos animais, ou seja, as formigas constroem suas casas; os p\u00e1ssaros fazem seus ninhos; os le\u00f5es ca\u00e7am sua pr\u00f3pria comida e etc.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Marx,%20Victor.docx#_ftnref3\">[3]<\/a> Conceito retomado por Marx para esbo\u00e7ar o que \u00e9 tirado do homem. Em s\u00edntese, \u00e9 aquilo que o homem produz, por\u00e9m n\u00e3o desfruta deste algo produzido. Com isso, h\u00e1 uma aliena\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, foi tirado do homem o seu direito.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Marx,%20Victor.docx#_ftnref4\">[4]<\/a> N\u00e3o entraremos no m\u00e9rito do trabalho como Marx reverteu \u00e0 teoria de Hegel.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Marx,%20Victor.docx#_ftnref5\">[5]<\/a> Na vis\u00e3o marxista toda hist\u00f3ria \u00e9 marcada conflitos entre classes.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Marx,%20Victor.docx#_ftnref6\">[6]<\/a> O comunismo \u00e9 fruto de toda teoria marxista, que visa uma igualdade material para todos. Segundo alguns te\u00f3ricos, este sistema seria a resolu\u00e7\u00e3o de todos os problemas humanos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Victor Hugo Silva\u00a0 O pensamento de Karl Marx (1818-1883) tornou-se na contemporaneidade umas das correntes mais discutidas, n\u00e3o somente pelo seu teor filos\u00f3fico, mas tamb\u00e9m econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social.\u00a0 Sua teoria surgiu no s\u00e9culo XIX, oriundo de um contexto hist\u00f3rico marcado pela expans\u00e3o do capitalismo e por uma expressiva explora\u00e7\u00e3o do homem em favor do &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[107,158],"tags":[340,368,435,495],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2397","6":"format-standard","7":"category-marx","8":"category-victor-hugo-silva","9":"post_tag-homem","10":"post_tag-liberdade","11":"post_tag-praxis","12":"post_tag-trabalho"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2397","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2397"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2397\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2397"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2397"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2397"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}