{"id":2408,"date":"2012-11-05T09:07:33","date_gmt":"2012-11-05T12:07:33","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2408"},"modified":"2012-11-05T09:07:33","modified_gmt":"2012-11-05T12:07:33","slug":"o-sentido-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2408","title":{"rendered":"O sentido da morte na anal\u00edtica existencial do Dasein de Heidegger"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><b>Rafael Guimar\u00e3es de Oliveira<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Tendo como objetivo principal da obra <i>Ser e Tempo<\/i> a busca por outro sentido do ser que fuja de todas as perspectivas apontadas at\u00e9 ent\u00e3o pela hist\u00f3ria da metaf\u00edsica, Heidegger (1889-1979), filosofo alem\u00e3o e expoente do existencialismo, prop\u00f5e uma an\u00e1lise da exist\u00eancia do ente, donde ele possa extrair o adequado sentido do ser. Esse movimento parte da critica heideggeriana \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o da metaf\u00edsica, na qual ele aponta um esquecimento do ser, diante da pergunta sobre o que ele \u00e9, e, a partir desse esquecimento, a composi\u00e7\u00e3o de discursos vazios, que n\u00e3o revelam o verdadeiro sentido do mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para resolver o problema apontado, Heidegger, na obra em estudo, se empenha numa an\u00e1lise existencial do ente para se chegar ao real significado do ser. Se a tradi\u00e7\u00e3o da metaf\u00edsica perguntou <i>o que \u00e9 o ser?<\/i>, ele perguntar\u00e1 <i>o que \u00e9 o ente?<\/i> para compor um discurso sobre o ser. \u00c9 a partir da an\u00e1lise da exist\u00eancia do <i>Dasein<a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Heidegger,%20Rafael.docx#_ftn1\"><sup><b><sup>[1]<\/sup><\/b><\/sup><\/a>,<\/i> em tr\u00eas tra\u00e7os fundamentais, que o filosofo da floresta negra tenta concretizar o objetivo de seu escrito. Esses tra\u00e7os alicer\u00e7adores da exist\u00eancia do <i>Dasein<\/i> s\u00e3o: <i>ser-no-mundo<\/i>,<i> ser-com-os-outros<\/i> e<i> ser-para-a-morte<\/i>. Em nosso artigo discorreremos mais demoradamente sobre o terceiro tra\u00e7o, dando os contornos mais significativos desse existencial, e delimitando o sentido de <i>morrer<\/i> para a filosofia heideggeriana. Mas antes, passaremos por uma compreens\u00e3o sucinta do que se refere o <i>ser-no-mundo <\/i>e <i>ser-com-o-outro<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o ao <i>ser-no-mundo<\/i> dizemos que significa que n\u00e3o existe sujeito fora do mundo. O <i>Dasein<\/i> se lan\u00e7a ao mundo. O sentido desse existencial se d\u00e1 quando o <i>Dasein <\/i>estabelece rela\u00e7\u00f5es com as coisas, e assume o cuidado delas, isto \u00e9, confere um sentido a sua exist\u00eancia quando entra em contato com as coisas no espa\u00e7o. Em rela\u00e7\u00e3o ao <i>ser-com-os-outros<\/i> dizemos que n\u00e3o existe sujeito isolado dos outros. O sentido desse existencial est\u00e1 nas rela\u00e7\u00f5es afetivas que o <i>Dasein <\/i>estabelece com o outro, e assim assume o cuidado dele.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O <i>Dasein<\/i>, quando lan\u00e7ado para o mundo e em comunh\u00e3o com os outros, vai conferindo sentido \u00e0 sua exist\u00eancia a partir das escolhas feitas por ele, na lida com aquelas duas inst\u00e2ncias. Ele pode escolher qual trabalho ir\u00e1 dedicar-se, escolher com qual estudo ir\u00e1 comprometer-se e assim por diante. Nas escolhas que <i>Dasein<\/i> faz, diante de in\u00fameras possibilidades, ele est\u00e1 sendo, isto \u00e9, existindo. Dentre essa variedade de possibilidades, existe uma na qual o <i>Dasein<\/i> n\u00e3o pode optar. Trata-se da morte. O homem pode fazer qualquer escolha, exceto escolher n\u00e3o morrer. A vida humana aut\u00eantica \u00e9 aquela voltada para a possibilidade da morte \u2013 justamente aquela que ele n\u00e3o pode escolher \u2013 e n\u00e3o voltada para as possibilidades mundanas. Aqui est\u00e3o lan\u00e7adas as bases para a compreens\u00e3o do <i>ser-para-a-morte<\/i>, para onde nos dirigiremos a seguir, passando pelo caminho indicado por Dubois: \u201c[ser-para-a-morte] como ser poss\u00edvel, ser lan\u00e7ado, ser decadente\u201d (DUBOIS, 2004, p. 50).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Enquanto possibilidade, a morte \u00e9 a mais pr\u00f3pria do <i>Dasein<\/i>. Ela n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o alguma com o outro, muito menos com as coisas. A morte acontece com cada homem, e assim, individualmente, o homem experimenta-a; e um n\u00e3o pode interferir de modo algum na morte do outro. O ato de morrer coloca o <i>Dasein<\/i> num distanciamento radical do outro, o que \u00e9 indicador, positivamente, de que nesse momento o homem tem condi\u00e7\u00f5es de se compreender autenticamente, a partir de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Ademais, a morte, como possibilidade, marca a inexist\u00eancia de outras possibilidades. Ela \u00e9 o fim do <i>Dasein<\/i>, que existia a partir das escolhas que fazia diante das suas possibilidades. Nessa perspectiva afirma Dubois: \u201cA morte \u00e9 iminente. (&#8230;) Ela \u00e9 a possibilidade da impossibilidade do pr\u00f3prio ser-no-mundo\u201d (DUBOIS, 2004, p. 50).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O <i>ser-para-a-morte<\/i>, enquanto ser-lan\u00e7ado \u00e9 express\u00e3o de que o <i>Dasein<\/i> \u00e9 projetado para um fim. Ele tem a oportunidade de perceber que est\u00e1 sendo encaminhado para o fim. C\u00f4nscio dessa possibilidade, a mais pr\u00f3pria como j\u00e1 vimos, o homem convive com um o sentimento: o da angustia. \u00c9 esse sentimento que coloca o homem diante do n\u00e3o sentido da sua vida, da impossibilidade das possibilidades, em suma: da sua morte. E \u00e9 a forma com a qual o homem vive autenticamente sua vida: visando que a qualquer momento pode morrer.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O ser decadente significa que no existencial <i>ser-para-a-morte<\/i> o <i>Dasein<\/i> existe finitamente. \u00c9 o fato de que um dia ele, possivelmente, n\u00e3o ser\u00e1 <i>ser-no-mundo<\/i>. \u00c9 a vis\u00e3o de limite que o homem contempla. A percep\u00e7\u00e3o do limite existencial permite o <i>Dasein<\/i> testemunhar a totalidade do seu ser: a partir da morte, n\u00e3o sendo poss\u00edvel ser mais nada, o ser do homem se completou; tudo o que ele poderia ser, ele foi, e nada a mais que isto. E por \u00faltimo, assumindo a sua limita\u00e7\u00e3o, o <i>Dasein<\/i> sente-se impelido a buscar o sentido de sua exist\u00eancia por si mesmo. Para sintetizar esse processo tomemos a explica\u00e7\u00e3o de Doubois: \u201cA finitude \u00e9 a finitiza\u00e7\u00e3o, existir como finito, e a apropria\u00e7\u00e3o de si \u00e9 essa finitiza\u00e7\u00e3o, que mergulha no poss\u00edvel n\u00e3o ser mais, compreendendo seu ser a partir da\u00ed, como limitado, vindo \u00e0 exist\u00eancia desde seu limite\u201d (DOUBOIS, 2004, p. 51).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O caminho que at\u00e9 aqui perfazemos compreende o que significa o <i>ser-para-a-morte<\/i>, no conjunto anal\u00edtico da exist\u00eancia do <i>Dasein<\/i>, para o objetivo de Heidegger na obra <i>Ser e Tempo<\/i>. O nosso intento agora \u00e9 delimitar qual \u00e9 o sentido da an\u00e1lise da morte diante de outras vis\u00f5es desse acontecimento. Na verdade, acompanharemos o filosofo na distin\u00e7\u00e3o entre morrer e finar, mas veremos que, na anal\u00edtica existencial, h\u00e1 sempre um primado da compreens\u00e3o de <i>morrer<\/i>. Para isso, tomaremos o par\u00e1grafo 49 da obra em estudo. Percebemos, at\u00e9 aqui, o evento morte como possibilidade, projeto e limita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nesse excerto de <i>Ser e Tempo<\/i>, Heidegger contrap\u00f5e as compreens\u00f5es de morte e finar. A princ\u00edpio, as duas compreens\u00f5es parecem estar no mesmo n\u00edvel. Mas, n\u00e3o: a compreens\u00e3o de findar est\u00e1 relacionada ao processo bio-fisiol\u00f3gico humano, e morrer \u00e0 exist\u00eancia humana. O biol\u00f3gico \u00e9 uma parte da exist\u00eancia. A compreens\u00e3o de finar \u00e9 posterior a de morte. No caso que se diz finar, estamos falamos de uma realidade que pode ser escrutinada:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nesse campo [bio-fisiol\u00f3gico], pode-se alcan\u00e7ar, mediante uma constata\u00e7\u00e3o \u00f4ntica, dados e estat\u00edsticas acerca da dura\u00e7\u00e3o da vida das plantas, dos animais e dos homens. Podemos reconhecer nexos de dura\u00e7\u00e3o da vida, multiplica\u00e7\u00e3o e crescimento. Podemos pesquisar as \u2018esp\u00e9cies\u2019 de morte, as causas, \u2018instala\u00e7\u00f5es e meios\u2019 de seu surgimento (HEIDEGGER, 2006, p. 321).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">J\u00e1 no caso que se diz morrer, falamos de algo essencial na exist\u00eancia do <i>Dasein<\/i>, que \u00e9 individual e inacess\u00edvel, que o faz viver de modo mais aut\u00eantico, voltado para si mesmo. A compreens\u00e3o de morrer \u00e9 essencialmente anterior \u00e0 compreens\u00e3o de finar. Nesse sentido temos as seguintes palavras de Heidegger: \u201cMorrer (&#8230;) exprime o modo de ser em que a presen\u00e7a [<i>Dasein<\/i>] \u00e9 para sua morte. (&#8230;) a presen\u00e7a [<i>Dasein<\/i>] nunca fina. A presen\u00e7a [<i>Dasein<\/i>] s\u00f3 deixa de viver na medida em que morre.\u201d (HEIDEGGER, 2006, p. 322). Esse movimento todo nos ajuda a perceber qual \u00e9 o lugar que a compreens\u00e3o de morrer ocupa na filosofia heideggeriana, diante das possibilidades de se pensar a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, \u00e9 na analise existencial do <i>ser-para-a-morte<\/i>, na consci\u00eancia de que um dia deixar\u00e1 de existir, que o <i>Dasein<\/i> encontra a sua forma aut\u00eantica de vida. A fatalidade da morte \u00e9 uma voz que prediz o encontro do homem com o nada, no sentido que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser mais nada, que o grande prop\u00f3sito de <i>ser-no-mundo<\/i> se encerrou. Esse predizer da morte deve conduzir o homem a uma volta para si mesmo, faz\u00ea-lo tomar as <i>r\u00e9deas <\/i>de sua vida. N\u00f3s gostar\u00edamos de chegar nesse ponto da reflex\u00e3o, pois nele percebemos o quanto se faz necess\u00e1rio dar sentido a nossa exist\u00eancia, a partir de n\u00f3s mesmos, e insistir nesse sentido; e, fazendo as escolhas que nos \u00e9 poss\u00edvel, nos preparar para o momento que n\u00f3s n\u00e3o escolhemos, mas que, mais cedo ou mais tarde, nos convidar\u00e1 a encerrar o nosso projeto humano.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Partimos, para chegar a esse ponto, da critica de Heidegger \u00e0 metafisica tradicional, que n\u00e3o disse nada em rela\u00e7\u00e3o ao ser. O filosofo da floresta negra, ent\u00e3o, se empenhou nesse projeto chamado <i>Ser e tempo<\/i>, aonde falaria do ser analisando a exist\u00eancia dos entes. Uma \u00faltima considera\u00e7\u00e3o: embora tenha firmado a sua critica e proposto um novo caminho para dizer o ser, Heidegger tamb\u00e9m n\u00e3o deu conta de diz\u00ea-lo, pelo menos nesse projeto, o qual foi nosso objeto de estudo. Mesmo n\u00e3o dando conta de sua proposta, Heidegger nos deixou uma bela e consistente reflex\u00e3o existencial, que nos convida a rever como estamos agindo e escolhendo diante da inusitada certeza do dia em que morreremos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">DOUBOIS, Christian. <i>Heidegger<\/i>: introdu\u00e7\u00e3o a uma leitura. Trad. Bernardo de Oliveira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">HEIDEGGER, Martin. <i>Ser e Tempo<\/i>. Trad. M\u00e1rcia de S\u00e1. Petr\u00f3polis: Vozes, 2006.<\/p>\n<div style=\"text-align:justify;\">\n<hr \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"\/Academico\/Blog\/Heidegger,%20Rafael.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> Dasein significa <i>ser-a\u00ed<\/i>, e em \u00faltima an\u00e1lise \u00e9 o pr\u00f3prio homem.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rafael Guimar\u00e3es de Oliveira Tendo como objetivo principal da obra Ser e Tempo a busca por outro sentido do ser que fuja de todas as perspectivas apontadas at\u00e9 ent\u00e3o pela hist\u00f3ria da metaf\u00edsica, Heidegger (1889-1979), filosofo alem\u00e3o e expoente do existencialismo, prop\u00f5e uma an\u00e1lise da exist\u00eancia do ente, donde ele possa extrair o adequado sentido &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[57,124],"tags":[186,240,401,473],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2408","6":"format-standard","7":"category-heidegger","8":"category-rafael-guimaraes-de-oliveira","9":"post_tag-angustia","10":"post_tag-dasein","11":"post_tag-morte","12":"post_tag-ser-para-morte"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2408","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2408"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2408\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2408"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}