{"id":2421,"date":"2012-11-25T13:19:19","date_gmt":"2012-11-25T16:19:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2421"},"modified":"2012-11-25T13:19:19","modified_gmt":"2012-11-25T16:19:19","slug":"o-existencialismo-sartriano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2421","title":{"rendered":"O existencialismo sartriano: uma filosofia otimista da possibilidade e da potencialidade humana"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><b>Pedro Henrique Guimar\u00e3es de Moura<\/b><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\"><i>O homem, tal como concebe o existencialista, se n\u00e3o \u00e9 defin\u00edvel, \u00e9 porque primeiramente n\u00e3o \u00e9 nada. S\u00f3 depois ser\u00e1 alguma coisa e tal como a si pr\u00f3prio se fizer<\/i>. (<i>Jean-Paul Sartre)<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>1 Sartre e sua filosofia <\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Desde os prim\u00f3rdios da idade da raz\u00e3o, os questionamentos sobre o ser e sobre sua ess\u00eancia tem obtido lugar de especial destaque na constru\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. Buscou-se uma ess\u00eancia universal que poderia factualmente ser encontrada em todo o g\u00eanero humano. Buscava-se um ponto comum ao ser humano, que possivelmente poderia ser identificado como sua ess\u00eancia. No entanto, para Sartre, pensar a natureza humana dessa forma \u00e9 deveras empobrecedor. A exist\u00eancia \u00e9 anterior a uma ess\u00eancia. E tal ess\u00eancia n\u00e3o constitui em sentido estrito a ess\u00eancia universal buscada pelos fil\u00f3sofos antigos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A filosofia de Sartre serviu de modelo para no m\u00ednimo duas gera\u00e7\u00f5es e tornou-se um marco do s\u00e9culo XX. Sartre apresentava f\u00e1cil transi\u00e7\u00e3o nos campos da arte, bem como literatura, filosofia, pol\u00edtica etc. De uma capacidade intelectual envolvente, foi tamb\u00e9m militante e teve influ\u00eancia direta em movimentos pol\u00edticos na Fran\u00e7a. Principalmente aqueles que levavam a bandeira da liberdade, que foi uma das quest\u00f5es tratadas \u00e0 exaust\u00e3o pelo fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A filosofia existencial de Sartre, intui\u00e7\u00e3o que fundamenta todo o seu pensamento, \u00e9 fruto de sua experi\u00eancia, tanto pessoal quanto hist\u00f3rica. Num contexto conturbado, de grandes guerras e de desvaloriza\u00e7\u00e3o do homem, Sartre se imp\u00f5e como expoente da filosofia existencialista. Em seus escritos, se mostra uma pessoa que n\u00e3o apenas passou pela exist\u00eancia, mas que se fez questionar o sentido real dessa, e que conferiu \u00e0 mesma um fim diferente, livre de delibera\u00e7\u00f5es exteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Muitos afirmam que o homem \u00e9 fadado a liberdade, condenado a ser livre. Isto \u00e9 claramente veross\u00edmil. No entanto, nos parece a exist\u00eancia ser uma condena\u00e7\u00e3o anterior e maior \u00e0 liberdade. \u00c9 claramente l\u00f3gico afirmar que a liberdade se d\u00e1 numa exist\u00eancia. Se, no entanto, n\u00e3o houver um <i>ser <\/i>existente n\u00e3o haver\u00e1 necessidade de liberdade. Tais conclus\u00f5es nos levam a afirmar que o cerne da filosofia de Sartre \u00e9 a exist\u00eancia. O restante \u00e9 consequ\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nosso ensaio carrega em germe a tentativa de explicitar a base da filosofia sartriana: existir \u00e9 necess\u00e1rio ao ser, \u00e9 anterior a sua ess\u00eancia. Essa afirma\u00e7\u00e3o nos ajudar\u00e1 a especificar o cerne do pensamento de Sartre, sem deixar, no entanto, de apresentar algumas decorr\u00eancias mais diretas da filosofia da exist\u00eancia, ou como conhecida, <i>existencialismo<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>2 O existencialismo: a doutrina da autoconstru\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Na concep\u00e7\u00e3o de Sartre, a doutrina existencialista nada mais \u00e9 que um humanismo, ou seja, uma doutrina antropoc\u00eantrica, mas que nunca toma o homem como fim, pois, como veremos, este est\u00e1 sempre por fazer-se. Atrav\u00e9s do existencialismo a vida humana se torna potencialidade e possibilidade. O homem no existencialismo torna-se autor prim\u00e1rio da verdade e da a\u00e7\u00e3o. Contudo, \u00e9 crescente a atitude de identificar o existencialismo, ou atitudes existencialistas, com a\u00e7\u00f5es pessimistas. Por isso, a necessidade de se clarificar as verdades da doutrina existencialista. Levados por preconceito e preju\u00edzos, o existencialismo \u00e9 fortemente criticado por ser uma doutrina que acentua o lado mau da vida humana. Sartre v\u00ea no existencialismo n\u00e3o um pessimismo, mas um otimismo, e afirma que o que amedronta os que a criticam \u00e9, \u00fanica e exclusivamente, o fato de deixar ao homem a possibilidade de escolha, a potencialidade de transforma\u00e7\u00e3o. Ouve uma vulgariza\u00e7\u00e3o do termo existencialismo, o que criou grande resist\u00eancia na propaga\u00e7\u00e3o dos ideais e da verdadeira leitura existencial. Tudo o que era titulado como escandaloso ganhava a conota\u00e7\u00e3o de existencialista. A express\u00e3o existencialismo ganhou tamanha extens\u00e3o e amplitude de conota\u00e7\u00e3o, que em si mesma perdeu o sentido, a ponto de afirmar Sartre n\u00e3o significar absolutamente nada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Existem basicamente duas escolas existencialistas, sendo os crist\u00e3os e os ateus. Ambas as escolas, com a diversidade de seus representantes, comungam na afirma\u00e7\u00e3o de que a exist\u00eancia precede a ess\u00eancia, ponto fundante da doutrina existencialista. Sendo assim, faz-se necess\u00e1rio ao homem partir da subjetividade, e n\u00e3o de um <i>algo<\/i> a ser copiado, seguido, imitado. Existir \u00e9 anterior, \u00e9 necess\u00e1rio, \u00e9 indispens\u00e1vel ao ser. Numa vis\u00e3o t\u00e9cnica do mundo, a ess\u00eancia precede a exist\u00eancia. Numa primeira inst\u00e2ncia se tem a necessidade da <i>coisa<\/i>. Depois se d\u00e1 corpo a essa necessidade, fabricando-a por assim dizer. E por fim, se faz uso do ser fabricado para o fim pensado anteriormente, ou seja, faz-se coincidir sua ess\u00eancia, modelo para um criador, e que cont\u00e9m em si o fim da coisa, com a exist\u00eancia, que \u00e9 a coisa existindo e atualizando sua ess\u00eancia. \u201cTemos, pois, uma vis\u00e3o t\u00e9cnica do mundo, na qual se pode dizer que a produ\u00e7\u00e3o precede a exist\u00eancia\u201d (SARTRE, 1978, p.5).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Partindo dessa afirma\u00e7\u00e3o, de que a exist\u00eancia precede a ess\u00eancia, a doutrina existencialista enfrentar\u00e1 dois pontos hist\u00f3ricos de grande peso: o Deus crist\u00e3o e o conceito universal afirmado pelos fil\u00f3sofos ateus do s\u00e9culo XVIII.\u00a0 O Deus crist\u00e3o \u00e9 o art\u00edfice, o criador de tudo e de todos. O conceito de homem, a ess\u00eancia, preexiste na intelig\u00eancia divina, que o d\u00e1 forma, subjugando a vontade humana, ou sua finalidade, \u00e0 vontade divina, longe de qualquer liberdade. Quanto aos fil\u00f3sofos ateus, extrai-se a ideia de Deus, mas n\u00e3o que a ess\u00eancia precede a exist\u00eancia. Existe uma ess\u00eancia prim\u00e1ria que rege o modo de existir de todos os homens. \u201cO homem possui uma natureza humana; esta natureza, que \u00e9 o conceito humano, encontra-se em todos os homens, o que significa que cada homem \u00e9 um exemplo particular de um conceito universal \u2013 o homem\u201d (SARTRE, 1978, p.5).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O existencialismo proposto por Sartre, contendo o mais puro e refinado ate\u00edsmo, retira toda a possibilidade da ess\u00eancia preceder a exist\u00eancia, ou seja, de haver um art\u00edfice que concede uma forma, ou mesmo um conceito universal. \u00c9 nas m\u00e3os do homem que recai a responsabilidade por sua ess\u00eancia. O homem \u00e9 art\u00edfice de seu pr\u00f3prio ser. E s\u00f3 se cria depois de existir.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O existencialismo ateu, que eu represento, \u00e9 mais coerente. Declara ele que, se Deus n\u00e3o existe, h\u00e1 pelo menos um ser no qual a exist\u00eancia precede a ess\u00eancia, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser \u00e9 o homem ou como diz Heidegger, a realidade humana (SARTRE, 1978, p.6).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem primeiramente existe, surge no mundo, mas n\u00e3o \u00e9 nada. Num segundo momento ele se define, ele abra\u00e7a uma ess\u00eancia, e ser\u00e1 como lhe convier. N\u00e3o existe uma natureza humana, existe o homem num processo de constru\u00e7\u00e3o de sua ess\u00eancia, num processo de ser, de se fazer. O homem \u00e9 o que ele faz de si. Aqui se encontra o princ\u00edpio do existencialismo: a potencialidade do ser humano livre de qualquer infer\u00eancia externa a sua vontade. Esta \u00e9 a maximiza\u00e7\u00e3o da subjetividade humana, no qual o sujeito \u00e9 o que ele pr\u00f3prio se faz ser. Ele existe enquanto se lan\u00e7a para o futuro e tem consci\u00eancia de que se projeta para tal. Para ser, \u00e9 necess\u00e1ria uma atitude ativa por parte do homem que busca construir-se. Ele existe enquanto projeto de ess\u00eancia, enquanto constru\u00e7\u00e3o de ser.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem \u00e9, antes de mais nada, um projeto que se vive subjetivamente, em vez de ser um creme, qualquer coisa podre ou uma couve-flor; nada existe anteriormente a este projeto: nada h\u00e1 no c\u00e9u intelig\u00edvel, o homem ser\u00e1 antes de mais o que tiver projetado ser (SARTRE, 1978, p.6).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Como afirma Sartre, o homem ser\u00e1 o que tiver projetado ser, e t\u00e3o somente isso, o que exclui a faculdade da vontade. Ele \u00e9 o que projeta ser, n\u00e3o o que quer. A vontade, na concep\u00e7\u00e3o de Sartre, encontra-se na categoria das coisas posteriores a exist\u00eancia, sendo ela fruto da constru\u00e7\u00e3o do ser do homem. O querer como decis\u00e3o consciente \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o de uma escolha mais original; do projetar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>3 O homem como ser de responsabilidade e de ang\u00fastia<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Tendo o principio b\u00e1sico do existencialismo, Sartre come\u00e7a a perscrutar os frutos diretos dessa condi\u00e7\u00e3o do homem. Se realmente a exist\u00eancia precede a ess\u00eancia como afirma Sartre, o homem \u00e9 o respons\u00e1vel direto por aquilo que \u00e9. O existencialismo atribui ao homem total responsabilidade pelo por aquilo que ele \u00e9. A problem\u00e1tica da responsabilidade \u00e9 um dos grandes frutos decorrentes da doutrina existencialista. O homem n\u00e3o pode depositar em nenhum exterior a culpa por suas frustra\u00e7\u00f5es, fracassos, desilus\u00f5es etc. Ou mesmo eleger um tutor para orient\u00e1-lo ou mesmo para gui\u00e1-lo nas a\u00e7\u00f5es. \u00c9 ele o \u00fanico e grande respons\u00e1vel por ser como \u00e9. E tal responsabilidade \u00e9 bem mais ampla do que se pensa. Esta auto-responsabilidade n\u00e3o conduz o homem a fechar-se numa estrita individualidade, mas o abre para o coletivo, pois, ao ser respons\u00e1vel por si, torna-se tamb\u00e9m respons\u00e1vel por todos os homens. Ao escolher a si o homem escolhe aos outros. Ao se criar o homem cria uma imagem v\u00e1lida para todos os homens. Esta afirma\u00e7\u00e3o amplifica a dimens\u00e3o da responsabilidade que passa do \u00e2mbito restrito do sujeito para o coletivo extenso. Ao erigir o que \u00e9 bom para sua individualidade, ou seja, formar uma norma de conduta, uma moralidade, o homem prop\u00f5e a humanidade a sua escolha. Portanto, sua responsabilidade n\u00e3o \u00e9 pelo individual, mas pelo coletivo.\u00a0 As decis\u00f5es individuais s\u00e3o exemplo e ponto de partida para as decis\u00f5es de toda a humanidade. Ser isto ou aquilo \u00e9 propor \u00e0 humanidade que \u00e9 bom ser isto ou aquilo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Com efeito, n\u00e3o h\u00e1 dos nossos atos um sequer que, ao criar o homem que desejamos ser, n\u00e3o crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser. Escolher ser isto ou aquilo \u00e9 afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal, o que escolhemos \u00e9 sempre o bem, e nada pode ser bom para n\u00f3s sem que o seja para todos. (&#8230;) Assim sou respons\u00e1vel por mim e por todos, e crio uma certa imagem do homem por mim escolhida; escolhendo-me, escolho o homem (SARTRE, 1978, p.6-7).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Outros frutos do existencialismo, derivados da responsabilidade, s\u00e3o a ang\u00fastia, o abandono e o desespero. Sartre afirma que o homem \u00e9 ang\u00fastia. O homem traz em germe o compromisso de se construir. No entanto, ele percebe que n\u00e3o apenas escolhe para si, mas que tamb\u00e9m ocupa o papel de legislador, pronto a escolher o melhor para si e para a humanidade. Eis um bom motivo para viver angustiado. Qualquer passo mal dado pode ser a ru\u00edna pessoal e coletiva. Angustiar-se \u00e9 bom, pois mostra que o indiv\u00edduo est\u00e1 fielmente comprometido com o prop\u00f3sito de escolher o melhor para todos. Consequentemente, Sartre destaca a atitude de m\u00e1-f\u00e9, que nada mais \u00e9 que o falseamento dessa responsabilidade, um mentir para si pr\u00f3prio, na tentativa de se livrar da ang\u00fastia.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O aspecto de mentira que possui a m\u00e1-f\u00e9 diz respeito ao erro e \u00e0 falsidade que o sujeito faz contaminar a atividade de sua consci\u00eancia. Este \u00e9 um dos principais aspectos da m\u00e1-f\u00e9: ser uma falsifica\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia humana, na medida em que \u00e9 uma compreens\u00e3o equivocada das estruturas ontol\u00f3gicas mais fundamentais da condi\u00e7\u00e3o humana. \u00c9 em raz\u00e3o desse aspecto, o aspecto de ser um engano dirigido do sujeito \u00e0 si mesmo, que a m\u00e1-f\u00e9 \u00e9 comumente confundida com aquilo que tradicionalmente \u00e9 chamado, na psicologia, de auto-engano ( COSTA, 2012, p.48).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por mais persistente que seja a tentativa de falsear e de fugir, a ang\u00fastia sempre aparecer\u00e1. A ang\u00fastia \u00e9 primaria ao homem, bem como a exist\u00eancia. Se o homem \u00e9 fadado a existir, ele \u00e9 tamb\u00e9m fadado a angustiar-se, mesmo que este tente disfar\u00e7\u00e1-la. Se o homem n\u00e3o se pergunta pela qualidade de seus atos em vista do bem da humanidade \u00e9 porque este tenta disfar\u00e7ar, numa atitude de m\u00e1-f\u00e9, seu estado angustiante. N\u00e3o se trata de uma ang\u00fastia que conduz \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o, mas um estado natural do homem, que naturalmente tem responsabilidade e que naturalmente se constr\u00f3i e que existe. \u00c9 na decis\u00e3o e na a\u00e7\u00e3o que se encontra a ang\u00fastia existencialista.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Esta esp\u00e9cie de ang\u00fastia, que \u00e9 a que descreve o existencialismo, veremos que se explica, al\u00e9m do mais, por uma responsabilidade direta frente aos outros homens que ela envolve. N\u00e3o \u00e9 ela uma cortina que nos separa da a\u00e7\u00e3o, mas faz parte da pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o (SARTRE, 1978, p.8).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem tamb\u00e9m se sente desamparado, pois com a retirada da ideia de Deus, perde-se o ponto de apoio de v\u00e1rias dimens\u00f5es humanas, em especial a dimens\u00e3o moral. Houve no decorrer da hist\u00f3ria um movimento que validava a retirada de Deus, mas que afixava a exist\u00eancia de certos valores <i>a priori<\/i> num <i>c\u00e9u intelig\u00edvel<\/i> (o radicalismo). O existencialismo, no entanto, retira Deus e com ele o c\u00e9u intelig\u00edvel, e assenta no homem o princ\u00edpio e fonte dos valores humanos. O homem sente-se desamparado por n\u00e3o ter um ponto de seguran\u00e7a para se apoiar.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dostoi\u00e9vski escreveu: \u201cSe Deus n\u00e3o existisse, tudo seria permitido\u201d. A\u00ed se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo \u00e9 permitido se Deus n\u00e3o existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado, j\u00e1 que n\u00e3o encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue (SARTRE, 1978, p.9).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>4 Senten\u00e7a final: a liberdade<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Eis que chegamos \u00e0 quest\u00e3o da liberdade que, como podemos perceber pelo caminho percorrido, \u00e9 mais uma dimens\u00e3o ou decorr\u00eancia das afirmativas existenciais. Se factualmente a exist\u00eancia precede a ess\u00eancia, diz Sartre, n\u00e3o haver\u00e1 lugar alguma para o determinismo, o que abre amplo precedente para a liberdade. O homem \u00e9 liberdade. Na falta de um Deus legitimador, jurisprudente, n\u00e3o existe para o homem uma linha de conduta a ser seguida, obedecida \u00e0 risca. Ou mesmo um c\u00f3digo penal que paute a conduta dos indiv\u00edduos. O homem est\u00e1 condenado a ser livre, fadado \u00e0 liberdade absoluta. \u201cCondenado porque n\u00e3o se criou a si pr\u00f3prio; e, no entanto, livre, porque, uma vez lan\u00e7ado ao mundo, \u00e9 respons\u00e1vel por tudo quanto fizer\u201d (SARTRE, 1978, p.9). A liberdade \u00e9 constituinte do ser do homem. As escolhas brotam como fruto da liberdade. Somos livres e condenados a escolher. Mesmo quando n\u00e3o escolhemos, escolhemos n\u00e3o escolher portanto, fizemos em suma uma escolha. N\u00e3o existe uma moral geral que dita ao homem o que fazer. Deve o homem por meio da escolha, da liberdade, inventar a si pr\u00f3prio. Quando questionado por um jovem, na esperan\u00e7a de que este fosse seu conselheiro, Sartre, sem dar uma resposta, mas apenas demarcando um horizonte reflexivo, exp\u00f5e o seguinte ponto: \u201cvoc\u00ea \u00e9 livre, escolha, quero dizer, invente. Nenhuma moral geral pode indicar-vos o que h\u00e1 a fazer; n\u00e3o h\u00e1 sinais no mundo\u201d (SARTRE, 1978, p.11). Sobre o homem pesa a inteira responsabilidade proveniente da escolha livre.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quanto ao desespero, nada mais \u00e9 que a a\u00e7\u00e3o sem esperan\u00e7a. Como se encontra num mundo desprovido de aux\u00edlio divino, deve o homem contar com o conjunto de possibilidades que tornam a a\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, e n\u00e3o com uma interven\u00e7\u00e3o exterior e auxiliadora. Podemos contar apenas com o que depende de nossa vontade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Lembremo-nos que o homem \u00e9 inteiramente livre, e que n\u00e3o existe uma natureza humana que disponha ou determine atitudes comuns aos homens. Tal afirmativa conduziria o homem ao desespero constante quanto \u00e0 constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e0 medida que, se devo contar com o desconhecido, indeterminado e totalmente livre, posso hoje apoiar uma a\u00e7\u00e3o que no futuro se tornar\u00e1 mal\u00e9fica. Contudo, o existencialismo n\u00e3o se prop\u00f5e como uma doutrina do quietismo ou da estagna\u00e7\u00e3o, mas sim da a\u00e7\u00e3o. Deve o homem existir em seu tempo da melhor forma poss\u00edvel, lembrando-se de sua responsabilidade para com a humanidade, sem se ocupar de um futuro ao qual ele sequer ver\u00e1. A parcela de contribui\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o desse futuro que cabe a mim deve ser dada no presente, sem pr\u00e9-ocupa\u00e7\u00e3o de como se dar\u00e1 o futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Sartre \u00e9 incisivo quanto \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es feitas ao existencialismo, incriminado de doutrina do quietismo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O quietismo \u00e9 a atitude das pessoas que dizem: os outros podem fazer aquilo que eu n\u00e3o posso fazer. A doutrina que vos apresento \u00e9 justamente a oposta ao quietismo, visto que ela declara: s\u00f3 h\u00e1 realidade na a\u00e7\u00e3o; e vai ali\u00e1s mais longe, visto que acrescenta: o homem n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o seu projeto, s\u00f3 existe na medida em que se realiza , n\u00e3o \u00e9, portanto, nada mais do que o conjunto dos seus atos, nada mais do que a sua vida (SARTRE, 1978, p.13).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Estas afirma\u00e7\u00f5es nos trazem de volta a atitude de m\u00e1-f\u00e9. Muitos se lamentam de situa\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis, de paix\u00f5es n\u00e3o vivenciadas, de amores n\u00e3o encontrados, justificam de in\u00fameros modos os infort\u00fanios e insucessos de suas vidas colocando sempre a causa prec\u00edpua externa a si. Anulam e disfar\u00e7am sua potencialidade para a constru\u00e7\u00e3o de si e a liberdade para a a\u00e7\u00e3o ativa no mundo e na pr\u00f3pria vida. Para a doutrina existencialista n\u00e3o existe amor diferente daquele que se constr\u00f3i. O g\u00eanio n\u00e3o existe na teoria ou na potencialidade, ele existe sendo, de modo que se ver\u00e1 o grande artista quando este produzir sua grande obra: da mesma forma o homem. Esse ser\u00e1 em sua totalidade quando agir, quando estiver se criando, sendo no mundo. \u201cO que queremos dizer \u00e9 que um homem nada mais \u00e9 do que uma s\u00e9rie de empreendimentos, que ele \u00e9 a soma, a organiza\u00e7\u00e3o, o conjunto das rela\u00e7\u00f5es que constituem estes empreendimentos\u201d (SARTRE, 1978, p. 14).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O existencialismo a cada momento se mostra mais uma doutrina do otimismo, da valora\u00e7\u00e3o do ser humano, ou mesmo de sua exalta\u00e7\u00e3o, do que uma doutrina pessimista, como afirmavam os marxista e os crist\u00e3os. Os marxistas acusam o existencialismo de extirpar a possibilidade de solidariedade. Os crist\u00e3os, furiosos pela orfandade de seu Deus, acusam o existencialismo de promover a amoralidade e o completo caos.\u00a0 O que irrita tanto marxistas, quanto crist\u00e3os, quanto outros que se colocam a criticar negativamente o existencialismo, \u00e9 que nessa doutrina se mostra o homem como \u00e9, sem m\u00e1scaras ou subterf\u00fagios. Sartre diz que se se descreve um covarde sendo tal por influ\u00eancia direta do meio, ou por hereditariedade, ou mesmo determinismo psicol\u00f3gico ou org\u00e2nico, tal descri\u00e7\u00e3o agrada diversas partes. Mas, quando o covarde \u00e9 descrito ao modo existencialista, colocando sobre este a inteira responsabilidade por sua covardia, de se ter constitu\u00eddo covarde por seus atos, isso se torna claramente ponto de disc\u00f3rdia. N\u00e3o por estar o existencialismo errado, mas por temerem as partes, assumir a mis\u00e9ria da natureza humana e sua responsabilidade em tal. N\u00e3o se nasce covarde ou her\u00f3i, se torna pelas atitudes covarde e her\u00f3i. Estas doutrinas sim prop\u00f5em a estagna\u00e7\u00e3o e o quietismo, pois levam o indiv\u00edduo \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o e \u00e0 conforma\u00e7\u00e3o com o estado em que se encontra sem a m\u00ednima chance de mudan\u00e7a.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8230; n\u00e3o h\u00e1 doutrina mais otimista, visto que o destino do homem est\u00e1 nas suas m\u00e3os; nem como uma tentativa para desencorajar o homem de agir, visto que lhe diz que n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a sen\u00e3o na sua a\u00e7\u00e3o, e que a \u00fanica coisa que permite ao homem viver \u00e9 o ato. Por conseguinte, neste plano, n\u00f3s preocupamo-nos com uma moral de a\u00e7\u00e3o e de compromisso (SARTRE, 1978, p.15).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0A doutrina existencialista prop\u00f5e a subjetividade do indiv\u00edduo, que n\u00e3o \u00e9 em sentido algum uma egolatria. \u00c9 baseado no <i>cogito<\/i> cartesiano que se instala a verdade absoluta da consci\u00eancia. Atrav\u00e9s do <i>cogito<\/i> (p<i>enso, logo existo)<\/i>, se chega \u00e0 verdade absoluta e necess\u00e1ria, que est\u00e1 ao alcance de todos, uma vez que nos apreendemos sem intermedi\u00e1rios. O existencialismo, segundo Sartre, \u00e9 a \u00fanica das doutrinas que confere dignidade ao homem e que n\u00e3o faz desse objeto. As vis\u00f5es materialistas enquadram os homens em determinadas qualidades, como fruto de meios diversos etc. Anulam a subjetividade do homem e instalam a massifica\u00e7\u00e3o e a generaliza\u00e7\u00e3o. O existencialismo quer olhar o homem em sua subjetividade, na sua particularidade. Subjetividade essa que, como j\u00e1 vimos anteriormente, n\u00e3o se apresenta como rigorosamente individual, mas tamb\u00e9m num coletivo. Pelo <i>penso,<\/i> o outro se torna t\u00e3o certo a n\u00f3s quanto n\u00f3s mesmos. O outro torna-se,\u00a0 assim, condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia para o indiv\u00edduo e de seu autoconhecimento. Nesse movimento o homem se abre \u00e0 intersubjetividade, pela qual ele descobre sobre si e sobre os outros e valida sua exist\u00eancia. Faz-se necess\u00e1ria \u00e0 exist\u00eancia do homem o reconhecimento por parte do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>5 Um comum aos homens <\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">N\u00e3o existe presente nos homens uma ess\u00eancia universal, uma vez que a exist\u00eancia precede a ess\u00eancia, e o homem \u00e9 respons\u00e1vel por construir sua ess\u00eancia, por assim dizer. Mas, Sartre afirma que existe uma <i>universalidade humana de condi\u00e7\u00e3o. <\/i>\u201cPor condi\u00e7\u00e3o entendem mais ou menos distintamente o conjunto de limites <i>a priori<\/i> que esbo\u00e7am a sua situa\u00e7\u00e3o fundamental no universo\u201d (SARTRE, 1978 p.16). As situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas podem variar de acordo com a \u00e9poca, o pa\u00eds, a cultura etc. Contudo, tais <i>condi\u00e7\u00f5es a priori, <\/i>como a exist\u00eancia, a mortalidade<i>, <\/i>a for\u00e7a vital e a necessidade de relacionar-se, s\u00e3o pr\u00f3prias do g\u00eanero humano e livres de influ\u00eancias hist\u00f3ricas. Os projetos humanos s\u00e3o baseados nessa <i>universalidade humana de condi\u00e7\u00e3o<\/i>, uma vez que a exist\u00eancia humana se constr\u00f3i em face de negar, ultrapassar ou acomodar-se a tais limites.\u00a0 Tais projetos n\u00e3o definem o homem, n\u00e3o o tornam acabado, mas permitem que ele seja reconhecido, j\u00e1 que a universalidade do homem est\u00e1 presente tamb\u00e9m nos projetos, permitindo que tais sejam compreens\u00edveis para todos os homens. \u00c9 importante frisar que tal universalidade n\u00e3o \u00e9 dada, do contr\u00e1rio a exist\u00eancia no homem n\u00e3o seria precedente, uma vez que a universalidade poderia facilmente ser identificada com a ess\u00eancia. Assim, a universalidade \u00e9 fruto de um processo de constru\u00e7\u00e3o. Partindo do exemplo do outro, exemplo este que o ser ao se construir tamb\u00e9m fornecer\u00e1, \u00e9 que o homem constr\u00f3i para si o universal. O homem sendo livremente, no cotidiano, na constru\u00e7\u00e3o constante de sua ess\u00eancia, pelo compromisso da responsabilidade com a humanidade, realiza sua <i>universalidade humana de condi\u00e7\u00e3o.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem \u00e9 um ser de escolha, como doutrina o existencialismo. Contudo, ele n\u00e3o pode escolher qualquer coisa. A escolha s\u00f3 lhe \u00e9 poss\u00edvel num sentido: escolher. Mesmo quando n\u00e3o escolhe, ele escolhe. N\u00e3o se escolhe por capricho, \u00e9 antes por responsabilidade, por compromisso com a humanidade. Como n\u00e3o existem valores <i>a priori<\/i>, a escolha moral \u00e9 tamb\u00e9m uma constru\u00e7\u00e3o. S\u00f3 se poder\u00e1 julg\u00e1-la ap\u00f3s sua completa realiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 puramente uma situa\u00e7\u00e3o criadora pela qual o homem \u00e9 tamb\u00e9m art\u00edfice da moral. A moral existencialista \u00e9 fruto de cria\u00e7\u00e3o e inven\u00e7\u00e3o. Ter uma moral \u00e9 uma exig\u00eancia do homem, que faz tamb\u00e9m a escolha dessa e n\u00e3o pode deixar de faz\u00ea-la. Sartre explicita a possibilidade do julgamento moral, levando em considera\u00e7\u00e3o a g\u00eaneses da moralidade no existencialismo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Podemos, no entanto, julgar moralmente, porque, como j\u00e1 disse, \u00e9 em face dos outros que escolhemos e nos escolhemos a n\u00f3s. Podemos julgar, antes de mais (e isto n\u00e3o \u00e9 talvez um ju\u00edzo de valor, mas sim um ju\u00edzo l\u00f3gico), que certas escolhas s\u00e3o fundadas no erro e outras na verdade. Pode julgar-se um homem dizendo que ele est\u00e1 de m\u00e1-f\u00e9. Se definimos a situa\u00e7\u00e3o do homem como uma escolha livre, sem desculpas e sem aux\u00edlio, todo o homem que se refugia na desculpa que inventa um determinismo \u00e9 um homem de m\u00e1-f\u00e9. Objetar-se-\u00e1: mas por que n\u00e3o se escolheria ele de m\u00e1-f\u00e9? Respondo que n\u00e3o tenho que julg\u00e1-lo moralmente, mas defino sua m\u00e1-f\u00e9 como um erro. Neste ponto n\u00e3o se pode escapar a um ju\u00edzo de verdade (SARTRE, 1978, p.19).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O homem deseja a liberdade como fundamento de todos os valores, de forma que os atos dos homens de boa-f\u00e9 tem em alvo a busca da liberdade. Ao procurar a liberdade, o homem percebe que sua liberdade depende da liberdade do outro, bem como a liberdade do outro da sua. Pelo compromisso o homem sente-se obrigado a querer a sua liberdade e a liberdade do outro. \u201cPode escolher-se tudo, se \u00e9 no plano de uma decis\u00e3o livre\u201d (SARTRE, 1978, p.20).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Antes de viver, de existir, a vida n\u00e3o \u00e9 nada. Ao homem depende dar um sentido \u00e0 exist\u00eancia, construir a vida. Tal afirma\u00e7\u00e3o valida os valores existencialistas e os salvam da cr\u00edtica de n\u00e3o levarem em germe a seriedade, visto que s\u00e3o de op\u00e7\u00e3o do homem. \u00c9 exatamente por ser de op\u00e7\u00e3o que ser\u00e3o valores positivos, pois o homem n\u00e3o escolher\u00e1 para si e para a humanidade o que \u00e9 ruim.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>6 O existencialismo \u00e9 um humanismo<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O humanismo, do qual se diz ser o existencialismo, diz-nos que o homem encontra-se constantemente fora de si mesmo, projetando-se e perseguindo fins transcendentes. E \u00e9 exatamente nesse movimento que o homem sustenta sua exist\u00eancia. Essa transcend\u00eancia se d\u00e1 num sentido de supera\u00e7\u00e3o, num estado de presen\u00e7a num universo humano: este \u00e9 o humanismo existencialista. O humanismo sempre lembrar\u00e1 o homem de que ele \u00e9 o legislador e art\u00edfice de sua ess\u00eancia, de seu ser. E de que \u00e9 na busca fora de si que o homem se realiza como ser humano completo.\u00a0 Sartre reafirma que em sentido algum o existencialismo busca afogar o homem em desespero, mas quer ser arauto do otimismo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8230; \u00e9 necess\u00e1rio que o homem se reencontre a si pr\u00f3prio e se persuada de que nada pode salv\u00e1-lo de si mesmo (&#8230;) Neste sentido, o existencialismo \u00e9 um otimismo, uma doutrina da a\u00e7\u00e3o, e \u00e9 somente por m\u00e1-f\u00e9 que, confundindo o seu pr\u00f3prio desespero com o nosso, os crist\u00e3os podem apelidar-nos de desesperados (SARTRE, 1978, p.22).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O existencialismo quer, antes de tudo, clarificar ao homem sua autonomia prec\u00edpua sobre si mesmo, libertando-o de situa\u00e7\u00f5es que o impedem de crescer, lembrando-o de sua inteira responsabilidade sobre si e sobre a humanidade.\u00a0 A filosofia sartriana \u00e9 puramente existencialista. A quest\u00e3o da exist\u00eancia, como vimos, antecede ang\u00fastia, liberdade, m\u00e1-f\u00e9, desespero etc. S\u00e3o elas fruto e decorr\u00eancia direta da exist\u00eancia. O homem \u00e9 respons\u00e1vel por ser inteiramente homem. O fil\u00f3sofo medieval Agostinho de Hipona certa vez disse que diante de Deus o homem \u00e9 o que \u00e9; nem mais, nem menos. O existencialismo diria que diante do homem, o homem \u00e9 o que \u00e9, podendo livremente ser mais, ou menos. A doutrina existencialista traz em germe o otimismo, que convoca o homem a encarrar suas potencialidades e possibilidades, saindo da estagna\u00e7\u00e3o e sendo pe\u00e7a ativa na constru\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio ser. Sartre prop\u00f5e pelo existencialismo que o homem deve libertar-se do julgo das maneiras habituais e cristalizadas de ser, pensar e agir. E, por constituir-se ser de absoluta liberdade, projetar-se para encarar nossa realidade tal como \u00e9: <i>o homem inventa o homem.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">COSTA, V\u00edtor Hugo dos Reis. M<i>\u00e1-f\u00e9 e Psican\u00e1lise Existencial em Sartre.<\/i> 2012. 115 f. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Filosofia) &#8211; Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2012. Dispon\u00edvel em: &lt; http:\/\/w3.ufsm.br\/ppgf\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/V%C3%ADtor-Costa-M%C3%A1-f%C3%A9-e-psican%C3%A1lise-existencial-em-Sartre.pdf&gt;. Acesso em: 02 out. 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SARTRE, Jean-Paul. <i>O existencialismo \u00e9 um humanismo<\/i>. Tradu\u00e7\u00e3o de Verg\u00edlio Ferreira. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1978. 191 p. T\u00edtulo original: <i>L\u2019Existentialisme est un Humanisme<\/i>. (Os pensadores).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Henrique Guimar\u00e3es de Moura O homem, tal como concebe o existencialista, se n\u00e3o \u00e9 defin\u00edvel, \u00e9 porque primeiramente n\u00e3o \u00e9 nada. S\u00f3 depois ser\u00e1 alguma coisa e tal como a si pr\u00f3prio se fizer. (Jean-Paul Sartre) 1 Sartre e sua filosofia Desde os prim\u00f3rdios da idade da raz\u00e3o, os questionamentos sobre o ser e &hellip; <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[117,139],"tags":[296,340,342],"class_list":{"0":"entry","1":"post","2":"publish","3":"author-admin","4":"post-2421","6":"format-standard","7":"category-pedro-henrique-guimaraes-de-moura","8":"category-sartre","9":"post_tag-existencialismo","10":"post_tag-homem","11":"post_tag-humanismo"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2421","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2421"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2421\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2421"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2421"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2421"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}