{"id":2412,"date":"2012-11-05T09:12:53","date_gmt":"2012-11-05T12:12:53","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2412"},"modified":"2012-11-05T09:12:53","modified_gmt":"2012-11-05T12:12:53","slug":"metafisica-possibilidade-ou-impossibilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2412","title":{"rendered":"Metaf\u00edsica: possibilidade ou impossibilidade?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><b>Rosemar Marcos<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aos nos reportarmos \u00e0s palavras de Nicola Abbagnano sobre a Metaf\u00edsica como \u201cCi\u00eancia primeira, por ter como objeto o objeto de todas as outras ci\u00eancias, e como princ\u00edpio um princ\u00edpio que condiciona a validade de todos os outros\u201d (ABBAGNANO, 2007, p.660), n\u00e3o seremos surpreendidos com a considera\u00e7\u00e3o de sua fundamental import\u00e2ncia para o desenvolvimento do pensamento, precisamente na hist\u00f3ria do ocidente. A perspectiva metaf\u00edsica perpassa toda a hist\u00f3ria do pensamento filos\u00f3fico desde a dial\u00e9tica grega at\u00e9 os dias atuais \u00ad- ora exaltada, ora criticada. No entanto, recebe em cada per\u00edodo sentidos diversos: metaf\u00edsica como supera\u00e7\u00e3o da cosmologia, como possibilidade de teoriza\u00e7\u00e3o do transcendente, como teologia, como ontologia, e entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Diante disso, nossa pesquisa busca fazer uma abordagem filos\u00f3fica do pensamento de um dos grandes expoentes da filosofia contempor\u00e2nea, Emmanuel Levinas (1906- 1995), e a partir de sua obra <i>Totalidade e Infinito<\/i>, abordaremos sobre a possibilidade metaf\u00edsica no seu pensamento. \u00c9 poss\u00edvel falar em metaf\u00edsica aos moldes, at\u00e9 ent\u00e3o consagrados, da Filosofia Ocidental? E se poss\u00edvel, qual enfoque Levinas apresenta? Como Levinas v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o da metaf\u00edsica com o seu desenvolvimento na hist\u00f3ria do pensamento ocidental?<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E para tal, propomos uma breve an\u00e1lise da hist\u00f3ria da metaf\u00edsica destacando seus principais momentos e suas consequ\u00eancias no desenvolver do pensamento filos\u00f3fico. E por fim, apresentaremos a contribui\u00e7\u00e3o que Emmanuel Levinas oferece ao pensamento metaf\u00edsico ocidental.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>1. A proposta metaf\u00edsica na tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Pensar a metaf\u00edsica desde a filosofia grega \u00e0s concep\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas \u00e9 uma tarefa um tanto pretensiosa e demanda extensa pesquisa no campo bibliogr\u00e1fico da tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 nossa preocupa\u00e7\u00e3o aqui fazer uma abordagem minuciosa do hist\u00f3rico da metaf\u00edsica, mas abordar seus principais momentos, utilizando autores, dentre outros, citados e criticados por Levinas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A origem etimol\u00f3gica do termo metaf\u00edsica remonta os anos 50 a. C, aproximadamente.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A palavra metaf\u00edsica foi empregada pela primeira vez por Andr\u00f4nico de Rodes, por volta do ano 50 a.C., quando recolheu e classificou as obras de Arist\u00f3teles que, durante muitos s\u00e9culos, haviam ficado dispersas e perdidas. Com essa palavra \u2013 <i>ta meta ta physika<\/i> -, o organizador dos textos aristot\u00e9licos indicava um conjunto de escritos que, em sua classifica\u00e7\u00e3o, localizavam-se ap\u00f3s os tratados sobre a f\u00edsica ou sobre a Natureza, pois a palavra grega <i>meta <\/i>quer dizer: depois de, ap\u00f3s, acima de. <i>Ta<\/i>: aqueles<i>; meta<\/i>: ap\u00f3s, depois; <i>ta physika<\/i>: aqueles da f\u00edsica. Assim, a express\u00e3o <i>ta meta ta physika<\/i> significa literalmente: aqueles [escritos] que est\u00e3o [catalogados] ap\u00f3s os [escritos] da f\u00edsica (CHAUI, 2000, p.266).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Anteriormente, na filosofia naturalista, a principal preocupa\u00e7\u00e3o dos pensadores era estabelecer uma origem, uma <i>arch\u00e9<\/i>, que seria um princ\u00edpio origin\u00e1rio do qual todas as coisas fossem originadas.\u00a0 Foi com Tales de Mileto (s\u00e9c. VII &#8211; VI a.C.) que tal tentativa se efetivara. \u201cTales foi o iniciador da filosofia da <i>physis<\/i>, pois foi o primeiro a afirmar a exist\u00eancia de um principio origin\u00e1rio \u00fanico, causa de todas as coisas que existem, sustentando tal princ\u00edpio como a \u00e1gua\u201d (REALE, 2003, p. 18). Percebemos aqui, uma iminente preocupa\u00e7\u00e3o em remontar a uma origem e fundamento das coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ap\u00f3s essa tend\u00eancia naturalista, um segundo passo \u00e9 dado no sentido de uma supera\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o cosmol\u00f3gica da realidade. Com seu poema sobre o ser, Parm\u00eanides inaugura uma nova orienta\u00e7\u00e3o para o sentido metaf\u00edsico: \u201ca ontologia (teoria do ser)\u201d (REALE, 2003, p. 33). Trata-se de uma tematiza\u00e7\u00e3o acerca das caracter\u00edsticas do ser.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na filosofia socr\u00e1tica e pr\u00e9- socr\u00e1tica, o grande destaque \u00e9 para a dimens\u00e3o do homem e n\u00e3o a preocupa\u00e7\u00e3o com a realidade natural. \u201cS\u00f3crates (&#8230;) procura responder \u00e0quest\u00e3o: \u2018O que \u00e9 a natureza ou realidade \u00faltima do homem? \u2019, ou seja: \u2018 O que \u00e9 a ess\u00eancia do homem?\u201d (REALE, 2003, p. 95).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Caminhando um pouco mais, chegamos ao pensamento plat\u00f4nico. Plat\u00e3o \u00e9 considerado o fundador da metaf\u00edsica enquanto possibilidade de transcend\u00eancia. \u201cEsse ponto fundamental consiste na descoberta da exist\u00eancia de uma realidade supra-sens\u00edvel, ou seja, de uma dimens\u00e3o supraf\u00edsica do ser (de um g\u00eanero de ser n\u00e3o-f\u00edsico), que a filosofia da <i>physis<\/i>nem mesmo vislumbrara\u201d (REALE, 2003, p. 138).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em Arist\u00f3teles, a quest\u00e3o metaf\u00edsica \u00e9 colocada em lugar de destaque em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais ci\u00eancias. Para o fil\u00f3sofo, a metaf\u00edsica \u00e9 a \u201cfilosofia primeira\u201d ou \u201cteologia\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Entretanto, o termo &#8220;metafisica&#8221; foi sentido como mais significativo pela posteridade, tornando-se o preferido. Com efeito, a &#8220;filosofia primeira\u201d \u00e9 precisamente a ci\u00eancia que se ocupa das realidades-que-est\u00e3o-acima-das-realidades- f\u00edsicas. E, nas pegadas da vis\u00e3o aristot\u00e9lica, definitiva e constantemente, toda tentativa do pensamento humano no sentido de ultrapassar o mundo emp\u00edrico para alcan\u00e7ar uma realidade metaemp\u00edrica\u00a0 passou a ser denominada &#8220;metafisica&#8221;. (REALE, 2003, p. 195).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">No pensamento aristot\u00e9lico, percebemos um acr\u00e9scimo da perspectiva ontol\u00f3gica \u00e0 metaf\u00edsica, ao propor uma das quatro defini\u00e7\u00f5es de metaf\u00edsica como a indaga\u00e7\u00e3o do ser enquanto ser. \u201cNa obra de Arist\u00f3teles (&#8230;) conceito mescla-se com o outro, de metaf\u00edsica como ontologia, que \u00e9 a ci\u00eancia do ser enquanto ser\u201d (ABBAGNANO, 2007, p.661).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>2. A metaf\u00edsica enquanto Ontologia <\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Delineando esse percurso hist\u00f3rico inicial da metaf\u00edsica, a associa\u00e7\u00e3o da metaf\u00edsica \u00e0 ontologia foi uma consequ\u00eancia inevit\u00e1vel da heran\u00e7a filos\u00f3fica, de Parm\u00eanides e mais precisamente de Arist\u00f3teles. Tal associa\u00e7\u00e3o foi alvo de ferrenhas cr\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Etimologicamente,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A palavra <i>ontologia <\/i>\u00e9 composta de duas outras: <i>onto <\/i>e <i>logia<\/i>. <i>Onto <\/i>deriva-se de dois substantivos gregos, <i>ta onta <\/i>(os bens e as coisas realmente possu\u00eddas por algu\u00e9m) e <i>ta eonta <\/i>(as coisas realmente existentes). Essas duas palavras, por sua vez, derivam-se do verbo <b>ser<\/b>, que, em grego, se diz <i>einai<\/i>. O partic\u00edpio presente desse verbo se diz <i>on <\/i>(sendo, ente) e <i>ontos <\/i>(sendo, entes). Dessa maneira, as palavras <i>onta <\/i>e <i>eonta <\/i>(as coisas) e <i>on <\/i>(ente) levaram a um substantivo: <i>to on<\/i>, que significa o <b>Ser<\/b>. O Ser \u00e9 o que \u00e9 realmente e se op\u00f5e ao que parece ser, \u00e0 apar\u00eancia. Assim, ontologia significa: estudo ou conhecimento do Ser, dos entes ou das coisas tais como s\u00e3o em si mesmas, real e verdadeiramente. (CHAUI, 2000, p. 266).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na Filosofia Moderna, David Hume apresenta a principal cr\u00edtica \u00e0 metaf\u00edsica cl\u00e1ssica. Afirma a impossibilidade de um conhecimento que n\u00e3o seja assegurado pela experi\u00eancia.\u00a0 Dessa maneira, \u201co empirismo alija da filosofia, e de qualquer pesquisa leg\u00edtima, os problemas referentes a coisas que n\u00e3o sejam acess\u00edveis aos instrumentos de que o homem disp\u00f5e. Hume entendia o empirismo nesse sentido.\u201d (ABBAGNANO, 2007, p.327).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ap\u00f3s essa crise da metaf\u00edsica apontada por Hume, Immanuel Kant questiona quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es de possibilidades de conhecimento dessa ci\u00eancia. Sendo assim, a metaf\u00edsica se apresenta como imposs\u00edvel uma vez que tais realidades metaf\u00edsicas escapam da nossa capacidade de conhecimento, pois escapam das categorias de tempo e espa\u00e7o. As realidades metaf\u00edsicas \u201cescapam de toda possibilidade humana de conhecimento, pois s\u00e3o seres aos quais n\u00e3o se aplicam as condi\u00e7\u00f5es universais e necess\u00e1rias dos ju\u00edzos, isto \u00e9, espa\u00e7o, tempo, causalidade, qualidade, quantidade, substancialidade, etc. Essa metaf\u00edsica n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u201d (CHAUI, 2000, p. 297). Dessa maneira, a metaf\u00edsica s\u00f3 dever\u00e1 ser concebida a partir das realidades dentro das categorias de tempo e de espa\u00e7o. \u201cA metaf\u00edsica estuda, portanto, as condi\u00e7\u00f5es universais e necess\u00e1rias da objetividade em geral e n\u00e3o o Ser enquanto Ser\u201d (CHAUI, 2000, p. 297).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Seguindo o per\u00edodo cr\u00edtico em que se encontra a metaf\u00edsica, Martin Heidegger apresenta em sua filosofia uma grande cr\u00edtica \u00e0 hist\u00f3ria da Filosofia ocidental que deixara o ser cair em esquecimento. \u201cA quest\u00e3o sobre o sentido do ser n\u00e3o somente ainda n\u00e3o foi resolvida ou mesmo colocada de modo suficiente, como tamb\u00e9m caiu no esquecimento, apesar de todo interesse pela \u2018metaf\u00edsica\u2019\u201d (HEIDEGGER, 1988, p. 50). Necessitava, pois, de um deixar o ser revelar-se n\u00e3o na transcend\u00eancia, mas na temporalidade, na iman\u00eancia, ideia que ele desenvolve em sua obra <i>Ser e Tempo<\/i>. Sendo assim, a quest\u00e3o metaf\u00edsica estava fadada a um simplesmente acompanhar o ser sendo. Heidegger prop\u00f5e um primado do ser que se d\u00e1 na temporalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>3. A primazia da rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica: possibilidade metaf\u00edsica em Levinas<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No cen\u00e1rio hist\u00f3rico filos\u00f3fico mundial do s\u00e9culo XX, a partir da crise da metaf\u00edsica, com todas as viol\u00eancias hegem\u00f4nicas vigentes culminadas nas duas grandes guerras, com o acontecimento em Auschiwitz e no auge de uma filosofia subjetivista, \u00e9 nos apresentada a proposta de Emmanuel Levinas de se pensar de outro modo a metaf\u00edsica. Trata-se de uma proposta do primado da rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica em detrimento do primado do ser t\u00e3o evidenciado pela ontologia cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A principal cr\u00edtica que Levinas faz \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica ocidental est\u00e1 ligada \u00e0 supremacia do ser que massacra a categoria do Outro. \u201cA filosofia ocidental foi, na maioria das vezes, uma ontologia: uma redu\u00e7\u00e3o do Outro ao Mesmo\u201d (LEVINAS, 1980, p. 31). A grande pretens\u00e3o da filosofia ao longo da hist\u00f3ria foi de reduzir o Outro numa tentativa de absorv\u00ea-lo e possu\u00ed-lo. Nesse sentido, Levinas apresenta suas ferrenhas cr\u00edticas ao pensamento socr\u00e1tico quando S\u00f3crates afirma estar a ess\u00eancia na pr\u00f3pria dimens\u00e3o humana, na sua alma, firmando, assim, a \u201cegologia\u201d da filosofia. Nas palavras de Levinas, \u201co ideal da verdade socr\u00e1tica assenta, portanto, na sufici\u00eancia essencial do Mesmo, na sua identifica\u00e7\u00e3o de ipseidade, no seu ego\u00edsmo. A Filosofia \u00e9 uma egologia\u201d (LEVINAS, 1980, p. 31)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ademais, ele critica tamb\u00e9m o pensamento de Martin Heidegger. \u201cA ontologia heideggeriana que subordina a rela\u00e7\u00e3o com Outrem \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com o ser em geral (&#8230;) mant\u00eam-se na obedi\u00eancia do an\u00f4nimo e leva fatalmente a um outro poder, \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperialista, \u00e0 tirania\u201d (LEVINAS, 1980, p. 34).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tal fen\u00f4meno de tentativa de redu\u00e7\u00e3o do Outro ao Mesmo, Levinas associa a ideia de totaliza\u00e7\u00e3o. Segundo Levinas (1980), a possibilidade de se pensar a metaf\u00edsica n\u00e3o deve constituir uma totaliza\u00e7\u00e3o, uma fus\u00e3o entre a categoria do outro e o metaf\u00edsico. Deve haver, pois, uma dist\u00e2ncia, uma separa\u00e7\u00e3o entre tais categorias. \u00c9 proposta \u201cuma rela\u00e7\u00e3o, cujos termos n\u00e3o formam uma totalidade\u201d (LEVINAS, 1980, p. 27). Trata-se de um estar \u201cfrente a frente\u201d com Outro na sua irredutibilidade pelo Mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao afirmar que \u201ca ontologia como filosofia primeira \u00e9 uma filosofia do poder [que tem a capacidade de] neutralizar o ente para compreender e captar\u201d (LEVINAS, 1980, p. 33), Levinas prop\u00f5e uma recoloca\u00e7\u00e3o da ontologia no pensamento filos\u00f3fico. Trata-se, pois, de uma preced\u00eancia da metaf\u00edsica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ontologia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Em seu artigo <i>A ontologia \u00e9 fundamental?<\/i>, Levinas afirma que \u201ca rela\u00e7\u00e3o com outrem, portanto, n\u00e3o \u00e9 ontologia\u201d (LEVINAS, 1997, p. 29). No lugar da ontologia, prop\u00f5e que \u201ca metaf\u00edsica precede a ontologia\u201d (LEVINAS, 1980, p. 30). Por\u00e9m n\u00e3o entendida a metaf\u00edsica no sentido cl\u00e1ssico, mas a partir da rela\u00e7\u00e3o de alteridade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A metaf\u00edsica em Levinas est\u00e1 relacionada \u00e0 transcend\u00eancia, pois \u201co movimento metaf\u00edsico \u00e9 transcendente\u201d (LEVINAS, 1980, p. 23). Refere-se \u00e0 possibilidade de algo que seja transcendente e \u00e9 diferentemente do Mesmo. E \u00e9 no absolutamente Outro que Levinas pensa a proposta metaf\u00edsica. \u201cO desejo metaf\u00edsico tende para uma <i>coisa inteiramente diversa<\/i>, para o <i>absolutamente outro<\/i>\u201d (LEVINAS, 1980, p. 21). Tal desejo metaf\u00edsico est\u00e1 atrelado \u00e0 ideia de <i>Infinito<\/i>. Para ele, \u201ca ideia do infinito \u00e9 o esp\u00edrito antes de se expor \u00e0 distin\u00e7\u00e3o do que se descobre por si mesmo e do que recebe da opini\u00e3o\u201d (LEVINAS, 1980, p. 13). Trata-se de uma ideia superior que extrapola a compreens\u00e3o e o pensamento, o que Levinas chama de <i>Ideatum<\/i> (ideia superior).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tal rela\u00e7\u00e3o com o infinito assenta na ideia de um desejo metaf\u00edsico, pelo transcendente sem que haja satisfa\u00e7\u00e3o de tal desejo (Levinas, 1980, p. 22). \u00c9 o primado da rela\u00e7\u00e3o com o <i>absolutamente Outro<\/i> que se exprime no rosto. \u201cO modo como o outro se apresenta, ultrapassando<i> a ideia do outro em mim<\/i>, chamamo-la, de facto, rosto\u201d (LEVINAS, 1980, p. 37).\u00a0 A \u00eanfase que Levinas d\u00e1 em seu pensamento \u00e9 \u00e0 metaf\u00edsica colocada nas rela\u00e7\u00f5es \u00e9ticas. \u201c[A metaf\u00edsica] est\u00e1 voltada para o outro\u201d (LEVINAS, 1980, p. 21). Trata-se de um \u201cmovimento de sa\u00edda de Mim para o Outro, frente a frente\u201d (LEVINAS, 1980, p. 27). E assim, \u201cA metaf\u00edsica tem seu lugar nas rela\u00e7\u00f5es \u00e9ticas\u201d (LEVINAS, 1980, p. 65).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ao abordarmos o pensamento de Emmanuel Levinas, a quest\u00e3o metaf\u00edsica \u00e9 nos apresentada no sentido de uma primazia das rela\u00e7\u00f5es \u00e9ticas. Rejeita a pretensiosa inten\u00e7\u00e3o da ontologia cl\u00e1ssica em afirmar o primado do ser e abandona toda e qualquer tentativa de totaliza\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Levando em considera\u00e7\u00e3o o conceito cl\u00e1ssico de metaf\u00edsica apresentado por Nicola Abbagnano, no pensamento de Emmanuel Levinas n\u00e3o se \u00e9 poss\u00edvel falar em metaf\u00edsica. O conceito de metaf\u00edsica da filosofia ocidental possui um discurso totalizante que tende a reduzir a categoria do Outro. Na filosofia de Levinas essa tend\u00eancia totalizadora \u00e9 rejeitada quando prop\u00f5e uma nova maneira de vis\u00e3o da metaf\u00edsica: a da alteridade. Trata-se do primado da rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Destarte, na filosofia de Emmanuel Levinas, a metaf\u00edsica \u00e9 uma impossibilidade enquanto ontologia que exalta a categoria do ser esquecendo-se da categoria do Outro. Em contra partida, \u00e9 uma possibilidade enquanto rela\u00e7\u00e3o \u00e9tica e primazia do Outro: a metaf\u00edsica da alteridade. Prop\u00f5e um desejo pelo transcendente que se exprime no absolutamente Outro. Em Levinas, \u201cmorrer pelo invis\u00edvel: eis a metaf\u00edsica!\u201d (LEVINAS, 1980, p. 23).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">CHAU\u00cd, Marilena. <i>Convite \u00e0 Filosofia. <\/i>S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">EMPIRISMO. In: ABBAGNANO, Nicola. <i>Dicion\u00e1rio de Filosofia.<\/i> 5. ed. Tradu\u00e7\u00e3o de Ivone Castilho Benedetti. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">HEIDEGGER, Martin.<i> Ser e Tempo.<\/i> Tradu\u00e7\u00e3o de M\u00e1rcia de S\u00e1 Cavalcanti. Petr\u00f3polis: Vozes, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">LEVINAS, Emmanuel. <i>Totalidade e infinito<\/i>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Pinto Ribeiro. Lisboa: edi\u00e7\u00f5es 70, 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">______. <i>Entre n\u00f3s<\/i>: Ensaios sobre a alteridade. Tradu\u00e7\u00e3o de Pergentino Stefano Pivatto et al. Petr\u00f3polis: Vozes, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">METAF\u00cdSICA. In: ABBAGNANO, Nicola. <i>Dicion\u00e1rio de Filosofia.<\/i> 5. ed. Tradu\u00e7\u00e3o de Ivone Castilho Benedetti. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, G.; ANTISERI, D. <i>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/i>: Filosofia pag\u00e3 antiga. Tradu\u00e7\u00e3o de Ivo Storniolo. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2007,v.1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rosemar Marcos Aos nos reportarmos \u00e0s palavras de Nicola Abbagnano sobre a Metaf\u00edsica como \u201cCi\u00eancia primeira, por ter como objeto o objeto de todas as outras ci\u00eancias, e como princ\u00edpio um princ\u00edpio que condiciona a validade de todos os outros\u201d (ABBAGNANO, 2007, p.660), n\u00e3o seremos surpreendidos com a considera\u00e7\u00e3o de sua fundamental import\u00e2ncia para o &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[89,133],"tags":[202,390],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2412","6":"format-standard","7":"category-levinas","8":"category-rosemar-marcos","9":"post_tag-etica","10":"post_tag-metafisica"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2412","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2412"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2412\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2412"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2412"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2412"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}