{"id":2442,"date":"2012-11-28T14:57:35","date_gmt":"2012-11-28T17:57:35","guid":{"rendered":"http:\/\/pensamentoextemporaneo.wordpress.com\/?p=2442"},"modified":"2012-11-28T14:57:35","modified_gmt":"2012-11-28T17:57:35","slug":"industria-cultural-mercantilizacao-e-empobrecimento-do-ser-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pensamentoextemporaneo.com.br\/?p=2442","title":{"rendered":"Ind\u00fastria cultural: mercantiliza\u00e7\u00e3o e empobrecimento do ser humano"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\"><b>Fabiano Alves de Assis<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Adorno, dentro do esp\u00edrito da Escola de Frankfurt, faz uma cr\u00edtica \u00e0 ind\u00fastria cultural de sua \u00e9poca alegando que ela leva a uma mercantiliza\u00e7\u00e3o e empobrecimento da cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Parece ter havido uma capitaliza\u00e7\u00e3o da cultura. O homem, cansado do trabalho, j\u00e1 n\u00e3o sabe dispor de seu tempo livre recorrendo \u00e0 ind\u00fastria cultural a fim de obter o devido descanso e se entreter pelos meios oferecidos pela ind\u00fastria cultural. \u201c&#8230; o denominador \u2018 cultura\u2019 j\u00e1 cont\u00e9m, virtualmente, a tomada de posse, o enquadramento, a classifica\u00e7\u00e3o que a cultura assume no reino da administra\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a \u2018administra\u00e7\u00e3o\u2019 industrializada, radical e consequente, \u00e9 plenamente adequada a esse conceito de cultura&#8230;\u201d (ADORNO, 2002, p. 22).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Aqui se estabelece o cerne de nossa pesquisa: observar o que foi feito da cultura atrav\u00e9s da ind\u00fastria cultural. E \u00e9 nesta perspectiva que desenvolveremos a nossa pesquisa, de modo anal\u00edtico cr\u00edtico e no intuito de desenvolver o enfoque da quest\u00e3o supracitada.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para se compreender o que quer dizer o autor sobre ind\u00fastria cultural cabe a n\u00f3s antes delimitar o que significa este conceito. Segundo Marcondes e Japiassu ( 2006, p. 51) , cultura, a cultura pode ser definida como tesouro coletivo de saberes possu\u00eddo pela humanidade ou por certas civiliza\u00e7\u00f5es: a cultura hel\u00eanica, a cultura ocidental, etc. Compreendemos que cultura diz respeito a saberes possu\u00eddos pela humanidade, o que se pode deduzir tamb\u00e9m pelo conjunto de manifesta\u00e7\u00f5es adquiridas por uma sociedade. Logo, a cultura de um povo deveria ser a manifesta\u00e7\u00e3o daquilo que determinado povo vive e gosta. Manifesta\u00e7\u00e3o daquilo que remete \u00e0 suas ra\u00edzes, \u00e0 sua origem.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Adorno compreende cultura como tomada de posse, como enquadramento, como classifica\u00e7\u00e3o que a cultura assume no campo da administra\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o percebemos que Adorno observa a cultura como administra\u00e7\u00e3o, ou seja, havia uma industrializa\u00e7\u00e3o da cultura.\u00a0 S\u00f3 a \u201cadministra\u00e7\u00e3o\u201d industrializada, radical e consequente, \u00e9 plenamente adequada a esse conceito de cultura. Ou seja, a rela\u00e7\u00e3o que se cultivava entre as pessoas estava sendo industrializada. Os padr\u00f5es de comportamento, das cren\u00e7as, das institui\u00e7\u00f5es, das manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e intelectuais transmitidos coletivamente e cultivados por uma sociedade estava sendo comercializadas. Isso que Adorno evidencia em sua teoria da ind\u00fastria cultural juntamente com Horkheimer.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Para Adorno a ind\u00fastria cultural faz coincidir cultura com entretenimento, de modo que o lazer passa a ser uma oferta da ind\u00fastria cultural, fazendo da cultura um mero produto que pode ser oferecido, sobretudo pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Isso nos leva a questionar: como t\u00eam sido as manifesta\u00e7\u00f5es culturais de nossa \u00e9poca?\u00a0 Quais s\u00e3o os crit\u00e9rios utilizados para sele\u00e7\u00e3o das formas de cultura de nosso povo? A cr\u00edtica de Adorno vai de encontro com essa dura realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0Hoje a cultura virou produto do capital. Uma massa de trabalhadores alterna sua dura vida em trabalho e lazer. Mas o lazer n\u00e3o \u00e9 determinado pelo trabalhador, \u00e9 antes definido pelos detentores da ind\u00fastria cultural, sendo que o meio de veicula\u00e7\u00e3o da cultura hoje est\u00e1 ligado \u00e0 m\u00eddia. Assim ela acaba por se tornar uma m\u00e1quina que vem a violentar a subjetividade do ser humano sem acrescentar algo de bom para a vida do espectador. \u00c9 o que nos diz Adorno: \u201cA ind\u00fastria cultural se desenvolveu com a primazia dos efeitos, da performance tang\u00edvel, do particular t\u00e9cnico sobre a obra, que outrora trazia a ideia e com essa foi liquidada&#8230;\u201d ( ADORNO, 2002, p.14).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A cultura se torna mero produto pensado e produzido, pronto para ser consumido pelo espectador. Adquirindo, a m\u00eddia, poder por si mesmo. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o membro da sociedade que vai definir os meios de entretenimento e cultural para si. A ind\u00fastria cultural j\u00e1 definiu e as pessoas \u00e9 que se adequam aos meios oferecidos. A cultura se torna mercadoria e uma mercadoria aut\u00f4noma, valorada em si mesma e que se imp\u00f5e sobre os gostos pessoais de cada pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">E o problema, segundo Adorno \u00e9: a m\u00eddia n\u00e3o se preocupa em produzir programas culturais de qualidade. Ela est\u00e1 preocupada \u00e9 em manter fixa a aten\u00e7\u00e3o do expectador e que se torna um consumidor de seus produtos. Com a aus\u00eancia de uma produ\u00e7\u00e3o de qualidade, v\u00eam as consequ\u00eancias de uma produ\u00e7\u00e3o que pode iludir o espectador. O espectador j\u00e1 n\u00e3o sabe se o que se v\u00ea nas telas de cinema e na televis\u00e3o \u00e9 um reflexo de sua vida interior ou uma mera proje\u00e7\u00e3o do que poderia ser a vida. Ou seja, o espectador se perde naquilo que assiste.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00c9 o que nos diz Adorno:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">O mundo todo \u00e9 for\u00e7ado a passar pelo crivo da ind\u00fastria cultural. A velha experi\u00eancia do espectador cinematogr\u00e1fico, para quem a rua l\u00e1 de fora parece a continua\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo que acabou de ver \u2013 pois este quer precisamente reproduzir de modo exato o mundo percebido cotidianamente \u2013 tornou-se o crit\u00e9rio da produ\u00e7\u00e3o. (ADORNO, 2002, p. 16).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os recursos utilizados pela m\u00eddia para atrair a aten\u00e7\u00e3o dos espectadores acabam por neutralizar seus sentidos, de modo a poder tirar a capacidade de racioc\u00ednio dos mesmos. Ao mesmo tempo em que se exige deles uma capacidade de agilidade para acompanhar o desfechamento das quest\u00f5es propostas pela programa\u00e7\u00e3o, os jogos de cena acabam por \u201cparalis\u00e1-los\u201d frente \u00e0 realidade em troca da aten\u00e7\u00e3o prestada \u00e0 m\u00eddia. \u00c9 o que nos diz Adorno:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Os pr\u00f3prios produtos, desde o mais t\u00edpico, o filme sonoro, paralisam aquelas capacidades pela sua pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o objetiva. Eles s\u00e3o feitos de modo que a sua apreens\u00e3o adequada exige, por um lado, rapidez de percep\u00e7\u00e3o, capacidade de observa\u00e7\u00e3o e compet\u00eancia espec\u00edfica, e por outro \u00e9 feita de modo a vetar, de fato, a atividade mental do espectador, se ele n\u00e3o quiser perder os fatos que rapidamente se desenrolam \u00e0 sua frente&#8230; (ADORNO, 2002, p. 16).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Por\u00e9m pode ser positivo o fato de a m\u00eddia exigir dos espectadores muita aten\u00e7\u00e3o para acompanhar os efeitos t\u00e9cnicos bem produzidos, por levar a uma agilidade mental diante das telas. Mas isso pode levar tamb\u00e9m a um empobrecimento do est\u00e1gio mental em ocupar-se somente com as situa\u00e7\u00f5es provocadas pela m\u00eddia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u00a0Segundo Reale e Anriseri (1991, p. 845), a ind\u00fastria cultural de que fala Adorno \u00e9 um instrumento do \u201csistema\u201d. Composta pela tecnologia atual, e uma esp\u00e9cie de com\u00e9rcio da cultura em que at\u00e9 mesmo valores s\u00e3o industrializados. Inspira comportamento, influenciando na vida das pessoas.\u00a0 \u201cPara alcan\u00e7ar a sua funcionalidade, o \u2018sistema\u2019, que \u00e9 a sociedade tecnol\u00f3gica contempor\u00e2nea, entre os seus principais instrumentos, p\u00f4s em funcionamento poderosa m\u00e1quina: a ind\u00fastria cultural&#8230;\u201d (REALE; ANTISSERI, 1991 p. 845).<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A ind\u00fastria cultural n\u00e3o abrange uma ideologia, porque ela pr\u00f3pria \u00e9 a ideologia. Ideologia de que se deve aceitar tudo passivamente e que \u00e9 o espectador que deve se aderir \u00e0 proposta da ind\u00fastria cultural. O outro para Adorno \u00e9 o sistema, que articula tanto enquadrando os destinat\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Adorno diz que a ind\u00fastria cultural tem uma postura que deve estar sempre em movimento e que acr\u00e9scimos \u00e0 cultura pode ser perigoso. Reduz a express\u00e3o cultural tamb\u00e9m a uma mesmice enquadrando tudo em um padr\u00e3o. Com isso percebemos a profundidade do pensamento moderno do fil\u00f3sofo, e que casa perfeitamente com a contemporaneidade, o da mercantiliza\u00e7\u00e3o da cultura e do empobrecimento do ser humano diante da ind\u00fastria cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Se dermos um giro pela sociedade hodierna, observaremos milhares de pessoas assistindo \u00e0 m\u00eddia sem se dar conta do objetivo do programa que est\u00e1 assistindo. Uma programa\u00e7\u00e3o quer no r\u00e1dio, quer na televis\u00e3o, quer na internet que \u00e0s vezes n\u00e3o coincide com as reais necessidades ou gosto do espectador e ele n\u00e3o se sente motivado a fazer algo para melhorar a programa\u00e7\u00e3o. Vemos a perda da capacidade do espectador de raciocinar, de dialogar, de exigir.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Observamos que a cultura ganhou valor comercial. S\u00f3 \u00e9 transmitido aquilo que d\u00e1 dinheiro, que d\u00e1 retorno financeiro \u00e0s empresas gestoras dos programas oferecidos.\u00a0 E \u00e9 neste sentido que vai fundo a cr\u00edtica de Adorno, que a ind\u00fastria cultural tirou o foco primeiro da cultura: ser conjunto das manifesta\u00e7\u00f5es culturais de uma civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">A cultura que deveria ser manifesta\u00e7\u00e3o genu\u00edna de um povo, se torna cada vez mais produto de com\u00e9rcio e definida por pessoas, das quais sequer tomamos conhecimento. N\u00e3o h\u00e1 um crit\u00e9rio para se definir o que ser\u00e1 transmitido pela m\u00eddia, sendo que esta se tornou o principal meio de entretenimento e propaga\u00e7\u00e3o da cultura entre os povos. O que tem levado as pessoas a um empobrecimento cultural, fruto da mercantiliza\u00e7\u00e3o da cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Conforme conclui Silva (2002):<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">Fica claro, portanto a grande inten\u00e7\u00e3o da <i>Ind\u00fastria Cultural<\/i>: obscurecer a percep\u00e7\u00e3o de todas as pessoas, principalmente, daqueles que s\u00e3o formadores de opini\u00e3o. Ela \u00e9 a pr\u00f3pria ideologia.\u00a0 Os valores passam a ser regidos por ela. At\u00e9 mesmo a felicidade do individuo \u00e9 influenciada e condicionada por essa cultura.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">ADORNO, Theodor W. <i>Ind\u00fastria cultural e sociedade<\/i>. Sele\u00e7\u00e3o de textos Jorge Mattos Brito de Almeida, traduzido por Julia Elisabeth Levy et al. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">MARCONDES, Danilo; JAPIASSU, Hilton. <i>Dicion\u00e1rio B\u00e1sico de Filosofia<\/i>. 4. ed. atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <i>Hist\u00f3ria da Filosofia:<\/i> Do Romantismo at\u00e9 nossos dias. 4 ed. S\u00e3o Paulo : Paulus, 1991. v. 3.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">SILVA, Daniel R. Adorno e a Ind\u00fastria Cultural, <i>UEM,<\/i> Maring\u00e1, n. 4, maio 2002.Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.urutagua.uem.br\/04fil_silva.htm\">http:\/\/www.urutagua.uem.br\/\/04fil_silva.htm<\/a>&gt;. Acesso em: 20 nov. 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabiano Alves de Assis Adorno, dentro do esp\u00edrito da Escola de Frankfurt, faz uma cr\u00edtica \u00e0 ind\u00fastria cultural de sua \u00e9poca alegando que ela leva a uma mercantiliza\u00e7\u00e3o e empobrecimento da cultura. Parece ter havido uma capitaliza\u00e7\u00e3o da cultura. 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