{"id":2436,"date":"2012-11-27T00:42:09","date_gmt":"2012-11-27T03:42:09","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2436"},"modified":"2012-11-27T00:42:09","modified_gmt":"2012-11-27T03:42:09","slug":"linguagem-uma-possibilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2436","title":{"rendered":"Linguagem: uma possibilidade de interpreta\u00e7\u00e3o do mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><b>Lucas Henrique P. Santos<\/b><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\"><i>\u201cA solu\u00e7\u00e3o do problema da vida \u00e9 vista no desaparecimento do problema.\u201d (<\/i><i>Wittgenstein)<\/i><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O tema da linguagem se mostrou muito presente nos pensamentos dos grandes fil\u00f3sofos do mundo ocidental. Deve-se essa import\u00e2ncia pelo fato de a pr\u00f3pria filosofia se servir quase que exclusivamente desse artif\u00edcio: a linguagem. Nessa perspectiva iremos analisar o pensamento de um fil\u00f3sofo que marcou a reflex\u00e3o acerca desta tem\u00e1tica e que traz em seu pensamento grandes contribui\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 para sua \u00e9poca, mas tamb\u00e9m para o mundo atual. A filosofia de Wittgenstein (Viena, 1889-1951) apresenta-se em duas fases, ou seja, suas obras podem ser divididas em dois momentos bem distintos. Na primeira fase \u00e9 apresentado um Wittgenstein que pensa a linguagem puramente num aspecto l\u00f3gico e matem\u00e1tico, exclusivamente em sua obra <i>Tractatus Logico-Philosophicus<\/i>. A segunda fase abarca todas as suas obras posteriores, dentre elas as <i>Investiga\u00e7\u00f5es Filos\u00f3ficas,<\/i> que ser\u00e1 a obra que utilizaremos para fazer a leitura desejada de nosso trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A tentativa de Wittgenstein em sua obra \u00e9 desmistificar uma compreens\u00e3o de linguagem que j\u00e1 h\u00e1 muitos anos vigorava: que a palavra tinha a fun\u00e7\u00e3o de substituir o objeto. Ele come\u00e7a criticando a posi\u00e7\u00e3o de Santo Agostinho que dizia que, ao conhecer um objeto e relacionando-o ao seu nome passa-se por um processo de conhecimento, e isto significa que desde a inf\u00e2ncia o sujeito tem a faculdade de conhecer, mesmo que n\u00e3o tenha a capacidade de expressar seu pensamento.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">[&#8230;] se os adultos nomeassem algum objeto e, ao faz\u00ea-lo, se voltasse para ele, eu percebia isto e compreendia que o objeto fora designado pelos sons que eles pronunciavam, pois eles queriam indic\u00e1-lo (AGOSTINHO <i>apud <\/i>WITTGENSTEIN, 1991, p. 9).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">A linguagem tem a mera fun\u00e7\u00e3o de denominar objetos, de substitu\u00ed-los ou represent\u00e1-los dando-os nomes. Sendo assim, cada palavra teria sua significa\u00e7\u00e3o. Para o fil\u00f3sofo vienense essa hip\u00f3tese seria um empobrecimento que conduz a uma esp\u00e9cie de linguagem primitiva, em que as pessoas agregam valores e\/ou significados aos termos, possibilitando a ocorr\u00eancia de todos os tipos de di\u00e1logos, neg\u00f3cios, ou seja, contemplaria somente um tipo de comunica\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o toda a gama complexa que \u00e9 a linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A linguagem apresenta-se em constante muta\u00e7\u00e3o, pois est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o juntamente com o homem que a utiliza. Por isso temos diferentes esp\u00e9cies de palavras e, \u00e0s vezes, criamos distin\u00e7\u00f5es entre palavras da linguagem e palavras que talvez n\u00e3o haja significa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. Para evitar um tremendo caos em nossas comunica\u00e7\u00f5es criamos uma s\u00e9rie de conven\u00e7\u00f5es em que denominamos os objetos. Esse movimento para Wittgenstein \u00e9 como \u201ccolocar uma etiqueta em uma coisa\u201d. Isso acarretaria em um princ\u00edpio ativo de determina\u00e7\u00f5es, conduzindo o sujeito a pensar que controla ou domina todas as coisas. Podemos at\u00e9 fazer uma analogia \u00e0s Sagradas Escrituras, em que o homem tendo o dever de nomear as coisas tem o poder de domin\u00e1-las.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nossa linguagem pode ser considerada como uma velha cidade: uma rede de ruelas e pra\u00e7as, casas novas e velhas, e casas constru\u00eddas em diferentes \u00e9pocas; e isto tudo cercado por uma quantidade de novos sub\u00farbios com ruas retas e regulares e com casas uniformes (WITTGENSTEIN, 1991, p. 15).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Wittgenstein o expressar se d\u00e1 de muitas maneiras, e por isso a linguagem torna-se uma \u201cforma de vida\u201d. Todo o conjunto que forma o ser humano \u00e9 uma linguagem. Toda a forma de expressar a pr\u00f3pria vida \u00e9 uma linguagem. E por isso mesmo, quando a pessoa n\u00e3o diz o que queria dizer completamente (<i>meinen<\/i>), n\u00e3o deixa de ser uma express\u00e3o carregada de sentido. Um simples termo carrega em si a potencialidade de toda uma frase. Para tal, devem ser observadas diferentes possibilidades como tom de voz, express\u00e3o facial dentre outras formas de express\u00e3o, tanto corporais como sonoras.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Assim abre-se espa\u00e7o para o que nosso fil\u00f3sofo chama de jogos de linguagem, que mais uma vez remete para uma parte de uma atividade, ou de uma forma de vida, e que ele faz quest\u00e3o de demonstrar como existem in\u00fameras esp\u00e9cies distintas de emprego de signos, que seriam as palavras ou frases, e que acarretam uma constante mudan\u00e7a na estrutura lingu\u00edstica, pois ocorrem grandes e dr\u00e1sticas modifica\u00e7\u00f5es em suas interpreta\u00e7\u00f5es. Wittgenstein mostra a multiplicidade dos jogos de linguagem atrav\u00e9s de alguns exemplos que deixam evidentes as dificuldades que existem tanto em formular, como em receber algum tipo de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Comandar, e agir segundo os comandos- descrever um objeto conforme a apar\u00eancia ou conforme medidas- produzir um objeto segundo uma descri\u00e7\u00e3o- relatar um acontecimento- conjeturar sobre um acontecimento- expor uma hip\u00f3tese e prova-la- inventar uma hist\u00f3ria; ler etc. (WITTGENSTEIN, 1991, p. 19).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Denominar as coisas para Wittgenstein n\u00e3o \u00e9 suficiente diante da grandeza e da riqueza que circunda nossas formas de express\u00f5es. Denominar e falar sobre as coisas em um discurso n\u00e3o s\u00e3o o bastante para a filosofia, pois o que a filosofia almeja \u00e9 falar de coisas que, na vis\u00e3o do primeiro Wittgenstein, deve calar-se diante delas. E por isso as palavras n\u00e3o podem ficar simplesmente como denomina\u00e7\u00f5es de objetos, achando ter atingido o \u00e1pice de todas as investiga\u00e7\u00f5es que poderiam existir sobre tal tema.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Mesmo havendo uma rela\u00e7\u00e3o entre o nome e o denominado, pois ao ouvirmos um nome de algo que \u00e9 evocado nos remetemos logo a esse algo fazendo assim as devidas rela\u00e7\u00f5es, tudo isso n\u00e3o passaria de uma aproxima\u00e7\u00e3o inexata da realidade. Essa nova maneira de valorizar a linguagem \u00e9 vista como uma teoria pragm\u00e1tica, pois encontra na linguagem uma objetividade para com os objetos, sendo necess\u00e1rio algo \u201creal\u201d e \u201cimanente\u201d, para que possam ser expresso e\/ou experimentado. \u201cApenas numa linguagem posso querer dizer algo com algo. Isto mostra claramente que a gram\u00e1tica de \u2018querer dizer\u2019 n\u00e3o \u00e9 semelhante \u00e0 da express\u00e3o \u2018representar-se algo\u2019 e coisas do g\u00eanero\u201d. (WITTGENSTEIN, 1991, p. 26).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">S\u00f3 se pode compreender uma palavra, uma express\u00e3o, uma frase, fazendo-se refer\u00eancia ao papel por ele desempenhado naquilo que Wittgenstein chamou de jogos de linguagem e que se apresenta como um tipo de fala correspondente a uma atividade simples, bem definida (HUISMAN, 2002, p. 322).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Muitas vezes, por ignor\u00e2ncia, pode ocorrer de se confundir a significa\u00e7\u00e3o com o portador do nome, ou seja, o nome com o denominado. Para clarificar, Wittgenstein (1991) d\u00e1 o seguinte exemplo: se um senhor qualquer chamado N morre, n\u00e3o diremos que a significa\u00e7\u00e3o do nome morre mas sim o portador do nome, pois se o nome deixasse de existir n\u00e3o chegar\u00edamos nem a anunciar a morte do senhor N. E assim, a significa\u00e7\u00e3o de um termo \u00e9 seu uso na linguagem, apontando para o seu portador e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Isto permite aos jogos de linguagem serem v\u00e1lidos em si mesmo, n\u00e3o necessitando de nada que os represente, e tendo valor independente de qualquer figura\u00e7\u00e3o externa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A partir do pensamento do segundo Wittgenstein a linguagem adquire esse valor pragm\u00e1tico, pois n\u00e3o se \u201cindaga sobre os significados das palavras, mas, sobre suas fun\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas\u201d. Esse novo olhar sobre a linguagem possibilita \u00e0 filosofia a sempre atualizar suas investiga\u00e7\u00f5es sobre o \u2018ser\u2019 das coisas, mas sem jamais desejar alcan\u00e7ar uma reposta definitiva e absoluta, portanto, \u201c uma concep\u00e7\u00e3o da filosofia como rearranjo jamais conclu\u00eddo do saber, como abalo perp\u00e9tuo de nossas certezas e de nossos dogmas\u201d. (HUISMAN, 2002, p. 323).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">INVESTIGA\u00c7\u00d5ES FILOS\u00d3FICAS. in: HUISMAN, Denis. <i>Dicion\u00e1rio de obras filos\u00f3ficas<\/i>. Tradu\u00e7\u00e3o de Ivone Castilho Benedetti. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2002. P. 321. T\u00edtulo original: <i>Ditionnaire des mille oeuvres cl\u00e9s de la Philosophie<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">WITTGENSTEIN, Ludwig. <i>Investiga\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas<\/i>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Carlos Bruni. S\u00e3o Paulo: Nova Cultural, 1991. 222 p. (Os Pensadores). T\u00edtulo original: <i>Philosophische Untersuchungen.\u00a0<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucas Henrique P. 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