{"id":2433,"date":"2012-11-27T00:39:17","date_gmt":"2012-11-27T03:39:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2433"},"modified":"2012-11-27T00:39:17","modified_gmt":"2012-11-27T03:39:17","slug":"a-arte-como-forma-de-expressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2433","title":{"rendered":"A arte como forma de express\u00e3o da linguagem em Gadamer"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><b>Elder Alves Diniz<\/b><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\"><i>A obra de arte tem, antes, o seu verdadeiro ser em se tornar uma experi\u00eancia que ir\u00e1 formar aquele que a experimenta.<\/i> <i>(Gadamer)<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Neste artigo abordaremos a tem\u00e1tica da arte tentando responder aos seguintes questionamentos: existe alguma forma de comunica\u00e7\u00e3o na obra de arte? A obra de arte transmite o que o autor quis mostrar? Ou ela tem seu sentido pr\u00f3prio? Para tal intento faremos uso do pensamento de Hans-Georg Gadamer.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para se entender a arte em Gadamer, \u00e9 preciso primeiramente entender o sentido de verdade na arte. A verdade n\u00e3o tem no pensamento gadameriano o mesmo sentido no processo filos\u00f3fico, pois ele faz um retorno ao sentido no qual a verdade \u00e9 vista como experi\u00eancia ou hermen\u00eautica.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ele n\u00e3o discute a arte como forma de defini\u00e7\u00e3o do belo ou de conceituar as diferentes formas de arte.\u00a0Ele quer demonstrar simplesmente que a arte \u00e9 uma forma de verdade sobre o mundo e n\u00e3o um estado alterado do sentimento individual. A arte n\u00e3o \u00e9 uma divers\u00e3o inocente ou um deleite, mas sim um ponto crucial de aceso \u00e1s verdades fundamentais sobre o mundo. (LAWN, 2007, p. 117)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Dentre as artes de que Gadamer trata, ele aponta as artes pl\u00e1sticas que permitem uma hermen\u00eautica muito interessante pelo fato de que o quadro tem uma vida pr\u00f3pria, uma vez que ele permite experimentarmos o passado no qual ele foi pintado dando ao seu observador uma interpreta\u00e7\u00e3o diferente do que o pintor quis retratar e que pode esconder verdades a serem reveladas a quem o admira \u201cA arte revela verdades sobre n\u00f3s mesmos que nenhuma pesquisa cient\u00edfica jamais conseguiu\u201d (LAWN, 2007, p. 117).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">No senso comum o quadro \u00e9 visto como simples obra de arte que deve ser apreciada pela sua beleza ou pelo fato de seu pintor ser famoso, n\u00e3o se tendo o cuidado de prestar aten\u00e7\u00e3o ao que a obra diz em suas cores e contornos. Em sua grande parte os observadores n\u00e3o dedicam sua aten\u00e7\u00e3o \u00e0s afeta\u00e7\u00f5es proporcionadas pela obra de arte, pelo fato de estarem mais preocupados em ver a obra do que entender sua linguagem, linguagem esta que expressa uma vida que gira em torno do quadro e que n\u00e3o \u00e9 compreens\u00edvel por aqueles que n\u00e3o percebem a vida existente no quadro e que foi retratada pelo pintor, muitas vezes retratando o cotidiano da vida e remetendo-nos a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O mundo existente dentro da obra de arte \u00e9 um mundo diferente que permite a cada um reconhecer o seu pr\u00f3prio mundo interior naquela tela. Ela fala talvez de um passado que est\u00e1 presente no inconsciente ou mesmo no consciente e que permite aos observadores sentir alegrias ou ang\u00fastias como no quadro o<i> Grito<\/i> de Munch, no qual est\u00e1 expresso o desespero que pode ser interpretado como desespero do ser humano frente \u00e0 realidade que ele enfrenta diariamente. O contexto da obra pode ou n\u00e3o dizer algo, mas certamente ela dir\u00e1 da experi\u00eancia vivida pelo pintor ou de suas esperan\u00e7as futuras.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O pintor, num quadro, pode representar o sofrimento, querer impressionar com pinturas disformes ou mesmo natureza morta e isso dizer algo. Mostra-se na natureza morta a finitude do homem e a deformidade nos contornos lembra que existe uma est\u00e9tica, mas que ela n\u00e3o \u00e9 tudo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O trabalho de arte revela aspectos de um mundo humano e de suas limita\u00e7\u00f5es, tanto quanto n\u00f3s revelamos aspectos do mundo do trabalho de arte (e suas imita\u00e7\u00f5es) em sua totalidade inquietante, pois est\u00e1 constantemente mudando. (LAWN, 2007, p.126)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Existe na obra de arte uma linguagem que frequentemente n\u00e3o \u00e9 notada pelo admirador da obra, que \u00e9 a express\u00e3o da obra em si mesma e na qual est\u00e1 expressa a identidade daquela obra fazendo-a diferente de outra. Mesmo que esta outra obra seja uma reprodu\u00e7\u00e3o id\u00eantica, ela n\u00e3o ser\u00e1 a obra que transmite a sensibilidade do autor.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por isso, ao tentar compreender uma obra de arte o que conseguimos fazer \u00e9 subjetiv\u00e1-la, pois o que apreendemos dela n\u00e3o \u00e9 o que ela expressa em si mesma, mas o que se consegue entender dela.\u00a0 Um exemplo disso est\u00e1 no sorriso da <i>Monalisa <\/i>de Da Vinci, que n\u00e3o revela o pensamento do autor, mas nos permite infinitas interpreta\u00e7\u00f5es. &#8220;Cada uma das obras da arte pl\u00e1stica pode ser \u2018diretamente\u2019 experienciada por si mesma, isto \u00e9, sem que necessite de outra intermedia\u00e7\u00e3o&#8221; (GADAMER, 1997, p. 220).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0Essas interpreta\u00e7\u00f5es \u00e9 o que Gadamer vai chamar de \u201csubjetiva\u00e7\u00e3o\u201d da arte, na qual a experi\u00eancia pessoal de cada observador vai indicar qual a afeta\u00e7\u00e3o que aquela obra ter\u00e1 sobre ele.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando um quadro \u00e9 pintado, o autor coloca na tela os seus sentimentos, suas impress\u00f5es sobre determinado fato da vida ou sobre uma paisagem que de alguma forma o afetou, mas aquele que observa a mesmo quadro pode e certamente ter\u00e1 outra vis\u00e3o que n\u00e3o foi a expressa pelo pintor e isso \u00e9 que faz a obra de arte grandiosa, pois fazendo parte da hist\u00f3ria, permite a cada um dialogar com ela e tentar entender o que a obra de arte quer dizer.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O trabalho de arte exibe a si mesmo, mas como um s\u00edmbolo \u00e9 um ve\u00edculo para tentativas de auto reconhecimento. N\u00f3s procuramos nos entender no trabalho de arte; \u00e9 por isso que arte captura e intriga tanto, atraindo-nos ao seu mundo, por mais remoto e distante que este mundo nos pare\u00e7a inicialmente. (LAWN, 2007, p. 126)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A obra de arte nos permite fazer um jogo no qual se tenta entend\u00ea-la e ela mostra quem somos atrav\u00e9s dos questionamentos que n\u00f3s mesmos levantamos ao observ\u00e1-la. Este \u00e9 um jogo hermen\u00eautico no qual a experi\u00eancia realizada apontar\u00e1 o resultado, pois a obra de arte deve ter como objetivo causar mudan\u00e7as nos seus observadores.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Ademais, \u00e9 poss\u00edvel pensar que o homem, ao olhar a obra de arte, se percebe nela enquanto \u00e9 tocado pelo que ela expressa. Mas deve-se ter em mente que a obra tem sua express\u00e3o pr\u00f3pria e essa permite v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es, as quais n\u00e3o a mudam \u201cO sujeito da experi\u00eancia da arte, o que fica e persevera, n\u00e3o \u00e9 a subjetividade de quem a experimenta, mas a pr\u00f3pria obra de arte.\u201d (GADAMER, 1997, p. 175)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Que jogo \u00e9 esse da arte? O jogo da arte \u00e9 aquele no qual o pintor expressa sua condi\u00e7\u00e3o humana e o observador tenta, depois de capt\u00e1-la na obra, entender o que foi expresso. Por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. O jogo \u00e9 a pr\u00f3pria obra de arte em seu modo de ser, que foge de toda subjetividade provocada pela liberdade de interpreta\u00e7\u00e3o. Uma mesma obra de arte pode ser vista por v\u00e1rias pessoas e haver diferentes intepreta\u00e7\u00f5es, ou pode-se ver a mesma obra diversas vezes sempre encontrando novos pontos a serem interpretados.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O significado dos trabalhos de arte \u00e9 aquilo que \u00e9 revelado e exposto na oscila\u00e7\u00e3o entre o trabalho de arte e o interprete. O significado do trabalho de arte nunca \u00e9 final, assim como um jogo nunca atinge sua verdadeira finalidade; o jogo pode sempre ser jogado novamente e os jogadores sempre ser\u00e3o atra\u00eddos pelos seus horizontes (LAWN, 2007, p. 123)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Gadamer usa o termo jogo para falar do movimento da obra de arte que se revela a quem a observa para que seja interpretada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Existe no pensamento gadameriano a quest\u00e3o da linguagem, a qual pode ser vista na conversa como forma de comunica\u00e7\u00e3o ou no di\u00e1logo que acontece entre interlocutores sobre um determinado assunto. Mas Gadamer v\u00ea tamb\u00e9m outras possibilidades de linguagem, como \u00e9 o caso da obra de arte, a qual se comunica sem dizer palavra alguma e exige de seu observador uma abstra\u00e7\u00e3o, pois ela ultrapassa o que seu pintor quis representar \u201cO significado da pintura nunca \u00e9 totalmente revelado, pois \u00e9 sempre o mundo da pintura enquanto se engaja em di\u00e1logo com o mundo do observador.\u201d (LAWN, 2007, p. 124)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">O s\u00edmbolo na cultura popular cont\u00e9m uma forma de linguagem assim como o quadro, mas ele n\u00e3o \u00e9 obra de arte, pois existe uma diferen\u00e7a entre a obra de arte e o s\u00edmbolo. A diferen\u00e7a est\u00e1 na representa\u00e7\u00e3o, conforme nos diz Lawn sobre o pensamento de Gadamer: \u201co trabalho de arte, apesar de simb\u00f3lico, n\u00e3o representa outra coisa, ou ocupa a posi\u00e7\u00e3o de um significado oculto que precisa ser esclarecido ou explicado\u201d (LAWN, 2007, p. 126). Gadamer fala do cuidado que se deve ter para que a obra de arte n\u00e3o seja transformada num simples s\u00edmbolo, mas ele fala desse cuidado no sentido de que o s\u00edmbolo pode ter um c\u00f3digo oculto que precisa ser decifrado para ser compreendido. A arte n\u00e3o \u00e9 somente s\u00edmbolo, mas pode ser simb\u00f3lica como a arte sacra. Ela n\u00e3o se reduz ao s\u00edmbolo, mas vai al\u00e9m dele. O objetivo da arte sacra enquanto s\u00edmbolo, exemplo que utilizamos, \u00e9 aproximar Deus do homem para que o homem possa fazer uma experi\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Portanto, como vimos, dentro da obra de arte existe comunica\u00e7\u00e3o e a interpreta\u00e7\u00e3o dessa comunica\u00e7\u00e3o depende do observador, apesar de se ter a consci\u00eancia de que a comunica\u00e7\u00e3o feita pelo autor n\u00e3o ser\u00e1 a mesma interpretada por ele. A obra transmite uma vis\u00e3o que o autor tem daquilo que \u00e9 retratado, \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o dele sobre o que est\u00e1 sendo pintado, mas ela tem um sentido pr\u00f3prio por ter vida, girando em torno dela, permitindo v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es, pois cada observador ser\u00e1 afetado pela obra de arte de uma forma e com uma intensidade diferente do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">GADAMER, Hans-Georg. <i>Verdade e m\u00e9todo:<\/i> Tra\u00e7os fundamentais de uma hermen\u00eautica filos\u00f3fica. Tradu\u00e7\u00e3o Fl\u00e1vio Paulo Meurer.\u00a0 2. ed. Petr\u00f3polis: Vozes, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">LAWN, Chris. <i>Compreender Gadamer<\/i>. Tradu\u00e7\u00e3o H\u00e9lio Magri Filho. Petr\u00f3polis: Vozes, 2007. (Compreender).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elder Alves Diniz A obra de arte tem, antes, o seu verdadeiro ser em se tornar uma experi\u00eancia que ir\u00e1 formar aquele que a experimenta. (Gadamer) Neste artigo abordaremos a tem\u00e1tica da arte tentando responder aos seguintes questionamentos: existe alguma forma de comunica\u00e7\u00e3o na obra de arte? 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